Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > QUARTA-FEIRA, 5/12

Filhos de Nelson Rodrigues condenados por fraude

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 05/12/2007 na edição 462

Leia abaixo a seleção de quarta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Quarta-feira, 5 de dezembro de 2007


REGIME MILITAR
Folha de S. Paulo


Jornalistas são condenados por fraudar aposentadoria


‘A Justiça Federal no Rio condenou em março seis jornalistas acusados de obter, por meios fraudulentos, aposentadorias especiais por supostas perseguições políticas ocorridas durante o regime militar (1964-1985).


Três condenados são filhos do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues (1912-1980): o diagramador Paulo César Santos Rodrigues, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio, Maria Lúcia Rodrigues Muller e Sônia Maria Rodrigues Mota. Também acusada, a jornalista Maria do Céu Simões da Silveira foi absolvida.


A juíza Valéria Caldi, da 8ª Vara Federal, condenou Santos Rodrigues, por estelionato, a cinco anos e dez meses de prisão, em regime semi-aberto e ao pagamento de multa no valor de 40 salários mínimos.


Na sentença, a juíza afirma que ‘a reprovabilidade da sua conduta é grande, na medida em que é pessoa com nível social e cultural acima da média dos brasileiros, oriundo de tradicional família de intelectuais (…) que afirma ter lutado por valores democráticos ao longo do período de ditadura no país, sendo-lhe exigível comportamento totalmente diverso do praticado’. Maria Lúcia foi condenada a quatro anos de prisão, também por estelionato, assim como Sylvio de Azevedo Marinho Júnior, Antônio Carlos Batista dos Santos e Léo Malina. A pena de Sônia Maria foi de dois anos e oito meses de prisão, já que ela não chegou a receber a aposentadoria.


O advogado de Santos Rodrigues, Moacir Pereira, disse à Justiça Federal que irá recorrer. Santos Rodrigues oficialmente não foi informado sobre a condenação, por ter endereço desconhecido. Não é, porém, considerado foragido. A Folha tentou contato por telefone com os outros condenados, mas não os localizou.’


 


TERCEIRO MANDATO
Ruy Castro


Desmentidos categóricos


‘RIO DE JANEIRO – Uma cantora americana, daquelas que despertavam suspiros a partir da capa do LP, veio ao Rio nos anos 60 com o marido, ele também cantor, jazzista e autor de um big sucesso internacional. Os dois ganharam como cicerone o safo repórter de uma revista semanal carioca. Assim que o casal voltou para Los Angeles, o repórter negou que tivesse tido um caso com a cantora.


O curioso é que ninguém suspeitara da existência de tal caso e, por isso, ninguém lhe perguntara. Mas a ênfase com que o repórter se empenhou em desmentir os rumores imaginários sobre uma, idem, ligação romântica com a mulher (invocando inclusive sua amizade com o marido) fez com que as pessoas acreditassem que tinha havido mesmo alguma coisa, e que ele estava apenas protegendo a reputação da moça -fosse outro, menos cavalheiro, e sairia apregoando a façanha amorosa.


Daí que, pelas décadas seguintes, o repórter foi explicitamente invejado pelos amigos como o homem que privara das intimidades da fabulosa cantora. E só porque dissera a mais pura e peregrina verdade: que nunca tivera nada com ela.


É um velho truque, mas ainda funciona. Há meses, por exemplo, o presidente Lula foi categórico ao desmentir que estivesse de olho num terceiro mandato. Ninguém lhe perguntara ou sequer cogitara tamanho absurdo. Mas a veemência com que ele se negava a até mesmo considerar a hipótese fez com que todos se convencessem de que Lula não queria outra coisa.


Vida que segue, e Lula continua negando que queira continuar se reelegendo. Só que sem a mesma ênfase. Dá a impressão de que, se este for o desejo da nação -expresso num plebiscito maroto-, ele, docemente constrangido, irá para o sacrifício e, à falta de melhor, aceitará eternizar-se no poder.’


 


TV BRASIL
Felipe Seligman


Propaganda da Vale fere regulamento da TV Brasil


‘A propaganda em que a Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997, anuncia a mudança de sua marca para ‘Vale’ vem sendo veiculada pela TV Brasil apesar de a medida provisória que criou a empresa pública restringir a veiculação de publicidade institucional de empresas privadas.


De acordo com a MP que permitiu o surgimento da emissora, cuja programação estreou no domingo, a publicidade só pode ocorrer ‘a título de apoio cultural’ ou quando ‘voltada a programas, eventos e projetos de utilidade pública, de promoção da cidadania, de responsabilidade social ou ambiental’.


