Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > VIVER A VIDA

Em cena, uma negra de joelhos

Por Gleiciele Oliveira e Shagaly Araujo em 01/12/2009 na edição 566

Noite de segunda-feira, 16 de novembro de 2009. Exibição de novela. Na cena, duas personagens discutem. Uma negra e outra branca. A primeira chora e ouve passivamente as ofensas da última… minutos a fio. A negra, evidentemente, ajoelha-se diante da personagem branca para pedir perdão por uma culpa questionável. E, por fim, recebe uma bofetada da mesma, em uma subserviência irritante.

Em um primeiro momento, a descrição parece referir-se a alguma novela ‘de época’, na qual o tempo e o espaço ficcional situam-se em um Brasil escravocrata e a mulher do senhor de engenho esbofeteia uma de suas mucamas. No entanto, fala-se aqui de mais um capítulo da novela Viver a Vida, cujas personagens concentram-se no Rio de Janeiro do século 21, e que as atrizes Lília Cabral e Taís Araújo, Teresa e Helena, respectivamente, contracenam um dos momentos mais fortes e infelizes da teledramaturgia brasileira.

Antes da estreia da supracitada novela, de autoria de Manoel Carlos, a ser exibida pela Rede Globo de Televisão no chamado horário nobre da sua programação, muitos celebravam o fato de, pela primeira vez, uma atriz negra interpretar o papel principal em uma produção com tais características. Porém, o que antes parecia um ponto positivo, atualmente ajuda a colaborar com a contundente exigência da cabeça de Helena em uma bandeja, por parte do público. Personagem esta que é um presente de grego para qualquer atriz, uma vez que protagoniza uma trama que parece legitimar estereótipos sobre a figura do negro cristalizados no imaginário da população brasileira.

A mulher facilmente manipulável

Alguns aspectos apresentados na novela são bastante questionáveis e suscitam várias reflexões, tais como: a personagem principal fazer parte da única família fenotipicamente negra, e ajudá-la financeiramente através da profissão, na qual obteve grande ascensão, depois da realização de um aborto (ato condenável, para muitos indivíduos), que alegou ter feito sob pressão; a mesma ser vista como ‘interesseira’ por ter se casado com um homem branco e rico e, após engravidar do mesmo, ser acusada de estar realizando o famoso e antigo ‘golpe da barriga’ (nesse caso, nota-se a incoerência do próprio enredo, pois a mesma também é narrada como rica e já está casada); e ser ‘incriminada’ por um acidente que fisicamente não provocou.

Esses pontos, jogados no enredo de uma maneira que parece subestimar a inteligência e o posicionamento crítico do telespectador, podem corresponder à visão que há muito tempo foi criada, e, desde então, teorizada e propagada sobre o negro, sempre ligando-o a situações negativas. Em Helena, é reproduzida a imagem da mulher que não tem domínio do seu próprio corpo e de suas próprias vontades, sendo facilmente manipulável. Assumiu uma culpa que não lhe pertencia, e por isso vem, ao longo dos capítulos, humilhando-se diante de parte da massa branca e burguesa da novela, inclusive de seu próprio marido. Seu casamento é um golpe, sua gravidez, uma estratégia, e o amor de seu marido ‘é qualquer coisa, menos um amor verdadeiro, é insegurança’, na fala da personagem Teresa.

Imaginário discriminatório

É triste ver que a culpa pela fraca qualidade da novela, cujo enredo se perdeu ao longo do tempo e a maioria dos profissionais parece nunca ter atuado antes, pesa, hoje, sobre uma possível má atuação de Taís Araújo. E, como se já não bastassem todos os problemas estruturais do folhetim, a população negra ainda é obrigada a ‘tomar um tapa na cara’ junto com a personagem. Pergunta-se, diante disso: O que tal cena nos quer comunicar? Quais lugares de poder quer reafirmar? Por que, quando não há um sub-papel em uma novela qualquer, há, nas entrelinhas (ou nas linhas), discursos imagéticos que se remetem sempre a um lugar de inferioridade do sujeito negro?

Na representação artística, pensada como linguagem, nada é neutro ou inocente. Uma exposição com esse teor de discursivo, como ocorre em Viver a Vida, possibilita leituras que colocam no âmbito da naturalidade problemáticas que são amplamente discutidas e combatidas, e que se apresentam de segunda a sábado, em um horário no qual a grande maioria da população consome um produto chamado novela.

É lamentável observar que, em plena semana de comemorações da consciência negra, celebrada no dia 20 desse mês, uma grande parcela de indivíduos, que passou e passa por diversas condições difíceis, ocasionadas por uma segregação racial e social histórica, recebeu esse desagradável presente em rede nacional e viu, mais uma vez, a continuidade do reforço a um imaginário discriminatório de bases ideológicas e hegemônicas. Mais lamentável ainda é constatar que os atores negros migram das novelas com temática escravocrata para assumir os mesmos papéis de submissão na contemporaneidade, pondo a si e a nós todos de joelhos.

