Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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DIRETóRIO ACADêMICO >

E se chover?

Por Evandro Calisto de Sousa Filho em 12/10/2009 na edição 559

Empatia: você, noiva radiante, conseguiu marcar encontro no shopping com uma amiga de infância para contar todas as novidades. Encontro, pulinhos, abraços, beijinhos, banco, sorvete e o ‘nem te conto, menina!’


‘Vai ser mês que vem, você não vai acreditar, o casamento dos meus sonhos, tudo lindo, vai ser de manhã, dez horas, um jardim e-n-o-r-m-e lindo, num hotel lindo, uma cerimônia primaveril linda, uma banda de jazz e umbuffet maravilhoso, tudo ao ar livre, lindo!’


‘Tá, e se chover?’


Você poderia ouvir tudo menos essa pergunta. Na verdade quase nunca depois de montarmos tudo na cabeça, sair feito louco comprando lista imensa, dormir acordado, acordar dormindo, depois de tudo nunca ousamos perguntar: e se chover?! Somos brasileiros, Deus é brasileiro, moramos ‘num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza, que beleza e tem carnaval, tem carnaval, um Honda Civic e um violão…’ Chover? Você é maluco, é meu filho?


E lá fomos nós Dinamarca afora, Copenhague adentro, um vídeo de Fernando Meirelles e um pacote de fotos lapidadas nophotoshop debaixo da axila suada de uma delegação maravilhosa. Na exibição do vídeo, Paulo Coelho chorou, o presidente Lula chorou, Daiane dos Santos chorou, Guga chorou, R-y-o d-i J-a-n-i-e-i-ro chorou. Diga a verdade, só pra mim, aqui baixinho: você não acha também o Rio lindo, não? Pois ‘o pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara, o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela… O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara: Pareceu-lhe uma boca banguela… Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela, O que é uma coisa bela? O amor é cego, Ray Charles é cego, Stevie Wonder é cego e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem’. Por isso o presidente Lula disse na Bélgica que ‘o Brasil não pode ser visto mais como o país das favelas’ porque vamos sediar as Olimpíadas. Presidente, e se chover?


As frieiras e os calos da vida


Para elucidar alguns pontos metrológicos, vamos avivar sua memória. Existem dois Rios de Janeiro, a saber: o Rio da novela das oito e o Rio de Datena e oBrasil Urgente. O Rio da novela das oito é maravilhoso, na música parou na década de sessenta, até hoje só toca bossa nova, Copacabana Palace, Leblon e praia, bondinho e vestidos, casas maravilhosas sem meio-dia, o sol só aparece no nascer e no se pôr, meio-dia é mar e futebol, biquíni e Leila Diniz; o Rio de Datena lhe rouba logo a atenção e é enquadrado imediatamente no Artigo 157 (Art. 157 – Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência), a paisagem é tão bela que às vezes é uma coisa depois parece outra ( Art. 171 – Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento). Agora, que você já conhece os dois Rios, me diga ‘na real’ qual dos dois você conhece, o do sol ou o da chuva?


Nem venha me dizer que eu pareço a amiga da noiva e quero jogar areia em seu brinquedo, pois o nosso brinquedo é todo feito de areia e não é aí que vão nos enquadrar no Art. 171, o vídeo de Meirelles 50% do piso mostrado é areia a outra metade é mar, estrutura de ‘esporte’ só o Maracanã, não mentimos sobre o futebol, aliás, minto eu, foi mostrado um basquetebol de cadeirantes numa quadra da favela, umfoot-voley maneiro numclose incrível retocadas, nos pés, as frieiras e os calos da vida.


Brasileiro dá um jeitinho


Existe uma construção filosófica de alguns pensadores que consideram algumas coisas inevitáveis. Isto é o processo dialético; o processo de superação natural dos ciclos inevitavelmente nos leva a outro ponto. O desenvolvimento da indústria inevitavelmente aboliu os escravos nas Américas, o medo de uma crise econômica sistêmica inevitavelmente diminuiu a ação destrutiva do FMI e do Banco Mundial. Contudo, as desconstruções e construções futuras dependem da superação de estágios que exigem outros estágios para manutenção da existência, nem pense que você criando um vídeo bonitinho, fazendo discursos inflamados, cantando bossa nova, indo à praia vai determinar picos de superação de estágios, não seja ingênuo (a) a novela só começa as oito e termina quando você deita no colchão com os ácaros.


Como disse Caetano, ‘eu, menos estrangeiro no lugar que no momento’ , liguei para Mazzoni, imediatamente após o anuncio que oR-y-o d-i J-a-n-i-e-i-ro foi escolhido, alegre, marcando para assistir com os meninos, que lá já homens serão, à final do basquetebol em 2016. Afinal, também sou brasileiro e tenho que fazer parte de pelo menos parte do sonho. Nem me venha me perguntar: e se chover no estádio? Brasileiro dá logo um jeitinho, virá na hora pólo aquático.

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Professor, Salvador, BA

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