À Folha a presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Tereza Cruvinel, afirmou que tal anúncio pode ser tratado como de ‘utilidade pública’ ou mesmo de ‘responsabilidade social’, já que a Vale estaria comunicando à população suas mudanças institucionais.


A Vale, por meio de sua assessoria, segue a mesma linha e afirma que a nova publicidade é um projeto de ‘sustentabilidade socioambiental’. A mudança da marca custará à empresa US$ 50 milhões nos próximos quatro anos. No entanto, o valor do contrato com a TV Brasil não será divulgado, diz a Vale. Até o fechamento desta edição, a EBC também não divulgou quanto recebeu.


Segundo a assessoria, o anúncio tem o intuito de mostrar que a mudança serve para ‘fortalecer o conceito de brasilidade’ da Vale e ‘dar o exemplo de uma companhia brasileira bem sucedida internacionalmente, que considera como prioridade a sustentabilidade’.


O comercial é o primeiro de uma série de quatro para promover o novo nome. Com música de fundo, mostra crianças e adultos escrevendo ‘Vale’ em lousas ou vidros embaçados. Ao final, informa ao telespectador que a nova marca foi uma escolha da própria sociedade, que teria popularizado o nome ‘Vale’ ao se referir à empresa.


As áreas de publicidade da Radiobrás e da TVE continuam funcionando separadamente, apesar do início das transmissões da TV Brasil. Ambas foram procuradas pela Folha. A Radiobrás informou que não possui qualquer contrato publicitário com a Vale e direcionou a demanda à TVE. Procurada no início da noite de ontem, o expediente de sua área publicitária já havia terminado.


A TV Brasil teve sua estréia simbólica no domingo, quando as grades de programação da Radiobrás e da TVE foram fundidas. Por enquanto, porém, é uma exclusividade para telespectadores de Rio, Brasília e Maranhão, únicos locais onde será possível assisti-la por algum tempo. Além da unificação das grades, estreou na segunda-feira o telejornal ‘Repórter Brasil’, veiculado duas vezes por dia, às 8h e às 21h.


O governo, entretanto, evita tratar o início das transmissões como ‘estréia’, pois teme críticas por não apresentar uma programação original desde o início. Cruvinel diz que a ‘estréia’ deve ocorrer em março.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


‘Salvar o mundo’


‘O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, gostou mesmo da visita. No ‘Washington Post’, sobre Bali, escreveu dando uma ‘boa notícia: nós podemos fazer alguma coisa, a um custo menor do que imaginamos’. Saudou, após as revoluções industrial e tecnológica, outra ‘grande mudança: a era da economia verde’. Exemplo: ‘Eu vi como o Brasil virou um dos maiores atores na economia verde, tirando 44% da demanda energética dos renováveis’, contra 13% no mundo.


O otimismo conflita com ‘o objetivo nada modesto’ de Bali, segundo Claudio Angelo no blog Bali 40º, que é ‘salvar o mundo’. E são os ‘países emergentes que detêm a chave’, China, Índia, Brasil, segundo John Vidal, no ‘Guardian’. Marcelo Leite, no blog Ciência em Dia e na Folha, não se anima, ‘Bali vai fracassar’.


PROTEÇÃO ‘VERDE’


No dia da abertura em Bali, a representante comercial dos EUA lançou proposta na Rodada Doha: eliminar tarifas de produtos ‘verdes’, que ‘combatem o aquecimento’. Mas não, nada de etanol.


E ontem o Itamaraty reagiu contra a idéia ‘protecionista’, numa das ‘mais destruidoras críticas da história recente das negociações comerciais globais’, comentou a AP.


VETO ‘AMBIENTAL’


Também na estréia de Bali, a Organização Mundial do Comércio, a pedido da União Européia, como noticiaram ‘New York Times’ e outros, rejeitou o ‘veto ambiental’ do Brasil à importação de pneus usados. É que a proibição não atinge compras do Mercosul.


LONGE DOS EUA


No site do ‘Wall Street Journal’, a aposta do Merril Lynch para a América Latina -de desempenho ‘positivo’ em 2008, ‘menos vinculada’ à economia americana.


Já o ‘Financial Times’, em especial sobre a Alemanha, destacou que também por lá se saúda a ‘desvinculação’ dos EUA. Para economista do Goldman Sachs no país, ‘as exportações aos Brics já são quase tão grandes quanto aos Estados Unidos’, este ano.


