Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Cadê o repórter?

Por Laudelino José Sardá em 14/04/2009 na edição 533

Tenho de concordar com Ignacio Ramonet (Tirania da Comunicação), de que o repórter virou um ‘instantaneísta’. Vive como neurótico numa luta inglória contra o relógio, na tentativa de ser tão veloz quanto a tecnologia da informação. As suas produções, que acabam gerando mais estresse e frustrações, viram sucata no mesmo dia. Não há mais memória para lembrar história, não há mais exercício da razão para discutir problemas lançados ao futuro, enquanto o presente é visto sob a ótica do sensacional, para que a notícia enriqueça o picadeiro jornalístico, de forma a proporcionar espetáculos inéditos ou requentados ao público, já cansado do ridículo, do cômico.

No dia do repórter (7/4), é muito fácil atribuir a culpa à tecnologia, que veio aposentar a máquina de escrever, acelerar a produção e banalizar o conteúdo na superficialidade da ditadura do jornalista, que decretou o texto curto para não cansar o leitor.

A tecnologia nada tem a ver com a sofreguidão jornalística. A tecnologia foi feita para trabalhar para o homem e este insiste em querer ser até mais veloz que a máquina. E, mesmo assim, além de não conseguir ser mais célere, vive amargurado, neurótico por não se disciplinar diante da avalanche de informações.

Compromisso com a sociedade

Há pouco mais de 15 anos, produzia-se, em média, um jornal diário em 12 horas. O processo era lento e desgastante. Da máquina de escrever saía a lauda que passava pelo editor, voltava, muitas vezes, ao repórter, ou ao copidesque, ia para a diagramação manual, à paginação, enfim, até permitir a produção da chapa para ser afixada no cilindro da impressora, era um verdadeiro calvário. Hoje, não se coloca as mãos em papéis; tudo é automatizado. Até o repórter prefere ficar com o traseiro colado na poltrona e as vistas presas na tela do computador. Ali ele fala com o mundo, inventa texto, compila informações e complica, muitas vezes, a sua própria reportagem. Tudo é tão fácil, tão ágil que se tornou muito difícil, simplesmente pela ausência de um modelo de gestão que recoloque o repórter na rua (para produzir reportagem) e livre os profissionais das alucinações com o mundo encantado da tecnologia.

Sinto saudades, sim, da inquietude do repórter diante de dificuldades de alcançar a fonte de informação e de, muitas vezes, complementar a notícia. Sinto falta do tête-à-tête que permitia o repórter olhar nos olhos do entrevistado para saber se ele mentia, ironizava ou queria tirar vantagem. A reportagem das causas e efeitos sumiu para dar lugar ao descartável, que transformou o crime em manchete permanente. Nos anos 80, manchete de crimes era de jornal sanguinário. Lembro-me do Diário Carioca com esta manchete: ‘Cachorro fez mal a mulher’. E não passou de um cachorro quente.

O repórter perdeu o feeling, o compromisso com a saúde da sociedade, com a população marginalizada. O repórter do terceiro milênio tem medo de subir o morro e de descrever o ambiente promíscuo das favelas, a fábrica de criminosos alimentada por governantes desprovidos de razão social.

Consistência e qualidade

O repórter-burguês, que tem medo de perguntar, de reproduzir a realidade como ela é, de questionar em nome da população as autoridades sobre problemas da cidade, da política, da economia, vive mergulhado em sua autocensura, tudo em nome da falsa imparcialidade, que sempre é desculpa para jornalista não assumir posição. Jornalista bom é parcial, assume postura em defesa da sociedade, das leis, dos princípios éticos.

O repórter vive atordoado na roda-viva da dissimulação, da falsidade ideológica. Ele é instantaneísta; quer estar na vanguarda, para dar a informação sempre em primeira mão.

O repórter não sobrevive na instantaneidade simplesmente porque a informação não é mais matéria-prima exclusiva do jornalista. Qualquer cidadão pode postar a sua informação, a sua notícia sem precisar ter carteira. Mas, com certeza, não será qualquer cidadão capaz de produzir a grande e inusitada reportagem. Por isso, precisamos resgatar o verdadeiro papel do repórter, imune à velocidade, para salvar a profissão do jornalista.

O repórter precisa desacelerar-se para permitir o retorno do jornalismo reflexivo e da consistência e qualidade da reportagem, além de se reencontrar com o texto palatável.

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Professor e jornalista, Florianópolis, SC

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