Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

DIRETóRIO ACADêMICO > TAM, VÔO 3054

E a imprensa arremeteu

Por Gilson Caroni Filho em 24/07/2007 na edição 443

A fumaça ainda escapava dos escombros do prédio onde funcionava o terminal de cargas da TAM. Os bombeiros tentavam conter as chamas e ainda não haviam conseguido chegar ao avião. Era impossível determinar o número de pessoas mortas. Ainda assim, sem qualquer possibilidade de precisar os fatos, o jornal da família Marinho, com edição fechada poucas horas depois da tragédia, chegava às bancas na quarta-feira (18/7) com as causas do desastre elucidadas.

‘Dez meses depois do que tinha sido o maior acidente da aviação brasileira, um Airbus A-320 da TAM, com 176 pessoas a bordo – 170 passageiros e seis tripulantes – explodiu por volta das 18h50m de ontem, após derrapar na pista principal do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, tentar arremeter, atravessar a movimentada Avenida Washington Luís e se chocar, do outro lado da pista, contra um prédio onde há um depósito de combustível da própria TAM.’ (O Globo, 18/7/2007)

O texto não deixava qualquer margem para dúvidas.

Sem dispor de qualquer informação confiável, a matéria, intitulada ‘Tragédia anunciada’, é uma demonstração cabal de como se faz jornalismo quando a pauta sobredetermina a apuração e a edição. Mesmo não dispondo das imagens da torre de controle e de dados retirados da caixa-preta devidamente periciados, a imprensa não hesitou em inserir o acidente numa suposta crise gerencial do setor aéreo.

Tratava-se de encontrar a ranhura que atingisse o governo. O que estava em causa era a construção da ‘crônica da tragédia anunciada’. Ao incluir as vítimas fatais no seu cálculo político, mais uma vez a mídia folhetinizou a tragédia, banalizando a vida. O desrespeito aos mortos e a falta de solidariedade às famílias estiveram presentes em quase tudo que se leu, falou ou ouviu na imprensa nativa, horas depois do acidente.

Falha mecânica

O bordão ‘quase 350 mortes em dez meses’, repetido à exaustão por quase todos os veículos, busca dar por comprovada uma grave crise na aviação comercial brasileira sem, no entanto, estabelecer os nexos causais que o demonstrem. Se em 2006, a direita golpista e sua mídia não consumaram a tentativa de golpe institucional, as tentativas não cessarão na guerra declarada no segundo mandato.

Passados três dias, as imagens mostraram que o Airbus da TAM pousou no ponto ideal, porém, em vez de perder velocidade, acelerou de tal forma que atravessou em três segundos determinado trecho da pista. Onde está a derrapagem do parágrafo transcrito acima?

É bem verdade que a TV Globo deu a informação sobre a falha no reversor da turbina direita do avião. Cumprindo a liturgia do Jornal Nacional, programa de maior intensidade dramatúrgica da emissora, William Bonner anunciou, na edição de quinta-feira (19/7), com a habitual locução dramática:

‘O avião da TAM que se chocou contra o prédio da empresa, em Congonhas, tinha um defeito no reversor da turbina direita desde o dia 13, sexta-feira passada. O problema tinha sido detectado pelo sistema eletrônico de checagem do próprio avião, mas o avião da TAM continuou a voar, nos dias seguintes, com o reversor direito desligado.’ (…) ‘A confirmação de que o avião prefixo MBK, destruído na tragédia de terça-feira, foi o mesmo que quase se acidentou na véspera, reforça a hipótese de que o acidente tenha sido conseqüência de falha mecânica.’

‘…e não se sabe o que houve’

Respondendo ao repórter César Tralli sobre a contribuição da pista molhada para o acidente,o brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe da comissão que investiga o acidente, afirmou tratar-se de ‘chuva leve, que daria uma camada de 0,6mm na pista. Então a probabilidade de que água na pista tenha influenciado nesse acidente é pouco provável, mas ainda assim é uma hipótese a ser considerada’.

O que temos, então? A primeira notícia do Globo, dada como fato irrefutável, é uma hipótese pouco provável. Como explicar a grave derrapagem da imprensa brasileira? Falta de grooving na apuração e edição? Desligamento do transponder ético? Ou problema no reversor da turbina que instrumentaliza politicamente a dor de mais de 200 famílias que choram seus mortos?

Qual será o foco agora? O gesto feito por Marco Aurélio Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, e rapidamente interpretado como sendo de comemoração? Com seu campo de ação no episódio ficando menor que a pista de Congonhas, para onde nossa imprensa vai arremeter? Qual o próximo choque com a verdade?

O momento pede consternação e não gestos rápidos. A manchete de quinta-feira (19/7) do Globo foi emblemática: ‘Infraero, Anac, Decea, Cindacta, FAB… e não se sabe o que houve’. Como não se sabe? Os editoriais estão carregados de certezas.

***

PS: Este artigo foi concluído na sexta-feira (20/07), às 19h. É provável que até sua publicação neste Observatório novas informações tenham surgido. Nada que altere as idéias centrais nele contidas.

