Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Dificuldades e perspectivas de aplicação no Brasil

Por Regiane Santos Barbosa em 07/11/2006 na edição 406

Ainda existe um longo e árduo caminho para que o jornalismo brasileiro se transforme em um jornalismo de qualidade. O jornalismo presente na maioria dos meios de comunicação prende-se a técnicas primárias, dependentes de fontes de informações repletas de interesses pessoais. Além de recontar fatos respondendo resumidamente as quatro das seis perguntas que constituem o lead: o que, quem, quando e onde, o jornalismo praticado na atualidade privilegia a quantidade de informações e não a qualidade, obtendo-se, assim, notícias fragmentadas que dificultam a compreensão do contexto pelo leitor.

Este novo modelo seguido pelos grandes jornais pode ser comprovado pelas estatísticas apuradas por duas décadas pelo jornalista Carlos Manuel Chaparro, apresentadas no livro Jornalismo investigativo: o fato atrás da notícia, de Cleofe Monteiro de Sequeira, que mostra a evolução dos gêneros jornalísticos como forma discursiva nos últimos 50 anos da imprensa brasileira (1945-1994): Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo, por cinco décadas; Última Hora e Diário Carioca, de 1945 a 1954; Correio da Manhã e Diário de S. Paulo, de 1955 a 1964; O Globo e Jornal da Tarde, de 1965 a 1974; e Folha de S. Paulo e O Globo, de 1975 a 1995.

Na amostra de 1995, a reportagem investigativa ocupava apenas 2,32% do espaço total da Folha de S. Paulo e 1,73% em O Globo; na amostra de 1945-1994, 0,20% no Estado de S. Paulo, e 0,50% no Jornal do Brasil.

O jornalismo de precisão, segmento do jornalismo considerado por vários estudiosos como o aperfeiçoamento do jornalismo investigativo, praticamente não existe no Brasil. Há apenas dois exemplos de reportagens do gênero, que transfere a credibilidade e veemência das ciências sociais a uma profissão basicamente ‘técnica’: a série de reportagens ‘Lavoura arcaica’, da repórter especial da Folha de S. Paulo Elvira Lobato, e o livro Políticos do Brasil, do jornalista Fernando Rodrigues.

Além da imposição do mercado jornalístico atual que privilegia notícias curtas, sem profundidade e descontextualizadas, a adoção tardia do jornalismo investigativo no Brasil gerou uma cultura de resistência nas redações em relação a esse segmento.

Em seu artigo ‘Pragas da reportagem’, o jornalista Marcelo atribuiu tal resistência ao regime militar, pois, nas décadas de 70 e 80, quando se iniciou a modernização da mídia no Brasil, os jornalistas não tiveram liberdade nas redações para apurar matérias investigativas, devido, principalmente, à ditadura. A tímida implantação do gênero investigativo no Brasil só ocorreu em 1992, quando surgiram denúncias sobre corrupção no governo de Fernando Collor de Mello. Mas, mesmo assim, ‘poucos jornais estavam dispostos a investigar as vidas dos candidatos’ [Trecho do artigo ‘Plagas Em Los Reportajes’: (…) pocos periódicos estaban dispuestos a investigar las vidas de los candidatos.]. (Beraba, 2003, p.2)

Por cultura profissional, preguiça, falta de incentivo ou determinação, os jornalistas brasileiros ainda são resistentes à aplicação do jornalismo de precisão em seu trabalho, pecando por ignorar o emprego da confiabilidade da ciência ao jornalismo, resumindo, assim, seu ofício a ouvir as partes envolvidas no acontecimento que irá ser narrado em uma notícia.

Ao invés de testar a realidade diretamente com suas próprias observações, deduções e experimentos, eles normalmente se contentam em fazer a checagem cruzada consultando diferentes autoridades com diferentes pontos de vista e interesses diferentes. A falha dessa metodologia é que o jornalista pode não ter numa boa base para avaliar as fontes conflitantes, e pode ser forçado a aplicar a instância objetivista tradicional, que demanda a presunção improvável de que todas as vozes têm direito igual a serem verdade. O jornalista que adapta as ferramentas do método científico a seu próprio trabalho pode estar em posição de fazer avaliações úteis com a mais poderosa objetividade da ciência. (Meyer, 1991, p. 8).

