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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA & HUMOR

De séria já basta a realidade

Por Carolina Moura, com a colaboração de Juliana Frand em 02/09/2008 na edição 501

No início deste ano, uma seleção inusitada de personalidades recebeu uma visita em comum. Gretchen, Padre Quevedo, Leão Lobo, Raul Gil, Datena e Marcelinho Carioca tiveram de enfrentar um problema de fama: dar entrevista a um repórter inexperiente. Cada um à sua vez, inadvertidamente, viu o microfone cair, ouviu os comentários gaguejados e respondeu às perguntas mais inoportunas disfarçadas de ingenuidade. Mas o disfarce caiu no dia 17 de março, quando Danilo Gentili apareceu com o quadro no CQC – Custe o que Custar, demonstrando grande experiência em enganar seus entrevistados.

Criado em 1995 na Argentina pela Cuatro Cabezas, que hoje produz também a versão transmitida pela Band, o CQC (originalmente, Caiga Quien Caiga) faz sucesso em países como Chile, Espanha, França e Itália. E aqui não foi diferente: em pouco mais de dois meses a audiência no horário (segundas-feiras às 22h15) dobrou, passando de 3 para 6 pontos. O número não é gigantesco, abismal, mas não expressa o público total. Mais de oitocentos vídeos, só da versão brasileira, estão disponíveis no YouTube. ‘Isso é muito positivo. Não está refletido no Ibope, mas esse não é nosso principal objetivo. Temos vontade de falar as coisas’, considera Diego Barredo, o diretor argentino do Custe o Que Custar. E milhares de pessoas estão ouvindo o que eles têm a falar.

A piada desmascara o homem

Os apresentadores são Marcelo Tas, Marco Luque e Rafael Bastos, sendo que o último também integra a equipe de repórteres, junto com Oscar Filho, Felipe Andreoli, Rafael Cortez e Danilo Gentili. De eventos sociais ao Congresso Nacional, do Museu de Arte Moderna às Olimpíadas na China: tudo isso é pauta no CQC. O que identifica e diferencia o programa são as reportagens que divertem e criticam ao mesmo tempo.

A associação entre humor e jornalismo não é algo recente. A charge é um gênero consagrado no Brasil e tem origem nas caricaturas do século 19. A principal característica desses desenhos é a sátira em relação à política e aos costumes da época. A charge brasileira tem grandes nomes, como Angeli, que já foi publicado em vários países.

Marcio Acselrad, professor do curso de Comunicação Social – Jornalismo na Universidade de Fortaleza, escreveu que o riso é uma estratégia cultural capaz de aproximar o homem da consciência de sua realidade. No artigo ‘O humor como estratégia de comunicação’ [disponível no site www.compos.org.br], ele apresenta o riso como ‘uma forma de lidar com as questões mais graves e profundas a partir de uma superfície apaziguadora, mas ferina, sutil e sarcástica’. A piada não cultua o homem; desmascara-o, mostra-o como ele é.

Desmoralizar com senso crítico

Ninguém está protegido do humor. As figuras de poder, sérias e conservadoras, podem ser as mais cômicas. E o programa norte-americano The Daily Show prova isso desde 1996. São clássicas as críticas ao presidente Bush, tratando até assuntos como a Guerra do Iraque de forma bem-humorada. Adam Chodikoff, responsável por assistir a horas de noticiários em busca de material para o programa, afirmou em entrevista ao Washington Post que não se trata de uma perseguição: ‘Eu quero fazer o programa mais sagaz, mais engraçado possível. Não acordo toda manhã dizendo ‘eu tenho que pegá-lo, eu tenho que pegá-lo!’.’ O produtor-executivo David Javerbaum considera os noticiários televisivos muito ruins no que fazem (My opinion is that they suck at their jobs). Nesse cenário, o Daily Show faz conexões e dá destaque a informações que outros programas não consideram.

Barredo, diretor do CQC, faz uma avaliação parecida, ainda que menos radical, da mídia no Brasil e Argentina. ‘O jornalismo tem uma solenidade às vezes até absurda, que oculta certas críticas da realidade e expõe com naturalidade coisas absurdas, injustas’, comenta. É aí que o humor entra: para falar sem rodeios e desmoralizar com senso crítico. ‘É uma ferramenta para derrubar barreiras, chegar às pessoas. Está muito ligado à inteligência, quebra paradigmas.’

Ser sempre original

Apesar de a mistura não ser novidade, ainda surge a pergunta: entre jornalismo e humor, onde reside a ética? Segundo Barredo, do início ao fim. Toda a equipe de produção do programa é formada por jornalistas, inclusive profissionais que vieram de importantes veículos impressos do país. A ética do jornalismo vale para o CQC. Questionado sobre o off no caso da entrevista com Mãe Diná, na qual ela fala sobre o presidente Lula quando pensa que o microfone está desligado, Barredo diz que o limite é o respeito às pessoas. Quando algo pode prejudicar alguém e não tem importância jornalística, não vai ao ar. Por isso eles foram tão convictos na campanha para entrar no Congresso, após serem proibidos de gravar lá: ‘Não houve desrespeito. É tudo verdade, o mensalão, o caixa dois. Está provado.’

A maior dificuldade em produzir o CQC, para o diretor, é ser sempre original. Esse é um problema que ele identifica no jornalismo tradicional, que segue mecanismos que acabam gerando repetições, sempre fazendo as mesmas perguntas. Que pergunta um repórter do CQC lhe faria em uma entrevista? ‘Provavelmente perguntariam quando teriam um salário mais alto. Eu mandaria eles trabalharem mais se quisessem ganhar o aumento.’

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Estudantes de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

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