Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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DIRETóRIO ACADêMICO > DIPLOMA DE JORNALISMO

É obrigatório, sim

Por Tatiana Pires em 28/11/2006 na edição 409

A não-obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício profissional, assunto que entrou na pauta do Supremo Tribunal Federal, com toda certeza é um péssimo negócio para quase todos, em especial para os leitores e os próprios jornalistas graduados. É deprimente e degradante a forma como alguns jornais e profissionais de outras áreas estão tratando o tema.

As vertentes que apóiam a não-obrigatoriedade do diploma são completamente absurdas. Declarar que é errônea uma analogia de periculosidade entre áreas que demandam conhecimentos técnicos específicos como medicina e engenharia, para se prevenirem malefícios à coletividade, é no mínimo ignorante. Espanta-me ainda mais saber que tal opinião é de um jornal de prestígio em São Paulo, publicada em editorial. Declarar que profissões como medicina e direito, que causam risco à sociedade, devem ser controladas e que o jornalismo não, aumenta minha indignação.

O jornalismo, na minha santa ignorância, é um conhecimento adquirido sim, na prática, como toda profissão, mas muito mais na teoria. É com a dedicação, ao se estudar uma área, que o jornalista consegue, ao ir para o mercado de trabalho, não ser vítima de manipulação do poder público e privado.

Os beneficiários

Nenhuma profissão se adquire somente na prática, é necessária a base para que o profissional, ao se deparar com o mercado de trabalho, não ‘cause risco à sociedade’, como dito no jornal paulista na sexta-feira 24 de novembro. Risco maior para a sociedade é ter como fonte de informação matérias de ‘profissionais’ que não se dedicaram ao estudo, a este conhecimento intrínseco que torna quem a ele se dedicou durante quatro anos capaz de discernir entre interesse público ou interesse do público, bem como deturpação, manipulação, verdade ou mentira.

Ter como base estes argumentos é completamente inocente. Qualquer pessoa pode julgar, construir casas ou medicar alguém. Esta é uma realidade. É só observar ao redor: pessoas se automedicando, construindo barracões em periferias ou resolvendo, em acordos, seus problemas. O que capacita estas ações como profissionais ou não é justamente a teoria e o conhecimento, e a certeza de que o que está sendo feito é o certo. Tanto na profissão jornalística como em qualquer outra.

Talvez os únicos a se beneficiarem dessa não-exigência do diploma sejam os empregadores de mão-de-obra jornalística barata, empresas e poder público, que não teriam pessoas ‘contestadoras’ para fiscalizar e informar à sociedade sobre sua atuação e os ‘especialistas’, contratados por tais empresas. Quer criar um caderno de artigos, para os ‘especialistas’? Ótimo. Quanto mais informação, melhor. Uma coisa é artigo, outra é matéria jornalística. Qualquer leigo sabe a diferença entre ambos.

Prova

Sem conhecimento teórico e o ingresso em faculdade perde-se um dos valores mais bonitos e construídos ao longo do curso: a responsabilidade com a sociedade e a vontade de denunciar os fatos corruptos, que infelizmente são censurados até hoje, mesmo depois do fim da ditadura militar.

Outro argumento foi o fato de as universidades serem fracas e que é o dia-a-dia da redação que de fato molda o jornalista. Em primeiro lugar, não é a universidade que forma o profissional, ela contribui para um pensamento mais crítico, característica essencial para o profissional de comunicação, em qualquer área de atuação. Conhecimento, aproveitamento e dedicação vão depender de cada aluno, como ocorre em outros cursos, como Medicina, Engenharia, Fisioterapia, Direito, entre outros.

Em segundo lugar qualquer profissional molda seu comportamento de acordo com o ambiente profissional. Isso é óbvio. Portanto, isso não é argumento plausível para a não-exigência do diploma. Se o fato relevante é esse, sugiro uma opção: em vez de definir a não-obrigatoriedade do diploma para a profissão e contribuir para uma alienação total da população no futuro, por que não se qualificar mais o ensino, propondo-se uma prova, no fim do curso, para que o profissional obtenha o registro para exercer a profissão, assim como faz a Ordem dos Advogados do Brasil? Esta seria uma solução para acabar de vez com tantos comentários ignorantes e irresolutos.

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Estudante Jornalismo, Belo Horizonte

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