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Estudantes de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/12/2009 Everson Silva

    Parabéns escritoras! O artigo conseguiu abordar questões que a sociedade, infelizmente, coloca a venda no rosto e não consegue perceber. Posso ressaltar que, com muita maturidade vocês conseguiram discutir o assunto, demonstrando, assim uma boa experiência de leitura e de escrita. A abordagem foi bastante pertinente. É uma pena que poucas pessoas consigam perceber as colocações que vocês trouxeram, no presente artigo, e insistam em bater na mesma tecla ou em não enxergar o que está visível. É muito significativo que, na Bahia, um estado com a maioria da população negra, pessoas como vocês tenham essa iniciativa. A posição das escritoras do artigo é muito pertinente. Para perceber, basta estudar cuidadosamente a História do nosso país e verás a pertinência de tais colocações.
    Mais uma vez, parabenizo as escritoras.

  2. Comentou em 06/12/2009 Everson Silva

    Parabéns escritoras! O artigo conseguiu abordar questões que a sociedade, infelizmente, coloca a venda no rosto e não consegue perceber. Posso ressaltar que, com muita maturidade vocês conseguiram discutir o assunto, demonstrando, assim uma boa experiência de leitura e de escrita. A abordagem foi bastante pertinente. É uma pena que poucas pessoas consigam perceber as colocações que vocês trouxeram, no presente artigo, e insistam em bater na mesma tecla ou em não enxergar o que está visível. É muito significativo que, na Bahia, um estado com a maioria da população negra, pessoas como vocês tenham essa iniciativa. A posição das escritoras do artigo é muito pertinente. Para perceber, basta estudar cuidadosamente a História do nosso país e verás a pertinência de tais colocações.
    Mais uma vez, parabenizo as escritoras.

  3. Comentou em 03/12/2009 Valdineia Santana

    Certos comentários são dignos de risos…
    É impressionante! Sempre que nós negros nos posicionamos contra certos discursos que tentam nos subalternizar, tem sempre alguém para dizer que o racismo é coisa da nossa cabeça. E o mais impressionante, ainda, é que, quem profere esse clichê acha que está com total razão para dizê-lo. Com que experiência de leitura ou de vida certas pessoas afirmam isso com tanta ênfase? Querem que acreditemos nisso, ainda?
    Acho que a expressão ‘o racismo está na cabeça de vocês’ pode ser interpretada como ‘vocês, negros, devem aceitar, passivamente, toda e qualquer forma de representação e de subalternidade que nós, os brancos, determinarmos.’
    Ao ler Bell Hooks, Stuart Hall, Lélia Gonzales e outros/as intelectuais. descobri que não tem porque deixar que isso aconteça. ‘O racismo é coisa da cabeça de vocês’, é, mais uma vez, um discurso criado para tentar nos enfraquecer na nossa resistência contra o lugar da subalternidade. O fato de não aceitarmos o mito da democracia racial, causa incomodo na população propagadora dessa ‘teoria’. Pode ser lamentável para muitos, mas tenho que dizer, com conhecimento de causa, boa parte da população negra ou afro-brasileira já não mais acredita nesses construtos ideológicos. Se forem capazes, criem outros. E sempre haverá pessoas, como as escritoras do artigo acima, para questionar e discutir tais construçoes.

  4. Comentou em 02/12/2009 Felipe Faria

    Na proxima novela Manoel carlos dará o papel da malvada que bate e acontece a uma negra, aí vocês voltarão a acusá-lo de racismo por tentar ‘desmerecer’ os negros. Olhem, me parece que o racismo está mais na cabeça de vocês que nas novelas, talvez seja melhor que vocês procurem novelas de rádio, aí não se sentirão tão ofendidas.

  5. Comentou em 01/12/2009 Claudio Cardoso de Paiva

    Bravos são os comentários dos meus ‘interlocutores’ anteriores. Não há racismo na telenovela Manoel Carlos. Muito pelo contrário! Estranho seria colocar os atores / atrizes negros em um pedestal, deslocando as suas possibilidades de interpretarem personagens de heróis ou de vilões, como outros profissionais quaisquer. Existe ainda muito pouco discernimento quanto às representações do negros na teledramaturgia. Se ontem houve papéis, representações, aparições cheios de clichês e estereotipias, hoje as narrativas ficcionais têm cumprido um papel ético, estético, pedagógico e cognitivo no que concerne às relações humanas. Isto se deve à consciência crítica dos nossos escritores (da teledramaturgia) e também à batalha dos negros que historicamente vêm se colocando na esfera pública com competência e dignidade.

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