Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1020
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Comunique-se

14/03/2006 na edição 372


MST & MÍDIA
Carlos Chaparro


O poder de manipular, no mundo da notícia, 10/03/06


‘O XIS DA QUESTÃO – A destruição do viveiro florestal da Aracruz mostra que o
poder de manipular deixou de pertencer às redações. O noticiário repetido em
todas as mídias não resulta de qualquer acordo maluco entre editores rivais. Mas
da contundência irrecusável dos fatos e conteúdos que os protagonistas da
atualidade produzem, fora das redações. E é preciso descobrir, com urgência, que
papéis novos – culturais e éticos – o jornalismo deve assumir, nesse mundo
movido a notícias que os jornalistas não controlam mais.


1. Lógicas do agir


Quando um juiz diz ‘eu condeno’ ou ‘eu absolvo’, realiza aquilo que pode ser
chamado de ato de fala perfeito. A ação acontece no momento em que a palavra é
dita. E, ao ser dita, a palavra produz a ação que anuncia.


Mas, para que assim seja, é indispensável que tais atos de fala aconteçam em
lugar apropriado, dentro dos ritos formais que dão expressão pública ao poder
exercido pelo falante. Um juiz, por exemplo, não pode absolver ou condenar fora
do ambiente solene do tribunal.


A questão do lugar, das circunstâncias e das maneiras de dizer coloca-se,
igualmente, nos casos em que, em vez de agir quando diz (como no exemplo do
juiz), o sujeito fala pelo que faz. E para este caso, quero propor, como exemplo
e objeto de reflexão, a recente invasão de uma fazenda da Aracruz Celulose, no
Rio Grande do Sul, com a destruição de um viveiro florestal cientificamente
controlado. Foram inutilizadas cinco milhões de mudas de eucalipto.


Durante a ação, ninguém disse nada, verbalmente. Mas o agir do grupo invasor
foi rigorosamente controlado por cuidados e procedimentos de uma lógica que deu
imediato e extraordinário poder expressivo à ação realizada. O dito não precisou
de palavras.


Assim como o juiz necessita da solenidade dos tribunais para dar poder e
efeitos de ação ao que diz, a Via Campesina, e o ‘padrinho’ MST, só alcançaram
sucesso discursivo porque articularam previamente a cobertura jornalística do
acontecimento, para a indispensável socialização do ‘dito’, em forma de notícia,
por jornais, rádios e televisão.


O lugar físico onde as coisas aconteceram (o viveiro florestal da Aracruz, em
Barra do Ribeiro) e as formas dadas ao acontecido foram, apenas, variáveis da
materialidade dos fatos, para nutrir de elementos dramáticos a narração
jornalística. O espaço verdadeiramente escolhido, para a realização eficaz da
verdadeira ação, foi o espaço abstrato, universal, da difusão jornalística.


Ou seja: a verdadeira ação realizada não se localizou no espaço concreto do
acontecimento, mas no espaço abstrato da notícia. Para que assim pudesse ser, os
sujeitos da ação precisaram da colaboração e do aval da intermediação
jornalística, sem a qual nada teria acontecido, além da destruição material de
um viveiro de eucaliptos.


2. A grande questão


Terão sido os jornalistas manipulados, ou usados como meros instrumentos,
pelos sujeitos da ação?


A questão propõe um debate que me parece oportuno fazer – e não só por causa
da importância e da repercussão da ação política das mulheres da Via Campesina,
apadrinhadas pelo MST. Mas, principalmente, porque, nos atuais cenários da
produção de acontecimentos para o relato jornalístico, a pergunta se poderia
colocar à esmagadora maioria dos acontecimentos pautados e noticiados pelas
redações.


Nos meus tempos de repórter, a pergunta não teria sentido. Nesses tempos,
ações políticas contundentes, como essa da destruição do viveiro da Aracruz,
eram planejadas e realizadas longe dos olhares e ouvidos de jornalistas. Bem
longe, quanto mais longe melhor. Se queríamos a notícia, tínhamos de ir à luta,
atrás de fontes que se deixassem seduzir e se dispusessem a falar.


Tudo mudou. Neste mundo atual, de sujeitos institucionalizados, que
aprenderam a agir no mundo pela notícia, as pautas e os agendamentos
jornalísticos são previamente alimentados por quem produz os acontecimentos e,
portanto, gera os conteúdos socializáveis.


Daí, a tolice de discutir jornalismo pelos critérios e conceitos de um mundo
que não existe mais. Os jornalistas, e o jornalismo, estão diante de problemas
novos, nem melhores nem piores que os de antigamente, mas diferentes. E bem mais
complexos. Um deles, a capacidade que os sujeitos produtores da atualidade têm
de pautar as redações e os meios.


3. Alguns argumentos


Com o propósito de ajudar à discussão, deixo aqui algumas idéias e/ou
informações que me parecem importantes:


a) A saudade não é um bom caminho para a discussão. Quer a gente goste ou não
do mundo atual da notícia, ele não andará para trás. A revolução das fontes já
eclodiu. E alcançou estágios de plena exuberância, com a manifestação diária da
colocação dos mesmos conteúdos em todas as mídias.


b) Não interessa à discussão que proponho o julgamento das ações da Via
Campesina ou do MST. O que fizerem está feito. E são inexoráveis os efeitos
produzidos, alguns deles provavelmente mal calculados.


c) Ouvi na Rádio Bandeirantes o depoimento de um repórter gaúcho que
acompanhou a ação da Via Campesina e do MST. Disse ele que os jornalistas (de
jornais, rádio e TV) foram convidados a encontrar o grupo invasor, na madrugada,
em um certo lugar do caminho, com o compromisso de manter o acordo sob sigilo.
De nada foram informados. Não sabia aonde o grupo ia nem o que ia fazer. Apenas
deviam estar lá, para olhar, fotografar e filmar. Sem entrevistas e sem a
possibilidade de identificar pessoas.


d) Organizações como a Via Campesina e o MST não existem para invadir
viveiros florestais ou fazendas. Mas para mudar a ordem política, até por não
acreditarem na viabilidade da reforma agrária no atual regime de leis e poderes.
Agem, portanto, em táticas de insurreição, que servem à estratégia de uma certa
luta contra um certo poder dominante, que deve ser, senão destruído, pelo menos
confrontado com agressividade e violência. Essa é a lógica da insurreição.


e) No atual cenário das formas de produção da atualidade, o poder de
manipular não está mais nas redações. O noticiário repetido, em formas e
conteúdo, nos espaços de todas as mídias, não resulta de qualquer acordo maluco
entre as redações. Mas da contundência irrecusável dos fatos e conteúdos que os
protagonistas da atualidade produzem. Protagonistas que não estão nas redações,
mas no espaços externos onde se dão os fatos e os confrontos do mundo de hoje.


f) O mundo de que falo não é só um mundo de fatos e confrontos. É, também, um
mundo mecanismos culturais e de razões éticas. Mecanismos e razões que, de
alguma forma, dão sentido e balizamentos aos confrontos e fatos noticiáveis.


