Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > ALTA ANSIEDADE

O ilusionismo de Mel Brooks

Por Monalisa Arikawa em 03/07/2012 na edição 701

Mel Brooks, diante de um cinema que se servia de instrumento de dominação, inovou ao inseriro humor, o qual, por vezes, soava visivelmente como crítica ao padrão narrativo, usando do termo “ilusão da realidade”, que mais seria a desconstrução de fundamentos até o momento pouco explorados – como enquadramento, montagem, interpretação, som, câmera entre outros – de modo a favorecer um cinema sem ilusionismos. Porém, para ir contra esta técnica, “[…] cabe ressaltar o plano-contraplano que é, sem dúvida, o elemento discursivo de maior interesse para produzir o efeito ilusionista, um efeito de identificação imaginária […]” (MENGARELLI, 2004b, p. 01).

A contraposição de planos, portanto, é um dos elementos do cinema ilusionista, o qual remete à “enunciação” – atribuição correspondente aos meios técnicos utilizados para a captação da cena. “Refere-se à estrutura significante que sustenta o discurso. Cada elemento (significante) que compõe a enunciação por si mesmo nada significa, é no encadeamento, na sua combinação que produzirá os efeitos da significação” (MENGARELLI, 2004a, p. 01). Porém, não é apenas a imagem o atributo da enunciação, mas os efeitos sonoros: a existência deles ou a inexistência; o silêncio.

“A justaposição de dois planos deve assemelhar-se a um ‘ato de criação’: cada corte deve gerar um conflito entre dois planos unidos, fazendo com que na mente do espectador surja […] que Eisenstein chama de imagem.” (LEONE; MOURÃO, 1987, p. 51). É neste misto de cortes e recortes que o espectador se torna um tipo de testemunha ocular do filme. O plano-contraplano remete ao “Estágio do Espelho”, designação de Jacques Lacan para o que é chamado de “identificação” (o olhar a si mesmo) e que ocorre, no caso do cinema, nas duas tomadas correspondentes. O psicanalista Lacan contribuiu na “Fase do Espelho” ao isolar “[…] três registros: imaginário, simbólico e real e fez avançar notadamente os conceitos de desejo e de falta” (GRANDE, 1995, v.14, p. 3461).

Personagens que falseiam uma realidade

É usando destes e de outros princípios que segue a análise de uma das produções de Brooks: Alta Ansiedade. O filme (Alta Ansiedade) foi o foco do estudo dado neste trabalho. Além do roteiro e direção, Brooks faz o papel principal, o de um famoso psiquiatra que é nomeado para dirigir o “Instituto Psiquiátrico para os Muito, Muito Nervosos”. Alta Ansiedade, uma comédia, é uma homenagem ao mestre do suspense, Alfred Hitchcock. O filme utiliza como forma de paródias clássicos como Os Pássaros, Psicose e Um Corpo que Cai.

Para analisar Alta Ansiedade, trataremos de “enunciação” e “enunciado”. O enunciado está expresso, proposto, o filme quer causar suspense usando elementos de outros filmes. O enunciado, ou seja, a proposta é vencer, superar os medos, desvendar segredos, revelar a verdade – relação que cabe ao personagem vivido por Brooks, dr. Thorndike. Já a enunciação é a declaração, é a proposição, é aquilo que ficou proposto, o resultado. A enunciação é esta busca do dr. Thorndike pela verdade que desencadeia várias situações que acabam fazendo com que esta figura dramática, interpretada por Brooks, perca o medo de altura (seja curado do diagnóstico; a alta ansiedade) e desvende a realidade (descubra os mistérios que envolvem o instituto).

Dr. Thorndike é o elemento antiilusionista e vai romper, desmascarar, o que vê de falso. A equipe, mais especificamente, o dr. Charles Montague (encarregado até o dr. Thorndike chegar) e a enfermeira Diesel (“o braço direito”), são as personagens que estão falseando uma realidade, são elementos ilusionistas, pois estão manipulando algo que não é visto pelo dr. Thorndike.

Rompimento de um padrão

Por exemplo, o momento em que o dr. Thorndike recebe em sua sala o paciente sr. Cartwrtight, com a presença do dr. Montague, ele, dr. Thorndike, não consegue ver todo o universo que existe naquela sala. Até então, ele sabe que o paciente, sr. Cartwrtight, foi para o Instituto Psiquiátrico porque sofreu esgotamento nervoso, dores no pescoço, além de sonhar com lobisomens. Percebe-se logo de início um receio por parte do paciente diante do dr. Montague. No entanto, esta dúvida é solucionada quando o próprio dr. Montague aproveita de posições não notadas por dr. Thorndike para assustar o paciente. Dr. Montague usa de elásticos dando forma de estilingue para acertar o pescoço do sr. Cartwrtight e ainda faz expressões animalescas com o uso de dentes pontudos. Nesta exposição, o dr. Thorndike não percebe que o efeito causado no paciente é fruto de uma manipulação. Existem elementos ocultos para o dr. Thorndike que o colocam em um quadro ilusionista, o que futuramente ele rompe.

