Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > ECONOMIA E INDÚSTRIA BÉLICA

Armamentismo confunde grande mídia

Por César Fonseca em 20/11/2007 na edição 460

O belicoso presidente militar-socialista Hugo Chávez, que se arma com o argumento de que tenta proteger a Venezuela, rica em petróleo, de possíveis agressões externas por parte do presidente dos Estados Unidos, W. Bush, avalista do golpe militar em 2002 contra o atual titular do poder venezuelano, está obrigando a mídia a entrar no assunto armamentismo na América do Sul sem saber realmente o que é economia de guerra, pois suas limitações mentais estão adstritas à economia do livre mercado, ainda predominante no século 19.

Se Chávez é tido pela grande imprensa como belicoso, como entender as declarações do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que o Brasil precisa de submarino nuclear, depois das descobertas do petróleo no campo Tupi na bacia de Campos? Não estaria jogando com o armamentismo, ao destacar que a riqueza, fator positivo, traz em seu bojo, também, o terrorismo, fator negativo?

Quem seria o terrorista? Chávez, que moderniza as forças armadas da Venezuela em nome da proteção das riquezas venezuelanas, ou Lula, que, pela boca de Jobim, decide pelo investimento em submarino nuclear mediante argumento idêntico ao de Chávez, de proteção das riquezas nacionais?

Haveria distinção substantiva em tais propósitos ou aparências que lançam enganações para todos os lados?

O cenário sul-americano

Segundo a Folha de S. Paulo, Jobim teria dito que será preciso ‘conter Chávez’. Resta saber como interpretaria Tio Sam a essa corrida brasileira supostamente para conter Chávez, ele, que sob democracia, patrocina de forma permanente e crescente a economia de guerra em nome da expansão democrática.

Os militares do Pentágono fariam a mesma leitura que faz a mídia brasileira nesse momento, Globo e Estadão, preocupados com o sucateamento das forças armadas?

Interessaria à Casa Branca uma América do Sul, seu quintal, cada um com suas beligerâncias, como no tempo das disputas territoriais, nas colonizações que ampliaram o capitalismo europeu, globalizando-o?

Ou tal tendência contribuiria para uma frente armamentista capaz de alavancar no continente conquistas econômicas decisivas, como a proposta da nova presidente da Argentina, Cristina Kirchner, favorável à moeda única sul-americana, para substituir o dólar, em decadência, nas trocas regionais?

Os generais norte-americanos, que vêem fantasmas anti-americanos por todas as partes, leriam o cenário sul-americano, puxado pelo armamentismo chavista, em nome do socialismo, como algo capaz de dispersar ou unir forças anti-americanas debaixo do discurso anticolonialista-bolivariano-tiradentista?

Números e geoestratégia

Estariam sob controle da influência norte-americana forças armadas do continente, que, ao longo do processo neoliberal – 1980-2007 – ainda vigente, foram sucateadas e desmoralizadas pela pregação desarmamentista, que favoreceu sangria financeira das economias periféricas, a fim de pagar juro da dívida pública, eleita prioridade das prioridades, garantida, inclusive, no texto constitucional (art. 166, parágrafo terceiro, item II, letra b)?

Seria aceito hoje pelas forças armadas o gesto – aplaudido pela grande mídia – de desmoralização a que se submeteram quando o ex-presidente Fernando Collor, sob pressão do Consenso de Washington em formação, enterrou na floresta amazônica os restos mortais do programa nuclear, sentimento vivo do Brasil Potência que batia forte no peito dos militares, na sua tentativa de alcançar a bomba atômica?

As contradições, naturalmente, emergirão, fortemente, pelo lado dos fabricantes de armas, que deverão estar aplaudindo os avanços armamentistas chavistas. Criam-se antagonismos políticos explosivos que favorecerão mercado para produtos – bélicos e espaciais – possíveis de serem consumidos apenas pela moeda estatal?

Os generais norte-americanos patrióticos, certamente, diriam não a Hugo Chávez, mas as indústrias armamentistas fariam a mesma coisa? Os números falariam mais altos do que as considerações geoestratégicas?

Limites à liberação de recursos

Os lucros das indústrias que produzem a destruição aumentaram em mais de 50% depois da invasão do Iraque, segundo o prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz. A conseqüente desestabilização que ela provocou em todo o mundo mulçumano, como demonstram, nesse instantes, as explosões sociais no Paquistão, representa acumulação de riqueza patrocinada pela economia de guerra.

