Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > JORNALISMO & TECNOLOGIA

Redes sociais e ética jornalística

Por Maíra Sousa em 12/06/2012 na edição 698

A história do jornalismo é marcada pelo impacto tecnológico. Os processos de produção, circulação e consumo da notícia sofrem alterações com o surgimento de cada novo meio de comunicação. Foi assim com o rádio, com a televisão e agora com a internet. Mas a principal diferença dessa nova mídia é que os usuários deixam de ser meros consumidores e passam a ser também produtores de informação. Os blogs e os sites de redes sociais, a exemplo do Twitter e do Facebook, estimulam a participação dos usuários na produção de conteúdo. Desta forma, circulam pela internet não apenas as informações publicadas pela grande imprensa, mas também, o conteúdo produzido pelos usuários destas redes o que gera uma infinidade de informações no ciberespaço.

Por conta dessa situação, o papel do jornalista é colocado em xeque e os valores jornalísticos como a credibilidade, a exatidão e a isenção têm sua importância redobrada com a emergência das redes sociais na internet e das tecnologias digitais, uma vez que é preciso haver um “filtro” das notícias confiáveis. Neste texto, pretende-se mostrar a importância desses valores jornalísticos a partir de notícias que circulam no ciberespaço, mais especificamente, nas redes sociais. Os dois casos apresentados a seguir, exemplificam a participação dos usuários como produtores de informação.

O primeiro exemplo é o caso Voz da Comunidade. Em novembro de 2010, três jovens tuiteiros moradores do Morro do Adeus, situado no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro narraram pelo perfil do Twitter @vozdacomunidade toda a ação da polícia na retomada da favela do Alemão. Os jovens publicavam as informações que viam de suas casas, local onde a imprensa não tinha acesso. Com isso, notícias foram dadas em primeira mão por eles, e outras, divulgadas pela imprensa tradicional chegaram a ser corrigidas pelo grupo. O @vozdacomunidade ganhou notoriedade e os jovens passaram a ser fontes para os jornalistas.

Informações à disposição

Outro exemplo é o sequestro da engenheira Carolina Luísa Vieira, ocorrido no dia 25 de maio deste ano, em Florianópolis. O acontecimento teve repercussão nas redes sociaisapós o pedido de ajuda emitido pela família da vítima pelo Facebook. A informação foi compartilhada por mais de 260 usuários da rede social, que acompanharam o roteiro do crime no momento em que ele ocorria. Apesar da repercussão nas redes sociais, a notícia só foi veiculada pela imprensa após certificação da segurança total da refém.

No episódio do morro do Alemão, os jovens tuiteiros se tornaram fontes jornalísticas. Já no caso do sequestro, que é considerado um caso especial de registro jornalístico por colocar em risco a segurança da vítima, a repercussão nas redes sociais ajudou nas investigações. Se por um lado, os usuários usam cada vez mais as redes sociais para se comunicar e colocar em pauta assuntos não agendados pela mídia tonando-se, em alguns casos, fontes de informações jornalísticas. Por outro, os jornais de referência se beneficiam desses espaços, uma vez que eles proporcionam “(1) melhora da identidade da marca, (2) fidelização dos leitores e (3) vantagens através da distribuição de seus conteúdos entre as redes, produzindo um efeito em cadeia entre os membros da rede social e melhorando sua repercussão” (ORIHUELA apud FLORES, WEBER & LONGHI, 2011).

Esse novo ecossistema midiático envolve além dos tradicionais veículos de comunicação, os usuários, que agora podem comentar, compartilhar e retrabalhar este texto hipermidiático. Com isso, criam-se polêmicas quanto a existência ou a reconfiguração da figura do jornalista como o gatekeeper aquele que controlava os “portões”, ou melhor, o conteúdo noticiado pela mídia. A facilidade em se publicar informações na internet, diminui o controle das empresas jornalísticas sobre o que é publicado no ciberespaço e agora o papel dos jornalistas seria o de selecionar, indicar e contextualizar as notícias confiáveis, além de dar pistas de leitura aos usuários, que agora têm uma infinidade de informações à sua disposição, a essa nova “figura” Bruns (2005) chamou de gatewatcher.

