Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > JORNALISMO CULTURAL

Do nascimento aos anos de chumbo

Por Rodrigo C. Vargas em 26/01/2010 na edição 574

‘Se não terminar em cova ou jazigo/ A gente precisa ficar alerta/ Pensar, porque se não o cerco aperta/ Precisa inventar um estratagema/ Achar uma saída para o problema/ Ter muita calma, muita paciência/ Que logo virá feliz providência’ (Oswald Barroso)

A história do jornalismo cultural brasileiro segue um pouco o rumo dos acontecimentos que, antes, marcaram o jornalismo nos principais países europeus. De acordo com Gadini: ‘Não há, entretanto, um ponto central que poderia denominar como o surgimento do jornalismo cultural.’

O que favoreceu o fortalecimento do campo cultural foi à ida do homem do campo para a cidade, onde a cultura e seus produtos passaram a ter uma importância pública, agregando valor. ‘…a partir do momento em que jornais entram-se em franca proliferação – ao menos nas cidades mais povoadas do mundo ocidental – aumenta a demanda pela apreciação leiga das artes’ (GADINI, 2003:9) Ou seja, ao sair do campo restrito, a crítica, já não mais voltada aos salões, ganha as ruas e também espaço em periódicos o no mercado literário e das artes em geral. Esse fenômeno, que na Europa aconteceu entre os séculos 17 e 18, só veio acontecer no Brasil no século 19 com a chegada da família real portuguesa em 1808 e o surgimento da imprensa – e a possibilidade de publicar peças literárias. ‘Até 1807 devem ter acontecido no Brasil umas oito invenções importantes, uns quatro conflitos políticos, 18 lançamentos de livros, 22 fundações de cidades, 32 nascimentos de artistas importantíssimos e alguns eventos esportivos. Só que ninguém ficou sabendo’ (GADINI, 2003:19).

Descaso com a formação intelectual

A imprensa nesse período trazia apenas notas, anunciavam aniversários de algumas figuras políticas e do restrito meio imperial, recados festivos de madames, dentre outras notícias do gênero. ‘Até o início do século 20, imprensa e literatura ainda se confundem, numa abordagem miscigenada…’ (GADINI, 2003:11). Nessa época os jornais era quase que a única opção de manifestação e acesso cultural. Os escritores tinham dificuldade para publicar seus trabalhos pela falta de editoras disponíveis, e os jornais passaram a publicá-los em formato de folhetim. ‘No Brasil, o jornalismo cultural só ganharia força no final do século 19; e dele nasceria o maior escritor nacional, o nosso Henry James, Machado de Assis (1839-1908), que começou a carreira como crítico de teatro e polemista literário, escrevendo ensaios seminais como Instinto de Nacionalidade e resenhando controversamente os romances de Eça de Queiroz’ (PIZA, 2008:16). Ainda que esses espaços forjassem um fórum literário, havia certo amadorismo ‘…os homens de letras buscavam encontrar no jornal o que não encontravam no livro: notoriedade, em primeiro lugar; um pouco de dinheiro, se possível’ (SODRÉ, 1999:292).

Com a proclamação da República, a aceleração do mercado interno e a migração em massa, a partir do século 20 muitos jornais passam a integrar ou se tornam empresas de formação mais estáveis. As principais cidades também registram modificações mos espaços urbanos e a latência de idéias e hábitos culturais. O grande marco foi o Correio da Manhã (que circulou de 1901 até 1974). Desde o seu surgimento, trouxe seções voltadas ao campo cultural, como a Letras de artes, Teatro e outros eventuais setores destacados. O Estado de S. Paulo, que tinha surgido em 1875 quando a capital paulista tinha somente 20 mil habitantes, também atuava como fórum cultural a partir da virada do século 19 para o 20, quando de 4 mil exemplares em 1888 passa a uma tiragem diária de 35 mil exemplares por volta de 1913. ‘O início do século 20 também pode ser compreendido a partir dos textos de João do Rio. Pseudônimo de Paulo Barreto (que foi jornalista, teatrólogo e cronista), João do Rio fala do Rio de Janeiro a partir e de situações do cotidiano da população que não tinha acesso aos serviços e bens culturais. João do Rio torna-se, assim, uma referência, na medida em que tira o jornalismo do ambiente das redações e vai às ruas ouvir, ver e tentar entender como vivem os habitantes da então Capital Federal do país’ (GADINI, 2003:26).

