Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / PAMELA SHOEMAKER

Do chumbo derretido à web

24/11/2009 na edição 565

Pamela J. Shoemaker é professora na S.I. Newhouse School of Public Communications at Syracuse University, Syracuse, New York, Estados Unidos. Já atuou como diretora da School of Journalism at Ohio State University, e como membro do corpo docente do Departamento de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin. Suas principais áreas de pesquisa são Comunicação Internacional, Sociologia da Mídia, Teoria da Notícia e Comunicação Política. Publicou dezenas de artigos sobre estudos comparados de mídia em diferentes países e também livros, entre eles Mediating the Message: Theories of Influence on Mass Media Content (1995), Gatekeeping (Communication Concepts) (1991), Building a theory of news content (1987) e Communication Campaigns About Drugs: Government, Media, and the Public (1985). Em 2005, lançou News Around the World: Content, Practitioners, And the Public , a partir de uma pesquisa sobre a natureza e as características das notícias e os processos de produção de notícias em 10 países nos cinco continentes, analisando comparativamente 60 empresas jornalísticas e 2.400 notícias.

Na entrevista a seguir, Pamela fala sobre o trabalho, as transformações que vem ocorrendo no jornalismo, a pesquisa brasileira e sua última obra, que discute a Teoria do Gatekeeper. Shoemaker é uma das palestrantes convidadas do 7º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo.

***

O 7º Encontro da SBPJor aborda as transformações no jornalismo em âmbito global. Qual a intensidade destas mudanças?

Pamela Shoemaker – As transformações difundiram-se – através da indústria dos mass media – e elas estão acontecendo em um ritmo cada vez mais rápido. Em outras palavras, as mudanças que já vivenciamos estão apenas começando. Estamos na extremidade de uma explosão que irá impactar todos os aspectos do jornalismo. Costuma-se dar muita importância às mudanças na virada do século, mas podemos perceber que muito do jornalismo do século 20 está se tornando ultrapassado, datado.

Comecei a trabalhar como jornalista de revista em 1972. A publicação era produzida em uma antiga impressora tipográfica e o tipo era feito em uma máquina de linotipo utilizando chumbo derretido. Se eu errasse ao recortar uma foto, a maneira mais barata de corrigi-la era com uma serra, cortando fora a parte extra. Desde então, trabalhei com infinitas novas tecnologias, cada uma mais extraordinária quando comparada à anterior. Lembro-me de pensar que a melhor opção para escrever era utilizar uma máquina ‘IBM Correcting Selectric’ – talvez o leitor nem saiba o que é isso! Depois, por volta de 1980, enquanto trabalhava em meu PhD em Wisconsin, eu fazia trabalhos de freelancer para uma revista, que queria usar um telefone modem para enviar textos em código do meu processador de palavras (um computador que só servia para escrever) em Wisconsin para um compositor em Ohio. No dia seguinte em que telefonei para eles, recebi galés via Federal Express (Fedex), montei a revista (organizei o layout da página, com espaços para os textos e fotos) e enviei o material para uma gráfica em um terceiro estado. E o cliente estava em Chicago. Foi difícil fazer tudo funcionar porque todos com quem eu falei nunca haviam enviado um texto por modem.

Hoje, eu tenho que ter o último laptop da Apple com todas as configurações máximas porque sou uma entusiasta ao uso do computador – sempre com dez aplicações abertas ao mesmo tempo e sempre adotando novas tecnologias quando são disponibilizadas. Todos os meus arquivos de trabalho são sincronizados automaticamente, através do meu novo software DropBox, em três computadores, em meu iPhone e no servidor do DropBox. Acabo de comprar meu segundo iPhone e não poderia viver sem ele.

Também possuo um Kindle da Amazon, um livro eletrônico com capacidade para mais de 1500 livros (o último modelo tem ainda mais). Dois dos livros que escrevi estão disponíveis para o Kindle e, com orgulho, fiz o download deles há algumas semanas. Posso assinar mais de 40 jornais e 30 revistas de dez países e milhares de blogs, automaticamente baixados para o meu Kindle assim que são disponibilizados. Vou produzir vídeos no Encontro da SBPJor em São Paulo, utilizando minha pequena câmera que grava até duas horas de material em alta definição, os quais baixarei para o meu laptop através de uma conexão USB. Vou postar alguns dos vídeos em um website que estou desenvolvendo para estudantes de comunicação.