Credibilidade, exatidão e isenção

Apesar de todo o potencial colaborativo das redes sociais, é inegável que o capital social construído pelo jornalismo ainda permanece, e uma notícia publicada por usuários dessas redes sociais não tem o mesmo peso e nem gera a mesma atenção que a informação divulgada por veículos noticiosos de referência, que já têm seu lugar de fala legitimado. Nas redes sociais, os perfis de empresas jornalísticas são os que possuem o maior número de seguidores e a credibilidade de uma notícia se dá a partir do momento em que ela é compartilhada e/ou recebe comentários dos usuários.

O jornalista é quem “provê a legitimação e o aprofundamento das informações, ancorado na credibilidade e em seu papel social”. Um exemplo é o caso da morte da cantora Amy Winehouse, em julho de 2011, que foi estudado pela pesquisadora de Redes Sociais Raquel Recuero (2011). Segundo a autora, os primeiros tweets sobre o assunto solicitavam mais informações ou pediam a confirmação do fato. Dos 444 tweets coletados, 98 direcionavam para a notícia da revista @RollingStone (uma das primeiras a anunciar da morte da cantora), como uma forma de confirmar e dar credibilidade à essa informação. De acordo com a pesquisa, as informações só são legitimadas e confirmadas nas redes sociais, quando publicadas por um veículo jornalístico.

Como foi visto, mesmo com uma infinidade de atores nas redes sociais, neste novo ecossistema midiático os jornais não perderam sua efetiva legitimidade social. Eles têm o seu lugar de fala garantido e cada vez mais precisam manter suas responsabilidades e seus valores, como: a credibilidade, a exatidão e a isenção. Pois se por um lado, os usuários podem publicar qualquer tipo de informação na rede, por outro, são os jornalistas os portadores da legitimidade e credibilidade necessária pra dar valor ao conteúdo publicado na internet.

Referências

BRUNS, Axel. Gatewatching: collaborative online news production.Peter Long Publishing: New York, 2005.

CANAVILHAS, João. Do gatekeeping ao gatewatcher: o papel das redes sociais no ecossistema mediático. Disponível em <http://campus.usal.es/~comunicacion3punto0/comunicaciones/061.pdf>. Acesso 20 jan 2012.

CHRISTOFOLETTI, Rogério. Preocupações éticas para o jornalismo online. Disponível em <http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/estudos/article/viewFile/5571/5058> Acesso 25 mai 2012.

FLORES, Ana Marta; WEBER, Carolina; LONGHI, Raquel Ritter. Os webjornais querem ser rede social? Anais SBPJor 2011, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

KARAM, Francisco José C. Alguns apontamentos e um futuro aberto: sociedade da informação e do conhecimento, convergência tecnológica, diversidade midiática e ciberjornalismo. Disponível em <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/viewFile/8195/5884>. Acesso 25 mai 2012.

______ Convergência tecnológica e a relevância dos narradores públicos. Disponível em <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/viewFile/4802/4076,>. Acesso 25 mai 2012.

LONGHI, Raquel Ritter; SOUSA, Maíra. A dinâmica da notícia nas redes sociais. Disponível em <http://alaic2012.comunicacion.edu.uy/sites/default/files/a_dinamica_das_noticias_nas_redes_sociais_rqquel_longui_maira_de_cassia_souza_0.pdf> Acesso 04 jun 2012.

PRIMO, Alex. Transformações no jornalismo em rede: sobre pessoas comuns, jornalistas e organizações; blogs, Twitter, Facebook e Flipboard. Anais SBPJor 2011, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

RECUERO, Raquel. “Deu no Twitter, alguém confirma?” Funções do Jornalismo na Era das Redes Sociais. Anais SBPJor 2011, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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[Maíra Sousa é jornalista, especialista em Jornalismo Digital, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC]

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