Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Cronicando

Por Luisa Frey em 02/09/2008 na edição 501

‘O que eu tenho, doutor? Você está com uma doença crônica, sinto muito.’ Não. O assunto não é esse tipo de ‘cronicidade’. A crônica em questão é aquele texto leve e curto, sobre um fato cotidiano e que se lê no jornal. Ou então em um livro que traz uma coletânea desses textos. É o caso de Ungáua!, o recém lançado volume que reúne 101 crônicas de Ruy Castro, publicadas na Folha de S.Paulo entre fevereiro de 2007 e março de 2008. E não é só o nome dado à obra que intriga em Ruy. Sua visão jornalística e sobre o gênero crônica também é bastante particular.

Comecemos pelo curioso nome ‘Ungáua’. É o que o Tarzan, interpretado por Johnny Weissmuller no cinema, dizia ao macaco, ao elefante e aos outros bichos quando queria lhes dar alguma ordem. ‘Falava apenas ‘Ungáua!’ e o bicho entendia imediatamente o que tinha de fazer’, explica Ruy. Talvez essa seja uma analogia com a espontaneidade e a fácil compreensão da crônica. Mas escrevê-la é bem mais complexo do que parece.

A crônica exige um grande exercício de observação e síntese. ‘Me obriga a ficar atento ao que está se passando, o que é bom porque tendo a ser meio desligado da vida real’, diz Ruy. Ele conta também que quando começa uma crônica só tem uma idéia vaga do assunto. Este vai tomando forma à medida que escreve. O cronista leva cerca de duas horas para escrever aqueles 1.777 caracteres permitidos pela Folha, incluindo todas as mudanças feitas no texto.

Características diferenciadas

Mas não só redigir essa criaturinha é difícil. Defini-la também o é: afinal, o que é uma crônica? A professora de português, mestre em Teoria da Literatura e cronista Regina Carvalho, diz que a característica principal do gênero é justamente não ter característica alguma: tudo pode ser crônica. ‘A única definição possível é a de que ela é um texto literário para jornal’, afirma. E assim, como texto literário, tem toda a liberdade de linguagem, estilo, temática. As limitações lhe vêm impostas pela publicação. Ruy, por sua vez, define a crônica como um comentário bem escrito, que leva em conta os mandamentos imutáveis do jornal: o quê, como, quem, quando, onde.

O cronista brinca que sua inspiração para escrever vem do horário de fechamento do jornal e que o cenário carioca é quase sempre um bom ponto de partida, mas não é o único. Ele explica que em Ungáua! há poucas crônicas que se passam no Rio, mas a maneira de ver o mundo, esta sim, é sempre carioca. ‘Todos aqueles cronistas capixabas (Rubem Braga, Carlinhos Oliveira), mineiros (Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos), pernambucanos (Nelson Rodrigues) e até paulistas (Elsie Lessa) só se tornaram cronistas no Rio. Só uma metrópole em que se possa andar a pé fornece material para crônica.’

Aqui entra em questão também a brasilidade da crônica. Para o cronista carioca, não há dúvidas de que esse é um gênero tipicamente brasileiro. E muitos também o dizem. A professora Regina lembra, entretanto, que há crônicas em outros países, mas com características diferenciadas. Cita como exemplo o Uruguai e seu popular escritor Eduardo Galeano. Ele ficou famoso não só por sua obra As veias abertas da América Latina, mas também por seus livros de crônicas, como Bocas do Tempo, publicado em português. Segundo ela, o que houve no Brasil é que a crônica atingiu uma popularidade muito grande.

E por falar em popularidade, para Ruy Castro um romancista tende a ser bem mais valorizado que um cronista por o romance ser coisa mais séria, que dá muito mais trabalho. Ele mesmo foi consagrado por seus livros de reconstituição histórica e biografias. Era no tempo do rei — Um romance da chegada da Corte, por exemplo, tomou dez meses do autor para ser escrito após um ano de estudos sobre o cenário do século 19. Regina cita o romancista Cristovão Tezza e sua idéia de que todos amam um cronista, mas ninguém conhece um romancista. ‘E olhem que o Tezza tem renome nacional! Mas o que se pode esperar num universo em que se lê pouco?’, diz a professora. Ela afirma não saber se as pessoas lêem o jornal, mas ter certeza de que as crônicas elas lêem.

Regina acredita que a crônica deve falar do cotidiano com leveza e humor. E também bronquear quando preciso porque há coisas que revoltam até o cronista mais bem-humorado do mundo. A professora acrescenta que a crônica tem como função trazer um pouco de beleza e reflexão para a vida das pessoas, de uma forma que elas possam assimilar e ter prazer com isso.

Sem rodeios, Ruy Castro diz que uma boa crônica deve ser simplesmente interessante de ler.

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Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

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