A dificuldade de manter um espaço cultural resistente no campo jornalístico e social daquela época, também permeia o agora. Segundo Gadini, essa dificuldade está intrinsecamente ligada ao ‘…analfabetismo, a censura, a lenta urbanização do país e o precário desenvolvimento dos serviços de comércio e indústria fazem com que a imprensa brasileira tenha uma consolidação mais lenta e frágil, se comparada a outros países da América do Sul, como Argentina, Uruguai e Chile’ (2003:23). Os números do baixo índice de escolarização também demonstram à formação do publico leitor em vários períodos ‘…em torno de 84% da população em 1890, 75% em 1920 e 57% da população em 1940) (ORTIZ, 1995:28). No Rio de Janeiro do início dos anos 20, quando era capital federal, tinha apenas 13 cinemas, vários teatros, além de festas populares e das diversas praias que só viraram espaço de lazer tempos depois. Isso para uma população, segundo fonte do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, de pouco mais de 1 milhão de habitantes. Ou seja, fica exposto o descaso com a formação intelectual do brasileiro desde a invasão portuguesa, e que só pôde ser amenizada trezentos e oito anos com a chegada da família real e a implantação de práticas educacionais, e/ou intelectuais que favorecessem a corte.

O rádio como instrumento de propaganda

Essa ideologia do não saber para não se entender corrobora para um caminhar dificultoso e que só nos anos 20, ganha intenção organizada aos moldes liberais. Ainda assim ‘…boa parte dos redatores também ocupava alguma função pública, como funcionário, escrivão ou algo do gênero’ (GADINI 2003:32). Apesar de uma imprensa comprometida em certa parte com o Estado, outros espaços surgiam ‘…o modernismo paulista teve linha de frente a revista Klaxon, título que significa buzina; e o buzinaço promovido por Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Victor Brecheret e outros no Teatro Municipal, a Semana de 22, deixa ecos até hoje.’ (PIZA, 2008:18) É bom lembrar que por conta da dificuldade de viver de literatura no Brasil, desde Machado de Assis, passando por Lima Barreto, os escritores se viram obrigados a começar pelo jornalismo e pela crítica.’Mário de Andrade, poeta de Paulicéia Desvairada e romancista de Macunaíma, desenvolve uma carreira particular como crítico e ensaísta, a qual por si só garantiria seu nome nas letras brasileiras’ (PIZA, 2008:32).

Portanto, os espaços críticos se tornaram sofisticados, e começavam a ganhar cada vez mais destaque. ‘Em 1928 surgiu uma publicação moderna (da qual Mário de Andrade foi colaborador) que nenhuma história do jornalismo cultural pode deixar de citar: a revista O Cruzeiro. Embora haja muita polêmica sobre os números – sua tiragem teria chegado a setecentos mil exemplares, mas apenas no número especial sobre o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 – e sobre os métodos suspeitos de reportagem (como as de David Nasser, em parceria com o documentarista Jean Manzon), o fato é que a revista marcou época, lançou o conceito de reportagem investigativa e deu enormes contribuições à cultura brasileira ao publicar contos de José Lins do Rêgo e Marques Rebelo, artigos de Vinícius de Morais e Manoel Bandeira, ilustrações de Anita Malfatti e Di Cavalcanti, colunas de José Cândido de Carvalho e Rachel de Queiroz, além do humor de Péricles (O Amigo da Onça) e Vão Gogo (vulgo Millôr Fernandes). Nos anos 30 e 40, O Cruzeiro seria a revista mais importante do Brasil por sua capacidade de falar a todos os tipos de público’ (PIZA, 2008:33).

Com o surgimento do rádio, a valorização do regionalismo e a política nacionalista de Getúlio Vargas, ‘…o país começa a forjar um fortalecimento dos setores mais esclarecidos que buscam informação, lazer e cultura a partir dos anos 30, quando a urbanização se fortalece e passa a criar demandas por novos espaços públicos’ (GADINI 2003:34). Durante o Estado Novo, o rádio passa desempenhar um papel importante no país – como instrumento de propaganda oficial do governo – tanto por suas dimensões geográficas como pela grande quantidade de analfabetos. Foi a partir dos anos 30 também que o jornalismo passou gradualmente, a explorar setores específicos do público.

