Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Ensino no ‘país dos bacharéis’

Por Sebastião Jorge em 30/06/2009 na edição 544

O presente assunto, a mídia, de um modo geral, deixa passar em branco, sem uma discussão séria e aprofundada a respeito da educação, ou seja, a proliferação de cursos de nível superior que prosperam mais que surto de gripe ou resfriado. Por quê?

Nos dias atuais, ser doutor ficou fácil. Conquistar um diploma não é mais luxo. Transformou-se numa aspiração ao alcance de qualquer mortal. Uma coisa é certa… Por falta de cursos superiores no país, ninguém deixará de ostentar um anel de grau, já fora de moda. Eles existem à vontade, para tudo e todos. Agora, com a exclusão do diploma de jornalista, com sentença esdrúxula e recheada de deboche, pelo ministro Gilmar Mendes, do STF é provável que surjam novos cursos, como de corte e costura, manicura, moda etc., sem desmerecer o trabalho desses profissionais. O que questionamos é a qualidade do ensino na maioria deles.

Muita gente se ilude com certos cursos universitários. A lógica é a seguinte: para ser um presidente da República, o título superior não influencia, como antigamente. Foi-se o tempo em que obter um diploma universitário era privilégio de quem tinha dinheiro. No século 19, muitas famílias ricas mandavam os filhos, principalmente, para Portugal, França, Inglaterra e Alemanha.

O Brasil se orgulhava dos jovens que estudavam fora, os quais, depois de formados, retornavam à província. Faziam-se merecedores de uma nomeação para um juizado ou uma promotoria pública, no caso da formação em ciências jurídicas. Depois, conforme o desempenho, recebiam novas benesses ou convites para altos cargos no governo. Terminavam obtendo ascensão política e garantiam assento na Assembléia Geral, no Senado do Império ou uma cadeira de ministro.

‘A nação se doutorou’

O sucesso dos doutores foi um fato inquestionável. Chegavam com uma visão política ampla e não demoravam a se tornar em líderes dos partidos liberais ou conservadores. De princípio, aprenderam a interpretar as transformações da sociedade no Velho Mundo, berço da civilização e da história. Logo lhes cabia uma fatia generosa no latifúndio da política. Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), no livro Raízes do Brasil, alertava que, em quase todas as épocas da história portuguesa, uma carta de bacharel valia por uma carta de recomendação nas pretensões a altos cargos públicos. O título de doutor para nossos avós era um ‘apego quase exclusivo dos valores da personalidade’ – ressaltou.

O bacharelismo tomou conta do Brasil de tal maneira que a maioria dos políticos que dirigiu os destinos da Nação possuía um ‘canudo’ de doutor. Tornamo-nos conhecidos como o ‘país dos bacharéis’. Eis o porquê da aspiração. Mas quem dirige, presentemente, os nossos destinos é um operário e sindicalista, Luís Inácio Lula da Silva: Sem passar pela universidade Lula detém, não um, porém vários, títulos acadêmicos de doutor honoris causa concedidos por duas universidades. Querem mais? E olhem que ele não gosta de ler nem jornal!

Eça de Queiroz (1845-1900) não poupou ironias, através do personagem Fradique Mendes, aos brasileiros que faziam o impossível para obter o grau de doutor. Nada mudou. Há quem faça mágica para pagar curso superior de escola privada pelo comodismo de não querer estudar e ingressar numa instituição pública, pela dificuldade de acesso. Em 1888, disse Eça no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro: ‘A nação inteira se doutorou. Do Norte ao Sul do Brasil, não há senão doutores […]. Doutores com uma espada, comandando soldados, doutores com uma carteira, fundando bancos. Doutores sem coisa alguma.’

Universidades fajutas

É, ilustre filho de Póvoa de Varzim (Portugal), o Brasil continua o mesmo. No lugar da espada, temos doutores dirigindo táxis, exercendo outras atividades, fazendo bicos e alguns participando de grupos criminosos.

Emprego, não há. A concorrência é grande. O ensino, de um modo geral, vai mal. As universidades públicas carecem de mais recursos. Sofrem, há décadas, de um desmonte sem igual. Hoje falamos muito de economia e pouco de educação. Mais de PIB que abandono de cursos. Sem ciência e tecnologia, o país andará como caranguejo. Por não criarmos tecnologia, somos obrigados a aceitar o rótulo da prática de pirataria. É humilhante. Ao invés de criarmos, copiamos.

O jurista e filósofo Miguel Reale (1910-2006), em artigo publicado em revistas e jornais, com o título ‘Calamidade do ensino no país’, denunciou o caos que se estabeleceu na área acadêmica, ao afirmar: ‘A maior critica que faço ao Ministério de Educação e ao Conselho Nacional de Educação é a criação inexplicável de ensino superior e de universidades fajutas (grifo nosso) nestes últimos anos, elevando-se a 544 o número dessas entidades entre novembro de 2001 e julho de 2003.’

Exagero e conivência

O professor Reale condenou a extrema liberalidade concedida à iniciativa privada para fundar instituições de ensino superior sem exigirem pressupostos especiais, como quadro docente altamente preparado, com títulos de mestres e doutores, outorgados por universidades à altura das responsabilidades. Seria o ideal. Quem nos dera, pelo menos, termos professores, em todos os cursos, com o título de especialização.

De Sérgio Buarque de Holanda e Eça de Queiroz, nada a acrescentar, muito menos quanto ao jurista Miguel Reale, atuante e respeitado, tanto que deixou uma obra admirável. Todos eles anteciparam e denunciaram uma realidade que choca pelo exagero e peca pela conivência das altas autoridades. Pior, tudo como antes. A iniciativa se reedita em nome da tolerância e da mais rentável indústria de todos os tempos. Curso à distância? Só se sabendo o nome da instituição responsável.

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Professor universitário e jornalista

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