Não se trata de destruir esse mundo, até porque falta aos jornalistas tal
atribuição e tal poder. Trata-se, sim, de descobrir os papéis novos – culturais
e éticos – que o jornalismo deve assumir.’


JORNALISMO ECONÔMICO
Eleno Mendonça


Se a gripe do frango é inevitável…, 13/03/06


‘Há uns dois meses encontrei o responsável pela exportação de uma grande
produtora nacional de frango. Ele estava apavorado. Me contou que estavam se
reunindo com as lideranças do setor e tentando buscar formas de minimizar ou
combater os efeitos diretos e indiretos da gripe aviária. Ele então me perguntou
o que eu achava. Tínhamos acabado de assistir à descoberta de focos de aftosa no
Brasil, na fronteira com o Paraguai. Disse a ele que, na minha opinião, o setor
deveria olhar o que aconteceu, pois se daria o mesmo com o frango. No mesmo
instante em que se descobrir um caso apenas, caso isso venha a ocorrer, todos o
plantel de aves estará seriamente comprometido.


Estou tratando desse assunto aqui porque acho que a aposta do Brasil na
produção de aves é muito grande e o número de empregados no setor e os volumes
de exportação estão sim seriamente ameaçados. Em muitos países do mundo, o
frango desapareceu do cardápio. Só no mês passado as exportações caíram 7,8%, ou
50 mil toneladas. Li que se as vendas caírem 15% por conta apenas do temor do
consumidor externo, o Brasil perderá US$ 525 milhões. Apenas por isso já é
possível vislumbrar uma crise setorial, com demissões em muitos abatedouros e
frigoríficos, problemas locais em algumas cidades que têm no frango base de sua
economia.


Todo esse cenário ruim está acontecendo sem que haja uma ligação direta da
gripe com o Brasil, é bom lembrar. Mas estou escrevendo sobre esse tema porque
na semana passada a revista IstoÉ trouxe a gripe do frango numa edição de capa
que assustava o mais cético. A Veja trouxe o assunto também com destaque. Alguns
jornais têm falado aqui e acolá sobre o tema e depois as revistas ampliaram a
cobertura. Muitas pessoas acham que há um certo exagero da mídia. Eu acho que
não. A despeito de haver um risco econômico importante, na medida em que tratar
do assunto e expor o problema pode afetar prematuramente o setor de frango, não
há dúvida de que o governo e as empresas precisam se dar conta de que o risco é
grande e a população precisa não só tomar conhecimento, como também se
prevenir.


O assunto é realmente de dar pânico. Lembra historicamente a gripe espanhola.
O problema dessas crises que aparecem de tempos em tempos é que quase nenhum
país está realmente preparado. Por isso a imprensa tem de acompanhar o tema com
a máxima atenção, do contrário os governantes, e não só do Brasil, poderão dizer
depois que não tinham sido suficientemente alertados a respeito. Mais uma vez
entra o que chama de papel verdadeiramente social da imprensa.


No caso da gripe do frango, os jornais deveriam explorar o assunto sob todos
os ângulos, econômico, social e científico. É preciso mostrar em que pé estão os
preparativos e tentar forçar o governo a dedicar mais tempo e dinheiro ao
assunto. Ou seja, deve virar, nas redações, pauta não só obrigatória, mas com o
máximo de criatividade para permitir que todos os aspectos sejam contemplados e,
caso a gripe seja inevitável, que assim como no caso do combate à aids, de novo
possamos servir de exemplo.


É para se ter medo das conseqüências? Na minha opinião, sim, até porque é bom
lembrar que se com a febre aftosa, velha conhecida, há anos o Brasil dedica
dinheiro e tempo e ainda assim surgem casos de tempos em tempos, o que podemos
esperar de uma gripe que viaja com pássaros, sem limites e
controles?’


ENTREVISTAS PAGAS
Milton Coelho da Graça


Os ratos são antigos na televisão, 8/03/06


‘A desonestidade de Ratinho com seus espectadores, recebendo ‘grana por fora’
para entrevistar o presidente Lula em seu programa, de jeito nenhum é coisa nova
na televisão. Agora ou recentemente, malandros alugam horários em uma emissora e
ganham um dinheirinho cobrando dos ‘entrevistados’. Um deles até pretende ser
candidato a deputado este ano, de olho em faturamento maior.


Em 1962, esse golpe foi aplicado em grande escala no Brasil pelo IBAD
(Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que levantou muitos milhões de
fontes empresariais nacionais e estrangeiras, com o objetivo de influir no
resultado das eleições estaduais naquele ano (não havia então coincidência de
mandatos com o do Presidente da República). O líder aparente do IBAD era
Gilberto Huber, dono das Listas Telefônicas, mas o verdadeiro cérebro era o
General Golbery do Couto e Silva, depois organizados e chefe do Serviço Nacional
de Informações.


O grosso da grana foi concentrado em Pernambuco, onde Miguel Arraes, prefeito
de Recife, enfrentava o candidato conservador, João Cleofas. Para enfrentar o
total domínio dos meios de comunicação, Arraes acertou com Samuel Wainer o
lançamento de uma edição pernambucana de ÚLTIMA HORA, a quatro meses da eleição.
Samuel mandou a Recife Múcio Borges da Fonseca (como diretor) e eu (chefe de
redação).


Arraes venceu e assumiu. Por divergências salariais, acabei saindo de UH no
ano seguinte e fui ser editor do Diário da Noite (vespertino ligado ao Jornal do
Comércio).


Amigo e boa fonte no governo, o Secretário de Segurança de Arraes, coronel do
Exército Hangho Trench (a quem Pernambuco e o Brasil até hoje não renderam a
homenagem devida por sua dedicação democrática), me colocou na pista do antigo
secretário-executivo do IBAD em Pernambuco. Esse pilantra, da mesma forma como
se colocara a serviço da safadeza, oferecia-se agora – também por dinheiro, é
claro – para entregar cópias de cheques que haviam sido pagos pelo IBAD como
suborno, inclusive a jornalistas e apresentadores de televisão.


O mais famoso deles era Ruy Cabral, cujo programa ‘Cadeira de Engraxate’, na
TV Jornal do Commercio, era líder de audiência. Quem tiver acesso à coleção do
Jornal do Comércio, poderá encontrar minha reportagem com fac-similes de vários
cheques. A publicação em um jornal do mesmo grupo da TV só foi possível pela
integridade do diretor do JC, o íntegro Esmaragdo Marroquim.


E, se alguém estiver interessado na história da corrupção na comunicação,
pode encontrar esse interessante episódio na coleção do jornal (não recordo a
data certa, mas foi entre junho e setembro de 1963).


Ratinho é apenas um sucessor de Ruy Cabral. E muito bem
sucedido.’


JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu


Crime hediondo, 9/03/06


‘Não sei que dia é este. / A tarde, felizmente, não tem nome. / Olho da
janela para um mar distante / E escondem-se os navios. // Alto, num céu quase
impossível, / O silêncio das nuvens antecipa a noite: / Minha única pátria. (De
Orley Mesquita, poeta morto em Recife.)