Outro aspecto muito interessante é a câmera quebrar o vidro que compõe a porta, quando o desejo é filmar uma refeição feita por todos os profissionais que fazem parte da equipe médica do Instituto Psiquiátrico. A câmera, ao quebrar o vidro, se faz presente, traz o espectador para a realidade. A equipe médica que realiza a refeição se assusta com barulho e olha para a porta estilhaçada, logo depois retornando ao interesse da conversa – que ocorre naquela mesa – como se o fato anterior fosse algo esperado, presumido. Enfim, a cena da câmera se fazendo presente é algo antiilusionista, o que será notado novamente no final do filme.

No desfecho do filme, a câmera entra em cena, na lua-de-mel, com o objetivo de realizar o seguinte movimento: afasta-se da imagem do quarto – onde se encontram o dr. Thorndike e sua esposa (interpretada por Madeline Kahn) – e abre na imagem exterior captando a estrutura em seu todo. Neste momento, a câmera acaba derrubando parte da parede do quarto – desta vez, quem manipula a câmera comenta algo, no entanto sem aparecer a sua imagem ou de um assistente. O que percebemos é que este recurso de fazer a câmera presente (a interferência direta) é algo novo para a década de 70 e um elemento antiilusionista. Há um rompimento de um padrão, uma invasão da realidade, seria o ver por detrás das câmeras.

Ilusão e realidade, sanidade e loucura

Analisando as personagens, concluímos que o dr. Montague e a enfermeira Diesel são os elementos ilusionistas, já que manipulam através da mentira – eles manipulam a realidade e os olhos das pessoas. Porém, o filme trata de algo antiilusionista, pois não existem cortes de cena que ocultem pessoas e elementos – o tiro no saguão do hotel não esconde o sujeito que atira. Apesar de disfarçado de dr. Thorndike, o mandante (de Montague e Diesel) aparece posteriormente tirando a máscara.

Portanto, não existem cortes que coloquem dúvidas no espectador e também não existe o retrocesso, o flash back, o racconto. Em razão dos motivos, aqui expostos, podemos afirmar a presença do antiilusionismo e podemos dizer que Alta Ansiedade é uma grande sequência. Ou seja, há um começo (introdução), meio (desenvolvimento) e fim (desfecho) que traça uma relação e vai compor o filme como um todo.

Alta Ansiedade apresenta muitas cenas que poderiam ser discutidas e trabalhadas de forma que resultasse em uma análise mais profunda e complexa. No entanto, o objetivo desta análise foi apenas discutir os elementos mais evidentes e colocar em questão o antiilusionismo e o seu impacto no cinema.

Brooks desenvolveu uma espécie de cinema fronteiro, que trabalha nas margens do ilusionismo e do antiilusionismo, da narrativa clássica e do intento da vanguarda. Seu filme tira proveito tanto das convenções narrativas, assim como desenvolve uma renovação da linguagem do meio cinematográfico, misturando formas e conceitos distintos. É uma mescla de ilusão e realidade, sanidade e loucura.

Referências

Alta ansiedade. Direção: Mel Brooks. Intérpretes: Mel Brooks, Madeline Kahn, Cloris Leachman, Harvey Kormane outros. Roteiro: Mel Brooks, Ron Clark, Rudy De Luca, Barry Levinson. Estados Unidos: Fox Filmes, 1977. 1 DVD (94 min), widescreen, color. Produzido por Crossbow Productions e Twentieth Century-Fox Film Corporation.

Grande Enciclopédia Larousse Cultural. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1995.

LEONE, Eduardo; MOURÃO, Maria Dora. Cinema e montagem. São Paulo: Ática, 1987.

MENGARELLI, HUGO. Raccord I. 2004a. Apostila do Curso de Pós-Graduação em Comunicação Audiovisual – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba.

________________ Raccord II: Griffith e o P.P. 2004b. Apostila do Curso de Pós-Graduação em Comunicação Audiovisual – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba.

XAVIER, Ismael. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

***

[Monalisa Arikawa é jornalista e publicitária, Presidente Prudente, SP]

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