Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Diploma ou não diploma, eis a questão

Por Cínthia Ramalho em 07/07/2009 na edição 545

Desta vez foi pra valer. Por 8 votos a 1, o STF decidiu que para ser jornalista em nosso país não mais se exigirá o certificado acadêmico, ou seja, o diploma. Bom ou ruim? Eis o impasse ao qual fomos submetidos.

Como estudante de Jornalismo que sou, não seria hipócrita a ponto de aceitar tal decisão. Porém, acredito que assim como as notas não medem o conhecimento de um estudante, o diploma não indica se tratar de um profissional competente. Apesar disso, as notas ainda são critérios de avaliação em todo o país. Entramos, então, em um descompasso. Por que não abolir esse critério de avaliação? Se for para copiar modelos de outros países (nos EUA, Jornalismo não é graduação, assim como nota não é critério de avaliação), por que não copiar de forma completa? A resposta é simples: porque estamos falando de Brasil.

É clara a defasagem do país quando o assunto é a educação. Por mais que se queira insistir e acreditar, a educação, no Brasil, não é para todos. As escolas públicas, de forma vergonhosa, passam por dificuldades quanto a material didático de qualidade e condições básicas (salas limpas e espaçosas, quadros, carteiras) para que seja possível a um aluno assistir às aulas de forma digna. Além disso, os profissionais da área de educação são, a cada dia, mais desvalorizados. Basta ver as condições dos professores, que trabalham muito por salários miseráveis. Por conta disso, greves são constantes e é comum a perda de aula por alunos, que não têm culpa pelos maus tratos sofridos pelo sistema educacional brasileiro. Em suma, o Brasil não tem a menor condição para seguir modelos educacionais de determinados países.

Qualquer pessoa expressa sua opinião

Querem fazer com o jornalismo o mesmo que fizeram com a educação de nosso país, transformar em lixo e vergonha. Mas, por quê? Novamente, a resposta é simples: porque incomodamos. Sem nenhuma cerimônia, aprendemos, durante o curso, a denunciar as mazelas de nosso país. Aprendemos a ética e a honestidade necessárias para revelar tudo o que há de errado com um país que tem tudo para dar certo, exceto pessoas sérias no poder. Assim, como é cômodo não dar educação de qualidade a uma grande parcela da população brasileira, já que dessa forma, evita-se o desenvolvimento da intelectualidade e possíveis questionamentos quanto à situação do país, também é cômodo não se permitir que a informação de qualidade faça parte do cotidiano dos brasileiros. Podem achar um absurdo, mas essa é a única justificativa plausível que encontrei, já que as ‘oficiais’ não me convenceram.

‘O diploma fere a Constituição de 88 que prevê a liberdade de expressão.’ Como, se o diploma não proíbe que qualquer pessoa expresse sua opinião em nossos jornais? Prova disso é que profissionais de diversas áreas, não graduados em jornalismo, publicam textos em jornais e revistas por todo o país.

Segurança e credibilidade

‘O jornalismo é como a culinária, não é preciso diploma para ser cozinheiro, e sim, prática.’ Não se esqueçam que para cozinhar bem seguimos receitas, que nada mais são do que a teoria. Aprendemos primeiro, para depois praticar. Sim, é fato que nem toda receita dá certo, assim como nem todo jornalista diplomado é qualificado. Vemos todos os dias matérias inconseqüentes e sensacionalistas circularem nas páginas de vários jornais feitas por profissionais graduados – imaginem se não fossem? Mas isso também pode ser explicado pela falta de preparo e organização de nosso país. Será que se as empresas jornalísticas, responsáveis pelos grandes veículos de comunicação em circulação no Brasil, fossem de pessoas da área, que entendem as necessidades do jornalismo, ao invés de pertencerem a grandes empreendedores, que visam ao lucro acima de tudo, o jornalismo inconseqüente existiria?

Ainda é cedo para se falar nas conseqüências que tal decisão pode gerar. Mas uma coisa é certa: ela poderia ser positiva, caso o Brasil fosse um exemplo em educação, formando cidadãos conscientes e qualificados. Como não é, não seria confiável papéis tão importantes, como formadores de opinião e governantes, nas mãos de qualquer pessoa. Por enquanto, o diploma ainda serve como segurança e credibilidade para a divulgação de informações. Quanto à política, ainda bem que não há diploma para isso, pois assim evita-se perder mais tempo com esse tipo de assunto, enquanto o país passa por sérias dificuldades. Se bem que seria uma forma para desviar a atenção…

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Estudante de Jornalismo, Belo Horizonte, MG

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