Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA & SOCIOLOGIA

Bourdieu, quem diria, foi parar no “churrascão de Higienópolis”

Por Guilherme Meirelles em 05/09/2011 na edição 658

Não há notícias de que o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) tenha flanado pelas aprazíveis vias do bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo. Provavelmente, Bourdieu teria se encantado com a arquitetura do espaço, principalmente com as centenárias mansões, inspiradas no design francês do século 19. Ao contemplar prédios como o Colégio Sion, a Escola de Sociologia e Política e o Instituto Mackenzie, o renomado intelectual certamente ficaria impressionado com o “capital cultural” [conceito apresentado na obra na obra Les héritiers (1964), em parceria com Passeron, na qual o termo “capital cultural” se mostra como uma ferramenta importante para apreender a dimensão simbólica da luta entre os diferentes grupos sociais (como a luta pela legitimação de certas práticas sociais e culturais, úteis para de?nir e distinguir os diferenciais de poder dos diversos grupos pela posse da cultura dominante ou legítima) (Ana Maria F.Almeida “A noção de capital cultural é útil para se pensar o Brasil?” In: PAIXÃO, Lea Pinheiro; ZAGO, Nadir (Org.). Sociologia da educação: pesquisa e realidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.) do bairro, semelhante à região parisiense onde está localizado o tradicional Collège de France, no qual lecionou entre 1985 e 1998 na École de Sociologie. Mas notaria uma diferença. Próximo ao Panthéon, entre o Boulevard St. Germain e o Boulevard St. Michel, o Collège de France é bem servido em matéria de transporte público, principalmente em estações de metrô, já que os parisienses se orgulham de ter uma estação metropolitana a cada 500 metros. Já em Higienópolis, em maio deste ano, a associação local de moradores angariou 3.500 assinaturas e fez com o que o governo estadual alterasse o traçado da futura Linha 6, suprimindo estação que seria implantada na confluência da avenida Angélica com a rua Sergipe. De acordo com uma psicóloga signatária do documento, em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, a estação traria para o bairro “drogados, mendigos, uma gente diferenciada”. O que diria Bourdieu desta infeliz expressão, logo ele nascido em Denguin, na região dos Pirineus, fruto de uma “gente diferenciada”, de origem campesina?

Objetivismo nas análises

Observe-se, entretanto, que o documento foi objeto de parcela pouco expressiva, levando-se em conta os 55 mil moradores do bairro, boa parte, inclusive, tendo se manifestado posteriormente favorável à construção da nova obra de transporte público. O que houve, foi, isto sim, uma demonstração do habitus da comunidade supostamente atingida pela possibilidade de uma “gente diferenciada” invadir o seu espaço geográfico e social, comprometendo, na visão deles, o capital simbólico do bairro.

“As representações dos agentes variam segundo sua posição (e os interesses que estão associados a ela) e segundo seu habitus, como sistema de esquemas de percepção e apreciação, como estruturas cognitivas e avaliatórias que eles adquirem através da experiência durável de uma posição no mundo social. O habitus é ao mesmo tempo um sistema de esquemas de produção de práticas e um sistema de esquemas de percepção e apreciação das práticas. E, nos dois casos, suas operações exprimem a posição social em que foi construído” [Coisas Ditas, Pierre Bourdieu; Editora Brasiliense, 2009].

Ao eleger o conjunto de costumes e estilos de vida de um determinado grupo social, Bourdieu ampliou a fronteira do pensamento sociológico predominante até a década de 60, marcado, e muito no Brasil, por linhas ideológicas alicerçadas no marxismo, tese na qual o fator econômico prevalece nas relações entre as classes. Dentro da sociologia, Bourdieu optou pelo objetivismo de suas análises, relegando os pensadores que se direcionavam pela linha subjetivista, na qual a ciência social deveria buscar “uma explicação das explicações (account of the accounts) produzidas pelos sujeitos sociais [Coisas Ditas, Pierre Bourdieu; Editora Brasiliense, 2009].

Presença pouco significativa no “churrascão”

Bourdieu não desprezou Karl Marx, como açodadamente pode parecer, mas ampliou a sua tese com pontos calcados na psicologia e, sobretudo, em dois outros autores. No caso, Emile Durkheim e Max Weber. De seu conterrâneo, Bourdieu apoiou-se na velha máxima durkheimiana, na qual “tratar os fatos sociais como coisas” enquanto que do filósofo alemão, considerado como um mestre do objetivismo, Bourdieu extraiu o conceito de esferas, em que a sociedade é vista como um conjunto de esferas autônomas que dão sentido às ações individuais.

Neste aspecto, pela linha bourdieuana, a divergência em relação ao episódio de Higienópolis pode ser explicada como a expressão de habitus, na qual está contido um poder simbólico, em um campo (ou espaço simbólico), no qual agentes sociais lançam mão de seus capitais (social, cultural, econômico e simbólico) para que prevaleçam as suas vontades.

Entre a divulgação por parte do governo estadual em alterar o trajeto da futura linha de metrô e o evento que ficou conhecido como “Churrascão de Gente Diferenciada” não se passou mais do que uma semana, tempo suficiente para que o assunto fosse agendado por todas as mídias, não de São Paulo, apesar de ser uma questão restrita apenas aos moradores da capital paulista, que tivessem alguma ligação (pessoal ou profissional) com o bairro de Higienópolis. O que se pode chamar de grande novidade foi a forte presença da rede social Facebook – a rede social que mais cresce no planeta, com cerca de 700 milhões de usuários, mais de 13 milhões no Brasil segundo estimativas de junho –, responsável por agendar as chamadas mídias tradicionais (portais, TVs, rádio e mídia impressa) com evento com presença virtual confirmada de mais de 60 mil usuários da rede. Na prática, como era de se esperar, houve uma presença bem menos significativa no “churrascão” realizado no dia 14 de maio, em frente ao Shopping Higienópolis, local situado a alguns quarteirões do foco da disputa. Foram cerca de 600 pessoas, nem todas moradoras do bairro, mas que se aproveitaram do evento para expressar as suas posições.