Esta criou o que o capitalismo mais anseia: a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro. No cinismo que está embutido no cálculo do PIB capitalista contemporâneo computa a destruição como riqueza. O FMI, o gendarme do capitalismo periférico, já disse que a disseminação das pequenas guerras puxa a demanda global capitalista.

Os pontos de conflitos são buscados como lupa pela indústria de armas. A descoberta do petróleo no campo Tupi, na bacia de Santos, que se estende do Espírito Santo a Santa Catarina; as potencialidades energéticas da Amazônia; a possibilidade de união Brasil-Venezuela para explorar o ouro negro na floresta tropical mais ampla do mundo e a integração econômica latino-americana daí decorrente, para além dos personagens representantivos do momento histórico, com suas posições ideológicas antagônicas, botam fogo na imaginação dos comandantes da economia de guerra.

A expansão do mercado bélico na América do Sul não poderia vir em melhor hora para os interesses norte-americanos. Sob pressão popular, que leva o Congresso a impor limites à liberação de recursos para as forças armadas americanas no Iraque, W. Bush e seus generais buscam novos mercados. Onde?

Contradições se ampliam

As sementes da guerra já foram lançadas há tempos na América do Sul. Na Colômbia, as forças norte-americanas estão em ação antes da alardeada corrida armamentista chavista e o Pentágono faz de tudo para implantar base militar no Paraguai. As forças norte-americanas estariam em cima do Aqüífero Guarani, a maior reserva de água doce subterrânea do mundo, ao lado do Aqüífero de Gurgueia, no sul do Piauí, também, ocupado por grandes fazendeiros internacionais, sob argumento de que exploração energia alternativa.

A grande mídia fica perplexa, como demonstram os editoriais, na medida em que não consegue deixar de tomar partido diante da contradição que desata no centro do império que promove a economia de guerra.

Vai se revelando que o jornalismo brasileiro levou um banho histórico tremendo ao não estar há tempos acompanhando de perto a evolução social, política e econômica da América Latina.

Quem teria iniciado a corrida armamentista na América do Sul? Chávez, da Venezuela, ou Uribe e seus antecessores, na Colômbia?

O fenômeno guerrilheiro colombiano não mereceu da grande mídia grandes coberturas. Sendo negação do sistema capitalista na Colômbia, que se aliou, parcialmente, com o narcotráfico para levantar dinheiro necessário à guerra de resistência, a guerrilha desatou o armamentismo colombiano bancado por Washington.

Chávez é não apenas a negação de W. Bush, mas, também, de Uribe, armado por Bush. As contradições se ampliam, porque Uribe, para enfrentar os guerrilheiros das FARC, lança mão da diplomacia chavista.

Lógica keynesiana

O armamentismo colombiano não mereceu atenção da grande mídia porque ele interessa aos Estados Unidos. Como o capachismo midiático predomina em relação a Washington, os holofotes se intensificam como se tivesse sido descoberta a pólvora, com a decisão de Chávez de modernizar as forças armadas venezuelanas em nome do socialismo.

Nova guerra fria em curso na América Latina?

Em dois recentes editoriais, O Estado de S. Paulo reconhece as deficiências das forças armadas e a necessidade de dotar-lhes mais investimentos para que possam cumprir sua missão constitucional: proteger o território nacional, mediante modernização dos seus efetivos, humanos e tecnológicos.

O eufemismo modernização seria o armamentismo brasileiro sob Lula pregado pelo Estadão que ele condena na Venezulea sob Chávez?

A grande mídia ainda é romântica relativamente à economia de guerra, da qual o capitalismo norte-americano lançou mão ao longo do século 20, a partir de 1936, como arma para tirar o capitalismo da depresssão da crise de 1929.

Keynes foi claro para convencer Roosevelt: ‘Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária para fazer valer minha tese – pleno emprego – salvo em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem na preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força’ (Lauro Campos, A crise da ideologia keynesiana, 1980, Campus).

Interatividade dialética

Não há romantismo. Depois que o laissez faire entrou em colapso, no crash de 29, dando fim ao padrão ouro, novo padrão monetário – a moeda estatal inconversível – entrou em cena para puxar a demanda global, a fim de dar sobrevida ao livre mercado, que perdera seu próprio dinamismo.

