Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

DIRETóRIO ACADêMICO > LEITURAS DO ESTADÃO

Café, jornais e fritas – mas de qualidade

Por Juliana Sayuri Ogassawara em 09/12/2008 na edição 515

No dia 1º de dezembro, Carlos Alberto Di Franco fez a festa no ‘Espaço Aberto’, na página 2 de O Estado de S. Paulo. Sua primeira frase é expressiva: ‘Os pessimistas me aborrecem’. Di Franco diz que os pessimistas ‘vivem de mal com a vida’. Pessimistas seriam os críticos do jornalismo? Por que não escancarar logo quem são os réus? Linhas depois, diz o autor que ‘algumas críticas ao jornalismo, amargas e corrosivas, têm a garra do pessimismo’. Com uma pitada de ironia, ele diz que, à la Quixote, os pessimistas ‘vivem lutando contra moinhos de vento’.

No início desse texto, podem irromper no mínimo três pontos críticos:

1. ‘Os pessimistas me aborrecem’: a crítica de Di Franco reverbera mais como um suspiro irritadiço do que com uma crítica de fato, como se o autor estivesse simplesmente farto de ouvir o que não quer ouvir;

2. Eles ‘vivem de mal com a vida’ é nitidamente desviar o foco da questão apelando para esquivas absolutamente aquém do contexto: os críticos não querem discutir o jornalismo, esses irritantes cricris, infelizes, só ‘vivem de mal com a vida’;

3. Eles ‘vivem lutando contra moinhos de vento’: nesse caso, ao se referir à atitude quixotesca, o autor dá a entender que as críticas pessimistas são nada mais que ilusões e fantasias.

Cobertura espetaculosa

Os críticos seriam cavaleiros lunáticos que, no mundo contemporâneo mais que perfeito, têm seus rompantes irracionais de raiva infundada contra dragões ilusórios. Os críticos precisariam de dose cavalar desse alucinógeno que transforma a realidade em uma arena sem os tais dragões. ‘O que interessa Theodor Adorno e Walter Benjamin para o trabalho diário de jornal?’, critica Cláudio Abramo na página 138 de A Regra do Jogo.

Feito esse parêntese, retornemos às palavras de Di Franco. Para ele, ‘o jornal, como qualquer negócio, não existe para perder dinheiro’. E com todas as letras diz que ‘a crítica procede de quem perdeu o trem da história ou, pior que isso, não sabe o que é enfrentar o batente’. O desafio de confrontar essa idéia tão rasa faz com que nos tornemos críticos pessimistas? Se for o caso, desculpe, não queríamos arruinar seu bom humor. Neste momento, quantos leitores não estão bebericando uma xícara de café, lendo o jornal e pensando: ‘Sim, esses jornalistas, sim, vivem a história de seu tempo, prostituem suas palavras e com muito suor e algumas lágrimas arcam com os ossos do ofício.’ Perdemos o trem da história? Ou foi o jornalismo que saiu dos trilhos?

Di Franco considera que ‘o jornalismo de escândalo, ancorado num provincianismo aético, é cada vez menos freqüente’. Hã? E a cobertura espetaculosa do ‘caso’ de Isabella Nardoni, da babel causada por Lindemberg Alves, dos escândalos de Daniel Dantas? É simples ‘passado’, pois atualmente o jornalismo-espetáculo é menos freqüente. Quem criticará a mídia se pode contar com um otimismo assim?

Críticas ao léu

No entanto, subitamente, o autor desvia a questão e diz que ‘a `mcdonaldização´ dos jornais é um risco que convém evitar. A crescente exploração do entretenimento em prejuízo da informação de qualidade tem frustrado inúmeros consumidores de jornais. O público-alvo da mídia impressa não se satisfaz com o hambúrguer jornalístico’.

A perspectiva do autor já evidencia um ponto nevrálgico: os jornais se reportam a consumidores – mas onde estão os cidadãos? Se, afinal, ‘a ética do jornalista é a ética do cidadão’ – como nos diz A Regra do Jogo –, o jornalista não possui deliberadamente carta branca para buscar atender prioritariamente aos gostos dos consumidores, porém a empresa jornalística possui uma ética específica, que é a dos donos. De acordo com Di Franco, em tom petulante, esse leitor-alvo é uma ‘fatia qualificada do mercado’, que não quer apenas o hambúrguer. Diria que esse leitor quer a notícia, mas com fritas: ‘informação aprofundada, analítica, precisa e confiável’. É realmente a qualidade do jornalismo que está no jogo?

Não dê ouvidos para as discussões içadas nesse texto. Afinal, devo ser simplesmente uma jornalista pessimista, ‘de mal com a vida’, disparando críticas ao léu, contra o ar, contra ‘moinhos de vento’.

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Jornalista, mestranda em História Social pela USP, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/12/2008 Marco Antônio Leite

    O pessimismo é um estado de espírito contrário ao otimismo, que se caracteriza por se ver as coisas sempre pelo lado ruim.Segundo o dicionário Aurélio, em sua versão eletrônica, pessimismo é a ‘disposição de espírito que leva o indivíduo a encarar tudo pelo lado negativo, a esperar de tudo o pior’.No âmbito filosófico, segundo a mesma fonte, refere-se a um ‘caráter das doutrinas metafísicas ou morais que afirmam a supremacia do mal sobre o bem e costumam levar à adoção de uma atitude geral de escapismo, imobilismo ou conformismo, quer seja o mal considerado a privação dos meios de conservação da vida (alimentação, abrigo, etc.), quer seja considerado a privação dos meios de expansão e desenvolvimento espiritual. Ser pessimista não de todo ruim, o pessista vê tudo de maneira que os defeitos sobrepõem os acertos, assim fica mais fácil de definir o que o autor deseja com sua peça de teatro, filme cinemátograficas, uma partida de futebol, ginastica artistica. Essa visão é importante para nenhum ser humano tire uma nota dez, para que nós possamos evoluir naquilo que nos propusemos fazer como profissional seja que área for. O otimista é aquele que apesar dos desafios que encontramos nesta vida, há lugar sim para uma atitude otimista, um modo de ver a vida da melhor maneira possível. Porém, nem sempre vê a vida de forma correta.

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