Dei esse panorama da minha jornada tecnológica pessoal, ocorrida nos Estados Unidos ao longo de 40 anos – passando do metal derretido ao website – para ilustrar a quantidade de transformações que o jornalismo já sofreu no país. O jornal de papel começou a desaparecer mais ou menos na mesma época em que comecei como jornalista – a circulação dos jornais norte-americanos vem caindo nas últimas décadas. No último ano, jornais faliram um após o outro. A migração das notícias da plataforma de papel para uma plataforma online está em curso. E uma vez na internet, a informação pode ser acessada por qualquer um, de qualquer lugar.

Em seu livro News around the World: Content, Practitioners, And the Public (2005), a senhora realizou pesquisas sobre notícias, seus produtores e seu público em dez países, sendo um deles o Chile, na América do Sul. Poderia dar uma breve ideia sobre os resultados do trabalho?E quanto ao jornalismo brasileiro?

P.S. – Os dez países que estudamos em News Around the World se diferenciavam quanto à localização geográfica, sistema político e econômico, idioma, cultura. Estudamos países onde tínhamos contato com acadêmicos que poderiam contribuir para o nosso trabalho. A professora Soledad Puente, da Universidade de Santiago, era conhecida de meu coautor e foi assim que selecionamos o Chile. Os resultados foram, surpreendentemente, similares em todos os países, considerando as variáveis de maior interesse.

Em primeiro lugar, cerca de 90% dos 32 mil itens jornalísticos que estudamos tinham algum elemento inesperado, muitas vezes estatisticamente inesperado (curioso ou inusitado) e também inesperado normativamente ou quanto à transformação social, além da importância social (quatro indicadores: político, econômico, cultural, bem-estar comum). Também constatamos que jornalistas, profissionais de relações públicas e integrantes do público concordaram, na maioria das vezes, sobre quais das matérias publicadas em seu jornal local mereciam ter sido noticiadas. Mas a avaliação das pessoas sobre os artigos divergia um pouco do destaque que receberam no jornal. Essa foi uma descoberta comum a todos os países, o que me impressionou em se tratando da relação das pessoas com os seus jornais.

Quanto ao Brasil, conheço muito pouco sobre, mas estou finalizando um estudo que me permitirá comparar características de reportagens online que são ‘populares’ entre os públicos brasileiro, chinês e norte-americano. Espero que este seja apenas o primeiro de muitos estudos que eu possa fazer envolvendo o Brasil.

Qual a importância da pesquisa comparativa em âmbito global para entender o jornalismo?

P.S. – Não acredito que nenhum de nós possa realmente compreender a mídia de nosso próprio país sem compreender o papel que ele desempenha na estrutura noticiosa internacional. Não sou fã do termo ‘global’, que implica uma versão de ficção científica do planeta Terra, com um só governo e um só sistema midiático. Informação sobre acontecimentos percorre o mundo em um ritmo acelerado, mas fatos ocorrem dentro de uma localidade física, ancorados no interior de um país, mesmo quando o sistema midiático faz parte de um conglomerado internacional. O termo ‘global’ implica um sistema mais simples do que aquele que temos atualmente. A informação precisa atingir um nível humano de importância antes de ser declarada notícia, mas há diversas influências que afetam as mensagens do momento em que o fato ocorre à sua divulgação em um grande meio de comunicação. Esse jogo de forças não é tão diferente nacional e internacionalmente. Mas, quando discutimos mídia em âmbito internacional, há agentes maiores, lutando por lucros maiores.

A pesquisa brasileira em jornalismo é conhecida pela comunidade acadêmica americana? Como podemos estabelecer uma relação mais próxima?

P.S. – Eu nunca havia tido contato com nenhuma pesquisa brasileira em comunicação de massa, até que alguém me enviou algumas edições da revista Brazilian Journalism Research (BJR) em inglês. É muito boa, com autores que eu esperaria encontrar em qualquer boa publicação. Mas eu não sei nada sobre a pesquisa brasileira. Entretanto, sou coeditora da revista Communication Research (CR) e artigos originais de pesquisadores brasileiros são bem-vindos. A CR aceita somente artigos a partir de estudos que testem hipóteses embasadas teoricamente, utilizando dados inferidos. As normas detalhadas estão disponíveis em nosso website no Sage Publications.

A senhora lançou recentemente um livro sobre a teoria do gatekeeping. Como lidou com esta linha de pesquisa tradicional e com novas abordagens?

P.S. – O livro, escrito em coautoria com Tim Vos, foi publicado em abril de 2009. Estou muito satisfeita com ele e acredito que aborde com precisão a teoria, desde suas origens por volta de 1950 (por Kurt Lewin) até 60 anos mais tarde.

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