Crime hediondo


Deu no Maskate, de Manaus:


Garoto tarado come velhinha de 90 anos


A aposentada Severiana Assunção, de 90 anos, foi vítima de um estupro, no
início da última quinta-feira, no bairro Jorge Teixeira. O autor foi um menino
de 15 anos, de acordo com informações de policiais do 7º Batalhão da Polícia
Militar (…).


Leia no Blogstraquis os detalhes desta bizarra cena brasileira, à qual se
referiu o apavorado Janistraquis:


‘Considerado, ainda bem que minha avó já morreu…’


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Vigias do bem


Disseram por aí que o Museu da Chácara do Céu, de onde roubaram quadros
valiosíssimos de pintores célebres, era vigiado por seguranças desarmados. O
colunista repete: seguranças desarmados. Ao conhecer detalhes desse verdadeiro
espetáculo de donzelice, Janistraquis ficou com aquela cara de otário do Andrea
Matarazzo quando lhe arrancaram do pulso o Rolex de ouro:


‘Considerado, vigia sem arma não é vigia de coisa alguma. Bandido só respeita
o vigia que, armado de carabina calibre 12, possa decapitá-lo com um tiro
sensacional; o resto é veadagem desses cretinos politicamente corretos que andam
a infestar a Nação.’


Assino aqui embaixo. Sem a carabina calibre 12 não se vigia nem a própria
bunda.


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Aaaahhhhh!!!


Saiu no blog do sempre bem informado Josias de Souza: Relatório da PF isenta
Lula no caso do mensalão.


Janistraquis imitou aquele ar de inocência presidencial e sabatinou o
colunista:


— Considerado, que diabo é PF?


— Ora, é Polícia Federal!


— E por que é federal?


— Porque é um órgão do Ministério da Justiça.


— E quem é o ministro?


— Nosso ídolo, o doutor Marcio Thomaz Bastos.


— Aaaaaahhhhhhhhhh!!!… Siiiimmmmm!!!!


É, o país sabe a partes mal lavadas.


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Gol contra


O considerado Giulio Sanmartini, o mais carioca dos italianos, ora em férias
no verão brasileiro, leu a seguinte notícia na coluna Gente Boa, de O Globo,
assinada pelo sempre bem informado Joaquim Ferreira dos Santos:


GOLAÇO — Como as camadas mais pobres da população conquistaram dos ricos o
direito de também jogar futebol e em seguida construíram a linguagem de corpo
que deu forma a um dos laços mais fortes da nação brasileira. Eis a história do
livro ‘Brasil, um século de futebol, arte e magia’, que a Aprazível Edições, com
o apoio do Ministério da Cultura e Bradesco Seguros, lança esta semana. Os
textos são de João Máximo e a edição, de Leonel Kaz. No estilo tablebook, o
álbum traz um espetacular repertório de fotos de cenas e heróis da grande
aventura nacional (ao lado, LEÔNIDAS DA GUIA, Heleno de Freitas e Tim).


O livro deve ser mesmo sensacional, como tudo o que fazem João Máximo e
Leonel Kaz, porém o italiano e vascaíno Sanmartini, conhecedor da história do
futebol brasileiro, estranhou esse ‘Leônidas da Guia’ inventado pelo
colunista:


Se o Joaquim for pesquisar em suas próprias fontes, vai encontrar o grande
zagueiro Domingos da Silva, outro craque da época do tal Leônidas da Guia…


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Perdidos em Londres


O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no DF, de cujo
varandão debruçado sobre a honestidade é possível escutar o Professor Luizinho a
dar mais uma aula de esperteza a este país de m…, pois Roldão passava os olhos
pela Tribuna da Imprensa quando deparou com a seguinte legenda de foto amparada
sob o título Muita pompa e deslumbramento:


Lula e dona Marisa participam de cerimônia no castelo da Abadia de
Westminster.


Roldão, que conhece o idioma e já visitou inúmeras vezes todos os logradouros
da apoteótica cidade onde se agasalham os quase oitenta anos de Elizabeth II,
comentou:


Castelo é moradia de nobres, às vezes fortificado. Mais tarde essa
denominação se estendeu a outras grandes residências e até a adegas de vinhos.
Abadia é a igreja de um abade. Como se vê, coisas diferentes.


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Injustiça


O considerado Luís Ernesto Krönnen, de Santa Catarina, envia notícia do
Consultor Jurídico:


Carteirinha ameaçada


OAB recebe pedido de suspensão do registro de Jefferson


Deputado cassado por falta de decoro parlamentar deve ser suspenso dos
quadros da OAB por ter caracterizada a falta de idoneidade moral. Com esse
entendimento, o Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo protocolou nesta terça-feira (7/3) representação
contra o deputado cassado Roberto Jefferson (PTB) no Tribunal de Ética da
seccional fluminense da OAB.


Luís Ernesto, que se diz apolítico e considera Roberto Jefferson um sujeito
‘de baixo nível’, considerou absurda a pretensão dos estudantes:


Ora, o ex-deputado é um brilhante advogado e professor de Direito. O que ele
fez no episódio do mensalão pode até ser considerado falta de decoro
parlamentar, mas isso não destrói sua reputação de grande jurista. Esses
estudantes de Direito, a maioria constituída de analfabetos, deveriam estudar um
pouco mais para evitar que, amanhã ou depois, se transformem em empregados de
gente como Fernandinho Beira-Mar.


Janistraquis concorda inteiramente e convida o leitor a dar um pulo no
Blogstraquis para conhecer a íntegra da matéria do Consultor Jurídico.


******


Sem telefone


O colunista, que felizmente não precisa de telefone para entrar na internet
(aqui temos uma antena que, bem ou mal, quebra o galho), completou dois dias
inteiros com a linha telefônica a servir apenas de poleiro para sabiás e
coleirinhas. Despachamos mensagem urgente e desesperada para a Telefônica, pois
ainda não é possível mandar o ‘serviço’ deles pra casa do c…, mas nada foi
feito e nem recebemos qualquer informação ou satisfação.


Janistraquis, com intenções pra lá de stedílicas, vai pesquisar para saber se
a Telefônica possui entre seus bens alguma propriedade rural:


‘Considerado, quando as mulheres do MST forem empreender nova cavalgada de
ignorância, estupidez, violência e obscurantismo, quero ver se incluo no roteiro
delas a fazenda da Telefônica, a qual deve, sem dúvida, ser altamente
improdutiva…’


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Leite & gasolina


Carta de leitor à Folha de S. Paulo, em 3/3/06:


Leite e álcool


‘Há poucos anos, para comprar um litro de gasolina, o produtor rural vendia
dois litros e meio de leite cru para a indústria de laticínios. Hoje, para
adquirir o mesmo litro de gasolina, necessita vender nove litros de leite.
Outras comparações com resultados parecidos podem ser feitas com vários produtos
rurais. E o governo do senhor Lula ainda insiste na propaganda mentirosa de que
ajuda o setor agropecuário. A verdade é que o PT quebrou o produtor rural.’
Antônio Carlos de Souza (Mirante do Paranapanema, SP)


Janistraquis, que já plantou quiabos e pepinos aqui no sítio, e os vendia com
facilidade quando tínhamos telefone, acha que, brevemente, os produtores rurais
mais desesperançados vão trocar leite por gasolina só para atear fogo às vestes.


