Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

DIRETóRIO ACADêMICO > FORMAÇÃO DE JORNALISTAS

Assunto para a primeira página

Por Enio Moraes Júnior em 22/12/2009 na edição 569

Jornalistas, professores ou estudantes de jornalismo talvez não se lembrem, nestes últimos dias do ano, de algumas das principais manchetes da imprensa nacional ou internacional em 2009. No entanto, a categoria certamente não esquecerá o quanto o ano foi profícuo em relação aos debates sobre a formação dos jornalistas brasileiros.


Em fevereiro de 2009 foi empossada no Ministério da Educação uma Comissão de especialistas em Comunicação com a tarefa de discutir e elaborar novas Diretrizes Curriculares para a formação de jornalistas no país, em substituição ao documento anterior, de 2001.


A Comissão organizou uma série de audiências públicas. O objetivo era dialogar com a sociedade civil, levando em consideração, na elaboração do documento, a fala dos diferentes setores interessados em colaborar com o processo de gestação das Diretrizes.


Assim, as discussões não se restringiram às escolas de Comunicação Social, à imprensa, suas categorias profissionais ou ao Ministério da Educação. Importantes setores da sociedade brasileira, especialmente organizações não-governamentais ligadas à defesa dos direitos humanos e do jornalismo, participaram dos debates.


As cidades do Rio de Janeiro, Recife e São Paulo sediaram, nos meses de março, abril e maio, respectivamente, os encontros. No conjunto das discussões, alguns pontos importantes foram levantados, como a defesa da qualidade do ensino do jornalismo e a defesa do diploma para o exercício da profissão. No entanto, o eixo basilar foi o entendimento do jornalismo como uma instituição a serviço da democracia e da cidadania.


Simultaneamente às audiências, as diretrizes foram pauta constante em eventos profissionais e acadêmicos da área. Mas a novidade foi que a sociedade civil pode colaborar com o debate também virtualmente. Através da internet, foi possível disponibilizar indicações sobre qual deveria ser o perfil do profissional do jornalismo e assinalar as competências a serem adquiridas pelos alunos nos anos da graduação.


Eventos mais específicos também ocorreram para subsidiar as discussões. A última dessas audiências, por exemplo, ocorreu na capital paulista dois dias depois do encerramento do I Encontro de Cursos de Jornalismo da Região Metropolitana de São Paulo, na Escola de Comunicações e Artes da USP, sob coordenação do professor José Coelho Sobrinho. A formação cidadã do jornalista e as mudanças nas Diretrizes Curriculares foram o tema do evento e acabaram por acalorar a audiência em São Paulo.


Diploma


Entretanto, uma surpresa estava sendo gestada e muitos dos protagonistas desses debates foram pegos desavisados. No dia 17 de junho, a versão online do jornal Folha de S.Paulo trazia a notícia da decisão que foi exaustivamente discutida e comentada nas redações e escolas de Comunicação Social: ‘Supremo derruba exigência do diploma para jornalistas’.


As justificativas do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, tiveram invariavelmente o tom de que o jornalismo, ao contrário de profissões como a medicina ou a engenharia, não coloca em risco a sociedade quando praticado de forma equivocada. Assim, ‘não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão’, avaliou Mendes.


No entanto, as questões relativas ao fim da obrigatoriedade do diploma não se encerraram aí. Ao contrário, talvez a decisão do Supremo as tenha levado a outro nível que pode implicar debates mais democráticos e participativos sobre a questão. Ao longo do ano, representantes públicos, entidades de profissionais da imprensa e escolas de jornalismo buscaram reverter o ato do STF. 2010 trará novidades nesse sentido.


Enquanto o debate sobre o diploma ganhava novos contornos com a decisão do STF, a elaboração das Diretrizes Curriculares continuava na agenda da sociedade brasileira e na pauta da imprensa.


Novas diretrizes


Em setembro, a Comissão de Especialistas entregou ao Ministério da Educação uma proposta (ver aqui). O parágrafo final das novas diretrizes foi claro em relação ao diploma e à natureza do documento.


