Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Despreparo de planejamento e avaliação

Por Maria Saraiva em 01/06/2004 na edição 279

Não entendo até hoje de onde nasceu o argumento de cotas em universidades, ainda mais sem serem planejadas. O vestibular talvez seja o única critério seletivo no Brasil onde a meritocracia exista, ninguém no Brasil se identifica para passar num vestibular.

Parece que as pessoas confundem affirmative action com cota. Nos EUA a ação afirmativa existe nas universidades porque na seleção de alunos a cor/etnia eram levadas em consideração. Lá não existem cotas, existem metas. Estão confundindo metas com cotas forçadas.

A ilusão de cotas é trazida por pessoas que não moraram e conviveram nos EUA. Mesmo com o affirmative action (que não é cota) os negros americanos ainda estão no patamar mais baixo de remuneração econômica e social.

Eu tenho muitos amigos negros nos EUA com quem desde que cheguei, lá em 1996, conversava abertamente sobre o racismo. Uma das primeiras perguntas que fiz Peter era sobre o funcionamento de cotas. Ele ficou surpreso, porque cotas não existiam, e nunca existiram.

Se o que impressiona no Brasil é que eles tem vida melhor do que os negros brasileiros, isso é porque o país deles é mais rico, e o mais pobre nos EUA, claro, tem um poder de compra maior do que no Brasil.

No entanto, eles continuam segregados, sentando separadamente nas Universidades, não se misturam com a comunidade branca, falam de maneira diferente, e ainda são detestados pelos brancos que apenas `obedecem as leis´.

Estas metas foram traçadas com planejamento e avaliação. Existia a meta de se levar mais negros a Universidade, estimulando, e aceitando, ou mesmo incentivando através de bolsas alunos que não conseguiriam entrar na Universidade por causa da etia e cor.

Processo lento

Qual o planejamento que está se fazendo no Brasil? Onde estão os programas que avaliaram isso? Como será o nivelamento nas salas de aula? Se aqueles que entram por cotas não conseguirem atingir o aprendizado, como isso será resolvido?

Colocando os negros numa situação humilhante de não conseguirem atingir o desempenho dos demais? Ou será que teremos que passar os alunos mesmo com um desempenho não adequado?

Como os alunos que já entraram com cotas estão se saindo? Quem estará preparado para lidar com as questões raciais em sala de aula? Quem dará aulas de reforço?

Um aluno cursando cálculo que não souber funções terá aula de reforço? Ou como será?

Isso não e questão de cor, e questão de por vezes o aluno não ter base no segundo grau.

Quais os esforços para se diminuir a discriminação que realmente existe que é na hora de se conseguir cargos, empregos, pós-graduações?

Quem disse que vamos diminuir as desigualdades sociais com títulos de universidade? Quantos taxistas não ganham melhor que um professor universitário das federais e estaduais?

Infelizmente, o processo é lento, assim como qualquer solução mágica e populista de enriquecer os pobres no Brasil de um momento para outro é simplesmente impossível.

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PhD em Ciências Epidemiológicas pela Universidade de Michigan

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