DESAFIANTES


De sua parte, o francês ‘Le Monde’ abordou ‘os novos desafiantes globais’ ou ‘os novos atores’ multinacionais, como as brasileiras Gerdau e Coteminas. Em título, ‘China, Índia e Brasil dominam’.


PARA O BRASIL


Na capa do caderno The Metro Section, ontem, o ‘New York Times’ deu que os ‘brasileiros estão desistindo de seu sonho americano’ e voltando para casa. O ‘ponto de mudança’ teria sido a queda do projeto de lei que abria ‘caminho para a legalização’ nos EUA.


A reportagem ecoou amplamente por aqui, a começar dos telejornais da Globo -que patrocinou e transmitiu o último ‘Brazilian Day’ dos brasileiros de Nova York.


‘SINTÉTICO’, CHÁVEZ


Na manchete do ‘Granma’, as ‘Mensagens de Fidel a Chávez’. Na primeira, elogios ao discurso de segunda-feira, que ‘foi um veni, didi, vinci de dignidade e ética’, aceitando o resultado. A outra foi uma aula de como ele deveria se expressar para tirar proveito das ‘agências noticiosas’ e da ‘imprensa internacional’. No primeiro conselho, ‘trate de ser o mais sintético possível’.


EL BARADEI AQUI


Mohamed El Baradei, da Agência Internacional de Energia Atômica, reagiu à confirmação pelos EUA de que o Irã abandonou armas atômicas declarando a sua esperança de que agora se vai ‘desativar a crise nuclear’ que ameaçava nova invasão.


De passagem, o registro de que chega hoje ao Brasil para checar como anda ‘a fábrica de combustível nuclear’.


Frase


‘Por 29 votos contra 48 e três abstenções, Renan Calheiros conseguiu salvar o mandato.’


Da repórter DÉLIS ORTIZ, no final do ‘Jornal Nacional’, que deu mais atenção à disputa pelo cargo de presidente do Senado -com destaque para discurso de Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), dizendo que o Senado ‘está diante de uma situação em que tem que defender a sua tradição, a sua história, a sua dignidade e a sua honradez’.’


 


VENEZUELA
Fabiano Maisonnave


Referendo revela novo centro na Venezuela


‘Embora a diferença apertada no referendo da reforma constitucional reforce o estereótipo de uma Venezuela politicamente polarizada, a grande novidade do processo eleitoral é o surgimento de um comportamento politicamente mais ao centro, na opinião de analistas.


São vários os sinais: a participação de partidos de oposição nas eleições, meios de comunicação mais equilibrados, a divisão dentro do chavismo, a alta abstenção entre os simpatizantes do presidente Hugo Chávez e mesmo a calma que predominou no dia da votação e após a confirmação da primeira derrota de Chávez em nove anos.


Os principais canais de televisão do país, Venevisión e Televen, que detêm mais de 50% da audiência, alcançaram um inédito equilíbrio na cobertura, mostra o monitoramento feito pelas universidades de Gotemburgo (Suécia) e Ucab, de Caracas. Esse comportamento é diferente tanto de abril de 2002, quando participaram do golpe contra Chávez, quanto do ano passado, quando se engajaram em cobertura favorável à reeleição do presidente.


‘Durante a campanha, houve dois pólos importantes [o canal oposicionista Globovisión e o estatal VTV], mas pela primeira vez se consolidou um centro’, diz Andrés Cañizález, coordenador da pesquisa.


No caso dos partidos políticos da oposição, a corrente moderada em favor do voto arrastou na última semana até o radical Comando Nacional da Resistência (CNR). Essa posição menos confrontacionista deu o tom ontem a uma entrevista coletiva de Leopoldo López, um dos dirigentes do partido oposicionista Um Novo Tempo. Ele convidou Chávez e os deputados chavistas, que controlam a Assembléia Nacional desde que a oposição boicotou a eleição legislativa de 2005, a discutir uma agenda social.


O surgimento do movimento estudantil também contribuiu para esse novo centro político. Segundo analistas, a mensagem contrária à reforma teve impacto em todos os setores da sociedade e fugiu da polarização tradicional, apesar de Chávez chamá-los de ‘filhinhos de papai’ e ‘peões do império’.


Já o governismo viu aparecer um centro por meio do partido Podemos e do ex-ministro da Defesa Raúl Isaías Baduel, aliados históricos que romperam com o presidente. As posições contrárias à reforma, que incluía a reeleição indefinida, provocaram o surgimento de uma espécie de ‘chavismo sem Chávez’, mais moderado.