******


Vida difícil


Alguns episódios da penosa existência de Orley Mesquita, aqui epigrafado,
podem ser acompanhados no site Uma Coisa e Outra, em excelente artigo do também
poeta Clemente Rosas.


Nota dez


O poeta Fabrício Carpinejar, no site da Entrelivros:


(…) Percebo uma passionalidade no meio autoral. Ou estão comigo ou contra
mim. Não se encontra rua intermediária entre adesão e aversão. Faltam
equilíbrio, humor e autocrítica, sobram pose e sectarismo. O escritor não
consegue imaginar o leitor refugando seu livro. Até imagina, mas não suporta a
idéia de não ser um futuro clássico.


Leia no Blogstraquis a íntegra do excelente artigo.


******


Errei, sim!


Em homenagem ao talentoso e criativo crítico literário Daniel Piza, autor de
uma já célebre biografia de Machado de Assis, repetimos aqui, a pedidos: ‘O
CRUCIFORCADO – Revelador Erramos da Folha: ‘Diferentemente do que foi publicado
no texto Artistas periféricos passam despercebidos, à pág. 5-3 da edição de
ontem da Ilustrada, Jesus não foi enforcado, mas crucificado’. Vesgo de
perplexidade, Janistraquis balbuciou: ‘Considerado, isso é muito mais do que um
erro; isso é pecado mortal…’ (fevereiro de 1995)’


MERCADO EDITORIAL
Eduardo Ribeiro


Paulo Caruso e Avenida Brasil dão adeus à IstoÉ, 8/03/06


‘Os fãs de Paulo Caruso e de sua Avenida Brasil, publicada há 25 anos, a
maior parte deles na IstoÉ, vão ficar órfãos. A revista abriu mão de ambos e já
a partir deste final de semana vai colocar na última página – espécie de templo
do humor da IstoÉ – a seção Em Cartaz, da editoria de Cultura.


Ele sai até certo ponto desapontado, mas, como não poderia deixar de ser,
bem-humorado. Nem chegou a reclamar a falta de uma palavra de agradecimento
pelas quase duas décadas e meia que freqüentou semanalmente a publicação. Aliás,
despediu-se com chave de ouro, ou seja, com humor. Um humor, neste caso, tão
refinado e subliminar, que só mesmo quem por acaso soube de sua saída é que tem
condições de entender ou decifrar.


Sob o título de ‘Inútil Paisagem’, ele mostra alguns dos políticos
brasileiros em evidência (Alckmin saboreando um ‘delicioso’ picolé de chuchu,
Serra, Lula e cia), outros que já se foram desta para melhor e, ao lado deles,
ninguém menos que Sadam Hussein segurando um cartaz, com dizeres a primeira
vista sem muito nexo com os acontecimentos atuais. Mas as palavras do cartaz
dizem tudo: ‘O Iraque é aqui! Isto é o fim!’.


Fim de linha para ele e também fim de linha para o Aroeira, cartunista que
colaborava regularmente com IstoÉ desde o Rio de Janeiro, onde mora. Uma pena,
conforme lembra


Aroeira: ‘Alegaram que não tem mais perfil, mas agora eles mesmos estão
republicando a revista Time, que é cheia de caricaturas, a começar da página 3,
no índice’. Ele considera a Avenida Brasil uma obra de arte, atemporal: ‘A
página é um marco, uma descrição da história do Brasil. Quem perde são os
leitores’.


Diz ter ficado chateado com a história da IstoÉ, pois gostaria de continuar
com uma presença em São Paulo, mas que não tem do que reclamar: ‘Estou começando
a editar um livro; minha banda vai bem; também toco na banda dos irmãos Caruso;
trabalho num jornal que eu gosto (O Dia); corro na praia toda manhã. A vida está
completa.’


Quanto a Caruso ele aproveita para relembrar um pouco da trajetória do Bar
Brasil, criado no Governo do general João Batista Figueiredo (representado como
o dono do


botequim) e que, como retrato do momento político, era uma metáfora adequada
àqueles tempos em que falar abertamente poderia ser considerado ofensa.
Inicialmente contando com a colaboração do repórter de política Alex Solnik, a
charge era publicada semanalmente na revista Careta, de Tarso de Castro, que
durou 19 números, depois em Status, Senhor, IstoÉ Senhor e IstoÉ. No final dos
anos 80, Paulo e Solnik romperam a parceria e o cartunista começou a publicar a
página semanal com seus próprios argumentos e roteiros. Com a morte de Tancredo
Neves, em 1985, nasceu a Avenida Brasil, uma imagem da transição pela via das
dúvidas.


Sobre a despedida e a descontinuidade do trabalho, mesmo depois do choque
compreensível com a notícia, ele se diz ‘feliz pela etapa cumprida em nossa
transição rumo à democracia neste País’. E assinala: ‘Está aí o Lula, pronto pra
disputar sua reeleição para atestar (e testar) mais uma vez nossa democracia.
Sobrevivi, ao longo desse período, a uma dezena de diretores de redação que
sempre compreenderam e participaram alegremente desse desafio de criatividade
que a revista semanalmente nos impunha. Mais do que isso, pra quem durante tempo
fez da sua vida uma avenida, não há por que temer o olho da rua…’.


Aroeira, que, ironicamente, não fazia o Avenida mas está com Caruso nesse
‘olho da rua’, começou a carreira na imprensa sindical de Belo Horizonte, que na
época estava se desligando dos pelegos, foi do Diário da Tarde e do Estado de
Minas, depois para o Globo, no Rio, voltou a BH para ser o chargista de capa do
Diário da Tarde e depois novamente para o Rio, como reserva do Chico Caruso em
página interna do Globo. Em seguida foi para o JB, também na interna, pois o JB
não tem charge na capa. Um dia, o próprio Roberto Marinho ligou chamando-o de
volta para o Globo e o publicou dois dias na capa. No Globo, ele ficou na
reserva de Chico Caruso até que O Dia chamou-o para ser titular, fazendo a capa,
onde ainda permanece. Em abril ele vai receber a Medalha Pedro Ernesto, de
Cidadão Honorário do Rio, e virar carioca no papel.


