Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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O jornalismo e a construção social da realidade

Por Túlio Vasconcelos em 27/12/2011 na edição 674

Muita gente acredita que a produção do fato jornalístico é uma transcrição da realidade. Existe uma linha de pensamento que se esforça em reforçar que o jornalismo é um espelho do real. Essa ideia cai por terra se levar em conta que existe contato do jornalista com os fatos, além da utilização de técnicas para se conseguir apurar as informações. De um lado, temos esses que defendem a notícia como um espelho da realidade e do outro temos os que pensam a notícia como uma construção da realidade.

As teorias que encaram as notícias como um relato observado e registrado pelo jornalista “neutro, desligado dos acontecimentos e cauteloso em não emitir opiniões pessoais” (TRAQUINA, 1993:167) propõem, dessa maneira, a metáfora do jornalismo como “espelho” da realidade. Estaríamos diante, nos jornais como ocorre na vida cotidiana. Pierre Bourdieu (1993: p.04), explica que, em torno de uma palavra, emerge um discurso fundamentado em pressupostos cognitivos e definições normativas, de forma que ela adquire uma existência objetiva.

Dessa forma, a atividade jornalística pode ser entendida como tendo um “papel socialmente legitimado para produzir construções da realidade que são publicamente relevantes” (ALSINA, 1996:18), ou seja, ao jornalista é delegada a competência para recolher os acontecimentos e temas importantes e atribuir-lhes sentido, firmando, com a sociedade, um “acordo de cavalheiros”, “contrato fiduciário” social e historicamente definido (TRAQUINA, 1993:168). Embora esse processo de construção social dependa dos conteúdos e da prática discursiva do jornalismo, deve-se ficar atento para não incorrer no erro de imaginar essa construção sem a participação ativa do público, nas diversas interações em que os indivíduos tomam parte no dia-a-dia.

Aperfeiçoamento de técnicas de investigação

O exercício do jornalismo tem a função de informar os indivíduos sobre os acontecimentos do mundo. Em sociedades tão complexas como as sociedades modernas, o jornalismo tem um papel central na mediação das pessoas com a realidade. O jornalismo muitas vezes é confundido com a realidade; ele é, na verdade, uma construção do real, um recorte. A prática jornalística precisa seguir o rigor do método jornalístico para tentar de aproximar da verdade dos fatos.

O jornalismo deve, antes de tudo, primar pela objetividade, e, assim, tentar se aproximar ao máximo da “verdade” dos fatos. Quando o jornalista molda a informação a partir dos seus interesses, ele está obstruindo a informação. Este tipo de atitude pode prejudicar terceiros envolvidos na apuração dos produtos jornalísticos.

Do mesmo modo, nas últimas duas décadas, o jornalismo passa por um importante processo de evolução, não apenas do ponto de vista tecnológico e operacional, mas também pelo seu papel social. O jornalismo tem contribuído para o amadurecimento dos seus profissionais, das empresas de comunicação e também dos consumidores de informação. Desse processo evolutivo, resultou um aperfeiçoamento de técnicas de investigação, no sentido de atender às necessidades do jornalismo de serviços e na segmentação do seu mercado, além da especialização de coberturas.

Acontecimentos e textos

Dessa forma, o conhecimento da realidade seria apreendido objetivamente, sem interferência da experiência individual do observador. Suplantando esse modelo, as teorias atuais apontam para a realidade como sendo o resultado de ações sociais intersubjetivas ou, dito de outra maneira, a objetividade seria um produto social intersubjetivo. Ainda nessa linha de pensamento, é preciso ressaltar a importância da linguagem, no que diz respeito a sua influência sobre o pensamento e o conhecimento humanos.

Contrariando essa visão essencialmente técnica, existe uma linha que tenta encarar o jornalismo como uma forma de conhecimento (MEDITSCH). Para o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, o jornalista não só comunica os fatos para os outros, mas é alguém que também produz e reproduz conhecimento. Traquina acrescenta que “os jornalistas não são simplesmente observadores passivos, mas participantes ativos no processo de construção de realidade. E as notícias não podem ser vistas como emergindo naturalmente dos acontecimentos do mundo real; as notícias acontecem na conjunção de acontecimentos e textos. Enquanto o acontecimento cria a notícia, a notícia também cria o acontecimento” (TRAQUINA, 1993:168).

Contexto imediato

A realidade trabalhada pelo jornalismo será sempre a preparada para o consumo e corre o risco de erros ocorridos por desatenção. Cada leitura do real dará um conteúdo diferente, cada fato trará a contradição que é própria prática jornalística. Desse modo, da enormidade de eventos simultâneos que irrompem na esfera da vida cotidiana, teríamos conhecimento, principalmente, daqueles que se tornassem acontecimentos jornalísticos, ou seja, aqueles eventos que, por força de sua noticiabilidade, “explodem na superfície da mídia sobre a qual se inscrevem como sobre uma membrana sensível” (TRAQUINA, 1993:50). Mais uma vez, será preciso um corte na argumentação, a fim de apontarmos o estado atual do entendimento do que é notícia, de modo a entendermos a construção de realidade a que nos referimos.

Dessa forma, na elaboração da notícia, além da experiência do jornalista que observa, seleciona e relata o acontecimento, os problemas organizacionais que os jornalistas lidam em sua rotina. “As decisões tomadas pelos jornalistas no processo de produção das notícias só podem ser entendidas inserindo o jornalista no seu contexto mais imediato – o da organização para o qual ele ou ela trabalham” (TRAQUINA). A notícia, assim, passa a ser entendida como uma representação social da realidade cotidiana produzida institucionalmente, que se manifesta na construção de um mundo possível (ALSINA).

Considerações finais

Podemos concluir, portanto, que os discursos de legitimação do jornalismo, os mitos profissionais, as visões funcionalistas e essencialistas sobre a atividade participam, de certa maneira, da forma como as pessoas participam do jornalismo na sua vida cotidiana. Nesse sentido, embora a ideia de uma essência do jornalismo constitua-se num equívoco, ela deve ser levada em consideração enquanto construção social, pois participa do processo de negociação das identidades e práticas de jornalistas, fontes e público.

Bibliografia

ALSINA, Miguel Rodrigo. La construcción de la noticia. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidós, 1996.

BOURDIEU, P. Questions de sociologie. Paris: Les Editions de Minuit, 1984.

____________. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: por uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre: Tchê, 1987.

HOHFELDT, Antônio. Hipóteses contemporâneas de pesquisa em comunicação. In: HOHFELDT, Antônio; FRANÇA, Vera (orgs.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001.

KARAM, José Francisco. A Ética Jornalística e o interesse público. São Paulo: Summus, 2004.

MEDITSCH, Eduardo. O jornalismo como forma de conhecimento. Florianópolis: 1992.

PEREIRA JÚNIOR, Alfredo. Decidindo o que é notícia. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

TRAQUINA, N. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001.

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[Túlio Vasconcelos é graduando em Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE]

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