Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > PARA LER JORNAL

Estética e ideologia na comunicação social

Por Agnaldo Charoy Dias em 03/02/2004 na edição 262

1) As novas tecnologias e a estética

A comunicação social, a partir dos avanços tecnológicos contemporâneos, constitui-se num ramo importante da economia. Somente a dívida externa da Rede Globo, a maior empresa de comunicação do Brasil, chega a US$ 2,6 bilhões (balanço publicado em 31 de março de 2002), pouco menos de 1% da dívida externa brasileira na época. As novas tecnologias ampliaram a capacidade de produção de bens simbólicos, criando um novo mercado para o investimento do capital excedente das outras atividades produtivas. A comunicação de massa começou a engatinhar, não por coincidência, exatamente na era de ouro do capitalismo (1945-1973). A consolidação do rádio, o surgimento da televisão e a explosão nas tiragens dos jornais demarcaram a entrada deste novo elemento na economia capitalista. Assim, a comunicação social é um edifício que, pela sua materialidade (os meios de comunicação de massa), produz um fluxo de trabalho social (apropriado em grande parte pelo capital privado).

Mas é a partir da década de 80 que a comunicação social começou a mostrar os contornos de um evento verdadeiramente fenomenal. A internet, as transmissões via satélite, o mundo online 24 horas, a digitalização de imagens e as novas tecnologias de produção gráfica afirmam, definitivamente, a centralidade da comunicação social de massas na análise da sociedade humana contemporânea.

Mas a comunicação social é mais do que geração de mais-valia: ela é o sujeito leitor da realidade que a gera. Assim, as técnicas enunciativas dos meios de comunicação (títulos, quadros, boxes, gráficos, infográficos, justificações, vinhetas, trilhas, ilustrações, fotos, cortes, posturas, roupas) correspondem à maneira de operar geral do sistema (capitalista); pertencem a um determinado sistema de valores, por eles gerado e por eles inseminado.

Agente da própria opressão

O positivismo, alicerce teórico do capitalismo é, por isso, a viga-mestra do discurso produzido pela comunicação social. E é com base neste alicerce teórico que se constroem as técnicas enunciativas dos meios de comunicação de massa. Mas o método positivista ‘não tem nada de revolucionário. É até, de certa forma, conservador, pois considera os fatos sociais como coisas em que a natureza, por mais maleável e flexível que seja, não se modifica à vontade’ (Dürkheim, 2002). Dürkheim, apesar de suas diferenças com Comte e Spencer, mantém-se na vertente positivista, e é importante para nossa análise por tratar a educação (a socialização de informações) como uma necessidade para moldar os indivíduos a determinadas regras sociais, sendo que estas regras sociais (o capitalismo) são, além de imutáveis, necessárias. Enfim, retira o homem como sujeito da história.

O pós-modernismo, nesta perspectiva, pode ser considerado a continuação do positivismo. É uma leitura positivista adaptada às novas condições de desenvolvimento tecnológico da humanidade. David Harvey (Harvey, 1989) apresenta a justificativa dos pós-modernistas para a ligação entre o pós-modernismo e as novas tecnologias. Estas justificativas se revelam claramente conservadoras, na medida em que resignam a criação estética à colagem de várias escolas, desconsiderando o nexo de determinada estética com as condições naturais e sociais que a criaram. É deste modo que um jardim tropical vai ornamentar um edifício no centro de Nova York.

E se o positivismo encara os fatos sociais como coisas, ou o mundo como um mundo fragmentado (não-dialético), o pós-modernismo conceitualiza esta fragmentação na estética. E é esta estética enunciativa que predomina na comunicação social e de massas contemporânea. E mesmo a comunicação social produzida à margem do poder do capital (sindical, comunitária etc) reproduz as mesmas técnicas enunciativas, tornando-se agente de afirmação da realidade que a oprime.

2) Justificando a estética

Os principais argumentos de justificação destas técnicas enunciativas são a facilitação do entendimento por parte dos leitores/espectadores/ouvintes; a limitação do espaço físico dos materiais impressos ou de tempo em televisão ou rádio; e, por fim, o ‘gosto’ dos consumidores. Nenhum dos três argumentos se sustenta, entretanto, mesmo diante de uma rápida análise e de algumas perguntas impertinentes.

A idéia de facilidade pressupõe uma dificuldade anterior. Pergunta: de onde se gera esta dificuldade? Há, por trás da ignorância da maioria da população, interesses ideológicos e econômicos. Ideológicos porque ‘povo burro é povo dominado’, e econômico porque a divisão social do trabalho é fundamental no processo de reprodução do capital.

Tudo isso de tal modo que a teoria da facilitação, em vez de elevar o conhecimento e a capacidade crítica, rebaixa o discurso, fragmenta-o e vulgariza-o.

Nada com democracia

Uma das técnicas da facilitação é a divisão dos textos em tópicos ou as notícias curtas, as pílulas. Pequenos textos generalizam e não aprofundam, permitindo conclusões dúbias. Várias notas sem conexão aparente transformam o conhecimento numa colcha de retalhos, nunca entendido em sua totalidade.

A limitação do espaço físico nos jornais ou revistas e do tempo no rádio e na televisão reportam à idéia da escolha. Ou seja, mesmo havendo limitações físicas, o material publicado depende da escolha do editor ou, mais propriamente, do dono do veículo. Na verdade não há espaço para programações culturais ou para noticiar eventos contraditórios para o sistema, porque há o filtro bastante concreto imposto pelo dono do veículo. É uma limitação relativa, pois.