Com a saída da IstoÉ, Caruso passa a ter como único ponto fixo o programa
Roda Viva (transmitido às 2ªs.feiras, 22h30, pela TV Cultura). Paralelamente,
estreará, com o irmão gêmeo Chico Caruso, o espetáculo Caruso Canta Caruso –
Concerto para um mundo sem conserto, no Salão Carioca de Humor, na Casa de
Cultura Laura Alvim, de 10 a 12/3 (6ª a domingo), seguindo depois para São
Paulo, no Teatro Studio São Pedro (Rua Barra Funda, 171), entre os dias 16 e
19/3. Coincidência da vida, Aroeira, bom amigo que é, vai atuar nos shows de Rio
e SP, tocando sax tenor, como um dos convidados especiais do Conjunto Nacional,
que acompanha os Caruso (o outro é ninguém menos que Luiz Fernando Veríssimo, no
sax).’


CINEMA & JORNALISMO
José Paulo Lanyi


A fórmula Capote, 9/03/06


‘Outro dia escrevi sobre o ‘Boa Noite, Boa Sorte’, um filme sobre o trabalho
do pessoal da CBS na porfia contra o macartismo (leia ‘Por que gostei desse
filme’). Hoje é a vez de ‘Capote’, de Bennett Miller, uma produção biográfica em
cartaz nos cinemas mais próximos da sua casa – ou nos mais distantes, talvez.


Não falo do filme, apenas de seu protagonista. Truman Capote (1924-1984) é o
nome de um ícone da chamada literatura de não-ficção, um sujeito que, em seu ‘A
Sangue Frio’ (‘In Cold Blood’, 1966), cultivou raízes no que se convencionou
chamar de ‘New Journalism’ ou jornalismo literário.


O resumo dos resumos: certa noite de 1959, uma família foi assassinada em
Holcomb, no Kansas. Pai, mãe e dois filhos. Capote (Philip Seymour Hoffman) leu
a notícia no New York Times e ofereceu a pauta para a revista em que escrevia,
The New Yorker. Acompanhado de uma espécie de repórter-assistente, a escritora e
sua amiga de infância Harper Lee (Catherine Keener), ele percebeu que aquilo
daria mais do que uma boa matéria: decidiu escrever um livro-reportagem.


Truman Capote não era um jornalista, mas um escritor que produzia jornalismo,
o que é diferente. Tempos antes, ele publicara um best-seller que seria
roteirizado por Hollywood, ‘Bonequinha de Luxo’. Capote já estava a, digamos,
três degraus e meio do topo da cadeia alimentar das artes e do entretenimento.
‘A Sangue Frio’ guindou-o ao cume- de onde rolaria ribanceira abaixo.


Homossexual de maneiras delicadas, Capote era um excêntrico naqueles tempos
difíceis. Um cara sofrido e afetado, que falava e se vestia de um jeito que
poucos pareciam suportar. É esse homem que desembarca no Kansas dos fazendeiros
e conservadores de vários matizes. É esse homem que, ao conversar com um dos
acusados, Perry Smith (Clifton Collins Jr), com ele se identifica: ambos eram
filhos de mãe alcoólatra. ‘É como se o Perry e eu tivéssemos crescido na mesma
casa. Num certo momento, ele saiu pela porta de trás, e eu, pela da frente’,
ilustrou o personagem, ao explicar essa estranha empatia.


Há dois caminhos prováveis para quem teve uma infância difícil: aprender mais
e mais cedo sobre a natureza humana ou afundar nas mágoas do passado. Por vezes,
as duas tendências convivem. Da infância Capote herdou a profundidade
psicológica, fermentada, é claro, em seu talento inato. Poucas combinações são
tão poderosas para a formação de um escritor como esta: dor, criatividade e
ambição… Efeitos colaterais: tormento e fragilidade, ao menos uma tendência à
depressão. Essa é a fórmula Capote.


O escritor fez um jornalismo diferente. Envolveu-se com as suas fontes, a
ponto de mudar-lhes o destino. Subornou o diretor do presídio, em troca de
visitas livres, pagou-lhes advogados, tentou postergar-lhes a execução, em busca
de detalhes do assassinato. Depois disso, torceu por que as suas fontes
morressem logo. Só assim poderia concluir e entregar a sua grande obra.
Desesperou-se com a demora. Perdeu-se no limiar entre o afeto e o oportunismo
canalha. Ainda que contra a própria vontade, ao ceder ao carinho ou simplesmente
à consciência, presenciou a execução, a pedido de Perry Smith.


Alçou-se ao estrelato, a bebida como âncora desse paradoxo. Bebeu como a mãe,
degradou-se como ela. Pagou com a vida o preço de uma jornada à altura de sua
ambição sem limites.


Um manipulador, um mentiroso. Um escritor que escreveu uma grande reportagem,
ou um grande ‘romance sem ficção’, como dizia. Um criador contestado, tanto em
seu pioneirismo quanto em seu zelo pelas versões apresentadas. Um homem de
talento. Gigante como um elefante sagrado. Pequeno como um rato.


Um homem ímpar que comprou com o talento o seu ingresso para a
História.’


TV NA INTERNET
Antonio Brasil


O fim da televisão como a conhecemos, 13/03/06


‘‘A TV deve acabar nos primeiros seis meses. Em breve as pessoas vão se
cansar de ficar olhando para uma caixa de madeira todas as noites.’


Darryl Zanuck, executivo da 20th Century Fox, Hollywood, 1946


‘No futuro próximo a TV deve migrar para a Internet – o que não significa que
ela vai ficar por lá.’


Bruce Owen, 2003


Prever o futuro é sempre muito difícil. Quase impossível. Mas. apesar dos
erros do passado, jamais deixamos de tentar. Entre o presente analógico e o
futuro digital, cabe refletir se a ‘televisão como a conhecemos’ ainda vai
existir nos próximos anos. Talvez estejamos comprando uma ‘máquina de escrever
digital’ em plena era dos computadores. O fim da televisão parece ser
inevitável. Alguns defensores mais radicais das novas tecnologias já escrevem o
seu obituário (ver aqui).


Pode ser precipitado anunciar a morte do nosso principal meio de comunicação.
Assim como o rádio no passado, a TV enfrenta sérios problemas de identidade e
poderosos competidores. Deve se transformar em algo completamente diferente nos
próximos anos. Mas como será e quem vai assistir a essa televisão do futuro?


Para tentar responder a essas questões, a IBM, com o apoio da prestigiada
revista britânica The Economist, divulgou um estudo sobre o futuro da TV com
título sugestivo: The End of TV as we know it: a future industry perspective, O
Fim da Televisão como a conhecemos: uma perspectiva do futuro da industria, (ver
aqui).


Todos os interessados no debate sobre a TV digital brasileira deveriam ler
esse longo e detalhado estudo. Se não for nada, para evitar gastar bilhões para
embarcar em uma ‘canoa furada’ que pode desaparecer em breve.


O cenário do futuro da televisão descrito pelo estudo da IBM é o ano 2012. A
pesquisa entrevistou centenas de usuários de mídia nos EUA, Europa e Ásia. Por
motivos óbvios, ignorou a África e a América Latina.


Alta definição garante alienação


Segundo os dados obtidos, a evolução do futuro próximo da televisão passa por
duas vertentes distintas: a disponibilidade de canais e o grau de envolvimento
do telespectador com a mídia.


