Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Carta aberta ao presidente do STF

Por Ana Paula Bravo em 30/06/2009 na edição 544

Ilustríssimo senhor doutor ministro do STF

Gilmar Mendes

Aos 17 anos, ingressei na universidade. Por uma questão de imaturidade, optei pelo curso de Letras (Português/Literatura), que cursei por dois anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao final desses dois anos, descobri que a minha verdadeira vocação era o jornalismo.

Tranquei o curso de Letras e prestei vestibular para Jornalismo em uma universidade privada do Rio de Janeiro. Ao fim do primeiro ano de curso, minha avó, que era quem custeava os meus estudos e já tinha 83 anos, chamou-me para uma conversa. Ela tinha medo de morrer antes que eu pudesse me formar e, com isso, eu ser obrigada a parar de frequentar as aulas, já que meus pais não teriam condições de arcar com a despesa.

Atendendo ao seu conselho sensato, inscrevi-me em um outro vestibular, desta vez para a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde poderia concluir o curso dando tranquilidade a minha avó e garantindo o diploma gratuito.

No final do segundo ano do curso de Jornalismo, engravidei do meu namorado, que mais tarde tornou-se meu marido. Por dois anos e quatro meses, fui levando o curso como podia, já que tinha um bebê em casa, não tinha babá, mas ainda acreditava que a luta compensava. Ao final desse período, meu marido foi transferido a trabalho para a capital mineira, Belo Horizonte, tendo eu que acompanhá-lo, juntamente com meu filho, sob pena de ser acusada de ‘abandono de lar’, como previa o Código Civil da época.

Um novo vestibular

Mesmo morando a quase 500 km do estado do Rio de Janeiro, me aventurava de ônibus pela estrada, para que meus estudos não fossem interrompidos pela distância do meu domicílio. Como meu filho ainda era pequeno e me acompanhava nas viagens, cursava um período e trancava outro, para a ‘labuta’ não ficar tão pesada, nem para mim nem para a criança. Durante todo esse tempo, eu tentei transferir meu curso para a capital mineira sem sucesso.

Em 1994, perdi um grande amigo em um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, o que me deixou profundamente deprimida, com a morte súbita de um rapaz jovem, cheio de saúde, capitão da Marinha, aos 29 anos, e que ‘foi dessa para melhor’ graças a um motorista bêbado que cruzou a pista na contra-mão no meio da noite. A partir de então, resolvi viajar sozinha, para não expor meu filho a uma situação parecida, já que ninguém está livre de morrer pelas mãos de um alcoolizado que se acha no direito de atentar contra a sua própria vida e a vida dos outros.

A essa altura do campeonato, eu já estava praticamente sendo jubilada da UERJ. Foi quando decidi que faria um novo vestibular, dessa vez para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mesmo ciente de ter concluído o segundo grau há cerca de 10 anos e de que estaria concorrendo de igual para igual com vestibulandos de cabeça fresquinha naquele que seria, na época, considerado o vestibular de maior grau de dificuldade da América Latina.

Justiça ou gozação?

Para lograr êxito nas provas do vestibular, matriculei-me em um curso desses super-hiper-ultra-mega-blaster intensivo, que começam suas aulas em fins de agosto e terminam às vésperas do vestibular. Enquanto eu ia para o cursinho, que era à noite, meu filho ficava com a empregada e meu marido resolveu aproveitar ‘as férias conjugais no período noturno’ para gandaiar. Enquanto eu estudava para o vestibular, meu marido arranjava uma amante, com quem veio a se casar pouco mais de um ano depois, tendo mais dois filhos e reduzindo consideravelmente a pensão alimentícia que pagava para o filho mais velho (o meu!).

Quanto a mim, passei no exame. Ah, só a título de curiosidade: fui a única aluna do cursinho a passar para o vestibular da UFMG. Concluí o curso em menos de dois anos, mas apesar de formada em dezembro de 1998, só fui diplomada em julho de 1999, graças a uma greve de quatro meses que atingiu todo o ensino superior federal do país na época.

Depois de formada, trabalhei gratuitamente em diversos órgãos porque na minha época de estudante era proibido o estágio. O meu primeiro emprego como jornalista foi em uma pequena empresa de assessoria de imprensa, onde eu ganhava míseros R$ 500 reais para apurar, redigir, editar e ainda corrigir os textos da chefe, que sabia menos português do que eu. Além disso, servia cafezinho, lavava banheiro, tirava pó dos móveis e limpava o chão da sala onde funcionava a empresa.

O meu segundo emprego como jornalista foi em um jornal onde trabalhei por quase seis anos e, no final deles, passei a trabalhar por seis meses sem salário. Estou desempregada há quase dois anos, vivendo de ‘frila’ e esperando que meu ex-patrão honre uma dívida de mais de R$ 74 mil reais que tem comigo, tendo sido a causa trabalhista ajuizada, julgada e já até executada por um de seus colegas.

Agora me diga, ilustríssimo senhor, depois de tanto perrengue para conseguir um diploma de jornalista, o senhor vem dizer que bastava eu saber cozinha e costurar – coisas que, aliás, não sei fazer porque gastei o tempo que tinha queimando neurônios com textos de Semiótica, teoria da Comunicação, Filosofia, Sociologia, Psicologia, Direito (inclusive!), Estatística etc. – para assinar uma matéria como jornalista num veículo de imprensa?

Isso é justiça ou é gozação?

******

Jornalista, Goiânia, GO

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