Capital simbólico de blogs e redes sociais

Embora não tenha vivido a efervescência do jornalismo no campo virtual, (seu trabalho mais específico sobre mídias foi Sobre a Televisão, de 1997), os conceitos de Bourdieu são também aplicáveis ao embate que se travou em blogs e redes sociais durante o período em que o assunto esteve pautado na mídia tradicional. Possivelmente, Bourdieu não consideraria blogs ou redes sociais com o mesmo capital simbólico de tradicionais veículos jornalísticos, mas hoje não há como negar o peso e a influência que estes exercem sobre a opinião pública. Representante de uma linha de humor mais intelectualizada, que poderia ser classificada por Bourdieu como dotada de maior capital cultural, o humorista Danilo Gentili foi protagonista de uma polêmica sobre o tema em razão de um comentário na rede social Twitter [“Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”, postado no dia 13 de maio], no auge das discussões, o que ocasionou uma série de protestos da comunidade judaica, com posterior pedido de desculpas. Em uma análise sobre o papel da rede virtual, é importante lembrar que o episódio veio ainda no calor do embate da disputa presidencial de 2010, quando houve uma cisão entre blogueiros que apoiavam a candidata petista Dilma Rousseff e os que defendiam a candidatura do tucano José Serra. Dentro deste contexto, o jornalista Reinaldo Azevedo, que abertamente apoiou Serra, conduziu a polêmica para um campo mais político [Blog do Reinaldo] ao mesmo tempo em que criticava a postura da associação de moradores, alegando que é morador do bairro e que ignorava a existência da entidade. Por sua vez, o jornalista Luiz Carlos Azenha, igualmente morador da região e apoiador declarado de Dilma em 2010, colocou em seu blog [Blog Vi o Mundo] uma foto de José Serra ao lado de churrasqueira, buscando associar o ex-candidato à frase preconceituosa que gerou a indignação popular.

A herança de Bourdieu para o estudo das relações entre a mídia, o jornalismo e a sociedade foi brilhantemente abordada [“Mídia, jornalismo e sociedade: a herança normalizada de Bourdieu”] pelo professor Jairo Ferreira, da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), que destaca duas obras do pensador francês – La Distinction (2000) e Razões Práticas (1997) – como fundamentais para a análise. Ferreira cita a distribuição por quadrantes formulada por Bourdieu, que estabelece a preferência do público por determinados veículos conforme a posse de capitais culturais e econômicos. No caso da mídia impressa, é mais fácil visualizar essa distinção em função do perfil e a linha editorial do veículo, porém na internet o estudo da população que possui volume maior ou menor de capital cultural e econômico envolve um estudo mais apurado. Embora a internet já seja usual para um contingente entre 81,3 milhões de pessoas (segundo a F/Nazca) e 74,9 milhões (de acordo com Ibope/Nielsen), não há dados concretos de acesso a portais noticiosos e blogs informativos. Portanto, vale aí o capital simbólico dos blogueiros e dos usuários das redes sociais, que podem influenciar (e até mesmo mobilizar) em temas de grande relevância. No parágrafo anterior, os dois blogueiros citados são jornalistas de larga experiência em veículos da mídia tradicional. Já a mobilização no Facebook partiu de um desconhecido usuário da rede e não se pretende ampliar neste texto uma discussão sobre o que e por quê sua postagem conseguiu gerar tamanha mobilização virtual. O fato é que ele se mostrou um potencial líder de opinião na esfera virtual.

“Estratégias de condescendência”

Se associarmos o preconceito como um componente das classes com maior capital econômico, pelo menos no caso em questão, pode-se delinear um quadrante na esfera virtual, no qual os que detêm mais capital cultural e menos capital econômico manifestaram a sua indignação e aqueles com menor capital cultural e maior capital econômico ficaram ao lado da associação, manifestando suas posições em comentários de blogs e em redes sociais.

Após a celeuma, o governo estadual voltou atrás e anunciou a construção da futura estação de Higienópolis, mas em outro local nas proximidades. Isto significou uma vitória dos indignados paulistanos movidos pela mídia e pelas redes sociais? Não há uma resposta conclusiva. Após o “churrascão”, o tema foi paulatinamente desagendado, inclusive na esfera virtual. Teriam sido elas estimuladas a participar por princípios éticos ou foram apenas pelo chamado “efeito manada”? Nestas horas, é de se lamentar que Pierre Bourdieu tenha partido tão cedo, no auge de sua produção intelectual. Talvez, ele mesmo visse o caso sob a ótica das “estratégias de condescendência” [Coisas Ditas, P. Bourdieu; Editora Brasiliense, 2009], segundo as quais os agentes sociais em posição superior negam a distinção social por meio de um discurso e de posturas atenuadoras, o que faria sentido dados os agentes envolvidos. Com a ascensão das mídias digitais, não lhes faltaria material para explicar as cada vez mais frenéticas mudanças no mundo da comunicação.

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[Guilherme Meirelles é jornalista, São Paulo, SP]

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