Outro sinal de que a polarização perdeu fôlego foi a ausência de chavistas nos locais de votação, apesar do discurso plebiscitário de Chávez. Para o sociólogo Edgardo Lander, a lição mais importante do referendo é que, mesmo sendo o presidente popular, não há um eleitorado dócil.


‘Para setores numericamente muito significativos do chamado chavismo, foi possível manter o apoio ao governo, mas tomar distância de uma proposta particular’, avalia Lander, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV) que neste ano se distanciou da nova agenda de Chávez.


‘É uma lição de maturidade política muito importante e rompe com o imaginário de um povo que simplesmente segue um messias. Na democracia, não se pode apenas falar em nome do povo, ele tem de estar aí também.’’


 


Para juiz oposicionista do Conselho Eleitoral, votação derrubou três mitos


‘Vicente Díaz, o único dos cinco juízes do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela que não é chavista, declarou ontem que o referendo derrubou ‘três mitos’, entre os quais o de que Chávez é ‘um ditador’. Os outros dois são o de que a oposição do país é golpista e que o CNE não consegue garantir eleições transparentes.


O reitor afirmou, no entanto, que surgiram outros três ‘mitos’ após o referendo: o de que houve uma demora intencional na divulgação do primeiro boletim com resultados; o de que a oposição não teve acesso aos locais de contagem dos votos; e o de que a vantagem dos vencedores, o ‘não’, foi superior à divulgada oficialmente.


Díaz rebateu os três. Segundo ele, a demora na divulgação dos primeiros resultados deveu-se a acordo entre governo e oposição para que os números só viessem a público depois de apuradas 90% das urnas. Mesmo assim, afirmou o reitor, a divulgação saiu com 87% da apuração completa, a fim de diminuir a ansiedade das partes.


Díaz disse ainda que a oposição teve total acesso à apuração e que quem duvidasse da diferença entre as votações poderia olhar o site da CNE, onde está ‘tudo discriminado’.


O reitor atribuiu os dois primeiros novos ‘mitos’ ao eurodeputado espanhol Luis Herrero Tejedor, um dos 20 observadores internacionais do referendo. Tejedor havia contado em entrevista os supostos problemas que vira no domingo.’


 


Em site chavista, intelectuais fazem autocrítica


‘As explicações para a primeira derrota de Hugo Chávez em nove anos provocaram uma avalanche de artigos no site www.aporrea.org, o mais importante fórum de discussão de intelectuais identificados com o governo venezuelano.


Uma das críticas mais duras vem do sociólogo alemão Heinz Dieterich, ideólogo do dito ‘socialismo do século 21’. Para ele, Chávez pode ser deposto no ano que vem ‘se não forem tomadas medidas realistas já’.


Radicado no México, Dieterich diz que a causa principal da derrota ‘é o sistema vertical de condução do processo bolivariano’: ‘o Parlamento é essencialmente uma caixa de ressonância da vontade presidencial, onde os deputados (…) dizem ‘sim’ a tudo que ele propõe, ainda que seja inviável’.


Para sobreviver aos ataques de Washington, Dieterich sugere, entre outras medidas, criar ‘instâncias pluralistas’, recompondo inclusive com o ex-ministro da Defesa Raúl Isaías Baduel, ‘do centro’.


A jornalista Vanessa Davies, da emissora estatal VTV e próxima de Chávez, afirma que a derrota se deve tanto à atuação equivocada do chavismo quanto à estratégia oposicionista. Ela enumera, entre outros motivos, as ‘más ou péssimas’ administrações regionais chavistas; ‘a escassez de alimentos fabricada pelos setores conspiradores do empresariado’; e a incompreensão sobre ‘o movimento estudantil promovido e treinado pelo Departamento de Estado dos EUA’.


Davies propõe mudanças urgentes nas ‘comunicações da revolução’: ‘mais informação e análise’, não publicidade.’


 


Sérgio Dávila


Bush prega livre comércio contra Chávez


‘Mais uma vez, George W. Bush evitou mencionar o nome de Hugo Chávez. Instado a comentar o resultado do referendo popular e o fato de o venezuelano ter dito que um voto pelo ‘não’ seria um voto a favor do norte-americano, o presidente respondeu: ‘O povo venezuelano rejeitou o governo unipessoal. Eles votaram pela democracia, e os Estados Unidos podem fazer diferença na América do Sul quanto à influência venezuelana’.