Nele, a comissão ‘manifesta sua crença na formação superior específica para o exercício da profissão de jornalista’. E prossegue afirmando que ‘A responsabilidade social do jornalismo, seu papel essencial na democracia e a competência específica exigida para exercê-las, lidando com as novas tecnologias, aspectos enfatizados ao longo deste documento, recomendam uma formação fundamentada na ética, na competência técnica, no discernimento social e na capacidade crítica, habilidades que só podem ser adquiridas em uma sólida formação superior própria’.


Assim como o capítulo do diploma, as páginas das diretrizes também não foram completamente escritas. O ano que vem trará novas discussões a seu respeito nas escolas, na imprensa e em alguns setores da sociedade.


Entretanto, o importante é pensarmos que as inquietações levantadas em 2009 em torno dos jornalistas e da sua formação são, sem dúvida, mostras de uma cidadania nacional presente no protagonismo e nas vozes de uma parcela dos seus cidadãos.


A posição contundente dos representantes do povo brasileiro em relação à suspensão da obrigatoriedade do diploma e a sua participação nos embates sobre as Diretrizes conseguiram amalgamar não apenas discursos de cidadania e democracia. Essa posição constitui, na verdade, uma praxis dessa cidadania e democracia.


Educação e cidadania


Discutir educação – ainda que seja do ponto de vista da formação do jornalista – e informação – mesmo que seja no tocante ao jornalismo – é certamente salutar como reflexão e exercício da vida em comunidade. A discussão do diploma é importante, mas nada mais fundamental que debater a qualidade da formação. É ela que torna o diploma indispensável.


E pensar a formação de jornalistas traz, em seu bojo, a certeza que refletir sobre o conceito e a função social do jornalismo é incondicional para o seu ensino e para a formação de jornalistas. Este foi o ponto alto da apresentação do trabalho de pós-doutorado em Jornalismo da professora Nancy Ramadan, no começo de dezembro, na Universidade do Minho, em Portugal. A pesquisadora, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP, salientou que essa reflexão é tão importante quanto permanente e inesgotável.


Independente dos interesses por trás da suspensão do diploma ou dos contentamentos e descontentamentos em relação às diretrizes, poucas vezes parcelas da sociedade brasileira discutiram tanto a imprensa e a formação dos seus profissionais. Por conta disso, este ano chega ao fim com um saldo muito positivo para o jornalismo e para todos nós – jornalistas, professores, estudantes e sociedade – que o fazemos, que o ensinamos, que o aprendemos e que o vivenciamos incansável e cotidianamente. Essa é uma boa notícia deixada por 2009 e merece primeira página.

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Jornalista, doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, professor universitário e pesquisador das relações entre Jornalismo, Educação e Cidadania, atualmente realiza pesquisas de doutorado na Universidade do Minho (Portugal), com apoio da Capes

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/12/2009 C. Brayton

    Sempre estranho, como antropólogo, essa questão de diploma e cadastramento no Ministério de Trabalho. Fosse eu brasileiro, eu não podia trabalhar como jornalista, apesar dos meus 15 anos de carreira modesta no ramo. Eu comecei tomando um curso para revisores (copy desk) numa coletiva de editores em Berkeley, sem ligação à faculdade, e outros no Publishing Center da Universidade de Nova York (educação contínua para profissionais). Eu tinha sido chefe do jornal da minha faculdade.

    Entre nós, quase tudo é feito no base de aprendizagem. Qualquer pessoa com uma boa formação em artes liberais pode começar fazendo os casos de policia (serviço chato que serve de ponto de partida tradicional) no Times de Cucamonga (nosso Ô do Borogodó).

    Tenho amigo que trabalha no NY Times hoje que começou exatamente assim. Cursou história, se não me engano. Existe opção de mestrado de dois anos, mais muitos jornalistas não fazem.

    Para que um curso de quatro anos para formar jornalistas? Jornalismo não é cirurgia cerebral! Quanto tempo demorar para decorar os princípios da ética profissional? Honestidade intelectual, bom inglês ou português, e bastante experiência, e pronto! Jornalista.

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