Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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DIRETóRIO ACADêMICO > NOVAS TECNOLOGIAS

Como formar o jornalista multimídia

Por Thaïs de Mendonça Jorge em 26/08/2008 na edição 500

Para que a notícia chegasse à internet, teve que percorrer um caminho que vai da tradição oral aos computadores, passando pela civilização caligráfica, adaptando-se à era das máquinas até alcançar a eletrônica e a digitalização. De boca a ouvido, da Idade da Pedra aos trovadores, jograis, seresteiros, cantadores, essa trajetória não apenas pressupôs a conjugação da tecnologia com a inteligência humana, como acompanhou e documentou o desenvolvimento de novos valores na sociedade.

A invenção do chip tem a ver com a eletricidade porque, sem ela, ele não seria produzido. O teclado está ligado à máquina de escrever, mas poderia ter sido inventado independente daquela. Se o sistema de transmissão de informações por via digital não tem ligação direta com os tambores dos primórdios da comunicação, herdou desses um código de valores que advém da própria necessidade de trocar informação e de controlar à distância. Vivemos hoje um fenômeno inédito: a troca agora é imediata e a conexão se faz com qualquer parte da Terra, estando previsto que chegue a Marte no ano 2020.

Uma das primeiras notícias a circular foi provavelmente a da descoberta do fogo. Assim como a informação sobre a utilidade da roda, a descoberta da eletricidade e do magnetismo, a revelação do segredo de fabricação do papel, o telégrafo e o telefone celular – todas têm relação, maior ou menor, com a história da imprensa. O fogo funde as barras de chumbo do linotipo; a roda é a base da rotativa; as fitas magnéticas giram nos gravadores; sinais são transmitidos por ondas sonoras, milhares de bits se movimentam pelas redes de fibra ótica.

Educação, alfabetização e consumo

O desenvolvimento da mídia e o progresso dos transportes sempre correram em paralelo. Melhoramentos nas estradas e a disseminação das estradas de ferro, acrescidos, já na virada do século 19, pelo uso do telefone, reforçaram a figura dos correspondentes estrangeiros, viajantes que, desde o século 13, já andavam por aí a vender sua sabedoria. Esse jornalismo do leva-e-traz, dos tropeiros aos motoristas de caminhão, das calçadas às barbearias, das igrejas aos shoppings sobrevive nos blogs e põe a população a par das histórias do dia-a-dia.

Antigas invenções, como o papel, demoraram séculos para estar disponíveis ao público. Hoje, isso é questão de dias, de horas ou segundos. Com a mecanização – a partir da Revolução Industrial, no século 19 –, a empresa pôde se estruturar. Os jornais impressos viram crescer as tiragens e, com o barateamento do custo de produção, aumentou o número de pessoas que podiam comprar os produtos. A educação tornou-se um direito, a alfabetização se difundiu e consumidores foram incorporados ao mercado.

Olhar de diferentes ângulos

As novas tecnologias da informação e da comunicação são pervasivas (cruzam todas as direções) e invasivas. Elas nos atingem e modificam as nossas vidas. A notícia se beneficia das novas tecnologias e se torna cada vez mais presente. Tudo está conectado. Os habitantes das grandes cidades, hoje, não compram máquinas de escrever. Mas os aspectos sociais da tecnologia não começam só quando um produto tecnológico é assumido pelas pessoas, como é o caso do computador: eles permeiam toda a sociedade. O mercado atual já não exige que o profissional tenha diploma de datilógrafo. Outros conhecimentos são requeridos:

** manejar conceitos vinculando diferentes áreas do conhecimento;

** ter habilidade de selecionar informações e aplicá-las no cotidiano;

** ter capacidade para enfrentar desafios, empreender, trabalhar em grupo, renovar conhecimentos [DIMENSTEIN, G. ‘Você compraria uma máquina de escrever?’, Folha de S.Paulo, 30 set. 2007].

O profissional do jornalismo que as empresas estão buscando é, atualmente, um superjornalista, um hiperjornalista, um jornalista multimídia. Ele necessita dar conta de várias tarefas a um só tempo e dele são exigidos: saber onde está a notícia; ter bagagem cultural; gostar de tecnologia; ter domínio do idioma português; ter domínio de pelo menos uma língua estrangeira; ser rápido [JORGE, T.M. A notícia em mutação. Estudo sobre o relato noticioso no jornalismo digital. Tese de doutorado. Brasília: UnB, ago. 2007]. Como observou Dimenstein, ‘os veículos de comunicação serão avaliados menos pela quantidade de suas notícias exclusivas do que pela aptidão de antecipar tendências. Antecipar tendências é a tradução da habilidade de olhar de diferentes ângulos e ver no presente aquilo que terá alguma relevância no futuro’.

Bancos escolares e fechamento real

No Modelo de currículo para o ensino do jornalismo em países em desenvolvimento e democracias emergentes, elaborado por renomados jornalistas do mundo inteiro a pedido da Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura (Unesco), grande ênfase é dada à correção da linguagem e do uso das ferramentas técnicas para melhor comunicar. Não se concebe um jornalista que não domine seu idioma natal e até outros: incentiva-se a formação de jornalistas em outras línguas nativas, como as línguas indígenas.

O Manual do Foca. Guia de sobrevivência para jornalistas [JORGE, T.M. Manual do Foca. Guia de sobrevivência para jornalistas. São Paulo: Contexto, 2008], que está sendo lançado pela Editora Contexto, parte do pressuposto de que o jovem que se matricula em um curso de Comunicação e escolhe a habilitação Jornalismo necessita ter contato rapidamente com uma série de instrumentos, técnicas, ferramentas, a princípio, muito complexos. Esse ‘jornalista novato; bisonho, inexperiente’ [FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004] pode ficar como um peixe fora d’água em seus primeiros dias numa redação, mesmo que tenha sido bem formado pelos currículos das universidades: é que existe uma grande diferença entre a prática nos bancos escolares e a do dia-a-dia do fechamento real.

Um profissional completo

No Brasil, a palavra foca, no jargão jornalístico, define os principiantes – que fuçam tudo e são um pouco desastrados; tem como correspondente, nos Estados Unidos, o termo cub, que significa filhote, ou o escoteiro lobinho. Todo bom jornalista se considera eternamente foca porque a notícia não é um material disponível, pronto, finalizado, na sociedade. É preciso colher, selecionar e tratar os fatos (e não todos eles) para que se tornem relatos dignos de ser lidos e com informações relevantes para o público. Então, todos podemos errar, mal-avaliar, sub-avaliar e nos surpreender com a realidade sempre nova do mundo da vida.

O Manual do foca visa a esclarecer pontos e princípios básicos da profissão e dar dicas para pessoas que valorizam a informação jornalística como ferramenta democrática e de cidadania. Assim, mostra as melhores práticas, que cada um pode desenvolver no cotidiano, contribuindo para o aperfeiçoamento da sociedade e a qualidade de vida da população. O livro quer, enfim, ser companhia para o estudante – candidato a um lugar no mercado – e para o jornalista, a fim de que possam chegar a ser, mais que um jornalista multimídia, um profissional completo. Que possa, inclusive, fazer a crítica da própria mídia.

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Jornalista, doutora pelo curso de Pós-Graduação em Comunicação da UnB, pesquisadora do Nemp

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