Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Anotações no/do rádio: estudos contemporâneos

Por Luciano Victor Barros Maluly e Wilton Garcia em 14/04/2015 na edição 846

Este texto relata a experiência desenvolvida na Rádio USP 93,7 FM, emissora educativa ligada à Universidade de São Paulo, em 2014. A proposta foi produzir um programa radiofônico acerca dos chamados estudos contemporâneos, com o objetivo de indicar ao público determinadas possibilidades de elaboração do pensamento atual, como produção do conhecimento da comunidade acadêmica.

Pensar um canal educomunicativo para a divulgação científica foi o principal resultado alcançado pela experiência, cuja peça sonora serve como referência para estudantes, docentes, pesquisadores e profissionais diante da multiplicação do saber.

Evidências

O que e como as pessoas pensam são indagações dos comunicadores quando se deparam com diversos fatos do cotidiano, sendo que várias dessas contribuições estão vinculadas ou mesmo restritas ao universo acadêmico. O acesso a esse conhecimento é um desafio aos comunicadores. A aventura se faz pela combinatória de se expor, publicamente, um volume enorme de informações para que a mensagem possa abstrair o deslocamento necessário à atenção. Nesse aspecto, o rádio possui características, como a do baixo custo, que auxiliam os intelectuais nessa possível aproximação com o público (ORTRIWANO, 1985, p. 78-81).

Foi assim que o rádio permitiu aos pensadores (professores e/ou pesquisadores) revelarem trabalhos científicos e filosóficos, antes restritos aos letrados por meio de artigos e ensaios. Um trabalho árduo e difícil aos comunicadores que buscam formas de encontrar uma linguagem facilitadora à compreensão, por exemplo, de termos técnicos e específicos.

A divulgação científica já integra o cronograma das pesquisas, sendo um fator fundamental para o resultado do trabalho. Por isso, os pesquisadores têm como obrigação, a produção intelectual e, para alguns, artística. Mas, como esse trabalho pode chegar, de fato, ao público?

Uma saída para este impasse é a produção, sendo possível ao pesquisador utilizar os meios de comunicação como instrumento interativo. O rádio é um meio tradicional e já conhecido no processo de educomunicação. Nessa perspectiva, Meditsch e Gobbi Betti (2008) destacam o pensamento de Mário Kaplún (1994), um dos pioneiros no processo de democratização dos meios de comunicação, em especial na América Latina.

O ideal de Mario Kaplún continua a influenciar diretamente os comunicadores e os educadores populares (PINTOS, 2001), mas foram as propostas de Bertolt Brecht (2005), com a sua Teoria do Rádio e, em particular à divulgação científica, de Walter Benjamin (1986), que o processo de radioeducomunicação começa a conquistar adeptos.

O texto “A Tomada do Rádio e da Bastilha por Walter Benjamin” foi publicado na Revista Comunicações e Artes, em novembro de 1989, pelo professor da Escola de Comunicações e Artes, Celso José Loge. O resumo do ensaio é uma síntese do trabalho radiofônico do pensador alemão que, segundo o autor, foi convidado pelo diretor da Rádio Frankfurt/Main, Ernest Scholem, para fazer palestras radiofônicas (remuneradas) a respeito de livros, questões culturais.

O professor da ECA/USP cita o texto “Dois tipos de popularidade: observações sobre a radiopeça” (1986) para contextualizar o pensamento de Walter Benjamin acerca do rádio. Segundo Loge (1989, p. 18), em relação à popularização do estilo tradicional que omitia os pensamentos mais difíceis do conhecimento científico consolidado e experimentado, como o que fazia o livro didático, Benjamin coloca o rádio enquanto veículo de popularização abrangente e intenso.

Celso José Loge revela ainda que, na peça radiofônica Tomada da Bastilha, Benjamin tenta uma experimentação acerca da linguagem, a arte de narrar, a recrutar histórias antigas para evocar o passado, entender o presente e sonhar com o futuro (LOGE, 1989, p. 19). Como base na perspectiva da análise de Loge sobre o trabalho de Walter Benjamin é que se procurou construir um programa de rádio com enfoque educativo-cultural, respeitando a linha editorial da Rádio USP FM 93,7 ˂www.radio.usp.br˃.