A demanda do Estado gera a renda fictícia para comprar não-mercadorias – produtos bélicos e espaciais, gastos públicos em geral etc. – cujo efeito renda proporciona consumo das mercadorias duráveis, semi-duráveis, bens de luxo etc. Do contrário, não haveria como preservar, sob o capitalismo, relativa escassez capaz de sustentar taxa de lucro, visto que sob o livre mercado a economia marcha inexoravelmente para a deflação, impulsionada pelo aumento exponencial da produtividade, que eleva a concorrência e derruba os preços.

O mecanicismo midiático impede a visão mais clara da grande mídia sobre o processo do desenvolvimento capitalista em sua complexidade contraditória, que exige a interatividade dialética.

A ineficiência do Estado

Antes, o capitalismo, sob o padrão ouro, sustentava-se sobre dois pilares: produção de bens de consumo (D2) e de bens de produção (D1). As contradições entre ambos levaram ao crash de 29. Teve que entrar em cena D3 – os gastos do governo.

A grande mídia ainda vê o mundo dominado por D1 e D2, enquanto olha para D3 como algo que se encontra no exterior da realidade, atrapalhando a harmonia entre D1 e D2.

A ideologia utilitarista, essência fundamental do sistema, dominado pelo bissetorialismo (D1 +D2) ainda condiciona as mentes dos comentaristas em geral, salvo honrosas exceções. Resistem em considerar D3 como transformação dialética do capitalismo, fundamental. Ao contrário, prisioneiros do mecanismo bi-setorial, pregam a extinção de D3, sem perceber que ela trará a implosão conseqüente de D1 e D2.

E o que é D3 senão a guerra?

A ingenuidade jornalística se apega ao discurso carregado de falsa ética de que D3 deve ser algo eficaz e eficiente, quando ele, sob o capitalismo, nasce, justamente, para ser ineficiente, como, antes de Marx, disse Malthus.

A eficiência capitalista, ao elevar a produtividade, a competitividade e a concorrência que desembocam na deflação, requer, segundo Malthus, o seu contrapolo, isto é, a ineficiência do Estado.

Por ter falado essa verdade simples, foi amaldiçoado, pois o sistema, afinal, não suporta a verdade. ‘Precisamos fingir para nós mesmos que o que é útil é verdadeiro, se deixa de ser útil, deixa de ser verdade’ (Keynes).

Irmãos xifópagos

O discurso midiático, ideológico, que foge da realidade ao não destacar a polaridade entre eficiência e ineficiência no interior do capitalismo nas interrelações dialéticas entre D1, D2 e D3, bate de frente com os próprios propósitos capitalistas.

O Estado malthusiano-keynesiano capitalista cumpriria o papel de destruir no consumo, por meio da moeda estatal, a produção do setor privado, tanto as dinamizadas por D1 e D2, como, principalmente, por D3.

Chávez, Lula, Uribe e Bush, quando se dispõem a aumentar os investimentos em economia de guerra (D3) cumprem um mesmo papel: garantem a reprodução do setor privado (D1 + D2), graças à renda gerada pela moeda estatal fictícia (D3), nascida, historicamente, para dinamizar as forças destrutivas, a fim de salvar as forças produtivas.

O armamentismo sul-americano tende a ficar ao sabor das contradições que a própria economia de guerra desata a partir da produção das armas e dos interesses que ela atende. Governo e empresas, nesse jogo, são irmãos xifópagos.

As riquezas amazônicas

O alinhamento de posições, certamente, vai sendo conduzido pela ideologia. Chávez é o socialismo, Uribe, o capitalismo. Lula seria o que? Uribista, chavista ou lulista, capitalista, socialista ou nacionalista?

A confusão contraditória chavista se instala porque Chávez pratica, como destacou o repórter Ruy Fabiano, em ‘Lula:amor e temor a Chávez’ (Jornal da Comunidade) uma democracia autoritária, regada a referendo e plebiscito, armas da democracia apropriadas por espírito autoritário socialista.

Já se a corrida às armas se desse apenas entre os partidários da Casa Branca, como Uribe, tudo bem, a grande mídia bateria palmas. Afinal, não é isso que vem fazendo ao longo do confronto entre a democracia guerreira uribista, financiada por Washington, e os guerrilheiros, que teriam supostamente dinheiro do petróleo venezuelano por trás?

Como não enxergou, pelo exercício do jornalismo sistemático de investigação da realidade sul-americana, que Chávez, entre outras coisas, é a negação de Uribe-Bush, a grande mídia opta pelo armamentismo lulista como antídoto a Chávez, pensando que poderia estar sintonizando-se com a geoestratégica norte-americana que arma Uribe contra, não apenas a guerrilha, mas, também, contra o presidente venezuelano.