Uma das maneiras, afirmou, é aprovar tratados de livre comércio com países da região, como o com a Colômbia, que atualmente enfrenta resistência da maioria democrata de um Congresso dominado pela oposição.


‘O maior medo na América do Sul não é o líder da Venezuela, mas o temor pela estabilidade caso o Congresso dos EUA rejeite o acordo de livre comércio com a Colômbia.’


Para Bush, ‘seria um insulto a um amigo’. ‘Mandaria uma mensagem contraditória para um país comandado por um líder vigoroso, que está trabalhando duro para lidar com problemas muito difíceis.’ Entre esses, o norte-americano citaria não nominalmente as Farc, ‘que seqüestram inocentes com objetivos políticos’.


A política norte-americana pode ajudar a promover democracia e estabilidade, disse Bush, mas, se o Congresso rejeitar o acordo, ‘será um momento desestabilizador’. Horas depois da fala do presidente, o Senado aprovou tratado semelhante com o Peru, que já havia passado pela Câmara.’


 


Jorge Zaverucha


Pretorianismo na Venezuela


‘O EX-MINISTRO Bresser-Pereira publicou na Folha (Dinheiro, pág. B2, 3/12) o artigo ‘Democracia na Venezuela’. Defende que o ‘regime político existente na Venezuela é democrático’. Fundamenta-se no que julga serem os requisitos essenciais de uma democracia: Estado de Direito, liberdade de pensamento e de imprensa e eleições livres.


Existem várias definições de democracia. Para todos os gostos. Escolher uma delas não é problemático. Inclusive há a tentação de achar que democracia consiste na confluência de todas as coisas boas, tal como se fez, analogamente, com o conceito de socialismo nos anos 60.


A grande divisão conceitual, como a Venezuela evidencia, gira em torno da democracia de procedimentos (‘burguesa’) e a democracia substantiva (‘popular’). Os requisitos elencados por Bresser-Pereira em seu artigo são de caráter procedimental.


Infelizmente, ele não incluiu o controle civil sobre os militares como um desses requisitos. Tampouco explicitou a diferença entre regime e governo democrático. Regime é conceito mais amplo que governo. Envolve não apenas o aspecto eleitoral mas também a institucionalização de regras (in)formais que governam os relevantes atores políticos em todo o sistema político. Portanto, é possível existir democracia eleitoral sem que o regime seja, necessariamente, democrático.


Ao contrário de Bresser-Pereira, afirmo que a Venezuela não possui um regime democrático. Isso não significa dizer que haja uma ditadura. A própria ligação de Chávez com a democracia é instrumental. Costuma celebrar com parada o aniversário do fracassado golpe de Estado de 1992.


Vestido com uniforme militar. Difícil aceitar que haja um Estado de Direito na Venezuela. Não há segurança jurídica, dentre outros motivos, pelo fato de o vago projeto socialista bolivariano pôr em xeque a propriedade privada. Além do mais, Chávez conseguiu aumentar o número de juízes do Tribunal Supremo de Justiça de 20 para 32, garantindo sua supremacia nessa corte. Uma manobra a la Carlos Menem, ex-presidente da nossa vizinha Argentina. Chávez ganhou de um Congresso subordinado a Lei Habilitante. Por ela, o presidente pode, durante 18 meses, governar por meio de decretos emitidos com valor e força de lei.


A liberdade de pensamento, por sua vez, é matéria controversa entre os estudantes, jornalistas e intelectuais venezuelanos.


Um ponto ignorado pelo ex-ministro Bresser-Pereira foram as iniciativas de Chávez em relação aos militares. Seguindo o modelo brasileiro, o presidente venezuelano patrocinou na Constituição de 1999 a cessão às Forças Armadas do papel de manutenção da ordem interna.


Ele também retirou do Congresso o direito de decidir sobre as promoções ao generalato. Na prática, Chávez interfere nas promoções de oficiais de todas as patentes, e não apenas a partir de coronéis.


Em troca de lealdade, Chávez patrocinou uma onda de promoções, criando excedentes. Para resolver o problema, nomeou oficiais para cargos na burocracia civil ou em postos diplomáticos no exterior. Nas eleições regionais de outubro de 2004, cerca de 14 dos 22 candidatos das fileiras governistas foram militares designados por Chávez.