O jornalista que se utiliza das técnicas do jornalismo de precisão, importadas das ciências sociais, tem respaldo da ciência para fazer avaliações mais consistentes sobre o assunto que norteia sua pauta, uma vez que ele não está fundamentado somente na observação superficial de fatos, mas sim em pesquisas de cunho científico, que determinam interpretações precisas.

As informações precisas dispostas em forma de texto jornalístico dão não somente credibilidade ao veículo de comunicação e respaldo ao repórter, mas também proporcionam a sociedade grandes ganhos, uma vez que os poderes público e judiciário serão abastecidos com dados precisos, coletados com o respaldo da metodologia científica. Assim, as reportagens irão contribuir, consideravelmente, para processos decisórios importantes.

No Brasil, iniciativas isoladas

Em Políticos do Brasil, o jornalista Fernando Rodrigues, durante todo o livro, organiza análises sobre o patrimônio de mais de 500 políticos brasileiros eleitos em 1998 e 2002. Após pesquisar, durante cinco anos, de forma independente, 3.570 registros de declarações de bens de deputados estaduais, federais, senadores, governadores, vice-presidentes e presidentes de partidos diferentes, o autor, após cruzar e comparar dados, formula conclusões interessantes que só foram possíveis porque ele possuía, em mãos, dados organizados mediante metodologia científica.

A tabela 5 de ‘Políticos do Brasil’ (página 50) mostra o quadro geral de votos obtidos para a eleição da Câmara de 1998 e em 2002. ‘É útil observá-la para definição de quais as agremiações mais bem-sucedidas do ponto de vista eleitoral’. (Rodrigues, 2006, p.50).

Tabela 1: Votos para deputado federal em 1998 e em 2002

Partido

1998

2002

PT

13,19%

18,38%

PSDB

17,54%

14,32%

PFL

17,31%

13,37%

PMDB

15,17%

13,35%

PP

11,34%

7,81%

PSB

3,41%

5,27%

PDT

5,67%

5,12%

PTB*

5,66%

4,63%

PL**

2,47%

4,32%

PPS

1,31%

3,06%

PC do B

1,31%

2,25%

outros

5,62%

8,12%

A partir dos dados da tabela acima, o jornalista chega à conclusão de que:

Apesar de serem nove os partidos com mais de 5% dos votos nacionais para deputados federais, há uma nítida distinção entre estes no que diz respeito ao poderio eleitoral. PT, PSDB, PFL e PMDB tiveram, juntos, 59,4% dos votos para a Câmara em 2002. Os outros cinco partidos (PP, PSB, PDT, PL e PTB) somaram, em conjunto, só 27,2% dos votos nessa mesma eleição (sem contar os percentuais herdados pelo PL e PTB, com a incorporação de siglas nanicas). (Rodrigues, 2006, p.51).

Percebe-se, nitidamente, que as deduções feitas acerca dos partidos políticos só foram possíveis devido à tabulação adequada e organizada dos dados e também as comparações e cálculos apropriados, assim como ensina Philip Meyer no capítulo 2, ‘Alguns elementos de análise da base de dados’, em Jornalismo de precisão.

Geralmente, um número sozinho não tem expressividade. Para adquiri-la, ele tem de ser comparado com outro ou mesmo vários outros para que as pessoas possam mensurar o impacto que ele provoca. Quando se compara um número, alguns cuidados devem ser observados, como comparar números de uma mesma base. Em jornalismo, muitos erros são cometidos por ignorar essa simples regra [Trecho do capítulo 2, ‘Some Elements of Analysis Data Bases’, de Precision Journalism, de Philip Meyer: Usually, however, a number standing alone does not convey a lot of meaning. It has to be compared with another number or even a string of numbers before much sense can be made of it. When comparisons are made, care must be taken that the numbers are being compared on an apples-to-apples basis. In journalism, many mistakes are made in trying to do that simple thing.]. (Meyer, 1991, p.25).