Os importantes espaços da década de 40

Com o fim da Segunda Grande Guerra, o mundo passou por uma reformulação, geográfica, política e por conseqüência cultural. ‘…a massa urbana atirou-se às compras que lhe conferiram a desejada modernidade pelo uso de óculos ray-ban, de calças blue jeans, pelo consumo de whisky, pela busca de diversão em locais sombrios e fechados (boîtes) e, naturalmente, pela adesão à música das orquestras internacionais que divulgavam os ritmos da moda feitos para dançar, como o fox-blue, o bolero, o be-bop, o calipso e, afinal, a partir da década de 50, o ainda mais movimentado rock´n´roll‘ (TINHORÃO, 1999: 307). Essa invasão estrangeira anunciava a chegada da indústria do consumo e a constituição de uma classe média bem definida: ‘…É somente na década de 40 que se pode considerar seriamente a presença de uma série de atividades vinculadas a uma cultura popular de massa no Brasil’ (SODRÉ, 1999:38).

Ainda assim, até 1946 não havia nenhum periódico com tiragem superior a 200 mil exemplares. Foi nesse período que surgiu o Diário de S. Paulo (dirigido por Assis Chateaubriand) sob a coordenação de Geraldo Ferraz. No seu primeiro número trazia artigos de Tarsila do Amaral e Agripino Grieco e um conto de Franz Kafka ilustrado por Lívio Abramo. Pela primeira vez, textos de autores estrangeiros eram publicados traduzidos para o português. O analfabetismo produzia poucos leitores aptos a consumir literatura, ou cultura em forma de produto. O país passou a consumir esses produtos através das rádios novelas, surgidas em 1941 e posteriormente, no mesmo ano o cinema, com a criação da Atlântida. ‘Oportuno lembrar que a década dos anos 40 registra o surgimento de importantes espaços na vida cultural brasileira: é o caso da fundação do Museu de Arte de São Paulo (1947), Museu de Arte Moderna/SP (1948), Teatro Brasileiro de Comédia (TBC, 1948), Vera Cruz (1949), da Bienal de Arte (1951), TV Tupi (1950), introdução da fotonovela (1951), criação da primeira escola de propaganda (Cásper Líbero/SP, 1952) dentre outras iniciativas, espaços e organizações que passam a fortalecer o capo cultural. É nesse mesmo período que surge o SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a Federação das Mulheres do Brasil, que assume a edição do Momento Feminino; é lançada a revista Fundamentos, sob a direção de Monteiro Lobato e a colaboração de Caio Prado Júnior, Astrogildo Pereira, Graciliano Ramos, Cândido Portinari e o Barão de Itararé…’ (GADINI 2003:37).

Perseguições e censura prévia

A partir dos anos 50 a mídia brasileira passou por importantes transformações. A reforma gráfica do Diário Carioca (1951, que inclui a introdução do lide) e no Jornal do Brasil (que começa em 1956), antecedida da criação de outros dois inovadores diários (a Tribuna da Imprensa, em 1949, e a Última Hora, em 1951), a criação do Caderno B no Jornal do Brasil, voltado para a cobertura de teatro, artes, cinema, além das variedades do jornalismo diário (em 1959), passando de simples jornais para estruturas empresariais mais profissionalizadas. Tudo aliado à política de crescimento do governo JK. ‘Ali começaram investimentos de peso em propaganda e surgiram as primeiras grandes agências de publicidade. Era preciso, agora, anunciar produtos como automóveis e eletrodomésticos, além de produtos alimentícios e agrícolas’ (GADINI 2003:58) Outro marco histórico foi o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. ‘…dirigido por Décio de Almeida Prado. Reunindo intelectuais que já haviam feito a revista Clima nos anos 40 – Antonio Candido (literatura), Paulo Emilio Salles (cinema), Lourival Gomes Machado (artes visuais) – e acrescentando jovens valores, como Sábato Magaldi, o Suplemento lançou um modelo que seria mais tarde seguido por todos os cadernos de livros…’ (PIZA, 2008:37)

Os anos 60 e 70 passam a caracterizar a consolidação de um mercado de consumo. ‘Com a criação do Instituto Nacional do Cinema, em 1966, e posteriormente da Embrafilme, a produção cinematográfica conhece sem dúvida um momento de expansão. No período de 1957 a 1966, a produção de longa-metragens atingia uma média de 32 filmes por ano; nos anos 1967-69, quando o INC começa a atuar, ele passa para 50 filmes. Com o surgimento da Embrafilme, a política do Estado se torna mais agressiva, aumentando as medidas de proteção do mercado, dando maior incentivo à produção. Em 1975 são produzidos 89 filmes, e em 1980, 103 películas. Não devemos, porém, nos entusiasmar muito com a qualidade desta indústria brasileira; a maior parte dos filmes são pornográficos ou pornochanchadas. Em 1979 eles totalizavam 8% da produção, mas em 1984, com o crescimento do mercado, chegam a compor 71% do que é produzidos’ (ORTIZ, 1995:124).