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Professor-titular de Sociologia da Facha, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/07/2007 Thiago Conceição

    Carlos, você quer dizer que dessa vez os planos dos comunist… quero dizer, esquerdistas atualmente em andamento não serão abortados como em 64? Incompetência, corrupção e falta de vergonha na cara é o que o governo Lula mais tem. Se ainda pelo menos se defendessem com fatos, mas os esquerdistas preferem inventar conspirações para esconder a realidade. Uma coisa que me incomoda é ver o pouco caso das pessoas que deveriam ser responsáveis. Fico horrorizado com o grau de incompetência, pois no setor privado várias pessoas já estariam no olho da rua se fizessem 1/10 do que eles fazem. Uma total falta de respeito. Distribuem cargos para amigos ou por motivos políticos, sem se preocupar com a capacidade da pessoa, e dá nisso.

  2. Comentou em 27/07/2007 Fernanda Vanessa

    E com ela arremeteu a reacionária OAB.Acho um absurdo se aproveitar de um acidente, mais um entre as dezenas que a TAM teve desde os anos 80, para acusar o governo Lula. Por que a OAB não fez o mesmo quando houve o acidente da TAM em 1996 , quando Fernando Henrique era o presidente ? Por que a OAB não fez um “movimento Cansei” quando o Brasil era dependente do FMI, quando o país estava sendo entregue diariamente aos estrangeiros através das privatizações , quando houve a violação do painel do Senado por ACM e Arruda ? Coisas gravíssimas, só que a OAB foi conivente.A OAB, sendo composta de elementos conhecedores da Lei e do Direito, deveriam saber que não se acusa ninguém sem provas, e muito menos se pode condenar alguém sem o devido julgamento . O acidente com o avião da TAM é responsabilidade de uma empresa privada e não do governo, pois a manutanção dos aviões é atribuição de seus donos. Além do mais, no Brasil inteiro apenas quatro aeroportos possuem pistas com “grooving”.
    Na verdade, o povo brasileiro está cansado mesmo é de ver o corporativismo das classes mais abastadas contra o povo humilde que elegeu um nordestino, metalúrgico e pobre como nosso Presidente.

  3. Comentou em 26/07/2007 Carlos Henrique de Carvalho

    A mídia resolveu que vai apostar tudo.E é só vexame. Todos os colunistas aplaudindo a perda de soberania.
    É constrangedor o ínicio das investigações da caixa preta do avião da TAM sendo feitos pelas rapousas dos E.U.A. responsaveis pelo acidente anterior do avião da GOL, os dois deputados da C.P.I. do apagão aéreo que chegaram para averiguar a caixa da Marmelada da caixa preta da TAM estão a serviço das Rapousas dos E.U.A.,
    Não sabemos sim a quem confiar a nossa soberania de um povo masacrado pelos traidores de nossa pátria. À imprensa é que certamente que não.

  4. Comentou em 26/07/2007 Renato Tovar

    Muito bom. Convém lembrar a importância de recuperar o controle sobre a EMBRAER (privatizada por FHC e fundamental para o País), do espaço aéreo amazônico, entregue por FHC na concorrência fraudulenta do SIVAM (foi abafada à época, mas custou um cargo a um ministro envolvido no assunto). CPI da Mídia é assunto proibido aqui?

  5. Comentou em 26/07/2007 Adriana Lima Bandeira

    ‘Uma campanha publicitária vai estrear nesta sexta-feira para promover o protesto. Segundo a assessoria de imprensa do movimento, as peças da campanha foram feitas por voluntários. Emissoras de rádio e televisão, além de jornais e revistas, cederão espaço GRATUITAMENTE para a veiculação.O protesto ocorre num momento em que o governo está na defensiva por conta da crise aérea. A articulação inicial foi feita por um grupo de empresários, entre eles João Dória Jr., organizador de eventos, Sérgio Gordilho, presidente da agência de publicidade África, e representantes da Fiesp. Mas só a OAB vai ‘assinar’ os comerciais.( do portal Terra). Como se constrói um golpe. Caroni, pau nesses golpistas.

  6. Comentou em 26/07/2007 Renan Deagan

    Gostaria de lembrar que empresas aéreas e emissoras de televisão têm um ponto em comum: operam sob concessão pública.

  7. Comentou em 24/07/2007 Augusto Mello

    A globo fala para a classe média mais retrógada. Mas o que mais preocupa é ver profissionais como Dines dizer que a mídia está fazendo um bom trabalho. Das duas, uma:ou ele admite que os cartéis funcionam bem( e esquece, parece que esqueceu) a propriedade cruzada dos meios de comunicação ou luta por uma imprensa mais democrática,e lamenta a perda de qualidade que o fim dos cartéis trará. A economia está ótima em todos os seus índices. Há melhoras em várias outras áreas, mas a imprensa só se ocupa das vaias e dos aeroportos. É por isso que quando aparece um autor que se diferencia da mesmice reaça, os leitores correm pra ler o que ele escreveu. Concordo com a psicóloga Alexandra. Uma pena que não faça parte da equipe fixa.

  8. Comentou em 24/07/2007 Mônica Moreira

    A Rede Globo é só uma das muitas emissoras que supervalorizam a desgraça pra ganhar IBOPE, favorecendo-se da dor alheia e não respeitando o sofrimento das pessoas, além de atrapalhar o trabalho de resgate( no caso do acidente com o vôo 5034 da TAM), pois a ‘cobertura’ da sensacionalista Rede Globo tira a concentração dos profissionais envolvidos e leva curiosos loucos pra aparecer ao local da tragédia pra atrapalhar mais ainda as buscas. GOLPISTAS!

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