Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > AFEGANISTÃO

Capa da Time retrata jovem mutilada

Por Leticia Nunes, de Nova York em 31/07/2010 na edição 600

Quem não se lembra da capa da revista National Geographic com o retrato de uma bonita menina afegã de olhos grandes e assustados? A imagem tirada em um campo de refugiados no Paquistão e publicada na edição de junho de 1985 tem hoje até verbete na Wikipedia. Esta semana, a revista de notícias americana Time traz um retrato de uma afegã de 18 anos. Mas, ainda que lembre a foto da menina dos anos 80 na National Geographic, a capa da Time é bastante diferente.



Aisha, a jovem retratada, teve o nariz e as orelhas decepados por ter fugido de seus sogros, que a maltratavam. Um comandante talibã do vilarejo onde morava a condenou – apesar de suas queixas de que era tratada pela família do marido como escrava – para que outras mulheres não tentassem seguir seu exemplo. Seu cunhado a segurou e seu próprio marido a cortou. Ela hoje vive escondida em um abrigo para mulheres e, com a ajuda de uma organização humanitária da California, deverá viajar aos EUA para passar por uma cirurgia reparadora.


A foto da capa é acompanhada por uma história forte de como as mulheres afegãs abraçaram as liberdades conquistadas com a queda do Talibã, e como elas temem a volta do regime. Aisha decidiu posar para a foto porque ‘quer que o mundo veja o efeito que a volta do Talibã teria para as mulheres no Afeganistão’, diz um artigo do editor Richard Stengel no site da Time.


Choque


Stengel diz que pensou muito antes de publicar a imagem, em primeiro lugar preocupado com a segurança de Aisha. ‘Eu queria ter certeza de que ela entendia o que significa estar na capa’, conta. ‘Ela sabe que se tornará um símbolo do preço que mulheres afegãs têm que pagar pela ideologia repressora do Talibã. Nós também confirmamos que ela está em um lugar secreto protegido por guardas armados e mantido pela ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs’.


A segunda preocupação do editor era com o choque que a imagem poderia causar – principalmente em crianças. Ele afirma que consultou psicólogos e mostrou a foto para seus dois filhos, de nove e 12 anos. ‘Eles imediatamente sentiram pena de Aisha e perguntaram por que alguém faria tanto mal a ela’, conta.


Discurso militar


Stengel defende, no texto, a decisão de publicar a foto. ‘Peço desculpas aos leitores que acharem a imagem forte demais. Mas coisas ruins acontecem com as pessoas, e é parte do nosso trabalho confrontá-las e explicá-las. No fim das contas, eu sinto que a imagem é uma janela para a realidade do que acontece – e do que pode acontecer – em uma guerra que afeta e envolve a todos nós’, diz.


Do lado da imagem de Aisha, a manchete diz: ‘O que acontece se sairmos do Afeganistão’. ‘Eu prefiro confrontar os leitores com o tratamento de mulheres pelo Talibã do que ignorá-lo. Eu prefiro que as pessoas saibam a realidade quando formam suas opiniões sobre o que os EUA e seus aliados deveriam fazer no Afeganistão’, defende Stengel.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/08/2010 Carolina Faria

    São justas as restrições às religiões e ao fanatismo, mas dizer que esta atrocidade é o islamismo é reducionismo demais. Todo povo islâmico é formado de psicopatas carniceiros? A Time e sua manchete são tendenciosas.

  2. Comentou em 02/08/2010 sergio ribeiro

    É válida a foto por mostrar ao mundo o absurdo em que vivem as mulheres naquela região, mas, como já foi citado por outros internautas, os americanos reclamam de um monstro que eles próprios criaram, como o Bin Laden, e estão lá desde 2004. Se não mudaram a situação até agora, mas mudar depois.
    Pode ser visto também como uma ‘resposta’ às denúncias do site Wikileaks, que vazou 92 mil relatórios mostrando abusos de todo o tipo perpetrados pelos exércitos americanos e paquistaneses: massacres de civis, amputações, bombardeios, etc. sem clara justificativa.
    E como o governo americano reagiu? Mandou uma proposta ao congresso de aumento de verbas para continuar a guerra, ou seja, mais matanças e absurdos numa guerra caótica, que não tem uma justificativa clara para ser continuada.

  3. Comentou em 02/08/2010 Carlos n Mendes

    A CORAGEM para publicar algo desse valor, na que talvez seja a revista semanal mais importante do mundo, mostra qual a diferença entre fazer jornalismo e fazer pãozinho. Parabéns aos editores da TIME.

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