No Brasil, a televisão ganha cada vez mais força. O número de domicílios com aparelhos televisivos na década de 70 é de 4,2 milhões ou seja 56% da população. ‘…a partir dos anos 50, com a democratização da TV, a produção de obras culturais em escala atingiu uma força, uma presença social, um impacto sobre os hábitos e valores de todas as classes que pode ser subestimado, como sabe qualquer brasileiro que se detiver sobre a história da Rede Globo desde a sua fundação em 1965’ (PIZA, 2008:43). Enquanto isso, ‘a população de livros de autores nacionais no conjunto da produção editorial passou de 54,3%, em 1973, para 70,1%, em 1981; de discos e cassetes de música popular brasileira passou de 63%, em 1977…’ (ORTIZ, 1995:194). Por outro lado se em 1950 existiam no Rio de Janeiro 22 jornais diários comerciais, entre matutinos e vespertinos, com as mais diversas tendências políticas, em 1960 esse número foi reduzido para 16 jornais diários, e no final dos anos 70, para sete. A explicação para o desaparecimento de um número elevado de jornais e revistas nos anos 70 está relacionada também à elevação do custo do papel… Nesse período, o país importava 60% do seu consumo em papel jornal. Em 1969 surge um dos principais jornais brasileiros até hoje, O Pasquim. ‘…começa como um tablóide semanário de humor, política e cultura e, com a força do deboche e do talento de sua equipe e entrevistas famosas com Leila Diniz ou Graham Greene, chega a duzentos mil exemplares em alguns meses’ (PIZA, 2008:38). A imprensa alternativa surgiu da articulação de duas forças igualmente compulsivas: o desejo das esquerdas de protagonizar as transformações que propunham e a busca, por jornalistas e intelectuais, de espaços alternativos à grande imprensa e à universidade. Os jornais alternativos buscavam contrapor justamente o espírito complacente da grande imprensa diante da ditadura. Para Sussekind, essa imprensa era impelida a um diálogo constante com o Estado, que se fazia ora opressor, ora mecenas (1980, p 91). Os jornais alternativos trilharam outro caminho, o de oposição a essa prática, cobrando firmemente a restauração da democracia e do respeito aos direitos humanos, e criticando o modelo econômico estabelecido, chamado na época de ‘milagre econômico’. Por conta disso, eram perseguidos e submetidos a um regime especial, de censura prévia.

Retomada do jornalismo crítico

Essas duas forças – o desejo de ser protagonista da esquerda e a luta de intelectuais por espaço – fizeram com que os impressos alternativos, primeiro fossem instrumentos de resistência ou de uma revolução supostamente em marcha, depois numa segunda fase, derrotado esse apelo, caminho de trânsito da política clandestina para a política de espaço público durante o período de abertura. Esse foi um aspecto que diferenciava a imprensa alternativa no Brasil da publicada no exterior.

Outro fator de distinção entre o Brasil e os países chamados de primeiro mundo era a dificuldade de publicar e de distribuir de forma mais ampla. Isso começa a mudar nos anos de 1970, quando jornais e revistas alternativos ganharam uma novidade: a impressão a frio do offset. O que nos Estados Unidos aconteceu nos anos de 1950, demorou a chegar por aqui, mas fez diferença. A possibilidade de tiragens pequenas a baixo custo, aliada à implantação, pela Editora Abril, de um sistema nacional de distribuição, estimulou o surgimento de jornais alternativos com força para alcançar todo o território nacional, a partir de tiragens de 25 mil exemplares. O maior problema enfrentado pelas revistas e jornais alternativos era bancar as garantias e condições impostas pela editora. Os jornais e revistas alternativas se diferenciavam a cada fase, por conta das motivações e do caráter da articulação entre seus protagonistas e deles com a sociedade civil. A cada nova proposta estética e operacional, mudava o relacionamento com o leitor.

