Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > ENSINO DE JORNALISMO

Coordenadores de curso e a qualidade da educação

Por Gerson Luiz Martins em 06/11/2007 na edição 458

Nos últimos anos houve uma renovação acentuada, principalmente nas instituições de ensino superior (IES) privadas, de professores e coordenadores de curso de jornalismo; são jovens que assumem postos importantes na formação de profissionais do jornalismo. Essa renovação não é e nem deve ser entendida como negativa para a qualidade da formação, no entanto há inúmeras exceções que não decorrem de pessoas, mas de políticas institucionais. Na avalanche de demissões ocorridas em todos os finais de semestre nos últimos anos, as IES substituem professores/profissionais experientes, muitas vezes devido aos seus rendimentos – conquistados ao longo da carreira docente – , por jovens professores/profissionais que recebem muito menos da metade do anterior.


Convém adotar a nomenclatura ‘professor/profissional’ para caracterizar a pessoa que iniciou sua carreira docente a partir de sua formação ou prática profissional. A maioria dos professores de jornalismo foram ou são, em primeiro lugar, jornalistas – fizeram curso de jornalismo para serem jornalistas. Somente nos últimos anos, conforme pesquisa empírica e aleatória entre estudantes de jornalismo, é que aparece a opção ‘professor de jornalismo’ como um dos objetivos, ou como o objetivo de realização do curso universitário de jornalismo.


Essa nova realidade de gerenciamento dos cursos de jornalismo inflige uma outra situação para a formação dos novos jornalistas. Se de um lado temos um corpo docente experimentado nas práticas jornalísticas por meio de sua inserção na atividade profissional, de outro temos um conjunto de professores egressos de cursos de alguma área da comunicação e que se qualificaram para a docência diretamente a partir da pós-graduação, seja stricto sensu ou mesmo lato-sensu. Como ambos os grupos são, como se diz no vocabulário jornalístico, ‘focas’, têm uma carência ampla e profunda do conhecimento da legislação que regulamenta os cursos de jornalismo – como as diretrizes curriculares, a história de constituição das diretrizes – assim como dos processos de avaliação do governo e como isso se realiza, e de quem está no gerenciamento de políticas e diretrizes do processo de avaliação. Essa situação também se verifica no conhecimento da história da constituição, criação e formação dos cursos de jornalismo. Não há, no âmbito dos cursos ou ainda nos primeiros passos da atividade profissional, um ‘curso’que trate da história da formação em jornalismo.


O que fazer


Outro aspecto importante desse conhecimento se refere ao entendimento do ‘curso de jornalismo’ em referência a curso de comunicação (história, dimensão e perspectivas) e o acúmulo de reflexões (artigos científicos e pesquisas sobre esse tema). Seria a mesma coisa que perguntar: ‘Por que há um curso de mestrado em jornalismo?’, ou ‘por que as escolas de jornalismo dos Estados Unidos promovem habitualmente a formação ‘pós-graduada’ em jornalismo?’. E tão importante quanto as informações sobre o ‘curso de jornalismo’, também é imprescindível o conhecimento sobre as entidades de jornalismo e história de documentação e atuação dessas entidades, como FNPJ, SBPJor e Fenaj.


Apesar da Resolução 02/84 estar caduca e as IES terem liberdade de organização curricular e de elaboração do projeto pedagógico dos os cursos de jornalismo, muitos deles, inúmeros, principalmente no interior dos estados, ainda têm sua estrutura, matriz curricular e projeto pedagógico pontuado ou mesmo regrados pela resolução 02/84. Muitos cursos possuem o famigerado tronco comum, pelo que se perpetua a angústia do estudante da área de comunicação e se posterga o ensino de jornalismo e das outras áreas profissionais/acadêmicas. Mas isso não é culpa dos jovens coordenadores: eles herdaram essa situação e têm que fazê-la funcionar.


Infelizmente, em boa parte das vezes os jovens coordenadores, dada sua recém-integração ao processo acadêmico, desconhecem diretrizes, história de formação dos cursos e a importância da identidade profissional.


No caso do ensino de jornalismo, há elementos que merecem atenção especial dos coordenadores e professores, como a proibição do estágio e a validade do diploma. Se a não-validade do diploma se institucionaliza, para que fazer um curso de jornalismo, pagar altas mensalidades – no caso das escolas privadas – se ele para nada serve? Da mesma forma a tentativa de implantação do ciclo básico, o que, para os cursos de jornalismo, significa um retrocesso e um ‘jogar pela janela’ quase 20 anos de consolidação acadêmica, mesmo que integrados como habilitação dos cursos da área de comunicação.


Debate necessário


Por último, o que significa ser professor de jornalismo, uma das diversas funções/atividades previstas na regulamentação profissional? O que significa coordenar um curso de formação jornalística, uma das mais importantes profissões/atividade na sociedade contemporânea, a sociedade da informação? Nesse emaranhado de situações e elementos, como trabalhar e atuar em meio a um quadro de desânimo geral dos estudantes de jornalismo, dado às perspectivas profissionais (falta de trabalho/emprego, baixos salários, aviltamento do mercado, seja pelos próprios estudantes, seja por pseudo-profissionais)? Sobretudo quando se observa, ano pós ano, uma diminuição na demanda pelas vagas nos cursos de jornalismo ou ainda uma evasão acentuada antes da conclusão? O que significa o fato de um curso que esteve sempre entre os três mais procurados nas IES, hoje ocupe uma posição muito inferior, colocado entre os 20 menos procurados?


Infelizmente, para muitas IES é interessante manter profissionais e coordenadores distantes dessa realidade. Não há qualquer apoio para sua inserção em simpósios, seminários, congressos. A retórica poderia ser: ‘Vamos formar esses alunos dessa maneira, não interessa despertar questionamentos. Não temos qualquer responsabilidade com o mercado de trabalho, com a inserção dos egressos na profissão!’. Ou, pior: ‘Se o curso de jornalismo, que tem uma infra-estrutura cara, não der mais lucro, a solução é simples: feche-se o curso’.


Há uma aposta das IES nos jovens coordenadores, pois muitos são recém-formados, não tiveram inserção político/profissional na formação ou, ainda, ingressaram em cursos de pós-graduação stricto-sensu fora da área de comunicação – ou, mesmo quando na área, densamente absorvidos pelas teorias da comunicação que não enxergam a realidade profissional e o desenvolvimento da área específica de conhecimento que é o jornalismo. É aquele professor/profissional que passa dois anos em curso de semiótica, apenas para citar um exemplo, e depois vai coordenar um curso de jornalismo sem nunca ter experimentado a atividade profissional. Em alguns casos extremos, ministram aulas profissionais do jornalismo sem qualquer experiência, em técnicas de reportagem, telejornalismo, radiojornalismo e outras tantas.


Passamos do momento de refletir sobre essa atuação. Está em curso, há 14 anos, um debate e uma reflexão sobre o tema, seja no FNPJ, SBPJor, e nos Grupos de Trabalho de Jornalismo da Intercom e da Compós. Outras tantas reflexões acontecem no âmbito deste Observatório da Imprensa. Em nossa sociedade tecnologizada, cada segundo representa anos de descompasso e atraso, o que significa um ou mais trauma(s) para recuperar.


Boa sorte aos professores e coordenadores dos cursos de jornalismo!

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Professor de jornalismo da UFRN, onde leciona Linguagem Jornalística, Ciberjornalismo e Reportagem; presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, mantém projeto de jornalismo na internet e um blog

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