Nessa última, são identificados dois grupos de telespectadores:


os passivos massivos, aqueles telespectadores que fazem questão de ‘vegetar’
horas a fio na frente da telinha. Nos EUA são chamados de Couch Potatoes ou
Batatas de Sofá. Assistem a qualquer coisa. Para eles, a televisão serve somente
para escapar da realidade. Como qualquer droga poderosa, a TV vicia, aliena e
emburrece. Mas também alivia as tensões.


Uma televisão digital que privilegia as imagens em alta definição é essencial
para esse publico. As imagens de cinema aprofundam ainda mais a experiência de
alienação ou imersão total pela televisão. Para esse público, a qualidade e a
diversidade do conteúdo da programação são indiferentes. Tanto faz. É o tal
telespectador padrão do JN, o Homer Simpson, por exemplo. Eles são escravos do
vício e assistem a qualquer coisa. Não é à toa que essa é a prioridade dos
radiodifusores brasileiros: alta definição garante ainda mais alienação!


Do outro lado, estão os ‘espectadores ativos’. Mais críticos e exigentes em
relação ao conteúdo da programação, eles querem interagir e controlar a
experiência televisiva. Por enquanto, ainda assistem à televisão. Mas estão
sendo rapidamente seduzidos pelos novos recursos da Internet.


No Reino Unido, o site de pesquisa Google também confirma essa tendência.
Segundo dados divulgados essa semana (ver aqui), os britânicos já passam mais
tempo na Internet do que vendo televisão. Em média, 164 minutos por dia em
frente ao computador ou 41 dias inteiros por ano. Em contrapartida, eles vêem
televisão durante apenas 148 minutos. As maiores razões para o crescimento são o
aumento do uso de computadores no trabalho e a adoção de conexões de banda larga
em computadores domésticos cada vez mais poderosos.


Consumidores de mídia


Ainda segundo o estudo da IBM, dentro do grupo de espectadores ativos, a
pesquisa identificou dois subgrupos: os gadgetiers (aqueles que adoram as
novidades tecnológicas) e os kool kids (jovens mais interessados em novas modas
e tendências).


Esses dois últimos subgrupos incluem o segmento mais importante para o futuro
da televisão: os jovens entre 18 e 24 anos. Eles serão os principais
consumidores de mídia, os líderes e os formadores de opinião do futuro. Aquela
garotada com grande poder aquisitivo, alto grau de instrução e sofisticados
conhecimentos na área de informática. Um segmento fundamental que já despreza a
TV na forma que conhecemos hoje.


Esses jovens consideram assistir televisão, um programa de velho. Passam mais
tempo na Internet, selecionam as notícias de interesse pessoal na rede e
preferem interagir com videogames cada vez mais sofisticados. É exatamente esse
grupo que vai decidir o futuro da TV. Porém, o poder do grande público passivo
não pode, nem devem ser ignorado ou subestimado.


Para a pesquisa da IBM, o telespectador – ativo ou passivo – é essencialmente
um consumidor de mídia. Como boa empresa capitalista em país de economia
avançada, não há preocupação com a função educadora ou manipuladora da
televisão. Nesses países, as pessoas têm alternativas para obter informações,
educação e entretenimento. É nesse cenário que a IBM prevê o começo do fim da
televisão da forma que conhecemos.


Dicas preciosas


Mas os pesquisadores também indicam que o futuro ainda pode reservar boas
oportunidades para os executivos e produtores de televisão. Para isso, eles
precisam reconhecer e avaliar essas tendências e começar a agir rápido. Não há
tempo a perder.


O estudo da IBM procura fazer seis recomendações fundamentais para
enfrentarmos o futuro dessa televisão que ainda não conhecemos.


Segmente. Invista em estratégias diferenciadas e específicas para os dois
grupos de audiência do futuro (os passivos e ativos).


Inove. Crie novos modelos de negócios e pacotes de preços que ofereçam
alternativas para os novos consumidores de mídia. É melhor enfrentar riscos hoje
do que arriscar comprometer ainda mais o futuro.


Experimente. Desenvolva, tente, refine e jogue com o futuro (roll-out).
Conduza experimentos de mercado sozinho ou com parceiros para descobrir as
preferências ‘reais’ dos consumidores de mídia do futuro.


Mobilize. Crie conteúdo móvel que ultrapasse os limites das mídias e que
ofereça aos consumidores uma experiência televisiva mais dinâmica. Garanta
acesso fácil e sincronizado a outras mídias e aos novos equipamentos interativos
disponíveis. Mas não deixe de levar em conta a possibilidade de ‘não
intervenção’ por parte dos telespectadores passivos.


Abra. Direcione as plataformas com acesso livre a conteúdos para que elas se
renovem. Flexibilize os modelos de negócios para gerar novas fontes de recursos
para as redes de TV.


Reorganize. Avalie o atual modelo de negócios em relação às necessidades do
futuro. Identifique as suas principais prioridades ou ‘competências’ de tal
forma que elas possam aumentar a sua competitividade no futuro. Identifique os
setores não essenciais que possam ser terceirizados ou que possam se tornar
‘parcerias’.


É evidente que a pesquisa da IBM procura alertar os executivos e produtores
de TV para as ameaças do futuro. O principal foco da pesquisa é a gestão dos
negócios. A cada dia torna-se ainda mais evidente que os tempos de vacas gordas,
enormes verbas publicitárias e com altíssimos índices de audiência desaparecem
na televisão que ainda não conhecemos. Não há como evitar ou desprezar essa
tendência. A nova televisão exige um novo modelo de negócios.


TV dinosáurica versus IPTV


Ainda não estão convencidos do fim da televisão como a conhecemos? George
Gilder, um dos principais orientadores da atual política de telecomunicações
americana, também prevê o fim da televisão. ‘A TV, como nós a conhecemos, é
fruto de um limite técnico em superação. No mundo da TV, o meio utilizado para a
transmissão é o das ondas de rádio. Um meio escasso ou, como dizem os
especialistas, com uma banda estreita… Este cenário se desfaz rapidamente.’


Indústrias como as de televisão e o cinema podem não sobreviver a 2030. Os
principais conglomerados da área das comunicações já começam a preparar a
migração para um mundo centrado no uso extensivo dos microcomputadores.


Segundo essas avaliações, a televisão da era ‘dinossáurica’ se transforma em
um veículo menor, mais ágil e muito mais diversificado. A TV na Internet ou IPTV
(Internet Protocol TV) já conta com 1.3 milhões de assinantes nos EUA. As
previsões indicam um crescimento para mais de 38 milhões de assinantes em 2010.
A cada dia, mais e mais americanos tomam conhecimento das promessas da IPTV. A
Harris Interactive divulgou uma pesquisa detalhada sobre o desenvolvimento da TV
na Internet (ver aqui). Hoje, 56% dos americanos já ouviram falar da IPTV e mais
de um quarto desse grupo estão interessados nesse tipo de TV.


