Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Embates televisivos

Por Jaqueline Herodek e Jefferson Paradello em 10/03/2009 na edição 528

Leandro Lopes é diretor do programa Fiz + Sotaques (FIZTV) e repórter do programa Agenda, da Rede Minas de Televisão (TV pública e cultural de Minas Gerais). Trabalhou no jornal Cinform (Aracaju-SE) e foi um dos 13 universitários selecionados no Rumos Jornalismo Cultural, do Itaú Cultural em 2004/2005, participando durante um ano de um Laboratório que tinha como objetivo questionar a forma de se fazer jornalismo atualmente, em especial, o jornalismo cultural.

Formado pela Universidade Tiradentes – Unit (Aracaju), ele já teve trabalhos selecionados também no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (2005) e no Colóquio Internacional sobre a Escola Latino-Americana de Comunicação (2005).

TV de qualidade, só com público de qualidade

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Qual o motivo pelo qual os canais se valem da modalidade de programas de entretenimento, especialmente aos domingos, ao invés de educativos ou instrutivos?

Leandro Lopes – O grande problema da televisão brasileira – talvez isso responda a diversas questões, e não apenas essa – está na sua origem. A TV do Brasil nunca foi pensada como um instrumento de educação, de reflexão. Chateaubriand a queria como realização do sonho e uma via para se aproximar da política; Roberto Marinho, como realização de uma espécie de ego. E são esses dois pilares que construíram a história desse veículo no Brasil. Como, de certo modo, os modelos implantados por ambos ‘deram certo’ (leia-se, renderam lucros estrondosos), todo mundo saiu copiando o formato Tupi e Globo de se fazer televisão. Esses, por suas vezes, imitaram um modelo americano que também já tinha ‘dado certo’. Por que ninguém investe em programas educativos ou instrutivos? Por que até hoje se subentende que eles não fariam sucesso e, portanto, por que fazê-los dentro de uma ótica mercadológica? Essa é a questão. A TV nasceu para dar lucro, para enriquecer alguns e a forma mais fácil disso é dando entretenimento. Agora, é fundamental que se diga que existem canais que remam muito contra essa maré. Televisão pública é um excelente exemplo. Em alguns lugares, como é o caso de Minas Gerais, a Rede Minas de Televisão dá um show de programação cultural e educacional aos domingos. A questão de não se prender a audiência me parece essencial para se pensar em uma programação ao avesso da banalização coletiva.

É o público quem impõe esta programação através do ibope ou foi a própria televisão quem criou essa cultura de disseminação desse tipo de conteúdo?

L.L. – Uma vez entrevistei o Gabriel Priolli e fiz uma pergunta parecida com essa. Ele respondeu: só teremos uma televisão de qualidade quando tivermos um público, um telespectador, de qualidade. Concordo com ele, mas acho que tanto a história da televisão brasileira é culpada quanto o público que a ‘consome’. De todo modo, o peso da culpa é maior mesmo do lado dos telespectadores passivos brasileiros que não possuem sequer uma boa educação de base para entender o quanto os mecanismos audiovisuais são fundamentais enquanto instrumentos de conhecimento.

Questão econômica e histórica

Quais os principais fatores que influenciam a montagem de uma programação como essa? O público-alvo em si ou algum tipo de interesse sócio/econômico?

L.L. – Isso é uma provocação? Gostei. Duas coisas são claras para mim nesse sentido. Primeiro: o fator econômico sempre será a mola propulsora, o meio e o fim de uma discussão de grade de qualquer TV aberta comercial. Segundo: o não arriscar em coisas novas. TV nenhuma quer arriscar perder um ou dois pontos no ibope em um domingo de sol ou de chuva, meu caro. Por isso que programas como Faustão e Gugu permanecem na tela por anos a fio. Enquanto as pessoas não desligarem seus televisores, eles permanecerão. Quando desligarem e os números caírem, eles pensarão em mudar para alguma outra coisa. Mas, infelizmente, a primeira idéia será: programa de auditório ou mulher de biquíni?

É possível abandonar a grade que oferece programas supérfluos no domingo ou a televisão não tem mais forças para isso? Como seria a aceitação do telespectador?

L.L. – De todo modo, a TV ainda é um dos principais meios de comunicação do mundo. E demorará muito para perder o posto. Mesmo com a internet, o que mudará será ver televisão na tela do computador ou na sala sentado no sofá. Se existe possibilidade de mudança? Sim, existe. Mas para que isso aconteça – reforçando o que falou Priolli –, é necessário que o público mude e isso demora. Como já disse, o público precisa mudar, precisa exigir qualidade. O outro caminho é aplicar uma mudança paulatinamente. Ir oferecendo novas possibilidades. Um mini-programa de literatura aqui, uma entrevista com um pensador ali, uma discussão filosófica acolá. Acho a internet e as webtvs excelentes caminhos para isso. Porém, mudar isso por meio das TVs abertas, aí já acho impossível.

Por que essa mudança não acontece?

L.L. – Por uma questão econômica que vem de uma questão histórica. Mas é possível, sim, acontecer, se pensarmos em mudar por uma via paralela. Por outros veículos, pelas TVs públicas, por exemplo. Existem canais fazendo um excelente trabalho educacional. A TV Cultura, por exemplo, sabiamente trabalha programas de entretenimento e muito conteúdo. A Rede Minas de Televisão – premiada duas vezes seguidas com o Aberje nacional – é outro lindo exemplo. Então é bom deixar claro que o que se está discutindo é a programação das TVs abertas comerciais – vide Globo, Band, Record… etc. Mas acho legal falar um pouco dos seus leitores das TVs públicas e separar uma coisa da outra.

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Alunos do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Adventista (Unasp), campus Engenheiro Coelho (SP)

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