Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > ARTE & TECNOLOGIA

Conhecimento popular e suportes midiáticos

Por Valterlei Borges em 08/12/2009 na edição 567

Referências:

SARLO, Beatriz. 'A literatura na esfera pública'. In: MARQUES, Reinaldo e VILELA, Lucia Helena (orgs.). Valores: arte, política, mercado. Belo Horizonte: UFMG / ABRALIC, 2002. p.37-55.

O presente artigo pretende apresentar alguns dos novos suportes de mídia e comunicação e sua relação com as manifestações populares, de modo a identificar as potencialidades que essas novas plataformas midiáticas podem oferecer à cultura popular como meio de divulgação e inserção no mundo contemporâneo.

Visto que de forma geral, pelo menos inicialmente, a modernidade tardia e o desenvolvimento dos meios de comunicação poderiam agir negativamente sobre os conhecimentos e a cultura popular, essa posição, agora, começa a ser questionada, uma vez que os próprios meios contemporâneos de comunicação podem ter um papel relevante para a sobrevivência, a continuidade e a (re)produção dos bens simbólicos populares.

Editais voltados para povos indígenas

Os novos suportes midiáticos (vídeos digitais, câmeras fotográficas digitais, YouTube, MySpace, Twitter, Orkut, entre outros) podem se destacar como ferramentas úteis na formação e na transmissão de conhecimentos populares. O conhecimento que antes era passado através da oralidade, pode hoje ser perpetuado para futuras gerações através de um vídeo digital ou de uma gravação num mp3 ou ipod. A apropriação desses bens por parte dos produtores e dos mestres de cultura popular podem se tornar poderosas armas num momento da história que, cada vez mais, tende a se desmaterializar e se auto-inventar através da tecnologia e dos meios de comunicação, a exemplo do que já faz a música, a literatura e as artes visuais – que estão absorvendo o que a tecnologia e os meios de comunicação contemporâneos podem oferecer.

Na medida em que a popularização dos meios de comunicação e dos suportes de mídia passam a chegar a locais remotos do Brasil, é de se pensar a respeito da adequação e das possibilidades que essas ferramentas podem oferecer às manifestações da cultura popular brasileira. Talvez o maior incentivo para que essa apropriação aconteça seja a própria política que o Ministério da Cultura vem adotando nos últimos anos: editais públicos para seleção de projetos culturais, editais públicos para os Pontos de Cultura [para ter acesso às Políticas Públicas do MinC, acessar www.cultura.gov.br, acesso em 15-10-2009 às 12:24.] e, em alguns casos, adotando iniciativas inovadoras durante o processo de seleção, a exemplo de alguns editais [mais informações e um vídeo com depoimento de um líder indígena podem ser visto aqui, acesso em 15-10-2009 às 12:59] públicos voltados para os povos indígenas, onde a inscrição no processo seletivo se dava partir de gravações em áudio e/ou audiovisual [aqui, acesso em 15-10-2009 às 13:31], visto que muitas comunidades indígenas teriam dificuldades em se enquadrar nos trâmites burocráticos exigidos pelo MinC. Aliado a isso, todo Ponto de Cultura conveniado com o MinC recebe um kit multimídia para fazer seus próprios trabalhos e se conectar com o mundo.

Tambores japoneses e percussão baiana

Pois bem, o que pretendemos com essa pequena explanação é apontar como as Políticas Públicas adotadas pelo Ministério da Cultura estão se esforçando no sentido de implementar, mesmo às populações mais afastadas da cidade e com dificuldades em manusear equipamentos digitais, as ferramentas mínimas necessárias à inclusão e à cidadania digital, visto que hoje não se trata apenas da antiga dicotomia inclusão digital x exclusão digital, mas antes da participação ativa enquanto cidadão nos processos contemporâneos de inserção em sociedade e no espaço público.

Uma das ações do MinC, no Programa Mais Cultura, chama-se Cultura Digital, e tem como finalidade dar o suporte tecnológico mínimo para a preservação e com tinuidade das comunidades e das manifestações populares a partir da seleção via edital público. O trecho abaixo, encontrado no site do site do MinC, é um pouco longo mas esclarecedor sobre o assunto:

Com a cultura digital, as comunidades poderão gravar sua própria imagem, como acontece com o Ponto de Cultura Vídeo nas Aldeias, com os índios Ashaninka e Kaxinawá, no estado do Acre, em que há uma inversão no tradicional processo de registro da imagem audiovisual das manifestações populares. Ao invés de serem filmados por um olhar externo, os índios são capacitados para utilizar uma câmera de filmagem, fazer roteiros e edição, e assim, se apresentam por eles mesmos. OutroPonto de Cultura, Thydewá – índios on line, apresenta um processo semelhante interligando em rede os índios do nordeste brasileiro, principalmente nos estados da Bahia e Alagoas; as comunidades estão sendo capacitadas para produzir a sua página na internet, criando um sistema de comunicação próprio, fortalecendo o seu protagonismo.

