Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > CONGRESSO DE SANTIAGO

Em defesa da pesquisa e da cooperação iberoamericana

Por Pedro Celso Campos em 12/02/2008 na edição 472

Com quase 500 trabalhos apresentados e a presença de pesquisadores de Comunicação de vários países da Europa e da América Latina, o bem organizado Congresso Internacional de Comunicação, realizado de 30 de janeiro a 1o de fevereiro de 2008 na Faculdade de Ciências da Comunicação de Santiago de Compostela (Espanha), foi o marco de fundação da Asociación Española de Investigación de la Comunicación (Aeic), presidida pelo professor Miguel de Moragas i Spà, da Universidade Autônoma de Barcelona.

Na conferência inaugural, a professora Pilar Diezhandino Nieto, da Universidade Carlos III, de Madri, disse que ‘vivemos um momento de mudanças sem precedentes, a ponto que as palavras já nos ficam velhas na boca, como afirmava Habermas’. Acrescentou que ‘estamos diante de um novo paradigma que tem a ver com as tecnologias, a globalização, a internet, a passagem da cultura escrita para a cultura da rede, como indica Alain Touraine, e transcorre do social ao individual, ao sujeito. A individualidade, diz ele, assumiu o seu lugar’.

Em seguida a professora citou o conceito de ‘tempos líquidos’, de Zygmunt Barman:

‘Estes tempos são próprios de uma sociedade que deixou de ser estável e sólida para ser líquida, cambiante, incerta e, em tempos assim, a comunicação é o centro nevrálgico, o núcleo central, o expoente a partir do qual se produzem as mudanças e se vive o mudado. Por isto, talvez seja preciso pensar agora a pesquisa em Comunicação não como âmbito de trabalho, mas como o âmbito de trabalho; não como um motivo de interesse, mas como o motivo de interesse; não como um sistema, mas como o sistema, porque tudo é comunicação’

Coexistência de culturas

Depois falou o professor argentino Nestor Garcia Canclini, da Universidade Autônoma Metropolitana do México. Ele lembrou que o pensamento crítico costuma estudar a comunicação como um sistema fraturado em brechas. Assim, uns estudam a televisão aberta ou paga, outros estudam o entretenimento ou a informação estratégica e, ultimamente, outros ainda estudam as tecnologias digitais – e também há os que estudam os meios mais elementares como o correio eletrônico, o celular etc. Canclini também destacou a redundância dos estudos sobre desequilíbrio entre sociedades centrais e periféricas. Entretanto, para ele, ‘é possível uma compreensão mais complexa da significação cultural e social desses processos, ao invés da simples polarização’. Ao propor uma análise multidimensional da diversidade, Canclini destacou que nela se cruzam variados tipos de diferenças e desigualdades: étnicas, de gênero, educativas e de acesso às tecnologias avançadas e à comunicação transnacional.

Analisando os novos modos de informar-se e de conhecer com os modos atuais de comunicar-se, ele fez uma distinção entre sociedade da informação e sociedade do conhecimento :

‘Enquanto os estudos clássicos sobre cultura incorrem ainda em incursões gutemberguianas, pré-midiáticas, atribuindo aos meios audiovisuais massivos a função de fornecer apenas diversão, à internet informação e aos livros conhecimento, a convergência digital incita a considerar unidos os diversos modos de saber.’

Para Canclini, é possível imaginar ‘uma passagem da reducionista sociedade da informação a uma sociedade do conhecimento que, enfrentando os desafios da interculturalidade, chegue a ser, também, uma sociedade do reconhecimento‘.E concluiu:

‘As necessidades de convivência intercultural nos levam a combinar o estudo das brechas – entre países centrais e periféricos, entre informados e entretenidos, entre as culturas letradas, audiovisuais e digitais – com as estratégias de comunicação que facilitem a inteligibilidade e a coexistência entre culturas’.

