Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Do Alentejo ao Planalto Central

Por Carlos Fino em 03/12/2013 na edição 775

Exmo Senhor Magnífico Reitor da UnB, Dr Ivan Camargo

Exmo Senhor Embaixador de Portugal no Brasil, Dr Francisco Ribeiro Telles

Exmo Senhor Diretor da Faculdade de Comunicação, Prof David Renault

Distintos membros do corpo docente

Minhas Senhoras e Meus senhores, 

Meus amigos,

Desde que, naquele já longínquo 19 de Março de 2003, início da invasão americana do Iraque, a TV Cultura de São Paulo me transformou, da noite para o dia, no seu correspondente em Bagdad e talvez no primeiro repórter de guerra luso-brasileiro, o Brasil tem sido de uma imensa, infinita generosidade para comigo.

** Foi do Brasil que me chegou o primeiro reconhecimento pelo trabalho realizado enquanto repórter da RTP, a televisão pública portuguesa, destacando o facto de termos sido os primeiros a transmitir imagens do início da guerra; 

** Foi do Brasil que me chegaram as primeiras vozes a perguntar, no tom doce do português daqui: “Carlos, ah Carlos, você tá bem?”

** Foram os meios académicos do Brasil que primeiro e de forma mais intensa se interessaram pela reflexão que fiz sobre a experiência do Iraque…

** E, logo em 2004, Brasília abriu-me os braços, atribuindo-me a cidadania honorária…

** No Brasil conheci depois a mulher que me incutiu de novo esperança e sem cujo amor, ajuda, inteligência e persistência, eu não teria encetado o longo processo que haveria de conduzir ao reconhecimento de Notório Saber em Comunicação com que a UnB decidiu distinguir-me e nos reúne hoje aqui.

Exemplo inspirador

Para mim, este título, que aceito emocionado com profundo e sincero sentido de humildade, é uma enorme honra e a concretização de um sonho.

De uma forma de outra, às vezes quase sem dar por isso, como se fosse algo de natural, o Brasil sempre esteve presente ao longo de toda a minha vida.

Em 1958, tinha dez anos e já folheava, na sala de leitura da Sociedade Artística da minha terra, Fronteira, Alentejo, no interior de Portugal, a revista O Cruzeiro e, um pouco mais tarde, também a revista Manchete, as quais, não sei por que artes mágicas, lá chegavam nesse final dos anos 50, ainda em plena ditadura de Salazar.

Por elas comecei a conhecer o Brasil e o seu jornalismo, a sua política, a sua arquitectura, o seu futebol, o deslumbramento do seu Carnaval…

Ainda hoje conservo na memória as imagens a preto e branco do desbravamento do Planalto Central para construir a utopia da nova capital com que o país queria inaugurar a era da sua modernidade.

Lembro também da completa e difícil novidade que foi para mim a Bossa Nova, a qual me obrigou a refazer o ouvido e o gosto musical… 

E, um pouco mais tarde, o deslumbramento com Chico Buarque, que haveria de se tornar para mim um exemplo narrativo a seguir nas minhas crónicas de jornalista – conjugando poder de observação, síntese descritiva e olhar poético.

Depois, vieram as telenovelas e com elas a redescoberta da nossa língua.
Juntamente com vocábulos novos, contributo negro e índio para o acervo da língua comum, voltámos a ouvir e a usar – através de sinhozinho Malta e viúva Porcina – termos e expressões que já havíamos esquecido pelo menos desde o século XVIII.

Entre polémicas e resistências puristas, de alguma forma, o Brasil devolvia-nos, enriquecida, a nossa própria língua!

Mas se o Brasil sempre esteve presente na minha vida, de uma forma difusa e natural, quase como o ar que se respira, nunca imaginei que pudesse um dia ter o privilégio de me cruzar com as suas gentes em geral tão cordiais e conviver diariamente com o génio inovador de Niemeyer (o arquitecto Óscar Ribeiro Soares) , com esse culto do traço purificado, a beleza airosa laboriosamente perseguida, esse sentido de grandeza tranquila, despojada e fraterna que é a mensagem implícita da sua obra.

E muito menos podia pensar que o Brasil me concederia o Notório Saber em Comunicação, ou seja, o reconhecimento de uma formação académica em jornalismo, que sempre pretendi mas que as circunstâncias da vida sempre impediram que concretizasse. 

Primeiro, porque não havia faculdade de jornalismo no Portugal de Salazar, do qual tive que sair por razões políticas e depois porque a profissão já me impunha obrigações incompatíveis com o esforço académico continuado.

Cabe aqui um agradecimento particular aos professores Zélia Adghirni, Fernando Paulino, Sylvia Moretzsohn, Luiz Martins da Silva e Jandyra Cunha, a par dos professores de Comunicação da Universidade do Minho Madalena Oliveira, Manuel Pinto e Moisés Martins, da Universidade da Beira Interior, António Fidalgo, bem como do escritor Miguel Sousa Tavares, de quem fui colega na universidade e na RTP , pelo apoio sustentado que deram à minha candidatura desde a primeira hora.

