Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

DIRETóRIO ACADêMICO > ESCOLA DE JORNALISMO AUTÊNTICO

Encontro reúne jovens em Cochabamba

Por Daniel Fleming em 22/03/2005 na edição 321

‘Quero dizer que o jornalismo está em crise. Vemos guerras terríveis no mundo agora, e por quê? Porque os meios de comunicação e jornalistas do meu país nativo, os Estados Unidos, têm mentido ao povo’. Com estas palavras, o jornalista Alberto Giordano anunciou à imprensa cochabambina o início da segunda Escola de Jornalismo Autêntico, organizada pelo site Narconews.com, de 30 de julho a 8 de agosto de 2004.

Com sede em Cochabamba, na Bolívia, a Escola reuniu 61 comunicadores, 37 bolsistas e 25 professores, para , através de intercâmbios de políticas comunicacionais, sugerir nova função aos meios de comunicação. Os jovens jornalistas, orientados por especialistas, tiveram contato com pessoas envolvidas diretamente nos problemas do país mais pobre da América Latina, divididos em quatro oficinas: rádio, vídeo e duas de investigação. Foram produzidos artigos, reportagens, um documentário em áudio e outro em vídeo com a temática das drogas e o uso tradicional da folha de coca na Bolívia e região andina. A primeira Escola de Jornalismo Autêntico teve lugar no México, em fevereiro de 2003. Com a formação dos estudantes, alguns se tornam correspondentes voluntários da publicação eletrônica.

Depois de dezenas de palestras na sala de eventos de um hotel, os participantes visitaram plantações de coca no Trópico de Cochabamba, o Chaparre. Lá, os novos jornalistas puderam observar como a influência militar perturba a vida de camponeses e como programas de desenvolvimento alternativo fracassam completamente por falta de apoio técnico e mercado de consumo para os produtos que substituem o plantio da coca. Natália Viana, jornalista da revista Caros Amigos, conta sua principal experiência durante essa jornada. ‘Três colegas do grupo e eu fomos acompanhar uma erradicação do plantio de coca. Acompanhamos a presença militar e vimos o conflito do camponês que está tendo sua plantação invadida, fonte de renda para comprar pães e não muita coisa. Enquanto o exército boliviano, apoiado pela DEA (agência de combate às drogas), dos Estados Unidos, entravam cortando tudo, os camponeses choravam impotentes’, observou.

Jornalismo em crise

Os convidados tiveram a oportunidade de conhecer as lutas bolivianas e a situação política do país que viveu e vive nesses anos momentos dramáticos, como as guerras da coca, água e gás. Durante a luta seja pela nacionalização da distribuição de água e venda de gás ou pela legalização do plantio de coca, algumas vezes se chegou ao confronto direto e dezenas de bolivianos morreram. ‘O acesso aos meios de comunicação por toda a gente não causa conflitos sociais, mas sim os resolvem. É a falta de acesso aos meios que faz com que o povo tenha que ir a ações diretas. Para haver uma democracia autêntica tem que haver acesso aos meios de comunicação por todo o povo’, explicou Giordano.

O presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, conhecido como ‘El Gringo’, renunciou depois de comandar um exército sanguinário que eliminou 70 bolivianos que lutavam por seus direitos. O vice-presidente Carlos Mesa assumiu com uma política de aproximação ao líder cocalero Evo Morales, que é deputado nacional pelo partido MAS (Movimento ao Socialismo); a isso se deve a relativa paz na região de cultivo de coca do Chaparre.

Muitos jornalistas da imprensa local compareceram à coletiva dada pelos organizadores da escola na sede de um sindicato de trabalhadores no centro de Cochabamba. Milton Martinez Costas reconheceu que o jornalismo está em crise e creditou aos donos dos meios de comunicação a responsabilidade por tal circunstância. ‘Os donos dos meios são gente com uma mentalidade determinada, porque são gente com muito dinheiro. Aqui na Bolívia a permissão para se ter um meio de comunicação se dá aos que têm mais dinheiro, se licitam. Os jornalistas, como empregados, têm que seguir a linha dos proprietários, não têm outra opção, têm que sobreviver’, disse.

Bancos e tráfico

Durante as conferências, o chefe do escritório andino do Narconews, Alex Contreras, explicou a linha editorial da publicação. ‘Nós trabalhamos com quatro eixos temáticos: a política antidrogas imposta pelos norte-americanos; a guerra contra o denominado terrorismo; a defesa da democracia; a liberdade de imprensa e o desenvolvimento equilibrado’. Contreras descreveu quem são os jornalistas presentes no encontro. ‘Os jornalistas autênticos que estão reunidos aqui são uma parte do jornalismo denominado popular, dos meios comunitários, dos meios autônomos. Essa viagem é fundamental para a formação dos companheiros, ao entender esse novo jornalismo e a realidade em que trabalhamos’. O jornalista observou que a comunicação está cada vez mais em menos mãos. ‘Nós sabemos que a comunicação é um direito, e não um produto, como é tratada pela maioria dos meios de comunicação’. Mas foi otimista ao dizer que ‘outra comunicação é possível’.