Esta premissa é a base deste artigo que propõe estrategicamente uma reflexão crítico-conceitual acerca da produção intelectual em rádio, tendo como o objeto um programa cujo escopo seria de levar ao público o pensamento de um pesquisador brasileiro sobre estudos contemporâneos. Utilizou-se de recursos usuais, como a entrevista, a leitura de trechos de obras impressas (como trechos de livros) e músicas. A técnica escolhida pode ser diferente, mas a intenção é a mesma do pensador alemão, ou seja, a de popularizar as ideias científicas – de determinada produção intelectual – por meio da democratização dos meios de comunicação, no caso o rádio.

O programa

O Programa Especial foi planejado com a intenção de debater a produção do conhecimento do professor, pesquisador e artista visual Wilton Garcia a respeito do tema. A estratégia inicial seria a de utilizar as publicações e a trajetória dele como gancho para a discussão em torno do conceito de estudos contemporâneos. Após consenso entre os produtores e o protagonista, ficou decidido que o melhor formato seria o de perguntas e respostas; ou seja, a entrevista. A diferença é que as perguntas seriam inseridas para auxiliar o entrevistado no desenvolvimento do tema. A função do entrevistador era auxiliar o convidado no desenvolvimento da proposta, justamente para evitar possíveis lacunas durante a gravação.

O pré-roteiro serviu para orientar o produtor Carlos Augusto Tavares Júnior, radialista e, na época, aluno de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. Solicitou-se ao professor Wilton que indicasse algumas músicas, que seriam inseridas posteriormente como forma de ilustração do programa. As músicas escolhidas foram Memorial e Misere de Michael Nyman (as duas foram usadas nas sonoras, apenas para variação de trecho); Guardanapos de Papel e Rouxinol de Milton Nascimento e Sereníssima e Baader Meinholf Blues (trilha musical: violão, baixo e bateria) do Legião Urbana.

Ficou decidido, ainda, que o entrevistado faria a leitura de trechos de suas publicações. Apenas duas partes: o conceito de usuário-interator e o prefácio do Livro Feito aos poucos_anotações de blog (2013) seriam lidos, respectivamente, pelo produtor Carlos Augusto Tavares Júnior e pelo mediador, professor Luciano Victor Barros Maluly.

O pré-roteiro foi pensado em conjunto, o que facilitou a gravação. Além disso, o envolvimento discente e docente proporcionou uma interação com o objetivo de repassar aos ouvintes – comunidade externa à Universidade – um pensamento limitado ao universo acadêmico.

O rádio foi o meio escolhido pela facilidade de produção, conhecimento dos envolvidos (no caso, os produtores) e pelo acesso à Rádio USP 93,7, emissora educativa da Universidade de São Paulo, que concedeu espaço para a transmissão do programa. A gravação foi realizada no Estúdio Laboratório João Walter Sampaio Smolka (1931-2002) do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP, em 20 de março de 2014.

Durante a gravação, ocorreram mudanças no roteiro. Assim, alguns trechos foram modificados pelo mediador e pelo protagonista na busca de facilitar o desdobramento da linguagem acadêmica. Da mesma forma, o produtor interferiu ao solicitar uma conversa aberta e solta, com o roteiro servindo como referencial para o entrevistado e o entrevistador.

A Rádio USP FM 93,7 realiza um trabalho diferenciado de abertura para com a comunidade acadêmica. Vários programas são produzidos por alunos e professores, entre eles, o Universidade 93,7 ˂www.eca.usp.br/radiojornalismo˃, que é transmitido sempre aos domingos, das 11h30 às 12 horas, desde 2008.

O programa – conduzido pelos alunos do Curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo –, também, é utilizado por professores e pesquisadores da Escola de Comunicações e Artes para a divulgação de trabalhos acadêmicos.

Dessa forma, este espaço foi disponibilizado para transmissão do programa a respeito de estudos contemporâneos, mas com um diferencial: o programa teria uma hora de duração e foi transmitido no dia 23 de março de 2014. Depois foi retransmitido nos dias 8 e 15 de março de 2015.