Posso agora aspirar, graças ao Vosso reconhecimento, à docência universitária, tentando partilhar com a Academia o saber de experiência feito que fui adquirindo ao longo de mais de trinta anos de profissão. 

Docência que em mim está intimamente associada ao conceito de comunicar como dar a conhecer, fazer luz – encontrando-se, portanto, no prolongamento do jornalismo tal como sempre tentei exercitá-lo.

Realização de um sonho, este título cria, entretanto, para mim, uma imensa responsabilidade e abre uma dívida de gratidão para convosco que, devo confessá-lo, não estou em condições de pagar.

Responsabilidade para não defraudar expectativas e poder estar minimamente à altura do reconhecimento e dívida impagável porque não posso de forma alguma equiparar-me a nenhum dos grandes nomes da intelectualidade lusa que no último século passaram ao longo dos anos pelas universidades brasileiras, acabando por constituir aquilo que António Candido designou como a Missão Portuguesa.

Alguns integram o melhor que Portugal produziu, em termos intelectuais, no século XX: Agostinho da Silva, Casais Monteiro, Fidelino de Figueiredo, Jaime Cortesão, Sarmento Pimentel, Barradas de Carvalho, Rodrigues Lapa, Ruy Luís Gomes, Jorge de Sena, Eduardo Lourenço, Fernando Lemos, Sidónio Muralha, Miguel Urbano Rodrigues, Eudoro de Sousa, Castro Soromenho, Luís de Lima, Melo e Castro, entre outros.

Todos eles com obra de grande vulto no Brasil, em particular nos media e na Academia brasileiros que generosamente os acolheram quando foram empurrados para fora do país pela intolerância pátria. 

Sabendo embora que nunca poderei chegar onde eles chegaram, são eles que me inspiram e é pelo seu exemplo que quero ser norteado. 

Múltiplos sentidos

Já vai longa esta charla que desafia a vossa paciência e ocorre-me o que deixou dito Machado de Assis no Dom Casmurro – nada de mais feio do que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas!

Ainda assim, não posso terminar sem uma referência às relações Portugal-Brasil. 

Peço por isso a indulgência de mais uns minutos de atenção.

Não para desfiar aqui o velho rosário da retórica dos países irmãos, ou da relação filial, que não faz sentido desde que Eduardo Lourenço, há já um quarto de século, colocou a nu o clima de estranhamento e incompreensão mútua que atravessa o nosso relacionamento, desafiando-nos a encará-lo de frente para melhor nos entendermos.

Gostaria apenas e tão só de lembrar que uma das descobertas que fiz no processo do meu descobrimento pessoal do Brasil foi o escasso conhecimento que Portugal tem não só do Brasil contemporâneo, mas também e, talvez, sobretudo, da sua própria história no Brasil.

A razão, parece-me, reside no seguinte – Toda a gesta de Portugal no Brasil não está nos Lusíadas. O poeta ainda assinalou, é certo, que Portugal havia chegado “à quarta parte nova, onde as terras ara, e se mais mundo houvera, lá chegara”. 

Mas mais não disse porque morreu em 1580, quando a gesta portuguesa na América ainda estava só no início. Não estando nos Lusíadas, essa epopeia não se firmou no imaginário nacional.

Não conhecendo nós, ou conhecendo mal e valorizando pouco, a nossa própria história no Brasil, como podemos queixar-nos da desatenção brasileira para com ela?

Como bem assinalou Eduardo Lourenço, não é culpa dos brasileiros serem “um povo demasiado grande para a memória que tem, tal como nós somos um povo pequeno de mais para a memória imensa que ao longo dos séculos refluiu para o nosso coração e nos sufoca”.

A comunidade portuguesa aqui alimenta, parece-me, uma infinda nostalgia pelo velho Brasil luso-brasileiro.

Mas a verdade que tem de ser encarada é que esse Brasil luso-brasileiro, como ensina António Candido, “há muito deixou de existir como dimensão única, ante a profunda mistura racial e cultural devida às imigrações”.

O que deve ser valorizado de ambos os lados não é essa perda, mas a consciência viva de que, para além disso, como ensina o mestre, continua a existir um substrato poderoso formado pela língua e por influências originárias de todo o tipo que continuam a aproximar-nos apesar de todo o estranhamento.

Foi essa corrente que me trouxe de Portugal até ao Brasil, via Iraque.

Foi nas asas desse substrato, impulsionadas pela vossa generosidade, que cheguei hoje aqui.

É que a nossa língua comum, em múltiplos e diversos sentidos, está bem para além de Bagdad!

Assim saibamos estar à altura dos imensos desafios que essa realidade a todos nos coloca!

Muito Obrigado.

Bem Hajam!

 

Leia também

Quando o saber é notório – Luiz Martins da Silva

As pontes da comunicação – Fernando Oliveira Paulino

Um jornalista na contracorrente – Sylvia Debossan Moretzsohn

>> Assista aqui ao vídeo da cerimônia de reconhecimento de Notório Saber ao jornalista Carlos Fino

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