O presidente venezuelano criou um novo corpo de reservistas denominado Comando Nacional de Reserva e Mobilização Nacional (‘milícias bolivarianas’). Embora seja um corpo civil, nasceu comandado por um general que está diretamente subordinado a Chávez.


O lema ‘Pátria, socialismo ou morte!’ adotado pelo presidente em seus discursos foi incorporado à saudação militar. Ou seja, um subalterno, ao dirigir-se a um superior, deve proferir essa saudação, seja para solicitar permissão para falar, seja para se retirar.


Achando poucas tais medidas pretorianas, Chávez ainda quer que a nova Constituição confira poder de polícia às Forças Armadas. Algo que nossas Forças Armadas já conseguiram, por meio do decreto nº 3.897, de 24 de agosto de 2001. E que está, segundo o governo, sendo aperfeiçoado.


JORGE ZAVERUCHA, 51, doutor em ciência política pela Universidade de Chicago (EUA), é coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). É autor de ‘FHC, Forças Armadas e Polícia: Entre o Autoritarismo e a Democracia’, entre outras obras.’


 


TV DIGITAL
Elvira Lobato


BNDES agora confirma R$ 1 bi novo para TV


‘A abertura da linha de crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para financiar a rede varejista na venda do conversor digital virou novela.


Um dia depois de o diretor de Planejamento do banco ter dito que os recursos sairiam de programa já existente, o que implicava não haver dinheiro novo, o presidente da instituição, Luciano Coutinho, confirmou em nota a declaração dada pelo presidente Lula, no domingo à noite, sobre a criação de linha adicional de R$ 1 bilhão.


‘Para que não paire nenhuma dúvida, venho a público esclarecer que o BNDES lançou uma nova linha de R$ 1 bilhão para financiar a rede varejista na comercialização dos conversores de TV digital, conforme anunciado pelo presidente Lula, no domingo’, diz o texto assinado por Coutinho.


Segundo a nota, enviada a jornais, a nova linha (ProTVD Consumidor) se insere no ProTVD (Programa de Apoio à Implementação do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre), em vigor desde fevereiro.


De acordo com Coutinho, à dotação original do ProTVD, de R$ 1 bilhão, para financiamento às emissoras de televisão, às indústrias e à produção de conteúdo de programação, será acrescido mais R$ 1 bilhão, para o financiamento ao comércio, ‘para, com os objetivos traçados pelo governo federal, ampliar o acesso de toda a população à nova tecnologia’.


O presidente do BNDES, que se reuniu ontem com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) em Brasília, não deu entrevista para explicar a razão das explicações conflitantes, limitando-se a distribuir uma nota de dois parágrafos.


A polêmica


Na inauguração da televisão digital, no domingo, Lula anunciou, em rede nacional de TV, ter determinado ao BNDES que desenvolva um programa de incentivo à implantação da TV digital. ‘No valor de R$ 1 bilhão, ele irá dar apoio à rede varejista para baratear a venda do conversor que permite a recepção do sinal digital pelos atuais televisores analógicos’, disse.


Ainda no domingo, a assessoria do banco confirmou que estaria sendo criada nova linha de R$ 1 bilhão, além do R$ 1 bilhão aprovado em fevereiro, na criação do programa ProTVD.


Na segunda-feira, porém, o BNDES afirmou que os recursos anunciados pelo presidente são os mesmos do ProTVD, que seriam alocados para financiar o comércio. Segundo o diretor de Planejamento, João Carlos Ferraz, não houve demanda de financiamento por parte da indústria, dos radiodifusores e dos produtores de conteúdo para a utilização da linha de R$ 1 bilhão criada em fevereiro, que seria alocada, então, para financiamento ao comércio.


Desde fevereiro, segundo o banco, só foram liberados R$ 9 milhões dos recursos previstos no ProTVD. Só um projeto foi aprovado: do SBT, para implantação de 197 retransmissores. As emissoras de TV queixam-se de que os critérios do BNDES são muito rígidos e a maioria delas não consegue atendê-los.


O banco não costuma financiar a rede varejista. A primeira experiência foi com o programa Computador para Todos. Para o BNDES, o financiamento à venda dos conversores da TV digital se justifica para ‘estruturar esse segmento por meio do puxão da demanda’. À medida que o consumo aumentar, a indústria terá mais escala de produção e os preços ao consumidor cairão, calcula.


O financiamento seguirá o modelo já consagrado do Computador Popular. Nos empréstimos concedidos diretamente pelo banco, o custo do dinheiro será a TJLP (taxa de juros de longo prazo, atualmente de 6,25% ao ano), mais a remuneração básica do BNDES, de 4,5% ao ano.