Temos um exemplo de interpretação precisa de dados, proveniente de pesquisa, coleta, tabulação e organização e interpretação de dados, características primordiais para a prática do jornalismo de precisão, que, a partir desses quesitos, contextualiza a informação ao leitor, indo de encontro ao modelo adotado atualmente pela maioria dos veículos de comunicação.

Outra característica do jornalismo de precisão, mas ainda de aplicação tímida nas redações brasileiras, é a de calcular as variações e estabelecer, a partir da base de dados coletada pelo jornalista, estatísticas e comparações.

Fernando Rodrigues, como exceção à regra, cumpre essa premissa quando calcula, no capítulo 5 de Políticos do Brasil, intitulado ‘Os milionários’ a porcentagem do número de políticos milionários sobre o total de eleitos em cada estado.

Tabela 2 – Políticos milionários eleitos por UF, em 2002

Os que declaram ter mais de R$ 1 milhão de patrimônio

UF

N° de milionários eleitos

Valor total dos bens dos milionários

Total de eleitos em 2002

% dos milionários sobre o total de eleitos nessa UF

MG

41

171.310.248,09

138

29,71%

SP

37

195.427.274,77

172

21,51%

BA

21

56.128.965,19

110

19,09%

PR

21

83.071.424,13

92

22,83%

MA

15

41.072.656,14

68

22,06%

CE

14

93.941.811,03

76

18,42%

PE

14

66.012.463,10

82

17,07%

MS

11

31.025.837,26

40

27,50%

MT

11

61.472.309,28

40

27,50%

RJ

11

331.080.188,45

124

8,87%

DF

10

264.629.862,66

40

25,00%

GO

10

119.744.831,33

66

15,15%

RS

9

48.666.741,79

94

9,57%

PI

8

17.840.288,44

48

16,67%

AL

7

196.100.095,82

44

15,91%

PB

6

16.891.574,09

56

12,50%

PA

6

22.977.175,63

66

9,09%

RN

5

20.153.432,77

40

15,00%

TO

3

10.405.304,05

40

12,50%

RR

3

6.217.618,38

40

7,50%

SC

2

4.697.916,53

64

4,69%

AC

2

3.032.800,71

40

5,00%

AM

2

8.429.176,51

40

5,00%

ES

2

3.773.433,56

48

4,17%

RO

2

7.468.212,86

40

5,00%

SE

2

12.253.689,83

40

50,00%

BR

1

9.621.819,60

2

50,00%

Total milionários

281

1.903.447.152,00

  

O autor conclui que o estado que mais detém políticos milionários é Minas Gerais, com 29,71% do total de políticos eleitos no estado. São Paulo tinha apenas 21,51%. A variação calculada pelo autor, proveniente de cruzamentos de dados e cálculos específicos para atingir tal resultado, faz surgir, no capítulo 5, uma notícia de primeira mão. O fato se adequa ao título do capítulo 3 de ‘Jornalismo de Precisão’: ‘Aproveitando o Poder das Estatísticas’. ‘Variações produzem notícias’ [Variance, then, makes news.]. (Meyer, 1991, p.50).

Apesar da baixa incidência do jornalismo de precisão no Brasil, Fermín Galindo Arranz, estudioso espanhol da mensagem jornalística, alerta para a banalização da disseminação desse conceito. No artigo, ‘Propuesta de Periodización Histórica y Evolución Conceptual del Periodismo de Precisión’, o acadêmico argumenta que a simples inserção ou referência a uma tabela, números ou estatísticas em uma reportagem não pode ser considera como forma de aplicação do jornalismo de precisão.

Criando base de dados

Como o acadêmico espanhol Fermín Galindo Arranz escreve em seu artigo, o jornalismo de precisão vai além da reprodução de dados provenientes de fontes oficiais. A partir da coleta, organização e interpretação de dados, como ensina ‘Jornalismo de Precisão’ em seu capítulo 2 (‘Alguns Elementos da Análise de Dados’) e o capítulo 6 (‘Um Pouco Mais Sobre Análise de Dados’) e também como calcular e analisar estatísticas, explicado por Meyer no capítulo 3 (‘Conhecendo o Poder das Estatísticas), o jornalismo de precisão permite que o repórter crie e administre sua própria base de dados.

