Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > RADIODIFUSÃO PÚBLICA

As televisões municipais

Por Ericson Meister Scorsim em 13/11/2007 na edição 459

A Medida Provisória nº 398, de 10 de outubro de 2007, que trata da disciplina do sistema de radiodifusão ‘público’ e autoriza a criação pelo Poder Executivo da Empresa Brasil de Comunicação, permite a participação de Estados e Municípios no capital social da referida empresa de comunicação. Ademais, o Decreto nº 6.426, de 24 de outubro de 2007, estabelece que compete à EBC realizar a cooperação e colaboração com entidades públicas ou privadas que explorem o serviço de radiodifusão ‘pública’, mediante convênio ou outros ajustes, com vistas à formação de Rede Nacional de Comunicação ‘Pública’.

Defende-se, aqui, que as televisões municipais constituem elementos do sistema de radiodifusão estatal, e não propriamente do sistema de radiodifusão ‘público’, como pretende o referido ato normativo. São meios importantes para a realização da comunicação institucional no âmbito local. Vale dizer, apesar de a União ser a titular da competência para organizar e legislar sobre os serviços de radiodifusão, que isto não impede que os municípios busquem criar e gerir canais de televisão de modo isolado ou compartilhado com outras unidades federativas. Aliás, a possibilidade jurídica de os municípios possuírem canais de televisão tem respaldo normativo no art. 4º do Decreto-lei nº 236/67, o que, evidentemente, não se limita à atividade de retransmissão ou repetição de sinais de televisão.

O fato surpreendente é que uma boa parte dos municípios, ao invés de operarem estações geradoras de sinais de radiodifusão, limitam-se a manter retransmissoras de televisão, custeando com recursos públicos, em favor das redes privadas de televisão, conforme aponta excelente estudo de James Görgen (‘Redes de televisão: uma dominação consentida’).

Difusão do potencial turístico

O Decreto n.o 5.820/06, que trata dos serviços de televisão digital, contempla um Canal de Cidadania (para transmissão de programações das comunidades locais, bem como para a divulgação de atos, trabalhos, projetos, sessões e eventos dos poderes públicos federal, estadual e municipal). Ou seja, um mesmo canal de televisão serve ao propósito da comunicação institucional e à afirmação da cidadania. Contudo, isto não dispensa a possibilidade de o município postular junto ao órgão competente canais exclusivos e (ou) compartilhados para a realização de comunicação institucional.

Importa destacar que, com a Emenda Constitucional no19/98, foi alterado o art. 241 das Disposições Gerais da Carta Republicana, de modo a constitucionalizar a figura dos consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes federativos, para fins de gestão associada de serviços públicos. Trata-se de um importante mecanismo de fortalecimento da federação brasileira e de respeito ao princípio da eficiência e da economicidade em relação à execução de serviços públicos.

Nesse caso, por exemplo, os municípios com interesses comuns poderão constituir uma pessoa jurídica especializada na organização e gestão do serviço público de comunicação institucional, repartindo custos e tarefas em termos de produção de conteúdo audiovisual e de transmissão dos sinais de televisão. A título ilustrativo, os municípios poderão constituir um canal de televisão vocacionado à difusão do potencial turístico da região onde estão situados, para fins de desenvolvimento social e econômico, em atendimento ao art. 180, da Constituição Federal, obtendo-se, contudo, a necessária outorga do poder público federal.

Elementos das três esferas federativas

Com a implantação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital, o compartilhamento de canais de televisão torna-se possível à medida que a tecnologia envolve o conceito de multi-programação, isto é, um mesmo canal de televisão pode transmitir, concomitantemente, diversas programações de responsabilidade editorial de diversas entidades federativas.

Saliente-se, contudo, que o Decreto nº 5.820/06, que trata do referido sistema, não aponta os critérios para o uso compartilhado do Canal de Cidadania que, entre outras funções, está destinado a divulgação de atos, trabalhos, projetos, sessões e eventos dos poderes públicos federal, estadual e municipal. Em verdade, a previsão de um único canal para as três esferas federativas é uma medida insuficiente para atender às necessidades dos mais diversos interesses em termos de comunicação social.

Portanto, é necessária toda uma política pública de comunicação social que melhor atenda aos interesses do sistema estatal de radiodifusão, considerando-se este como um complexo integrado por elementos das três esferas federativas, particularmente considerando os diversos interesses dos municípios brasileiros.

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Advogado, doutor em Direito do Estado pela USP, Joinville (SC)

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/11/2007 Jose de Almeida Bispo

    Em relação ao estudo de James Görgen: é óbvio que a possibilidade de geração de conteúdo nas emissoras municipais – e até nas estaduais – é um sacrifício que poucas unidades de governo estão dispostas e têm recursos para implementá-la. Logo, os prefeitos querem mesmo é suprimir seus consumidores de programação de TV do sinal que as emissoras lhes negam, até mesmo por medidas de economia de energia, quando reduzem drasticamente o sinal de UHF ou outro de que faça uso.
    Montar emissora de TV ou rádio é como construir e inaugurar hospital: fácil, fácil. Difícil é manter equipes de profissionais de linha, ainda mais com essa política administrativa excessivamente financista da ‘empresa moderna’. A mesma que lentamente vem matando a Rede Globo, por exemplo.
    Definitivamente, Economia, de fato, não é uma ciência; é uma arte. Estão levando o cartesianismo longe demais.
    A salvação da TV brasileira passa pela TV Pública. Se for pública. Pública, e não de grupelhos intelectuais a impor seus protuberantes egos e teorias estéreis. Dias (Gomes) melhores terão que vir.

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