Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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‘Eu não sou cruzeirense. Sou galo e ponto’

Por Juliana Gomes em 02/09/2008 na edição 501

Sonhei que tomava um expresso descafeinado com Fred Melo Paiva em uma daquelas tardes paulistanas sem cor e sem graça. Era domingo, dia de publicação do anexo mais adverbial do jornalismo tupi-guarani, o ‘Aliás’, publicado no Estado de S. Paulo.

Sentado a uma mesa de canto, o jornalista vestia uma camisa branca com listras verticais cinzas, de gola meio aberta e um jeans básico. Olhava para um livro de capa escura que tinha em mãos quando me aproximei. Reconheci-o rapidamente dos tempos em que estudava na UFSC e ele fora convidado para uma palestra na Semana do Jornalismo. Fred Melo Paiva abriu o evento com uma conversa informal sobre as passagens por Playboy, Veja, IstoÉ e Trip, respectivamente, e pelo jornal paulistano onde agora trabalha.

Naquela época, já era sua fã. Fã, não, porque estudante de jornalismo não admite tietagem. Então, já admirava seu trabalho no caderno ‘Aliás’, considerado muito ousado em vista do conservadorismo do jornal que o publica. Aproveitei o encontro inusitado nessa tarde para me oferecer para uma vaga qualquer, nos tempos de vaca magra dos jornais impressos, seja no Estadão, seja em qualquer veículo que tivesse um amigo.

A palavra dos protagonistas

Embora haja controvérsias, Fred Melo Paiva não segue as regras comuns a que estamos acostumados no jornalismo. Em seus textos, as fontes não afirmam, rosnam. O gerúndio não predomina, mas é usado sem restrições. Expressões piegas de que aprendemos a ter ojeriza, Fred utiliza com charme e ironia: ‘foi a gota d’água’ ou ‘errar é humano’. Em contrapartida, cada detalhe de seus extensos parágrafos é pensado minuciosamente, como ele próprio confessa. Os adjetivos são a bola da vez:

‘Acho o preconceito com o adjetivo apenas um preconceito e, como todos, idiota. Não acho que os utilizo exacerbadamente. Eu os utilizo quando cabem e se necessários, mas realmente sem preconceito com ele, coitado.’

Suas contracapas já humanizaram Boris, um labrador norte-americano e virgem que está no Brasil a trabalho, e uma cadela que também ‘jamais deu uma trepadinha’, funcionária do Corpo de Bombeiros de São Paulo. Cláudio Lembo, ex-governador paulistano, confessou ao jornalista que só anda com seu Ford Ka preto, mesmo tendo direito a um carro oficial.

Um de seus textos mais comentados na segunda-feira foi aquele sobre os quarenta moradores da favela Funchal que trabalharam na construção do prédio da Daslu, junto à margem do rio Pinheiros. Fred passou uma semana na favela e foi o primeiro a colocar um dedo na hipocrisia e repercussão que a mídia vinha dando à inauguração da loja. Foi comparado a Gabriel García Márquez em artigos do site Observatório da Imprensa por resgatar uma qualidade perdida do jornalismo – a capacidade de contar histórias pela palavra dos seus protagonistas, e não pelo viés do jornalista.

‘Gosta de carro antigo?’

O caderno de domingo em que trabalha, o ‘Aliás’, é o que a imprensa internacional se chama de week review. As reuniões de pauta são feitas na segunda e terça-feira de cada semana, mas como ainda não aconteceu muita coisa nesses dias, as discussões acabam sendo uma tentativa de intuir o que prevalecerá como tema principal e o que desaparecerá do noticiário até o fim de semana:

‘A seleção das pautas se baseia neste compromisso com a semana, mas não apenas com isso. Sua pauta deve ser menos noticiosa e mais dada à reflexão, à crítica, à opinião. Da mesma forma, no caso da reportagem publicada na contracapa, procuramos marcar diferença com relação às reportagens diárias. O assunto desta última página é muitas vezes tema que já foi noticiado nos últimos dias, mas que o corre-corre do jornal não permite maior aprofundamento. Em outras oportunidades, a contracapa é dedicada a perfis de personagens da semana, celebridades ou não.’

A apuração das reportagens de Fred Melo Paiva também não campeia o padrão. Se a pauta é sobre uma família cuja casa é inundada constantemente pelas enchentes, Fred não pergunta apenas a que altura a água alcançou. Uma das peculiaridades de apuração está no que ele mesmo confessa chamar de ‘perguntas absurdas’, mesmo se o personagem for um estuprador ou um poeta:

‘Para que time torce? Você gosta de bossa nova? Assiste novela? Que disco tem na sua vitrola? Gosta de carro antigo?’

Flexível na música, radical no futebol

Depois de gravar as respostas, Fred ouve cada detalhe para entender até como cada pessoa pronuncia uma palavra. Nada daquela pressa e das cinco mil pautas que o jornalista de hardnews está acostumado. Fred adora parágrafos e escreve muito devagar. Pensa meticulosamente cada legenda de foto, cada intertítulo. Por fim:

‘Gasto muitas horas tentando achar o título ideal. Jamais utilizei nome de filme ou de música. Eu me proíbo muitas coisas e estas são duas delas.’

Fred foi punk. Depois, virou ateu e comunista, mas continua sendo desses que não gosta de governo. Já foi petista, não é mais e continua não gostando de governo. Não escapou do batismo na igreja, até teve uma avó que foi freira e é da cidade grande, a sexta mais populosa do país, Belo Horizonte. Não perguntei como chegou a São Paulo, já que a maioria dos jornalistas – Fred trabalha há 12 anos – almeja pelo menos um frila e uma vaga no trânsito paulista. É flexível, gosta de jazz, de samba, de Jimi Hendrix. No esporte, não tem negócio. Perguntei se torcia para o Cruzeiro e ele rosnou:

‘Eu não sou cruzeirense não. Sou Galo e ponto. Filho meu que quiser ser Cruzeiro terá de sair de casa. E cortarei a mesada! E o retirarei de meu rico testamento.’

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Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

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