Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A tarefa intelectual, a moral e a política 

Por Gilson Caroni Filho em 16/09/2008 na edição 503

Prezados formandos. Em primeiro lugar, gostaria de registrar a imensa satisfação por ter sido escolhido para ser o paraninfo dessa turma. Afinal, nos conhecemos no início do Curso, quando, para a maioria de vocês, o significado real do que vem a ser Comunicação Social era algo ainda vago, sem contornos nítidos. E espero que assim continue, pois não há como definir o que deve ser reinventado diariamente.


Reencontrá-los, nesta noite de 11 de setembro de 2008, tem um significado importante demais para não ser destacado. Se há quatro anos,quando a vida acadêmica apenas se anunciava, lhes dei boas-vindas, com aulas de sociologia no primeiro período, hoje, como padrinho, me despeço de vocês com a certeza de que todos sabem que estamos envolvidos em uma tríplice tarefa.


A tarefa intelectual de analisar com sobriedade e criticamente a realidade que nos cerca. A tarefa moral de decidir a quais valores queremos dar prioridade. E a tarefa política de descobrir como podermos contribuir para que a Comunicação Social deixe de ser um instrumento de controle das elites e se transforme em elemento central na promoção da cidadania.


Consciência ética


Futuros jornalistas, publicitários e relações públicas: a despeito das singularidades de cada habilitação, há um fazer ético comum a todos vocês. Um patrimônio tão ou mais importante quanto os saberes específicos de cada área.


Os futuros jornalistas devem fazer da insatisfação permanente sua base de ação. O aprimoramento constante exigirá busca de novas fronteiras, um aprendizado que recomeçará a cada dia. Permanente deve ser a certeza de que a informação nunca deve se submeter a outro imperativo que não seja o de dar ao leitor, ouvinte, telespectador ou internauta uma visão crítica dos acontecimentos.


Recusem, na medida do impossível, qualquer prática jornalística que solicite desvios éticos, distorcendo a realidade e caluniando quem considera adversário político. Quando a imprensa abre mão de ser uma instância de afirmação republicana – e é preocupante a freqüência com que isso vem ocorrendo diariamente – não comete apenas um grande desvio: deixa mesmo de ser imprensa para se tornar departamento de negócios diversos.


Assim, como forma de resistência, valorizem a apuração; não misturem opinião com informação, rejeitem edições que não têm outro fim senão o de preparar julgamentos sumários de fatos e pessoas.


Lembrem-se do que disse Washington Novaes: ‘jornalismo não é profissão a ser exercida em nome próprio’, mas por delegação da sociedade, a quem legitimamente pertence a informação.


É dessa consciência ética, e não dos interesses dos que pagam e mandam, que nasce a credibilidade profissional. Não é um jogo fácil, mas vale muito a pena ser jogado. E, tenho certeza, que tal disposição não faltará a vocês.


Como mudar


Aos profissionais de publicidade e propaganda, enfatizo a importância de pensar o consumo não apenas como resultado de estratégias de venda, de técnicas persuasivas, mas como lugar onde devem ser comunicados novos modelos de sociabilidade. 


O país mudou e, com isso, repensar a publicidade também é tarefa inadiável. Sejam diretores de arte ou redatores de uma ordem social que, nos últimos cincos anos, tem se tornado cada vez mais inclusiva e menos injusta.


Parafraseando uma expressão cara ao Cinema Novo, a nova publicidade deve travar esse desafio com ‘várias idéias na cabeça e um código de ética na mão’.


Por fim, peço aos futuros Relações Públicas que, ao pensar estratégias organizacionais de empresas, façam-no no marco dos interesses de uma sociedade que deve ter por objetivo ampliar seu processo democrático. Se a imagem ou identidade de uma organização não estiver subordinada a esse fim, tenham certeza que há um trabalho a ser refeito. E o mais rápido possível.


Meus caros afilhados, Bertold Brecht, poeta, romancista e dramaturgo alemão, dizia que ‘apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la’. Não espero menos de vocês. Aprendam na luta e façam avançar a democracia. É para isso que deve servir o curso que vocês concluíram.


Muita sorte nessa luta, e muito obrigado.

******

Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro

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