Se o lojista fizer o empréstimo nos bancos credenciados pelo BNDES, a remuneração do agente financeiro será de 2,5% ao ano. O BNDES se compromete a reduzir sua taxa de remuneração para 1% ao ano se o lojista cobrar juro de até 2% ao mês do consumidor final, como forma de induzir a redução do preço do produto.’


 


Humberto Medina e Tatiana Resende


Costa ignora ABNT e diz que conversor deve ter software


‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou que os conversores de TV digital que estiverem no mercado sem o programa Ginga, que vai permitir a interatividade plena (envio de dados para as emissoras), não podem ser vendidos.


‘O conversor tem que ser um só. Existem normas técnicas que têm que ser seguidas. O que não colocou o Ginga não pode ser vendido, não atende às normas técnicas do Fórum da TV digital. A tecnologia está pronta, quem quiser o Ginga baixa da internet sem custo.’


Nenhum dos aparelhos à venda tem ou pode ser adaptado com o Ginga, mas as declarações do ministro não têm respaldo na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), que divulgou as especificidades aos conversores no sábado. Segundo o documento, ‘o porte do Ginga é opcional’.


De acordo com Erlei Guimarães, diretor da Positivo Informática, agora ‘a indústria está pegando as especificações e transformando em um software que pode ser embarcado em um conversor’. Roberto Barbieri, diretor da Semp Toshiba, afirma que ‘a bateria padrão de testes fixada pelo Fórum não está desenvolvida ainda’. Após isso, diz, ainda será necessário fazer testes de campo.


Eugênio Staub, presidente da Gradiente, afirmou no domingo que, ‘nos próximos dias’, a empresa -que seria a primeira- vai lançar um conversor já pronto para receber o Ginga.


Sobre a possibilidade de download do programa, só profissionais especializados saberiam usá-lo. Segundo Luiz Fernando Gomes Soares, da PUC-RJ, um dos coordenadores do projeto de desenvolvimento do Ginga, o consumidor ‘teria que comprar um demodulador ISDB e ligar no computador e na TV’. Com isso, o PC funcionaria como um conversor.


Além disso, a interatividade plena só será possível quando for definido o canal de retorno (telefone, internet) que será usado para enviar os dados às emissoras de televisão.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Querido da Globo, Corinthians perde ibope


‘Preferido da Globo nas transmissões de futebol para São Paulo, o Corinthians perdeu audiência em 2007 e foi ultrapassado pelo Santos na preferência do telespectador.


Levantamento exclusivo obtido pela Folha mostra que, durante o Campeonato Brasileiro, o Corinthians ocupou 35 horas e cinco minutos na Globo, o dobro do campeão do torneio, o São Paulo (17h42min). O terceiro time paulista com maior exposição na Globo foi o Palmeiras, com 20h57min, seguido pelo Santos, com 15h27min de transmissões.


Os jogos do Corinthians tiveram média de 29,4 pontos, somadas as audiências da Globo e da Band. Já o Santos marcou 29,9 pontos. Os jogos do São Paulo somaram 28 pontos, e os do Palmeiras, 24,1. O maior número de jogos pode ter ‘prejudicado’ a média alvinegra.


A audiência do Corinthians na TV aberta caiu 16% em relação a 2006. No ano passado, a Globo dedicou 34h15min ao clube do Parque São Jorge, só 1h13min a mais do que ao São Paulo. Em 2006, as partidas do Corinthians renderam 35 pontos na soma das audiências de Globo e Record, contra 35,1 do São Paulo, 33,8 do Palmeiras e 31,7 do Santos.


A queda de audiência do Corinthians, no entanto, foi inferior à do Brasileirão (18,5%). Neste ano, o campeonato marcou 26 pontos (21,8 na Globo). No ano passado, foram 31,9 pontos (25,8 na Globo).


DISSÍDIO 1 A TV Cultura, que desde 2003 luta na Justiça contra um dissídio de 12% a seus radialistas, poderá conceder aumento de mais de 100% a seu diretor-presidente, Paulo Markun, que recebe atualmente R$ 14.800.


DISSÍDIO 2 Anteontem, em reunião do conselho curador, foi criado um comitê para discutir o aumento. O presidente do conselho, Jorge da Cunha Lima, apresentou estudo comparando os salários da Cultura com de empresas do mesmo porte.