Com a Cultura Digital, cada Ponto recebe um estúdio multimídia. É um equipamento nada sofisticado, quase caseiro (mesa em dois canais de áudio, filmadora, gravador digital e dois computadores que funcionam como ilha de edição), mas permite gravar um CD, produzir um vídeo, colocar uma rádio no ar e uma página na internet, tudo com programas em software livre. O equipamento digital deixa de ser apenas um meio, uma ferramenta e passa a ser entendido em sua dimensão filosófica, por isso o tratamos como cultura. Desta forma, cada comunidade pode gravar sua música, registrar sua imagem e colocá-las no ar, exercitando o processo de troca cultural entre os Pontos. Pela internet será possível produzir um programa de rádio com pessoas em diversas regiões do país (e mesmo em outros países), ou então compor uma música coletivamente, experimentar novos sons, ritmos, timbres…; juntar tambores japoneses, o Taykô, com percussão baiana [ver o artigo: BORGES, Valterlei. A indústria cultural em tempos de popularização da internet – Um olhar sobre a cena musical brasileira. Disponível aqui, acesso em 15-10-2009 às 17:05].

Um documentário sobre a vida caiçara

O segundo parágrafo do texto em destaque nos faz lembrar a colocação de Beatriz Sarlo (2002, p. 49) quando diz que ‘quanto maior a dependência de uma cultura dos progressos técnicos e científicos, maior é a necessidade de um sistema de traduções dos problemas técnico-científicos em termos culturais’. Dessa forma, ainda segundo Sarlo, o que deve ser feito é uma apropriação dos recursos tecnológicos pelo viés cultural e artístico e os protagonistas dessa iniciativa devem ser os próprios criadores e/ou artistas, caso contrário esse espaço será ocupado pelos tecnocratas. Nesse sentido, não nos resta dúvida de que as manifestações populares e artísticas devem sim dialogar com essas ferramentas e se reinventar dentro do espaço social-tecnológico em ascensão.

Para exemplificar na prática as possibilidades dos recursos das novas mídias, basta lembrar que hoje existir é estar na rede o grupo ou artista que está fora dessa teia tende ao desaparecimento ou pelo menos ao enfraquecimento enquanto manifestação cultural ou artística, já que chegará apenas fisicamente aos lugares, ficando impedido de dar maiores saltos ainda devido às barreiras geográficas.

Cabe salientar que no século 21 um grupo ou manifestação artística/popular não pode se deixar impedir pelas barreiras geográficas e sociais. Existem possibilidades ao alcance de todos, porém, é importante percebermos que mesmo para estarmos cientes sobre o que está acontecendo e às possibilidades existentes, muitas vezes temos que estar conectados e em rede com outros atores, dialogando e criando conexões de trabalho, trocas, experiências, saberes.

Pesquisando sobre o assunto, achei um vídeo sobre a comunidade paratiense com o qual muito me identifiquei, pois morei em Paraty durante 15 anos da minha vida: trata-se de um documentário de 25 minutos sobre a vida caiçara [caiçara é uma palavra de origem tupi que se refere aos habitantes das zonas litorâneas formadas principalmente no litoral do estado de São Paulo. Também existe a ‘cultura caiçara’ no litoral paranaense e litoral Sul do estado do Rio de Janeiro. Inicialmente designava apenas a indivíduos que viviam da pesca de subsistência (ver aqui, acesso em 15-10-2009 às 15:16], disponibilizado no YouTube [o documentário encontra-se dividido em três partes. Parte 1, acesso em 15-10-2009 às 15:00; parte 2, acesso em 15-10-2009 às 15:16; parte 3, acesso em 15-10-2009 às 15:28]. Encontrar esse curta-metragem no YouTube foi, em parte, rever alguns anos da minha vida, da minha história, da cidade onde morei, foi também rever pessoas que conheci e lugares por onde caminhei na minha adolescência, e foi ainda escutar a Ciranda dos Coroas Cirandeiros de Paraty, que muito dancei e ouvi durante minha estadia naquela cidade.

Discursos e vozes independentes

No entanto, faço esse relato pessoal mais para exemplificar a importância e a necessidade de iniciativas como a do curta-metragem O caiçara de Paraty. Nele podemos ver e ouvir modos e conhecimentos populares não só pela tradição da via oral que é passada de geração a geração, mas através de um vídeo digital, suporte tecnológico que leva essa mesma mensagem para além da comunidade e, ao mesmo tempo em que preserva identidades locais e bens culturais materiais e simbólicos, esse trabalho também tem o mérito de dar voz e atenção ao povo caiçara, pois seja em que lugar for todos podemos conhecer e saber da existência e de algumas histórias e modos de vida daquele povo, bastando para isso apenas um clique.

Para finalizar, defendo a idéia de que toda comunidade, esteja ela localizada qualquer parte do Brasil, tenha essa mesma possibilidade, pois assim será possível discutir e pensar em problemáticas e soluções em âmbitos locais, trocar informações com outras comunidades, dividir saberes e conhecimentos, formando uma rede que possa ter seus respectivos discursos e vozes independentes. O ideal seria ainda, a meu ver, chegar num momento em que os mediadores e acadêmicos do curta O caiçara de Paraty, para ficarmos no exemplo citado, deixassem de existir (pelo menos no filme), só existindo as vozes locais.

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Produtor cultural e mestrando em Ciência da Arte pelo PPGCA/UFF, Rio de Janeiro, RJ

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