Mais integração

Essa aproximação intercultural já vem ocorrendo na opinião do palestrante seguinte – o decano da Faculdade de Comunicação da Universidade de Sevilha, Francisco Sierra Caballero – através das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Segundo ele…

‘…os investimentos de empresas de telecomunicações e multimídia na América Latina estão aprofundando a presença da língua castelhana e das culturas latinas diversas e multi-étnicas da Iberoamérica nos mercados globais, estreitando cada vez mais os fluxos e intercâmbios comerciais no setor da comunicação e da cultura. Neste cenário, a comunicologia iberoamericana deve tratar de avançar em protocolos de validação, intercâmbios, organização interna e projetos de trabalho conjuntos que contribuam para o desenvolvimento da formação e pesquisa em comunicação’.

Lembrou ainda Sierra Caballero que a Associação Latinoamericana de Investigadores da Comunicação (Alaic) considera que hoje é necessário e possível institucionalizar um espaço acadêmico iberoamericano capaz não somente de delimitar um âmbito conceitual e geolinguístico para a especialidade, mas, também, de definir e instrumentar um marco de política para a interação criativa entre centros acadêmicos e estudiosos da área. Esta opinião foi confirmada na palestra do presidente da ALAIC, Erick Rolando Torrico Villanueva, da Universidad Andina Simón Bolívar, que frisou, todavia, que ‘as potencialidades e os frutos do trabalho acadêmico em ambos os lados do Atlântico não estão sendo aproveitados como poderiam chegar a sê-lo para o benefício comum’.

Ao concordar que ‘ainda estamos muito longe de alcançar o necessário estreitamento acadêmico entre as duas regiões’, Maria Teresa Quiroz, da Universidade de Lima, presidente da Federação Latinoamericana de Faculdades de Comunicação Social (Felafacs), explicou que ‘a educacao caminha muito lentamente e não consegue encontrar os laços adequados para se relacionar com a cultura e as experiências dos jovens’.

No evento, destacou-se, igualmente, a palestra do professor da Universidade Metodista de São Paulo, José Marques de Melo, presidente da Associação Brasileira de Ciências da Comunicação (Intercom). Disse ele:

‘Embora os estudos de comunicação tenham 60 anos de presença na estrutura universitária brasileira, a comunidade acadêmica da área só prosperou nos últimos 30 anos. A fundação da Intercom, sociedade científica que congrega pesquisadores de todo o país, foi decisiva para legitimar o campo e construir esta comunidade’.

Marques de Mello, a exemplo de Sierra Caballero, defendeu uma maior integração na pesquisa sobre comunicação em toda Iberoamérica, com a formulação de estratégias de cooperação internacional e pesquisa de qualidade.

Estudo político

Falou também o diretor geral de Relações Culturais e Científicas do Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha, Alfons Martinell Sempere, assinalando que…

‘…a cooperação cultural entre América Latina e Espanha já tem uma longa história e tem se aprofundado nos últimos anos como resultado da grande mobilidade de pessoas, de conhecimentos e de saberes decorrentes das mudanças da sociedade da informação, da globalização e dos fenômenos migratórios’.

Sempere considerou muito importante…

‘…refletir, pesquisar e potenciar projetos inovadores que permitam situar a comunicação como um eixo central nas novas políticas que estão sendo implementadas a partir de organismos de cooperação bilateral e multilateral’.

Para o conferencista seguinte, Francisco Campos Freire, da Universidade de Santiago de Compostela, secretário da Asociación Galega de Investigadores e Investigadoras en Comunicación (Agacom), ‘o espaco iberomericano de interculturalidade e diversidade se enriquecerá e se fortalecerá com o melhor conhecimento e reconhecimento das respectivas identidades’.

Giuseppe Richeri, decano da Faculdade de Comunicação da Universidade de Lugano (Itália), disse que o estreitamento da cooperação, no setor, entre Espanha e América Latina seria útil para toda a Europa. E sugeriu um programa de três pontos:

1. Organização de um encontro bianual para debater e atualizar as diversas atitudes metodológicas relacionadas com as novas necessidades e objetivos científicos.