Tal atitude promete ao repórter isenção e imparcialidade, uma vez que ele utiliza de metodologia científica na apuração e interpretação de dados, e independência, já que não precisa estar subordinado a fontes ou de institutos de pesquisas, dos quais não se conhece o método e as intenções com que aqueles dados são apurados e entregues à imprensa.

A mídia de notícias desempenha um papel crucial na má informação das pessoas sobre estudos, pesquisas e amostragens. Jornalistas raramente tentam detectar os esquemas internos de um estudo. Seus editores, cada vez mais desconfortáveis por ter que tomar decisões na edição de notícias sobre questões complexas com base na intuição ou no bom senso, talvez tenham exigido estatísticas para amparar histórias. Repórteres e editores, sensíveis às acusações de tendenciosidade, apreciam crescentemente a aparente neutralidade os números. (Crossen, 1994, p. 29).

A criação destas bases de dados nos veículos de comunicação produziria um grande banco de dados sobre variados temas, uma vez que cada equipe trabalharia com assuntos específicos.

Armazenados em programas apropriados, os repórteres daquele veículo de comunicação poderiam consultar esses dados, quando fossem redigir matérias, contribuindo, assim, para a contextualização da informação, ajudando o leitor a interpretar as notícias publicadas diariamente no jornal.

Através de instituição independente, na qual os jornalistas adeptos do jornalismo de precisão associariam-se e reuniriam os dados coletados referentes a variados temas, criariam um conglomerado de dados coletados, através de métodos científicos, que, se colocados na internet, poderiam ser acessados por qualquer pessoa.

Fernando Rodrigues reuniu em um sítio na internet intitulado ‘Políticos do Brasil’ [Trabalho de cinco anos de pesquisa do jornalista Fernando Rodrigues. Comentários sobre método de pesquisa e detalhes dos bastidores da investigação estão reunidos no livro Políticos do Brasil, editado pela Publifolha.] a pesquisa realizada por ele em mais de três mil registros sobre as declarações patrimoniais de 1.059 deputados estaduais e distritais, 513 deputados federais, 81 senadores e seus 162 suplentes, 27 governadores e seus vices, presidentes da república e seus vices eleitos em 1998 e 2002. Informações que, em sua grande parte, são inéditas. ‘Esses fatos reforçam, mesmo com as ressalvas possíveis, a idéia de que o exame do conjunto das declarações patrimoniais traz informações preciosas para o conhecimento da classe brasileira e de nossos partidos’. (Rodrigues, 2006, p.11).

Tal atitude desvincularia o repórter da dependência de informações, além de dar autonomia ao seu trabalho, pois ofertaria a profissionais de diferentes ramos de atuação variadas informações e interpretações para estudos, pesquisas acadêmicas ou mesmo consultas.

Utilizar bases de dados como fontes informativas ainda é uma novidade no jornalismo brasileiro; encontrar uma notícia em um mar de números e dados estatísticos permite ao jornalista produzir reportagens com dados exclusivos e não dependa de outras fontes, mas sim somente de si próprio. [Trecho publicado no artigo Periodismo de Precisión, do jornalista espanhol Pablo Fuentes. Utilizar bases de datos como fuentes informativas ha sido toda uma novedad; encontrar uma noticia en un mar de números y datos estadísticos permite al periodista ser generador de fuentes de primera mano, y no dependiente de fuentes de segunda y de tecer mano.]. (Fuentes, 2003, p.3).

A iniciativa contribuiria para que o jornalismo se aproximasse da objetividade, qualidade considerada primordial na área, mas que apesar de ser perseguida incessantemente por grande parte dos profissionais e empresas de comunicação, eles ainda não a alcançaram. Muitos profissionais recolhem várias opiniões, normalmente umas justificando outras, como se tal atitude simbolizasse imparcialidade. Na verdade, o jornalista está praticando o jornalismo fiteiro, que raramente avança para alguma interpretação.

