Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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DIRETóRIO ACADêMICO > CORRESPONDENTE DE GUERRA

Conhecimentos e palavras que fazem a diferença

Por Thais Kuperman Lancman em 30/10/2007 na edição 457

Diversas questões surgem quando se discute a cobertura jornalística de conflitos armados: Que termos usar? Que proteção deve ser garantida ao jornalista? Que valores estão por trás das notícias produzidas? No dia 6 de outubro, como parte do projeto ‘Repórter do Futuro’, da Oboré, a conversa com João Paulo Charleaux, assessor de comunicação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha para o Cone Sul, desmistificou alguns desses pontos e levantou outros, como a própria relação do CICV com a imprensa.


Em uma entrevista coletiva para estudantes de Jornalismo, Charleaux contou que se discute muito um protocolo adicional para a proteção dos jornalistas que cobrem conflitos armados – que incluiria até um emblema próprio. Para ele, isso é perigoso, já que pode transformar os jornalistas em alvos. Civis por definição, os jornalistas só mudam de categoria se ‘pegam uma arma para ver como é’, ou têm alguma postura ativa no conflito. A questão de uma identificação para a imprensa é vista de outra forma pelo CICV quando o assunto são distúrbios internos. Em curso oferecido na Bolívia, o Comitê até distribuiu equipamento distintivo para os repórteres, já que, nesse caso, todos são civis.


João Paulo Charleaux, jornalista de formação, curiosamente trabalha agora em uma instituição de lógica contrária ao jornalismo. O CICV preza pela confidencialidade de suas ações, diferentemente da Human Rights Watch, por exemplo. Isso significa que relatórios são fornecidos apenas às autoridades envolvidas, exceto em situações extremas. Charleaux explica que isso é uma ferramenta da instituição, uma forma de manter a continuidade das ações; ou seja, não é uma insinuação que a imprensa deveria agir de maneira semelhante.


Direito humanitário não é notícia


Por outro lado, João Paulo critica a interpretação que os jornalistas fazem das notas públicas emitidas pelo Comitê. ‘Os jornalistas não sabem ler.’ As notas são uma espécie de comunicação cifrada. Segundo o assessor, essas mensagens são essencialmente diplomáticas, porém elas dizem muito nas entrelinhas. O próprio ato de emitir uma dessas notas já quer dizer alguma coisa.


Outra interação da imprensa com o CICV se dá nos próprios conflitos. A organização dispõe de um hotline, um serviço de telefone para serem comunicados desaparecimentos. Quando um jornalista é preso em um conflito, ele é assistido pelo mesmo serviço do Comitê que todos os outros presos: visitas periódicas e entrevistas individuais – que não interferem nos motivos da prisão e, sim, garantem que não serão cometidos abusos que contrariem as convenções internacionais.


Por fim, Charleaux mudou um pouco da visão que se tem dos conflitos armados a partir das coberturas realizadas. A impressão que temos é que na guerra há espaço apenas para as maiores atrocidades e não é bem assim. Entretanto, isso não diminui a importância dos casos de tortura e maus-tratos, mesmo que em menor porcentagem. ‘Respeito ao direito humanitário não gera notícia’, conclui João Paulo, que entende do assunto.

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Estudante de Jornalismo

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