No fim dos anos 90, jornalista nova-iorquino, que havia trabalhado no Washington Post e no Boston Times, Giordano foi viver no México indignado com a cobertura passiva dada pelos grandes meios comunicacionais à questão da ‘guerra às drogas’ imposta pelos Estados Unidos em convenções da ONU (Organização das Nações Unidas). Com a base zapatista adquirida em três anos de convivência com os indígenas na Península de Yucatán, Giordano criou em abril de 2000 o site independente e sem fins lucrativos Narconews.com. Foi o primeiro passo para a criação de uma escola itinerante, que ensina jovens jornalistas a fugirem da condição de robôs comandados pelos donos dos grandes meios controlados por políticos e empresários.

O site ganhou maior notoriedade ao publicar reportagens do jornalista Mário Menéndez, do jornal mexicano Por Esto!. Essas reportagens acusavam o executivo Roberto Hernandez, do banco Banamex (atual Citygroup), de financiar a produção e o tráfico de cocaína. Com o processo iniciado pelo banco e a vitória na Suprema Corte de Nova York, os acessos à página foram multiplicados.

Bolívia desconhecida

O Observatório Geopolítico das Drogas da França estima que 80% do dinheiro proveniente do tráfico de substâncias ilícitas são lavados por grandes bancos dos Estados Unidos e da Europa. E como são estas mesmas instituições que aplicam dinheiro nas bolsas do mundo inteiro e patrocinam os candidatos ao governo norte-americano, tanto democratas quanto republicanos, o combate ao tráfico de drogas é ‘ordenado’ por elas. ‘Os bancos norte- americanos são tão viciados na droga quanto os dependentes’, observou Giordano. Mais de US$ 100 bilhões são movimentados anualmente pelo mercado de drogas, calcula o Banco Mundial. E o FMI (Fundo Monetário Internacional) estima que de 2% a 5 % do produto interno mundial venham do dinheiro sujo, lavado pela criminalidade organizada, das drogas ilícitas.

A Senad (Secretaria Nacional AntiDrogas) foi criada no governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1998; o juiz Walter Maierovitch foi seu primeiro titular, e só se refere à autarquia como Secretaria Nacional para o Fenômeno das Drogas, em contraponto ao termo Antidrogas. Atual presidente do Instituto Brasileiro Giovane Falconi (IBGF), Maierovitch foi a Cochabamba na condição de especialista no fenômeno das drogas. ‘Tive a oportunidade de trocar informações com jornalistas e gente especializada. Mostramos aspectos planetários do problema, interesses hegemônicos, estratégicos e econômicos jamais revelados pela imprensa em geral’, relatou.

O bolsista Nicolau Soares, que trabalha para a revista independente Fórum, ressaltou a importância dada pela escola em se conhecer a realidade dos países latino-americanos, independentemente da visão enviesada da mídia comercial. ‘Essa idéia de independência e liberdade de informação permeia toda a Escola de Jornalismo Autêntico. Todas as discussões, todas as idéias. Foi importante para conhecer a realidade política da Bolívia. Por tradições históricas, a gente é muito afastado dos nossos vizinhos. No Brasil se conhece mais a França do que a Bolívia’.

Continuidade necessária

Segundo a socióloga Silvia Riveira Cusicanqui, professora da Universidad Mayor de San Andrés, há registros de implementos para o consumo da folha de coca há mais de 5 mil anos. ‘A folha de coca é algo aqui da Bolívia e não deveria se proibir a venda. Não temos culpa que outros países façam da coca drogas’, questionou a cochabambina Giancarla. Os jornalistas da oficina de vídeo da Escola de Jornalismo Autêntico produziram o documentário Mastigue isso, para mostrar como o meio de sobrevivência de muitos camponeses foi tornado ilegal e, conseqüentemente, os cultivadores foram criminalizados. Depois da queda das torres gêmeas, são chamados de narcoterroristas. Para o radialista Hegberto Chinpana, da Rádio Soberania, a rádio comunitária dos cocaleros na região do Chaparre, a guerra às drogas funciona como desculpa para a desapropriação de terras, ricas em recursos naturais, e o aumento da intervenção dos EUA na América Latina.

O Narconews.com (e a Escola de Jornalismo Autêntico) é financiado pelo Fundo de Jornalismo Autêntico. As doações são provenientes dos leitores, único meio para garantir isenção frente a qualquer tipo de patrocínio. A única responsabilidade é com a população, e o controle só pode ser exercido pelos leitores, como na comunicação direta através de comentários no blog do site, a Narcoesfera. Uma nova escola está sendo planejada para 2005, com sede novamente no México.

Para Walter Maierovitch é importante dar continuidade a este projeto. ‘Eu trabalho na revista Carta Capital (onde escreve a coluna semanal ‘Linha de Frente’) e tive a oportunidade de realizar uma entrevista com Alberto Giordano, na qual ele tocou no tema do jornalismo autêntico e da questão das drogas. Pela quantidade de e-mails e cartas recebidas, dá para se chegar à conclusão de que é algo extremamente sério, importante e que deve ser mantido’.

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Estudante de jornalismo da PUC-Campinas; foi bolsista da Escola de Jornalismo Autêntico de 2004

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