Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Deboche fora de lugar

Por João Serralvo em 30/06/2009 na edição 544

O ministro Gilmar Mendes comparou os jornalistas aos cozinheiros. Se foi para debochar, ele se deu muito mal. Não só foi deselegante como demonstrou ignorar os deliciosos benefícios da refinada arte culinária, sem a qual ele próprio não pareceria tão bem nutrido…

A analogia, porém, é boa e podemos tirar proveito dela. Para cozer é preciso utilizar uma panela. É o intermediário indispensável entre o fogo e os ingredientes da comida que se quer fazer. O alimento do corpo tem que ser preparado por um conhecedor, um perito no manuseio das receitas. A vasilha é necessária até mesmo para ferver água. Sem ela, o cozinheiro pode ficar limitado a um assado, um bom churrasco na melhor das hipóteses, mas não vai produzir os pratos mais sofisticados da gastronomia internacional, em que se combinam os nutrientes e temperos no sabor das melhores iguarias, com o toque do profissional competente e sensível apresentando a comida como uma das melhores formas de prazer. Servindo a união do útil ao agradável!

Por que destruir a panela?

Aqui, a panela significa a tecnologia básica, a formação profissional que se consegue na escola. O fogo representa a paixão e o talento inatos, a vocação. A comida é, então, o alimento do espírito. Cabe ao jornalista empregar a observação dos acontecimentos, a pesquisa dos motivos, a investigação dos fatos e temperar tudo isso, com o indispensável uso da técnica, para entregar aos leitores: a notícia, a crônica, a matéria que esclarece os fatos, o texto literário, a poesia, a informação útil para a vida diária. O jornal é instrumento de comunicação e formação do conhecimento. Mas sem profissionalismo é jornaleco, pasquim ou cordel. Jornalista sem estudo é amador que pode gostar de escrever, mas lhe falta preparo para penetrar na mente do leitor com os argumentos apropriados à compreensão da vida em sociedade.

O sheik Muslihuddin Saadi Shirazi (1175 d.C.) disse: ‘Três coisas não existem sem outras três coisas: Riqueza sem Comércio; Conhecimento sem Debate; Nações sem Política’. São campos de ação do jornalista, que vai mergulhar de cabeça nas suas águas, para emergir depois, munido de todos os elementos que se mesclam para promover a informação, a crítica, e a busca da verdade! O que nos sugere perguntar: quem tem medo da divulgação? Por que acabar com o estudo universitário, base científica da comunicação, que forma o profissional competente em quem se pode acreditar? Por que destruir a panela, quando a culinária já não se contenta mais com os assados?

A quem cabe protestar?

São boas perguntas. A resposta pode ser surpreendente, se for descoberta. O desmanche das faculdades de Jornalismo não vai passar oculto ou despercebido. É tão absurdo como seria acabar com as faculdades de Medicina. Sem elas, a nossa comunidade médica seria um bando de curandeiros. E se continuarem esse desmanche do ensino, logo teremos comunidades só de palpiteiros em Economia, Engenharia, Contabilidade… Voltando atrás no tempo, quando as profissões não eram regulamentadas e ninguém ‘se formava’… Como, ainda hoje, os políticos não estudam e não ‘se formam’. Entram de sola na briga das eleições, sem nenhum lastro teórico, com seus currículos recheados de denúncias criminais, prevaricações, pouca vergonha! E muitas promessas sem compromisso. Porque eles não estudam…

Faculdades de Política? Preparando para administrar a coisa pública? Políticos aprovados por mestres da ética e do respeito que fariam o ‘homem público’ deixar de ser o masculino de ‘mulher pública’, como já disse um humorista nosso? Quem diria! Nunca teremos. Nossos políticos preferem continuar a ser indicados pelo voto secreto de (1) eleitores interesseiros à espera de um retorno vantajoso, ou (2) de inocentes convencidos pela propaganda eleitoreira, enganosa e vendida. O tiro de misericórdia para matar o jornalismo científico já está engatilhado. A pontaria está feita. O disparo não demora, cabe aos nossos brilhantes legisladores, já com o dedo coçando no gatilho. A quem cabe protestar? Reagir? Impedir, talvez? Não sei.

Como leitor de jornal, faço a minha parte. Quem me acompanha?

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Contador e administrador, Valinhos, SP

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