Desfechos

Para os estudos contemporâneos, a noção de contemporâneo recorre-se de instabilidades a fluir uma dinâmica muito própria, (de)marcada por um estado eminentemente provisório, parcial, inacabado e efêmero, em um grau significativo de indecidibilidades (BHABHA, 1998), com expressões incomensuráveis. Ou seja, deslizante, latente, pulsante, plural, multidimensional. Diante de tamanha instabilidade, isso requer (re)pensar a respeito das ações pulsantes, latentes, que estremecem e acusam efeitos de sentidos. Alto grau de instabilidade recombina conceitos, dados, informações e inquietudes.

Essas instabilidades ilustram as expressões que associam uma condição contemporânea, capaz de prever a flexibilidade e o deslocamento como atividades inerentes à linguagem e suas caracterizações: não-linear, fragmentada, descontínua, simultânea, heterogênea, sincrética, acelerada, aberta, hermética, paródica, incompleta e impactante.

Porém, cuidado ouvinte/leitor(a), pois diante da gama de distintas inserções não seria um “vale-tudo”. Pelo contrário, a eclética (re)paginação paradoxal dos dados tenta (re)inscrever os objetos, sujeitos e suas representações no contemporâneo. Ainda que acarretem uma possibilidade de risco, já que o perigo apresenta-se pelo desconhecido: aquilo que está por vir.

São resíduos que compreendem e acusam o efeito – longe da busca de sentido. O efeito verte um atrator significativo para ressaltar impacto, surpresa, inovação e novidade. Esses feixes de efeitos equacionam uma maior distensão à representação e ao contexto, sobretudo na escritura expandida pela atualidade.

Experimentar, nesse caso, seria a palavra de ordem, em que as coisas podem ser tocadas e as novidades ressurgem com a artimanha interativa de envolver os participantes; nesse caso o ouvinte da Rádio USP. Seria intervir nas coisas do mundo para mudar. É renovar as (de)marcações com a força das mudanças registradas pelo deslocamento de ideias e ideais.

As resultantes, aqui, problematizam elementos das relações humanas na discussão sobre a comunicação, capital e desigualdade social, o que preocupa o acesso para que a informação chegue ao público leigo. Por isso, esse tipo de abordagem no campo contemporâneo da comunicação promove um posicionamento teórico e político.

Assim, apresentou-se um programa intelectual, a fim de aproximar a academia do cidadão. Independente do formato, o ouvinte tem, ao ligar o rádio, a opção de sintonizar um conteúdo diferenciado, produzido por educadores que, como Benjamin (1986, p. 86) desejam construir “uma popularidade que não apenas orienta o saber em direção ao público, mas, ao mesmo tempo, orienta o público em direção ao saber”.

Referências

Benjamin, Walter. 1892-1940 (1986). “O que os alemães liam, enquanto seus clássicos escreviam/ Dois tipos de popularidade: observações básicas sobre uma radiopeça”. In: Bolle, Willi (Org). Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. São Paulo: Cultix/Edusp, 63-86.

Brecht, B. (2005). “Teoria do Rádio (1927-1932)”. In: Meditch, E. (Org.) Teorias do rádio. Florianópolis: Insular, 35-45.

Kaplún, M. (1994). Producción de Programas de Radio: el guión: la realización. Cidade do México: Editorial Cromocolor.

Loge, C. J. (1989). “A Tomada do Rádio e da Bastilha por Walter Benjamin”. In: Revista Comunicações e Artes. Ano 14. n. 22. São Paulo: ECA-USP, 17-27.

Meditch, E.; Betti, J. G. (2008). Mario Káplun: “Teoria e técnica radiofônica a serviço da emancipação latino-americana”. In: Anais do XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Natal (UFRN): Intercom.

Ortriwano, G. (1985). A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus.

Pintos, V. S. (2001). Mario Kaplún: “La Comunicación como actitud de vida. In: Pensamento Comunicacional Lationamericano”, Revista Científica Digital, Cátedra Unesco de Comunicação. Volume 1. Número 4. São Bernardo do Campo: Metodista/Cátedra Unesco de Comunicação, Julho/Agosto/Setembro de 2001.

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Luciano Victor Barros Maluly é doutor em Ciências da Comunicação e professor na ECA-USP; e Wilton Garcia é doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e professor na Fatec Itaquaquecetuba e no Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso

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