Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Bardos sem diploma

Por Alberto Ruschel em 30/06/2009 na edição 544

O bardo, hoje é chamado de jornalista. Os antigos bardos não passavam de andarilhos fofoqueiros. E não tinham diploma. Para observar os fatos, ver e ouvir gente, ficar deslumbrado com paisagens, admirar novos costumes, bastava ter sensibilidade e algum talento para descrever, com charme, suas andanças.

Mas o povo gostava mesmo era de fofoca. Logo, os bardos passaram a dar notícias sobre, por exemplo, uma mudança de governo na região de onde vinham. Os trovadores eram perguntados sobre os detalhes da queda do poderoso que, eventualmente, estava metendo ‘a mão’ e medo na vizinhança. Foi assim que, incluindo minúcias sobre o descontentamento do povo, a falta de apoio dos burgos, o movimento das tropas do exército vencido, estes profissionais da conversa fiada perceberam a necessidade de florear um pouco mais os fatos.

Já não resolvia contar que fulano tinha caído. Era preciso contar como quanta gente havia morrido e se quem caía havia caído sentado ou de joelhos.

Bons bardos não tinham família, viviam repercutindo fuxicos, literalmente de Seca a Meca. E pela dificuldade de locomoção, era comum um bardo ‘ouvir falar’ que um outro colega de atividade afirmara um fato qualquer – e pronto. Ele saía repetindo a notícia como se ela fosse verdadeira. Bardos, cantadores, menestréis e trovadores eram uns malandros ‘sem profissão definida’ e quanto mais e melhor – do ponto de vista ‘literário’ – floreassem as fofocas, mais conhecidos ficavam.

‘Samba não se aprende no colégio’

O bardo que se respeitasse dosava bem a veracidade de suas narrativas. Sabia que, com uma pitada de criatividade e invenção, sua audiência e prestígio aumentavam. E, em função do retorno na imagem dos contratantes (assim como os bobos da corte, bardos também se tornaram profissionais), os préstimos dos bons bardos eram disputados a tapa. Mas, como o poder mudava muito, sentar-se à mão direita de reis poderosos nem sempre era um bom negócio. Era mais indicado manter certa distância do comprometimento com esta ou aquela facção real. Até hoje, reis poderosos confundem bons bardos com bons marqueteiros.

Alguns destes profissionais da ‘trova’ acabaram por repetir seus itinerários. Era comum surgir algum boato e um plebeu lembrar: ‘Deixa o bardo chegar que vamos saber melhor o que aconteceu.’

Bardos eram seres curiosos, aventureiros e, sem nunca precisarem de diploma, foram se especializando em contar e espetacularizar estórias.

Lembrando Noel, aquele gênio da crônica comportamental e jornalística que disse que ‘Fazer samba não se aprende no colégio…’, toda e qualquer pessoa curiosa, desde que goste de um bom fuxico e, no fundo, com alguma consciência ética e criatividade, será um bom jornalista. Ou bardo, ou trovador, ou poeta, ou escritor, ou redator ou, simplesmente, fofoqueiro.

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Compositor, educador e jornalista; Delfinópolis, MG

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