Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > CHECKBOOK JOURNALISM

Caso Paris Hilton levanta debate sobre entrevistas pagas

28/06/2007 na edição 439

A excessiva cobertura, nos EUA, da prisão da patricinha Paris Hilton terminou como um problemão para as grandes emissoras televisivas do país. Na disputa para conseguir a primeira entrevista da herdeira dos hotéis Hilton após sua saída da cadeia, NBC e ABC acabaram virando, elas próprias, a notícia. Pipocaram nos jornais, nas últimas semanas, especulações de que as duas redes estariam negociando com a família Hilton pela entrevista de Paris. A NBC teria saído vitoriosa, com uma oferta de US$ 1 milhão.


As críticas ao chamado ‘checkbook journalism‘ – ou ‘jornalismo de talão de cheque’, em que entrevistas são compradas – foram tantas que todas as supostas negociações e acordos foram cancelados. No fim da semana passada, o pai da jovem presidiária, Rick Hilton, declarou que a primeira entrevista da filha seria concedida ao apresentador Larry King, do canal a cabo CNN, e que não haveria pagamento nenhum por isso. Ao mesmo tempo, ABC e NBC foram rápidas em afirmar que não haviam tentado fechar acordo com os Hilton, e que tudo não passava de especulações mentirosas.


‘A NBC News não paga por entrevistas, e ponto final’, afirmou, categoricamente, Allison Gollust, porta-voz da NBC News, ao explicar por que não era possível a história da oferta milionária. ‘Ela está errada’, diz, também categórico, o jornalista e professor David Blum, em artigo opinativo publicado no New York Sun [27/6/07]. ‘A NBC News já pagou por entrevistas. A CBS e a ABC também. Elas apenas não gostam quando o interessado leva a público os termos do acordo – ou quando, no caso Hilton, o valor não se justifica’.


De Nixon a Paris


Segundo Blum, a CBS News foi a primeira emissora a assinar um cheque em troca de uma entrevista. Foi em 1975, quando H.R. Haldeman, ex-assessor de Richard Nixon, recebeu US$ 100 mil. Pouco mais de três décadas depois, as emissoras ainda sentem vergonha quando são flagradas neste intercâmbio de interesses. ‘Não deveriam’, diz o jornalista, que justifica sua opinião com um exemplo: a primeira entrevista de Nixon após sua renúncia, concedida ao apresentador britânico David Frost, em 1977. No ano passado, a história virou peça teatral premiada na Broadway, ‘Frost/Nixon’, que ‘documenta o triunfo e a legitimidade do checkbook journalism, ao mostrar a ganância de Nixon – que teria recebido US$ 600 mil para falar com Frost, depois que a NBC e a CBS retiraram suas ofertas’.


Para a alegação de que o ato de pagar por uma entrevista anula a independência editorial do entrevistador, Blum lembra que, apesar de haver uma proibição por escrito em abordar o escândalo Watergate durante a entrevista de Nixon, a primeira pergunta de Frost foi justamente sobre o tema – e sem conseqüências. Blum acredita que, fosse na NBC a entrevista de Paris Hilton, a apresentadora Meredith Vieira seria muito mais dura com a patricinha do que o afável Larry King. No programa exibido na noite de quarta-feira (27/6), um dia após sua libertação, Paris disse que aprendeu com a ‘experiência traumática’ e que hoje se sente uma nova pessoa.


Troca de favores


Basicamente, o que Blum tenta dizer é que quando as emissoras alegam que não pagam por entrevistas, elas simplesmente ‘estão mentindo’. Quando a troca não é feita em dinheiro, há outros benefícios disponíveis. Há alguns anos, a CBS News teria feito uma proposta de entrevista para a soldado Jessica Lynch – que foi prisioneira de guerra no Iraque e ficou famosa ao ter um resgate cinematográfico – no programa 60 Minutes. Em troca, ela ganharia uma aparição na MTV, um possível acordo literário com a editora Simon & Shuster e garantia de cobertura no noticiário CBS Evening News.


Quando Michael Jackson foi entrevistado para o mesmo programa, em 2003, o New York Times noticiou que a emissora pagou US$ 1 milhão ao cantor. A CBS, em um primeiro momento, negou. Mas fontes do canal disseram posteriormente que havia sido fechado um acordo por um especial no horário nobre para promover o novo disco de Jackson – em troca de aparição exclusiva no 60 Minutes. A entrevista deu ao programa sua maior audiência, em quatro anos, entre telespectadores na faixa de 18 a 49 anos.


Publicidade negativa


Para Blum, o acordo com Paris Hilton desandou porque o alto preço se mostrou vergonhoso. ‘As divisões de notícias das emissoras não assinam cheques sem garantir que estão fazendo um bom negócio’, explica. Há sempre, nas negociações, garantias de promoção, participações em diversos programas, pagamentos por fotos pessoais e outros custos menores. Depois da chuva de críticas nos jornais, as emissoras teriam concluído que não havia sentido em pagar por mais publicidade negativa.


Blum defende que, ‘para o telespectador comum, que entende que toda programação televisiva tem seu preço’, o pagamento a Paris Hilton teria feito sentido. Ele critica, entretanto, os jornalistas de veículos impressos, que teriam se tornado ‘um bando de presunçosos’ ao fazer duro policiamento dos negócios das emissoras de TV. ‘Isso abre um precedente perigoso?’, teria questionado James Reston, colunista do New York Times, em 1975, na ocasião da entrevista de Haldeman na CBS. ‘Esta prática borra a fronteira entre entretenimento e informação’, sentenciou.


 

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