2. Melhorar algumas revistas líderes dos dois lados do Atlântico para situá-las no mesmo nível de outras publicações semelhantes que contam com uma rede de críticos muito ampla e competente.

3. Buscar a cooperação com as faculdades de Filosofia para elevar os critérios de qualidade da pesquisa, competir em melhores condições com as universidades anglo-saxônicas e ter capacidade de atrair estudantes não apenas de fala hispânica.

Sobre ‘Democracia e Cidadania’, falaram os professores Josep Grifeu i Pinsachs, da Universidad Pompeu Fabra de Barcelona (sugerindo que os fluxos contemporâneos da representação propõem um estudo político para as imagens que tendem a assumir a tripla dimensão da dissuasão, violência e persuasão) e Daniel Hallin, da Universidade da Califórnia (destacando a importância da análise comparativa nos estudos de comunicação).

Alfabetização digital

No tópico de ‘Políticas de Comunicacao e Cultura’, o professor da Universidade Complutense de Madri Enrique Bustamante Ramirez disse que ‘as políticas culturais ressurgem com força depois de anos de dominação neoliberal, mas corre-se o risco de cair de novo em políticas principistas, não baseadas na realidade e, por isso, suscetíveis de fracassar e frustrar os esforços’. Para Ramón Zallo Elguezábal, da Universidad del País Vasco, é necessário refletir sobre a economia da comunicação e da cultura levando-a mais além das indústrias culturais e da mídia para abarcar os âmbitos patrimoniais e artísticos.

Em outro tópico – ‘A Sociedade da Informação’ – o professor da Universidade de Santiago de Compostela Xosé López Garcia disse que…

‘…na sociedade da informação o acesso à informação tem caráter geral e ilimitado. A internet se converteu no novo paradigma da comunicação total. Agora, a maioria das entidades e instituições se converteu de alguma maneira em mídia ao produzir e difundir informações em diversos produtos na rede, o que abre um novo panorama comunicativo tanto para os cidadãos como para os meios tradicionais de comunicação e para os novos meios. A internet é um espaço interativo, o que provoca mudanças em todo o panorama comunicativo e jornalístico’.

Neste mesmo tópico, o professor da Universidade Nacional Autónoma do México Raúl Trejo Delarbre disse que ‘a sociedade da informação é contexto indispensável no exame das novas tecnologias da comunicação mas, ao mesmo tempo, é objeto de estudo em si mesma’. Para a reitora da Universitat Oberta de Catalunya, Imma Tubella i Casadevall…

‘…o desenvolvimento das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) e o alcance da globalização estão mudando a natureza e o significado da identidade coletiva e a dinâmica de sua própria construção . Por um lado as TIC abriram uma enorme quantidade de canais de comunicação que atravessam fronteiras a grande velocidade e criam uma tremenda quantidade de novas imagens e hábitos. Por outro lado, a globalização provoca maior mobilidade de bens, de informação e de pessoas’.

O professor Tapio Varis, da Universidade de Tampere, assessor em educação do Conselho de Europa, tratou da alfabetização digital – que significa uma maneira de pensar…

‘…mas também pode ser entendida como complemento do conceito de educação midiática e até mesmo de alfabetização midiática, com o objetivo de desenvolver tanto a compreensão crítica dos meios como a participação ativa neles. A alfabetização digital e midiática consiste em potenciar as habilidades críticas e criativas das pessoas’.

No final do evento, o presidente da AEIC, Miquel de Moragas, além de incentivar a auto-estima dos pesquisadores de Comunicação informou que a organizacao pretende divulgar brevemente um sumário de todas as palestras e trabalhos apresentados, através do site da entidade.

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Professor de jornalismo na Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Bauru, SP. Participou do evento de Santiago como parte de seu estágio pós-doutoral realizado na Facultad de Comunicación de la Universidad de Sevilla (Espanha)

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