A primeira fase do ciclo alternativo acontece com o lançamento do Pif-Paf (jornal satírico que explorava a fundo o desprezo pelos primeiros tempos do golpe) em junho de 1964 até o fim da Folha da Semana (jornal apoiado pelo Partido Comunista que tinha como propósito resistir democraticamente) em 1966, quando ocorreu o desmoronamento do universo político do populismo sem que a maior parte da esquerda suspeitasse da dimensão da mudança.

A segunda geração de jornais surge a partir de 1967, fruto de todo um novo imaginário oriundo da revolução cubana, da proposta de uma guerrilha continental. Entre esses jornais, destacam-se O Sol, Poder Jovem e Amanhã.

A terceira fase é marcada por um intervalo de mais de um ano praticamente sem novos jornais alternativos. É o tempo das grandes passeatas estudantis, do maio de 68 na França, dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Isso porque, segundo Kucinski, as lutas no espaço público forçaram a retomada do jornalismo crítico pela grande imprensa, desaparecendo o impulso jornalístico vital para a criação de jornais alternativos (2003, p. 34).

Da revolução social para a rebeldia

A partir de 1969, depois do refluxo dessas manifestações, que se juntaram em grande número os protagonistas da imprensa alternativa, dando origem a uma das fases mais ricas, incluindo os primeiros semanários de circulação nacional sob o signo da resistência político-cultural, entre os quais O Pasquim e Opinião.

Entre 1971 e 1972, surge uma quinta fase de jornais, como Grilo e Balão, que tinham como características o humor pesado, às vezes escatológico, e o experimentalismo em linguagem.

‘Ambos influenciados pelo cartunista americano Robert Crumb e pelo europeu Wolinski. Grilo reproduz diretamente cartoons estrangeiros, inclusive os mais tradicionais, de Charles Schultz. Mas Balão expressa, ao contrário uma reação dos jovens contra a dominação estrangeira no mercado de cartoons e dá origem a uma explosão criativa de humor nacional por uma nova geração de cartunistas iniciantes, entre os quais Luis Gê, Laerte, Angeli e os irmãos Chico e Paulo Caruso. Cerca de setenta novos desenhistas passaram pelas dez edições de O Balão. Por influência de O Balão e Grilo surgiram novos ‘gibis’, de crítica pesada aos costumes, auto-denominadas ‘udigrudi’, (do inglês underground), entre os quais Patota, Vaca Amarela e Klik‘ (KUCINSKI, 2003, p 34).

A sexta fase se desenrola a partir de 1974, quando os primeiros presos políticos com penas já cumpridas reintegram-se à vida civil através da imprensa alternativa, os jornais incham e se multiplicam. Tudo aquilo acontecia em pleno colapso do milagre econômico, e cheio de projetos ambiciosos, como Versus e Movimento, predominantemente políticos. Uma espécie de jornalismo tropicalista, aos moldes da contracultura européia.

‘…na opção tropicalista o foco da preocupação política foi deslocado da área da Revolução Social para o eixo da rebeldia, da intervenção localizada, da política concebida enquanto problemática cotidiana, ligada à vida, ao corpo, ao desejo, à cultura em sentido amplo’ (HOLLANDA & GONÇALVES, 1986, p 66).

A influência das novas escolas de Comunicação

A sétima fase surge da reunião de jornalistas de prestígio regional que não compactuavam com o discurso complacente da grande imprensa em relação à ditadura. Além disso, a morte de Wladmir Herzog, em outubro de 1975, acelerou esse processo de integração. Dessa crise surgiram entre outros, De Fato e Coojornal.

Uma oitava fase surge com a formação de movimentos atuantes na campanha pela anistia, a partir de 1977, abraçados pelos jornais e revistas alternativas já em circulação. Entre os jornais de anistia estão Repórter, Resistência e Maria Quitéria.

As duas últimas fases vieram embaladas pela atuação de estudantes de Jornalismo influenciados pelas novas escolas de comunicação: jornais basistas, ligados aos movimentos populares. Entre eles, Batente. E uma nova geração de jornais experimentais, como Avesso, que expressavam a fadiga do apelo político junto a jovens estudantes de Comunicação que posteriormente se tornariam famosos no jornalismo neoliberal. Os dois tipos de jornal eram fortemente influenciados pela crítica das escolas de Comunicação aos meios de comunicação de massa e ao jornalismo convencional.

Essas foram as bases para o surgimento do jornalismo que conhecemos hoje. Apesar de estarmos vivenciando novas plataformas de veiculação de informação como a internet, quem está por trás é o jornalista moldado por toda essa massa histórica aqui publicada.

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