Lula fortaleceria as forças armadas nacionais para opor-se a Chávez, fazendo o jogo de W. Bush, relativamente, a Uribe, como seria o sonho da grande mídia, ou o fortalecimento bélico brasileiro, aos olhos norte-americanos, contribuiria para uma aliança Brasil-Venezuela, para defender as riquezas amazônicas, de cujo subsolo poderá sair petróleo abundante?

E a resposta para os argumentos?

No momento em que o dólar está capengando, quando a Argentina, sob Cristina Kirchner, prega moeda sul-americana e banco sul-americano, para fugir da moeda norte-americana, desmoralizada na praça global, o discurso das forças armadas dos países do continente caminharia para integração ou desintegração da América do Sul como corolário geral de ação política?

A grande mídia, que ignorou essa força politicamente oculta, porém latente, a emergir no cenário sul-americano, comporta-se como o PSDB diante da CPMF: não sabe se vai ou se fica a favor ou contra, muito menos pelo contrário.

A conjugação dos interesses monetários, de forma homogênea, entre os governos sul-americanos, algo que a grande mídia enfrenta com grande desconfiança, tenderia a fortalecer ou não a convicção do Pentágono de que a generalização do armamentismo na América do Sul apressaria o discurso favorável à integração econômica?

Os gastos militares, sendo consumo do governo, que puxam a demanda global, resultariam em força integradora, como poderiam raciocinar o Pentágono, ou desintegradora, como prega a grande mídia, assustada com gastos de 4 bilhões de dólares para rearmamento das forças armadas venezuelanas?

O jornalismo nacional precisar suar a camisa para conquistar credibilidade junto à população no desenrolar do assunto. Teria, para tanto, que seguir os passos do grande jornalista e historiador francês Jules Michelet: acompanhar os fatos e as classes sociais impulsionadas pelos seus interesses antagônicos que alavancam social e politicamente a economia de guerra, na América do Sul, assim como acompanhou os que emergiram na revolução francesa, para escrever o seu clássico A história da revolução.

Talvez os esclarecimentos sobre os interesses sul-americanos em favor do armamentismo em marcha proporcionem emergência de razões que contrariem os interesses da própria grande mídia.

Qual seria o cliente para os argumentos dela? Ela saberia responder?

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Jornalista, Brasília, DF

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/11/2007 arnaldo boccato

    Se formos comparar os R$ 38 bilhões da CPMF (US$20 bi), os gastos de Chávez são mesmo titica, mas devem incomodar muita gente. O Brasil, pós-ditadura militar quis ser mais realista que o rei e fechou todas as torneiras das verbas militares em tempos de Nova República e Constituinte. Até o aparato policial civil e militar sofreu com isso, por seu envolvimento com a repressão política. Nossa imprensa não chiou, ou por vingança ou pela falta de transparência nos gastos feitos em nome da Segurança Nacional. O escudo militarista-nacionalista criou uma indústria que vivia de subsídio, apadrinhamento e tecnologia caixa preta (pesquisador era ‘subversivo’ e suspeito até prova em contrário), onde eficiência era relativa. O modelo Embraer e alguns setores como metalurgia fina estão entre as exceções. Com um pouco de pragmatismo, daria pra conciliar indústria bélica e democracia (França, Inglaterra, Canadá ou Itália funcionam assim). O sucateamento das Forças Armadas e da indústria bélica não aconteceu pós Sarney ou pós-Collor – ele já estava decretado bem antes e nossa imprensa acompanhou de longe. Não temos tradição, são raros os quadros que conhecem o setor com alguma profundidade e acadêmicos da áera estratégica acabam sendo a salvação das editorias. Discutir isso aqui no OI parece fazer mais sentido que ideologizar a questão.

  2. Comentou em 20/11/2007 Benvindo Ferreira

    Texto prolixo que carece de objetividade e não consegue passar clareza ao leitor. Análise pouco concisa do contexto, baseando-se apenas na figura quase que satanizada dos Estados Unidos perante a América do Sul. Pena, o assunto poderia ter rendido uma boa discussão.

  3. Comentou em 20/11/2007 Benvindo Ferreira

    Texto prolixo que carece de objetividade e não consegue passar clareza ao leitor. Análise pouco concisa do contexto, baseando-se apenas na figura quase que satanizada dos Estados Unidos perante a América do Sul. Pena, o assunto poderia ter rendido uma boa discussão.

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