Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Estrela Serrano

10/02/2004 na edição 263

‘O leitor António Luís Oliveira não encontra justificação para a ‘dimensão’ conferida à morte do jogador Miklos Fehér por ‘alguns órgãos de comunicação social’, cuja cobertura considera ter sido ‘excessiva’ e ‘mórbida’. O leitor esclarece que não se refere ao DN mas ‘às televisões’ e afirma não compreender como é que a morte de ‘um jogador pouco conhecido do grande público se transformou num acontecimento nacional’. Pede a opinião da provedora sobre este caso.


Tem razão o leitor, ao assinalar a diferença entre o tratamento conferido ao acontecimento pelo DN e a cobertura televisiva do mesmo. De facto, o jornal cobriu a morte do jogador com ‘sobriedade’ e ‘respeito pela dignidade humana’, como defendeu o editor da secção Desporto, na sua coluna/comentário do passado dia 28.


A provedora não acompanhou o trabalho de todos os canais, não podendo, pois, pronunciar-se, como o leitor solicita, sobre toda a cobertura televisiva, embora considere que, na noite em que ocorreu o drama, foi, de facto, excessiva a repetição exaustiva da imagem do jogador caindo no relvado, uma vez que ela não acrescentava ao acontecimento qualquer ‘valor informativo’, provocando, apenas, dor, emoção e choque. Mas explicar por que razão a morte do jogador mobilizou a atenção do País e despertou tantas emoções é tarefa para a psicologia e para a sociologia. Pode, contudo, tentar-se uma aproximação.


Como fenómeno social estruturado, orientado por objectivos de competição, dotado de regras e códigos de conduta, baseado em rituais e eventos de grande impacto e permanente suspense, o desporto, particularmente o futebol, envolve as pessoas de forma cognitiva, afectiva e comportamental. O seu caracter físico, lúdico e estético, as paixões que desencadeia e os extremos a que pode conduzir – da violência física e verbal à solidariedade e abnegação – tornam o futebol o ‘espectáculo mediático’ por excelência.


O futebol constitui, aliás, um aspecto do quotidiano dos portugueses que é aceite naturalmente, poucos se interrogando, como faz o leitor, sobre o modo como atingiu tão relevante estatuto.


Os media, nomeadamente a rádio e a televisão, não podem ficar de fora de qualquer explicação desse fenómeno. De facto, o desporto ocupa grande espaço na programação desses meios de comunicação social, ajudando a vender publicidade e a conquistar audiências, existindo, pois, interesses económicos comuns, embora existam, igualmente, conflitos.


Mas, para além das interdependências económicas entre o futebol e os media, o futebol proporciona aos jornalistas matéria noticiosa inesgotável, residindo aí uma das explicações para a dimensão que lhe é dada.


De facto, tal como no drama, cada instante do jogo – golo, substituição, castigo, expulsão – possui uma sequência com começo, desenvolvimento e clímax, que lhe conferem uma dimensão espectacular, essencial em televisão. Por outro lado, para além da cobertura dos eventos desportivos, em si mesmos, o futebol oferece um imenso manancial de fait-divers aliciantes para jornalistas e leitores, como sejam os relatos das ‘estórias’ do ‘balneário’ e da vida privada dos atletas, as ‘picardias’ entre dirigentes, e as colunas dos especialistas e dos ‘treinadores de bancada’. É uma evidência que nenhum outro fenómeno social possui a capacidade de aglutinar multidões em torno de ideais e valores, como o desejo de perfeição que conduz à vitória ou o ‘desportivismo’ na aceitação da derrota, embora o ‘espectáculo desportivo’ não corresponda, sempre, aos ideais que estão na sua base nem a sua cobertura jornalística cumpra, sempre, os requisitos de um jornalismo responsável. Como espectáculo televisivo, o sucesso do futebol assenta, essencialmente, numa boa realização, ao contrário do seu relato radiofónico, que vive da capacidade do repórter em dar ‘a ver’, ao ouvinte, o que se passa no relvado.