Internet invisível

Um conglomerado de dados organizado em programas que proporcionassem consultas básicas por palavras-chave e datas e avançada, com mais elementos para filtrar e restringir os resultados, uma vez disponível na rede, poderia ser inaugurada a versão brasileira da ‘internet invisível’, termo de origem americana utilizado para denominar um conglomerado de dados sobre os mais diversos temas, disponíveis somente aos profissionais da área de comunicação ou estudiosos do jornalismo de precisão e que têm noções de pesquisas avançadas na web.

Num portal como os sítios de pesquisas Google, Yahoo! ou Altavista, o repórter digitaria os requisitos de seu alvo de investigações e, a partir dos resultados, escolheria, mediante um simples clique, o banco de dados que atendesse ao foco de sua pesquisa. A prática, caso adotada por profissionais que aplicassem as premissas do jornalismo de precisão ao seu trabalho, proporcionaria a democratização do acesso a dados por baixo custo.

Os jornalistas devem ser capazes de saber onde e como encontrar informações de forma rápida e sem gastar muito dinheiro. Fazer investigações completas através de bases de dados, trabalhar com estatísticas, analisar dados e utilizar essas análises para conseguir histórias com um texto claro, objetivo e interpretativo deveria ser a essência do jornalismo [Trecho originalmente publicado no artigo ‘Periodismo de Precisión’, do jornalista espanhol Pablo Fuentes: Los periodistas debemos ser capaces de saber donde y cómo buscar información, con rapidez y bajos costos. Realizar investigaciones complejas através de bases de datos, trabajar com estadísticas, analizar datos y utilizar esse análisis para conseguir historias de alto nível com um contexto más profundo deben ser la esencia del periodismo]. (Fuentes, 2003, p.2).

Com a adoção desta idéia no cenário jornalístico brasileiro, seria possível a disseminação do conceito de CAR (Computer-Assisted Reporting), ou seja, a geração de relatórios de dados provenientes de bancos de dados de fontes não-oficiais, porém confiáveis, na Internet.

A busca de informações através da internet no Brasil ainda não atingiu o nível praticado pelos repórteres americanos. ‘A recuperação de dados, através de o acesso as bases de dados, é a melhor forma de criar um sistema para análise e interpretação de informações, mas muitos repórteres ainda passam longe da sofisticada técnica’ [Trecho do capítulo 6 de Precision Journalism: A database system is better at information retrieval than it is at systematic analysis of the information, but many reporters have used such systems for fairly sophisticated analysis]. (Meyer, 1991, p.65).

Revendo conceitos

Mas o jornalismo de precisão brasileiro não sobreviveria somente de bases de dados e suas respectivas interpretações. A coleta e análise de informações, mediante apuração com rigor científico, certamente é o grande diferencial em relação ao jornalismo investigativo ainda praticado no país, baseado em fontes off the records. A utilização de relatos de personagens, com o intuito de humanizar os dados, seria uma alternativa para dar vivacidade à reportagem de precisão, assim como Elvira Lobato fez em ‘Lavoura arcaica’.

A repórter especial da Folha de S. Paulo não resumiu a série de reportagens à exposição e interpretação de dados contidos em 237 relatórios de fiscalização do Ministério do Trabalho pesquisados por ela. Ela ‘humanizou’ as reportagens, em especial a primeira, ‘Agronegócios e pecuária de ponta usam trabalho escravo’, publicada em 18 de julho de 2004. Na retranca ‘Temeroso, gato diz que seu tempo está no fim’, Elvira Lobato conseguiu o depoimento do empreiteiro de mão-de-obra rural Edmilson Dantas de Santana, que atuava, na época, como o maior ‘gato’ no sul do Pará, tendo sob seu comando até 800 trabalhadores em situação de escravidão. O relato de Edmilson Santana aproxima o leitor da realidade. O personagem fornece detalhes a Elvira Lobato durante a entrevista que, caso fosse dispensada, empobreceria a matéria.

A primeira autuação ocorreu em janeiro de 2003. Ele disse que estava com 250 homens trabalhando em três fazendas, no Pará, quando chegaram os fiscais do trabalho e a Polícia Federal. Ele estava armado e ficou algemado por cinco horas’. (Folha de S. Paulo, 2004, p. A4).