Mais pesquisas ‘brasileiras’


De qualquer maneira, prever o futuro continua sendo uma tarefa arriscada. Há
muitas variáveis e possibilidades de erros. Mas ignorar as tendências é muito
mais perigoso.


Em outros tempos, os poderosos executivos do cinema como o David Zanuck da
20th Century Fox também subestimaram o poder e as ameaças de um novo meio de
comunicação, a televisão.


Para evitar surpresas e caras desagradáveis deveríamos investir menos em
promessas vazias e mais em pesquisas sérias feita aqui mesmo no Brasil. Nem
todos os estudos sobre televisão deveriam se restringir a avaliar as
alternativas tecnológicas, condenar os malefícios do meio ou aferir índices de
audiência. Essa parte é fácil.


As universidades brasileiras deveriam abandonar os preconceitos e tomar a
dianteira nas pesquisas sobre o futuro da televisão brasileira. Deveriam ser os
principais vetores da renovação dos meios de comunicação e da sociedade. O
objetivo seria apresentar alternativas mais criativas para um futuro possível.


Mas em meio a uma cultura que venera os ‘espelhinhos’ tecnológicos
estrangeiros, despreza o planejamento e estimula a improvisação, preferimos
acreditar nas boas intenções dos radiodifusores brasileiros, ministros
ambiciosos ou a inspiração divina de lideres messiânicos.’


HISTÓRIAS DE REPÓRTER
Cassio Politi


Repórter fica presa por 4 dias. Essa era a pauta, 10/03/06


‘As presidiárias pegavam em suas carceragens canecas, panelas, garfos e tudo
o que fizesse barulho no choque com as grades. O som de lata batendo misturado à
gritaria generalizada era assustador. Numa cela do outro lado do pátio, uma
presa passava mal. Precisava urgentemente de atendimento médico. E nada de um
agente aparecer para prestar socorro. Era madrugada em São Paulo.


Dividindo um colchão de solteiro com outras três mulheres, Marinês Campos
torcia, mais do que as outras, pelo resgate rápido e pacífico da doente. Porque,
se os carcereiros decidissem reagir com hostilidade à baderna, ela teria três
motivos para se desesperar. Nunca tinha sido presa; estava numa cela com oito
mulheres ameaçadas pelas demais; e àquela hora não estava de plantão a delegada
do DP, única pessoa que sabia que Marinês era, na verdade, uma jornalista
trabalhando numa reportagem especial. A pauta: ficar detida durante quatro
dias.


Quando a mulher que agonizava finalmente foi socorrida, depois de meia hora
de agonia, o silêncio foi restabelecido. A repórter especial do Jornal da Tarde,
de São Paulo, voltou a se deitar. Mas, como nas outras duas noites, não
conseguiu pregar os olhos. Tudo podia acontecer, o que, apesar do risco, acabava
sendo uma vantagem: a boa matéria estava garantida.


Aos domingos


Em 1996, começava uma campanha maciça na mídia paulista para divulgar o
Jornal da Tarde, tradicional veículo do Grupo Estado, que edita O Estado de
S.Paulo. A novidade: O JT passaria a circular também aos domingos. O ano estava
no início. O diretor de redação, Celso Kinjô, pediu aos repórteres que
produzissem reportagens diferentes para reforçar o conteúdo dominical.


Foi aí que ocorreu a Marinês a idéia de se passar por presidiária. Seria
diferente. Quando se conversa com um preso apresentando-se como jornalista, ele
muda de comportamento. Observar o dia-a-dia como se o jornalista estivesse
presente não de corpo, mas apenas de alma, renderia uma boa história, não? A
idéia foi levada ao delegado Alberto Angerani, então diretor do Decap
(Departamento de Polícia Judiciária da Capital). Ele ficou apreensivo. Era
perigoso demais. Foram três semanas de insistência até que o telefone da redação
tocasse. Era o doutor Angerani.


– Marinês, ok, você pode fazer a matéria. Mas vamos ter de montar um esquema
de segurança.


Perfil ideal


No prédio do Decap, no bairro de Pinheiros, ela recebeu orientações. Uma
espécie de curso intensivo sobre regras básicas que reinam do lado de lá das
grades. Dicas como: tirar os sapatos para entrar na cela, falar pouco e não
perguntar detalhes dos crimes dos outros. A partir dali, era preciso traçar um
perfil. Seu temperamento não é propriamente o de uma assassina. Que crime uma
mulher de fala tranqüila, mas invariavelmente segura, e notória rapidez de
raciocínio poderia ter cometido? A conclusão unânime: estelionato.


Perto das 8h30 da manhã de uma segunda-feira de março de 1996, Marinês chegou
ao Decap. Começava ali uma imersão no mundo da bandidagem, muito mais profunda
que os anos de experiência na cobertura policial lhe trouxeram. Não houve
ficção. Os policiais que a algemaram no Decap e a colocaram no camburão não
sabiam da farsa. A verdade estava restrita a três ou quatro pessoas na Polícia
Civil.


Vergonha e medo


O ângulo estava invertido. O camburão do GOE (Grupo de Operações Especiais),
que possivelmente já havia transportado personagens de suas matérias policiais,
agora a conduzia do Decap ao 14º Distrito Policial, em Pinheiros. Ali teve de
deixar as impressões digitais e esperar a conclusão do boletim de ocorrência.
Constava que tinha tentado roubar um eletrodoméstico com cheques sem fundos.
Vestia roupas velhas quando passou pela porta de vidro da delegacia. ‘A sensação
de entrar algemada e as pessoas te olharem é horrível. Morri de vergonha. Elas
olhavam e deviam ficar pensando que crime eu tinha cometido’.


Novamente no camburão, foi levada ao 26º DP, no bairro do Sacomã. Antes de
ser levada à carceragem, recebeu a nota de culpa, um documento que quem está
preso carrega consigo o tempo todo. Uma das funções: provar para os demais que
tipo de crime cometeu. Marinês foi conduzida pelo pátio e sentiu calafrios
quando o agente abriu a porta da cela. ‘Meu estômago doeu naquele momento. E dói
até hoje quando lembro. Eu estava vivendo uma situação real’. Havia oito
mulheres ali. Com elas, passaria três noites e quatro dias.


É laranjona!


Marinês pediu licença, entrou e se sentou no canto da cela. Uma mulher presa
num assalto era a ‘faxina’ (líder, no linguajar carcerário). Foi ela quem deu a
ordem:


– Me deixe ver a sua nota de culpa.


– Está aqui – Marinês respondeu e entregou o documento.


– Ah, é laranjona!


O plano tinha funcionado. Uma estelionatária fracassada no mundo do crime era
um perfil adequado. A ‘laranjona’ ou, ‘otária’, na tradução da gíria, não
representava ameaça. E, por ser primária, um deslize na conduta seria tolerado
pelas veteranas.


Numa política de boa vizinhança bastante conveniente, se ofereceu para ajudar
na limpeza. A líder aceitou, mas fez a ressalva.


– O banheiro, é ela quem limpa – e apontou para o canto.


