Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Eu também vou reclamar

Por Marcos Daniel Santi em 23/06/2009 na edição 543

O título acima, para alguns ‘malucos beleza’, já é velho conhecido. É uma canção do doutor sem doutorado e músico sem diploma: Raul Seixas.

As colocações sobre doutor sem doutorado e músico sem diploma devem ser sugestivas para quem anda acompanhando os noticiários. São analogias sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de eliminar a obrigatoriedade do diploma para o exercício da função de jornalista. Após me abster deste tema por algum tempo, depois da votação no STF resolvi também reclamar.

É válido lembrar que esta obrigatoriedade que deixa de existir é mais uma das poeiras totalitárias deixadas pela ditadura militar brasileira (1964-1985), que ao criar esta exigência procurou afastar das redações intelectuais que lutavam contra o regime.

Em 1988, quando através da ‘Constituição Cidadã’ o país ganhou liberdade absoluta de expressão, houve uma decisão séria, que deve ser respeitada e dada como inteiro, e não pela metade. Falaciosos da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) convocaram sindicatos (compostos e criados por profissionais sem diploma) e estudantes para pressionar o STF a favor do canudo, com o argumento de que a obrigatoriedade regulamentaria a profissão. Mentira! O que regulamenta uma profissão são leis trabalhistas e é neste sentido que devem ser pautados os discursos de entidades sindicais, não pela reserva de mercado e atitudes autoritárias.

Outro argumento da federação seria o de que o espaço destinado à opinião do leitor estava garantido através das páginas de opinião. Balela! Se esqueceram que embora o direito à informação seja um bem público, os meios de veiculação são privados. Nenhuma empresa veiculará qualquer conteúdo que fuja de sua linha editorial ou que a constranja de alguma forma, com raras exceções, é claro.

O exemplo da publicidade

O princípio da liberdade, tão claro que chega causar cegueira, fazendo acadêmicos e defensores do diploma acreditarem que o canudo dará preparo ao estudante que falta às aulas, prefere o bar ao curso e se lixa para a opinião pública, mas que, no final dos quatro anos, certamente formará, é puro corporativismo e elitização da profissão.

O que acontecerá com este aluno formado sem o preparo e empenho que a academia tenta proporcionar, para que isto seja um diferencial? Ele não terá espaço no mercado de trabalho, assim como profissionais sem diploma e sem qualidade não terão. Não será após a opção contra a obrigatoriedade que todo brasileiro resolverá ser jornalista.

A universidade está aí e não deixará de existir. Ela é uma ferramenta imprescindível para o aperfeiçoamento do profissional. Cabe a ele, a livre escolha de aproveitá-la ou não. Cito como exemplo o mercado publicitário, onde não é exigido o diploma e no qual, segundo o jornalista e professor Bruno Barreto, coordenador dos cursos de Jornalismo e Publicidade de uma universidade de Dourados, os diplomados não perderam espaço. De acordo com ele, na prática estas empresas estão contratando publicitários com formação. ‘As empresas não querem fazer recrutamento’, afirma o coordenador.

Cabe à sociedade escolher

Como nos disseram e continuamos a ouvir nos bancos da universidade, se somos o 4° poder, não devemos ficar à mercê do corporativismo. A não exigência propicia que a população participe do processo de desenvolvimento democrático do país, não somente de forma exclusiva. Ela passa a ser parte de uma informação produzida por uma classe.

O jornalismo não é uma ciência, não há um modo científico que classifique o que é notícia ou não. O jornalismo é um espaço público de debates, diferente da medicina, que possui um campo de debates reservado somente para ela.

Uma coisa é certa: com diploma ou não, jornalistas bons e ruins existirão de ambos os lados. Cabe, agora, à sociedade, ter a livre expressão de escolher.

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Foi entregador de jornais e hoje é estudante de Jornalismo

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