Sábado, 25 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

DIRETóRIO ACADêMICO > EDUCAÇÃO EM CRISE

Demorou, mas caiu a ficha

Por Gabriel Perissé em 20/03/2007 na edição 425

O tema ‘educação’ tornou-se mais do que nunca preocupante e oportuno, a salvo dos oportunistas (pelo menos, assim espero).


A possibilidade de nova troca de orientação no Ministério da Educação deixara a muitos perplexos e terá contribuído para que o ministro Fernando Haddad acelerasse a criação de um ‘pacote’ de medidas emergenciais. O pacote acabou de ser aberto.


Em nível nacional, e em particular em São Paulo, passados tantos anos, caiu a ficha: os tucanos tiveram tempo de sobra para provar que a educação era uma de suas prioridades. E não era. Os resultados (o aproveitamento real dos jovens) são decepcionantes. No caso gritante de São Paulo, quem nos dará explicações? O ex-governador Geraldo Alckmin, fora do país, descansa do frustrante 2006. O ex-secretário de Educação, Gabriel Chalita, o crucificado da vez, poderá dizer-nos: ‘Está tudo consumido…’


Aula do ‘professor’ Serra


Veio manifestar-se, então (sinal de coerência), o governador José Serra. Espantoso foi descobrir que tinha em mente alguns parâmetros didáticos, um método pessoal de ensino:




‘Estou insistindo muito na volta de procedimentos tradicionais de ensino, como memorizar a tabuada, que é uma coisa que saiu de moda. Não vejo outra maneira de saber quanto é 9 vezes 7 senão memorizando que é 63. Os jornalistas aqui são jovenzinhos e estudaram pelos métodos construtivistas. A pessoa entende como chega lá, mas não sabe de memória. Defendo que se memorize a tabuada. É memorex.’ (O Estado de S.Paulo, 08/03/2007)


Dias depois, 13 de março, foi pessoalmente mostrar aos jornalistas e professores (jovenzinhos ou velhinhos) como se ‘constrói’ uma aula. O Jornal da Tarde registrou o evento, na Escola Estadual Paulo Monte Serrat. A aula durou 50 minutos para uma classe de 37 alunos da 4ª série. Entre os recursos adotados, o ‘professor’ Serra (as aspas são do próprio JT) utilizou exemplares do… Jornal da Tarde. Em troca desse instigante material didático, concedeu entrevista exclusiva ao jornal doador.


O método didático ‘José Serra’ de ensino ‘usa’ metáforas futebolísticas (a exemplo do que o presidente Lula faz em seus pronunciamentos) para animar os alunos. Outro ponto fundamental: motivar os estudantes a ler em voz alta, com o intuito de verificar se fazem as pausas corretamente, conforme a pontuação e, de quebra, mostrar-lhes na prática o quanto é importante ler o jornal (de preferência o Jornal da Tarde).


Um método assumidamente démodé. Pobres de nós!

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/03/2007 Luiz Paulo Santana

    Assistam ao Documentário dos jornalista e cineasta João Jardim, ‘Pro dia nascer feliz’, que faz um vôo pelo mundo de nossas escolas públicas.
    Educação, hoje, é problemática para o qual ninguém tem, ainda, a solucionática (Licença, Dario).
    Claro, há algumas pistas, por exemplo, o abismo social. Na periferia do sistema socioeconômico a pobreza, a descrença, a apatia, a desorientação, a falta de base e de apoio familiar, parecem
    impedir que a maioria dos jovens acredite na educação como forma de melhorar a vida.
    No meio disso tudo existe um processo extremamente violento, o êxodo rural, cuja magnitude no tempo (+ de meio século) e no espaço jamais foi devidamente estudada.
    Por outro lado, uma espécie de anomia, um conflito subjacente ao teatro escolar atinge a todos e especialmente o alunado de classe média, que tem que ouvir e sofrer a catilinária do preparo para a famosa, vazia, ensurdecedora concorrência, num mundo cada vez mais globalizado e blá-blá-blá.
    Os professores se esforçam, malgrado os baixos salário e preparo, chegando à frustração e ao desespero em face de tão incompreensível situação.
    Via de regra, e sem que saibamos, excedem a sua funçaõ, de ensinar, e fazem papéis de pais, psicólogos, assistentes sociais e até de médicos. Não conseguem a aprovação que gostaríamos, mas salvam, pelo menos por algum tempo, muitos garotos(as) da completa marginalização.

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