Por fim, o argumento de que quem define a programação é o gosto do consumidor e a audiência esconde que não há nenhum processo democrático em que o consumidor possa determinar as possibilidades de escolha da grade de programação ou da pauta. O gosto é aferido, talvez, quando muito, pelas pesquisas de opinião, que refletem a vontade de um consumidor muitas vezes virtual, mas não do cidadão. Evidente que os processos de ‘voto’ dos consumidores nas interativas nada têm a ver com democracia, com o verdadeiro direito de escolha.

3) Um exemplo

Publicado a partir de 1998, o jornal Diário Gaúcho, do Grupo RBS, nos fornece elementos importantes para uma análise da teoria da comunicação de massas desde um ponto de vista do discurso dominante. Ele contém uma síntese interessante dos princípios da comunicação de massa para a imprensa tradicional.

Ao se tomar o jornal, pode-se observar que na capa saem duas fotos sempre sobrepostas: uma foto sobre a notícia principal do dia (geralmente em preto e branco, exceto quando trata de futebol), ocupando pelo menos um terço da página, e outra de uma beldade televisiva, geralmente colorida e recortada de modo a que se sobreponha em parte sobre a outra. A idéia é confundir ficção com realidade, dando cores à ficção e ‘dureza’ à realidade. Exatamente como propõe a estética pós-moderna ao sobrepor e colar realidades distintas e antagônicas.

Mas o pior está dentro do jornal. Diagramado especialmente para não trazer informações, o jornal é só ‘pílulas’, com forte conteúdo de desinformação. As matérias mais importantes trazem um ‘resumo da notícia’ como olho (pequeno box na abertura da matéria). Na verdade este ‘resumo da matéria’ é desinformante, pois diz subjetivamente que o leitor não precisa ler toda a matéria, basta ler o resumo.

Um grande teatro

As matérias também são muito curtas, justificadas à esquerda, o que concede espaços em branco muito sugestivos, já que o branco propõe o vazio. Este tipo de alinhamento diminui o número de caracteres por espaço, reduzindo, portanto, as informações.

O jornal é muito rico em ilustrações e gráficos. Histórias em quadrinhos são especialidade da casa para descrever situações, principalmente assaltos e acidentes, e os mais variados recursos gráficos são utilizados para ilustrar idéias e exposições. Tudo muito superficial e fútil, desde receitas caseiras de remédios e comidas fartamente ilustradas, até instruções banais de como proceder em relação a uma situação de desemprego, por exemplo (as recomendações, é claro, são aquelas: você precisa se capacitar para disputar o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, revelando o fatalismo positivista do jornal). Não pode faltar, é óbvio, o horóscopo, o correio do amor, a resenha das novelas, as fofocas das celebridades, o espetáculo futebolístico.

O jornal tem um discurso de identificação com o povo: distribui panelas em promoções e entrevista a população das vilas [favelas – Nota do OI] sobre problemas de infra-estrutura. Custa apenas R$ 0,25. É tudo um grande teatro, na medida em que o jornal não aprofunda as questões, é simplório e incapaz de buscar as causas e propor soluções para os problemas levantados. Mais uma vez, no velho estilo positivista, desconecta os fatos da vida cotidiana das pessoas com a estrutura econômica e política. As matérias de política e economia não passam de pequenas notas com 100 caracteres, isso quando aparecem por lá…

4) Não existe caminho fácil

A comunicação social produzida fora do domínio do capital acaba por aceitar muitas das premissas estéticas propostas pelo pós-modernismo, sem fazer a devida crítica. Aceita que seu público-alvo é um bando de estúpidos e faz de tudo para facilitar-lhes a leitura. E aí recorrem também a esta imensa parafernália de recursos gráficos, vinhetas, boxes etc., em detrimento do conteúdo daquilo que desejam ou deveriam dizer. E, em vez de esclarecer, despolitizam, com medo de tocar em temas que ‘as pessoas não entenderiam’. E jamais entenderão, se ninguém nunca lhes propuser a discussão!

Simplificar na verdade não significa retirar elementos de uma discussão, mas esmiuçar todos estes elementos, compreendê-los e dominá-los. Infelizmente, não é possível que se compreenda algo sem um relativo esforço intelectual, especialmente quando esta compreensão rompe com a lógica à qual fomos habituados. Talvez queiram adaptar a técnica da ‘ginástica sem esforço’ à sociologia do conhecimento.

Esta diferença fica patente na separação que se faz do texto jornalístico do texto acadêmico. Técnicas particulares regem a confecção de um e outro. Ao primeiro, o jornalismo, se propõe uma desresponsabilização quanto à originalidade das idéias. O fato, a objetividade da descrição é mais importante do que os conceitos embutidos ali. Você pode copiar idéias e conceitos, e a fonte pode ser qualquer coisa indefinida como o famigerado ‘fontes oficiais informaram que…’. Ao segundo, o texto acadêmico, se propõe a compreensão a partir do desdobramento dos conceitos, da ampliação do conhecimento, da conexão com outros eventos e com a história em geral e, finalmente, da precisão da descrição. Mas isto resulta num ‘tijolo’ incompatível com a teoria contemporânea da comunicação e a estética pós-moderna.

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(*) Jornalista

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