Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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DIRETóRIO ACADêMICO > EDUCAÇÃO & SOCIEDADE

Educar o soberano para votar melhor

Por Deonisio da Silva em 22/07/2008 na edição 495

A professora Maria Auxiliadora Rezende é secretária da Educação e Cultura do estado de Tocantins. Doutoranda em Gestão e Tecnologia, é mestre em Educação Escolar Brasileira e especialista em Alfabetização.

Visitei Tocantins este semestre. A convite da Universidade Federal, abri o semestre letivo dos cursos de pós-graduação. Proferir aula inaugural numa universidade é tarefa que honra qualquer docente, especialmente quando, como foi o caso, os organizadores aproveitaram a ocasião para me dar um reconhecimento adicional, fazendo sessões de autógrafos, não apenas de meus livros sobre o ensino de Letras, especialmente de língua portuguesa e de suas literaturas, mas também de meus romances e contos.

Acabo de ler a entrevista que a professora concedeu a O Estado de S. Paulo (21/7/2008, pág. A16). Desde que voltei da aula inaugural, tenho recomendado a jovens profissionais: ‘Esqueçam o Rio e São Paulo, vão para o Tocantins, lá vocês serão felizes, não por serem amigos do rei de Pasárgada, mas porque eles precisam muito de profissionais como vocês.’

Inteligência e esperteza

Há um único doutor em Direito em todo o estado de Tocantins. Há muitos PhDs, não apenas em Direito mas em muitas outras áreas, concentrados nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Rio e São Paulo, mas poucos querem abrir novas fronteiras. Se quisessem, atenderiam a necessidades urgentes – sobretudo no ensino, na pesquisa e na extensão, os três pilares de qualquer universidade – e criariam projetos que lhes dariam grande satisfação pessoal e espalhariam efeitos benéficos sobre todos os outros níveis: os professores do ensino médio, por exemplo, deixariam o curso superior mais bem preparados.

Agora, pelo Estadão, fico sabendo que em Tocantins a média salarial para professores com curso superior é R$ 2.020,00, muito mais que o dobro do piso agora fixado pelo governo federal, mas para valer a partir de 2010, de R$ 950,00. E a professora Maria Auxiliadora faz uma recomendação e um alerta: ‘É preciso tornar o magistério uma profissão mais atraente, senão só vai para a sala de aula quem não tiver outra opção.’

É a mais pura verdade. Naturalmente, ensinar é, especialmente no Brasil, uma profissão que paga caro pelo seu lado sacerdotal. Todos sabemos que o professor realmente vocacionado para o ofício dá à profissão um valor que os governantes não dão. Por isso, esta boa vontade deles é explorada por espertos que, sem a formação deles, estão em postos de comando no ensino. No Brasil, aliás, se confunde muito inteligência com esperteza. Como sabemos, vivemos a era da esperteza, mas felizmente nem todos se renderam ainda. Todos sabem de casos, não apenas no longínquo interior, de professores que pagam às suas expensas livros, apostilas, recortes da imprensa etc., que levam à sala de aula para suprir o que a escola não lhes dá. Isso acontece até em universidades públicas!

Professores dedicados

Ora, ninguém vive do sacerdócio da sala de aula, vive de salário. A dedicação aos alunos não paga uma só despesa do cotidiano docente.

Mas, ao lado da defesa de uma remuneração digna para a classe, a professora destaca uma outra: a remuneração extra-classe, para cobrir o tempo que o professor gasta preparando aulas, corrigindo provas, atendendo aos alunos. O CNE fixou em 30% este tempo. Antes, o índice fixado ficava entre 20% e 25%.

Diz Maria Auxiliadora:

‘Será preciso contratar outro professor para assumir essas 6 horas a mais que ele ficará fora. Isso significa que, a cada dois ou três professores – dependendo da carga horária – será preciso contratar mais um. (…) Será um ganho para a educação se esse tempo realmente for bem aproveitado.’

Será, Maria Auxiliadora, será! Vamos devolver ao Brasil a qualidade de ensino que o país já teve e que perdeu. Preservou-a apenas em alguns nichos, de algumas áreas, em algumas escolas e universidades. Em todos os lugares onde a educação é valorizada como deve, lá encontramos vários professores dedicados a esta boa causa, que em resumo educará o soberano que escolhe quem nos governará daqui por diante!

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

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