O mesmo enriquecimento de detalhes ocorreria na retranca ‘Saga de piauiense nômade inclui três resgates em 20 anos’. Apesar de descobrir o ‘círculo vicioso’ do trabalho semelhante ao escravo em sua pesquisa no Ministério do Trabalho, a repórter especial da Folha de S. Paulo fez questão de entrevistar Trajano Leal Alves, conhecido como Tatu, que há 20 anos trabalha como escravo, mas, infelizmente, nunca conseguiu se livrar das condições de trabalho subumanas.

Produções independentes

Além do domínio das técnicas de apuração e interpretação de informações e dados, o jornalismo de precisão brasileiro também pode primar pela criatividade e aprimoramentos da prática ensinada pelos livros americanos.

Para afirmar que um jornalista é um jornalista que pratica o jornalismo de precisão é preciso que quatro requisitos sejam cumpridos: o desenvolvimento da capacidade criativa e indagadora do repórter; o domínio das técnicas de investigação das ciências sociais e sua aplicabilidade no jornalismo; o desembaraço para a coleta, tabulação, análise e interpretação de dados e especialização. [Em seu artigo ‘Propuesta de Periodización Histórica y Evolución Coneptual del Periodismo de Precisión’, Fermín Galindo Arranz afirma que para ser jornalista de precisão é preciso que o profissional sustente sua rotina, valores e crenças em quatro pilares: Se puede afirmar que la formación específica del periodista de precisión, tanto académica como profesional, se define a partir de cuatro objetivos: el desarrollo de la capacidad creativa e indagatora del periodista; el domínio de las técnicas de investigación em ciências sociales y sus possibilidades periodísticas, la destreza em la búsqueda, tratamiento y análisis informático de datos; la búsqueda de la máxima competência em alguna de las distintas áreas de especialización periodistica.] (Arranz, 2004, p.13).

Apesar de a maioria dos jornalistas brasileiros imaginar que o mercado de trabalho está restrito, devido à contração das oportunidades de emprego nos grandes veículos de comunicação, ele ainda conta com um amplo espaço para produções independentes de qualidade, especialmente, se elas forem investigativas, recheadas com descobertas exclusivas apuradas mediante o uso das técnicas do jornalismo de precisão. Mas, para ocupar este campo ainda pouco explorado, os repórteres precisam aperfeiçoar-se, investir no conhecimento de novas técnicas de reportagem e investigação, e não esperar uma rara oportunidade em um grande jornal ou emissora de rádio ou televisão.

Ajuste do método

O jornalismo de precisão proporciona ao repórter investigativo a objetividade de um cientista social para desenvolver um assunto, basta que o profissional domine as técnicas desse segmento. Mas para isso, ele deve deixar a preguiça e o comodismo de lado, destinando parte do seu tempo à pesquisa, ao aprendizado e ao aprimoramento profissional, ainda esquecido, infelizmente, por grande parte dos jornalistas.

A partir da produção desses trabalhos independentes, como o livro e o sítio ‘Políticos do Brasil’, de Fernando Rodrigues, os jornalistas não garantiriam somente sua subsistência, mas também contribuem para a formação da visão crítica dos cidadãos e, conseqüentemente, o fortalecimento da opinião pública, que se tornaria mais atuante e cobraria do Poder Público soluções para questões ignoradas ou esquecidas, mas de suma importância para o pleno funcionamento da sociedade.

A pesquisa na área de comunicação, em especial no jornalismo, seria, e muito, aperfeiçoada, uma vez que vários jornalistas lidariam, diariamente, com as técnicas do jornalismo de precisão importadas dos Estados Unidos. A cada experiência com as novas adaptações, o método iria sendo ajustado à realidade brasileira. E, nestas experimentações, determinados pontos poderiam ser pesquisados à parte, gerando investigações científicas que se aprofundariam em determinados subtemas, enriquecendo, cada dia mais, as pesquisas acadêmicas no jornalismo.

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Estudante de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá (Belo Horizonte), Pedro Leopoldo, MG

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