Na televisão, o carácter lúdico, estético e informativo da imagem sobrepõe-se ao discurso do repórter.


Mas a força da imagem pode tornar-se incontrolável.


Na morte do jogador Miklos Fehér, os elementos ‘drama’ e ‘tragédia’ foram potenciados a um grau insuportável, sobrepondo-se a todos os que habitualmente dominam a mediatização do ‘espectáculo desportivo’.


Foi, contudo, a consciência moral e profissional do realizador Ricardo Espírito Santo a ‘salvar’ o público de excessos ainda maiores, ao impedir que ‘as imagens horríveis da cara de Fehér’ fossem vendidas a ‘várias televisões’ que as tentaram comprar (citado do DN de 28/1).


Nos tempos que correm, e tendo em conta a ‘cultura mediática’ dominante, pode prever-se que, se estivessem disponíveis, ‘as imagens horríveis’ de que fala o realizador teriam sido mostradas com o mesmo ritmo alucinante com que foi mostrada a imagem do jogador tombando no relvado.


Essa foi, assim, de tudo o que se disse e se escreveu sobre a sua morte, a última e definitiva imagem de Fehér a perdurar na memória de quem o recordar.


Bloco-Notas


Cibernautas radicais – A provedora recebe muitas mensagens electrónicas de adeptos desportivos (distribuídas simultaneamente a dezenas de destinatários) que protestam contra comentários de dirigentes desportivos, jornalistas e comentadores, publicados em jornais, rádios e televisões. É praticamente impossível tratar essa correspondência, não apenas pelo seu volume mas, sobretudo, pelos temas focados. Trata-se de opiniões formuladas, quase sempre, num tom extremado. Não sendo provável que os estados de espírito desses cibernautas se venham a modificar nos próximos tempos, pode, pelo menos, tentar-se uma sensibilização dos jornalistas para algumas regras que devem ter presentes na cobertura do desporto, agora que a morte de Fehér e a aproximação do Euro 2004 tornaram o futebol ainda mais presente no quotidiano dos portugueses. Talvez ‘boas práticas’ jornalísticas, no âmbito do desporto, contribuam para formar leitores, ouvintes e telespectadores menos exaltados.


Recomendações editoriais – Eis os princípios que a Associated Press Sports Editors (APSE) recomenda aos seus associados: cada jornal deve pagar as viagens de serviço, alojamento e refeições dos seus repórteres; se existir um voo fretado para cobertura de um evento, o jornal deve, mesmo assim, pagar a sua viagem, calculando o custo da mesma num voo comercial. Evitar participar ou trabalhar em actividades que possam criar conflitos de interesses, ou aparência de conflito, como assessorias de imprensa ou de imagem de associações desportivas.


Refeições, brindes e prendas – Não aceitar refeições, descontos, brindes ou prendas, à excepção dos de valor insignificante, também disponíveis ao público; se for impossível devolver um donativo ou uma prenda, estes devem ser entregues a uma associação de caridade; não aceitar facilidades, como uso de equipamentos desportivos (ginásios, campos de ténis, etc.), a não ser para efeitos de trabalho.


Oferta de bilhetes – Não aceitar oferta de bilhetes, à excepção de credenciais necessárias à cobertura de um evento. Analisar as implicações da participação em votações para prémios e nomeações no âmbito de associações desportivas, evitando conflitos de interesse. Seguir princípios éticos, observando as regras previstas para o uso de fontes anónimas e verificando a informação obtida através de fontes indirectas.


A citação de informação obtida em ‘segunda mão’ deve ser comunicada aos leitores. A distribuição de tarefas aos repórteres deve ser feita com base no mérito, sem preconceitos de raça ou género.


Bom senso – A APSE afirma que estas guide-lines não cobrem todos os assuntos, pelo que recomenda aos repórteres que usem o ‘senso comum’ e um ‘bom julgamento’, aplicando e adaptando estes princípios aos estatutos editoriais e livros de estilo de cada jornal.’

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