Lá estava sentada uma mulher que assassinara o próprio bebê. Um crime tão
imperdoável quanto o de estupro entre criminosos homens. Por isso, cabia a ela
as tarefa menos desejadas, como limpar o banheiro. Uma outra presa quase não
falava. Passava o tempo todo lendo um livro do navegador Amyr Klink, que,
ironicamente, faz da liberdade seu maior trunfo.


Aparências


Os reflexos das décadas anteriores estavam impregnados nos corpos daquelas
mulheres. ‘Elas não tinham dentes, tinham doença de pele, falavam de suas
passagens pela Febem e das prisões anteriores. Muitas tinham sido meninas de
rua. Talvez a maioria. Isso me deixou um pouco deprimida. Me fez pensar
muito’.


Sua cela abrigava as mulheres que, por uma razão ou por outra, tinham de
ficar isoladas das demais. Passavam 24 horas por dia trancadas. Se colocadas com
as outras, seriam provavelmente atacadas. Em presídios masculinos, essa gaiola
isolada é chamada de ‘seguro’ ou de ‘amarelo’. Por que a delegada a colocou
justamente na cela das mais odiadas num grupo de 111 mulheres? O motivo ficou
claro nas primeiras horas. ‘No pátio, havia briga a todo momento. Vi uma mulher
cortar o rosto da outra com uma gilete por causa de espaço no varal. Não foi um
corte profundo, mas foi uma agressão que me impressionou’.


Pós-visita deprimente


No início da tarde, o que sobrava da cantina era vendido na carceragem. Com
alguns trocados que levara na bolsa, a repórter tratava de se alimentar com
salgados da cantina e biscoitos que uma colega de redação, que se passava por
sua prima, tratava de levar. Além dos biscoitos, foi presenteada com um
colchonete. A líder tratou de tomar posse do presente e colocar em cima de
colchonetes mais velhos. Ficaria mais macio. Sobre o colchão, dormiam quatro
mulheres. O corpo da novata ficava quase inteiro no chão. Sobrava-lhe um canto
da parte macia. Mas o local não era apropriado para discutir o perfil tirano da
líder.


Foram três noites em claro e quase sem mudar de posição. A vigília foi uma
defesa. A imobilidade foi precaução: se por acaso se mexesse e acordasse alguém,
poderia se meter em confusão.


A quarta-fera, dia de visita, foi aguardada com um clima de ansiedade
ansiedade. Em contrapartida, o pós-visita foi chocante. ‘Assim que os parentes
foram embora, aquilo virou um mercado. Elas usam roupas, cigarros, comida e tudo
o que ganharam para pagar dívidas. Fiquei com pena, porque tudo aquilo foi
comprado por famílias pobres e elas [presas] se desfazem em pouco tempo dos
presentes’.


Pão com crack


No final da tarde, a delegada passava para inspecionar a cela. Estava
combinado: se Marinês passasse a mão no cabelo, era porque precisava sair dali.
Felizmente, não foi necessário. De seu canto, observava o máximo de detalhes.
Entendeu como a droga circulava por ali. Viu uma presa, a traficante, colocar
uma pedra de crack dentro de um pão e arremessá-lo em outra cela. Lá estava a
compradora da droga.


Numa tarde, apareceu uma fotógrafa do JT. Disse que faria fotos para uma
reportagem sobre superpopulação carcerária nos DPs. Cinco das companheiras de
Marinês se espremeram num cubículo vedado por uma cortina para não aparecer. A
jornalista ouviu o conselho de uma delas.


– Não deixa tua cara aparecer no jornal, não!


A foto foi feita. Marinês estava sentada ao lado de duas mulheres que
escondiam o rosto. Depois, se levantou e segurou as grades. Foi fotografada
novamente. Os diagramadores já podiam começar a riscar a página, que ocuparia a
manchete da segunda edição de domingo do JT.


Liberdade


Às 11 horas de quinta-feira, quarto dia de Marinês trancafiada, surge a
delegada.


– Ei, venha comigo. Você vai ser transferida.


A reportagem chegava ao fim. As companheiras desejaram boa sorte. Uma chegou
a indicar seu advogado. Marinês deixou para trás o colchão e parte das roupas.
Carregou consigo apenas a bolsa, algumas roupas e um saco plástico. Nele,
estavam coladas as poucas anotações que fazia em post-it (papel adesivo) durante
o banho gelado, para não levantar suspeita. Anotava frases mais fortes que
poderia esquecer. Na sala da delegada, os agentes ficaram sabendo quem era
aquela mulher e o que ela fazia ali. ‘Eles ficaram muito surpresos. Comecei a
ficar desconfiada. Será que tenho cara de bandida?’, brinca.


Mudança


A uma quadra da delegacia, um carro do jornal a esperava para levar para
casa. Tomou um banho quente e deitou na cama, que se tornara incrivelmente mais
macia. Dormiu como nunca. Acordou na sexta-feira e foi para o jornal. Precisava
escrever a reportagem. Um conceito estava encravado para sempre em sua cabeça.
‘Fiquei pensando: será que aquelas mulheres teriam alguma chance na vida? Será
que eu contrataria alguma delas como empregada doméstica? Será que alguém
contrataria?’. É uma discussão ampla. Interminável, talvez.


Marinês é experiente na reportagem policial. Conseguiu fazer essa – e muitas
outras – reportagem ousada graças às fontes que cultiva. Se pedirem a ela para
resumir a sensação que guardou daqueles quatro dias, a resposta será tão
objetiva quanto o texto brilhante que tempera sua ousadia. ‘Deu medo… medo e
frio na barriga’.


* * * * *


* Controlar-se emocionalmente é fundamental. Marinês Campos controla-se bem
em todas as situações. Ou melhor, quase todas. Nos quatro dias em que esteve
presa, só perdeu o controle uma vez. ‘Quando apareceu uma barata, não agüentei.
Comecei a gritar. Morro de medo de baratas. Fui salva pela líder da cela, que
resolveu o problema com uma chinelada’, diverte-se ao contar. O escândalo foi
compreendido pelas colegas de carceragem. Mulheres, criminosas ou não, têm medo
de barata.


* O encontro com esse indesejável inseto não foi o mais tragicômico da
carreira dessa jornalista brilhante. Uma vez, ela acompanhava a polícia numa
blitz para prender um violador de túmulos no Cemitério da Consolação. Policiais
escondidos, ela também, à espera do larápio. ‘Senti uma coisa passando no meu
pé. Olhei e era uma barata. Saí correndo e gritando. Estraguei a operação’,
lembra, às gargalhadas.


* No domingo em que a reportagem foi às bancas, a jornalista foi convidada a
participar do programa dominical do apresentador Gugu Liberato, no SBT. Foi
entrevistada por ele. ‘Quase morri de vergonha. Sou extremamente tímida’. Quem
lê suas matérias, talvez imagine uma mulher arrogante, cheia de si. Que nada!
Com todo o repertório de reportagens ousadas, saiba disso, Marinês Campos é
tímida, amável e trata as pessoas com uma humildade cativante.’


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