DISSÍDIO 3 Segundo Cunha Lima, ‘os salários da cúpula estão abaixo dos valores de mercado’. Já os salários dos funcionários, caso sejam incorporados os 12%, ficariam na média do ‘mercado’. O comitê se reúne dia 12.


FALÁCIA 1 A ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura) lançou ontem campanha em que se opõe a projeto de lei que impõe cota de 50% de canais nacionais às operadoras.


FALÁCIA 2 Diz o anúncio da ABTA que, se a proposta em discussão no Congresso for aprovada, o assinante ‘não vai mais escolher a programação’. Então não muda nada. Porque hoje o assinante tem de engolir os enlatados, e suas reprises, que os grandes conglomerados só exibem aqui porque ganham em escala.


ANO NOVO O ‘Jornal da Cultura’ começa hoje a exibir série de entrevistas para discutir o ‘mundo em 2008’. Ruy Castro, Gustavo Ioschpe e Horácio Lafer Piva estão entre os entrevistados.’


 


CLODOVIL
Mônica Bergamo


Clô e o canard


‘Em disputa judicial com a TV Bandeirantes, o deputado Clodovil apresentou atestado médico em 2005 para justificar sua ausência numa audiência. Ele teria feito uma ‘cirurgia radical de prostatectomia’. O problema é que, no mesmo dia, Clodovil foi visto saboreando um magret de canard no restaurante Parigi.


CLODOVIL 2


A médica Ana Helena Patrus, da clínica Santé, que assinou o atestado para Clodovil, vai ter que prestar depoimento à Justiça na sexta por causa da confusão. Ela diz que Clodovil ‘só saía da Santé para visitar o dr. Miguel Srougi, que o operou. Pelo menos, era o que dizia para a gente. Se aproveitava para almoçar, eu não sei. Mas ele é doido, né? Às vezes, faz o que quer, não respeita ninguém. Dá mais trabalho que filho’.’


 


LITERATURA
Marcos Strecker


‘Direita religiosa é apenas hipócrita’


‘‘Ser polêmico só traz problemas, estou cansado…’ Com ar angustiado e resignado, o maior escritor francês da atualidade, que renovou a literatura francesa na última década, responde sobre a fama que cerca o seu nome. Uma das últimas brigas de Michel Houellebecq envolveu o islamismo (‘É a religião mais estúpida’), levou a um processo e a seu afastamento da França.


Em Porto Alegre para participar do seminário Fronteiras do Pensamento, do Copesul Cultural, Houellebecq disse à Folha que está morando na Irlanda. Mas ele também é famoso por dar pistas falsas sobre a sua biografia.


Houellebecq faz muito barulho quando lança seus livros. O último, ‘A Possibilidade de uma Ilha’ (Record), uma ficção científica que envolve clonagem em um mundo pós-apocalíptico, vendeu mais de 300 mil exemplares na França desde 2005. Já lançado no Brasil, acaba de virar filme dirigido pelo próprio escritor, em fase de acabamento (alguns trechos podem ser acompanhados em www.lapossibiliteduneile-lefilm.com).


‘Partículas Elementares’, de 1998, que mostra a relação entre dois meio-irmãos e faz uma crítica ácida ao movimento hippie, foi adaptado pelo alemão Oskar Roehler, em filme que deve estrear no Rio e em São Paulo, em seis salas, no dia 11 de janeiro, e está sendo reeditado pela editora Sulina (296 págs., R$ 45, tradução de Juremir Machado Silva).


Um aviso: Houellebecq não gostou dessa adaptação. Ele não vê problemas com as omissões de partes do livro, mas acha que o roteiro deixou incompreensível o personagem-cientista e sua teoria, que é de alguma forma uma antecipação à clonagem humana.


Se não bastassem os ataques a personalidades públicas (uma de suas narrativas na coletânea ‘Rester Vivant/Permanecer Vivo’ é intitulada ‘Jacques Prévert é um estúpido’), o autor chegou a ser considerado premonitório ao prever um ataque terrorista muçulmano em ‘Plataforma’ (Record), de 2001, romance que faz um relato frio e racional das possibilidades do turismo sexual em vários países.


O outro romance de idéias do autor lançado no Brasil é ‘Extensão do Domínio da Luta’ (ed. Sulina, 1994), a obra que levou reconhecimento literário ao ex-engenheiro agrônomo e ex-profissional de informática.


É a segunda viagem do escritor ao Brasil, que já foi tema de uma famosa passagem de ‘Partículas Elementares’, também aproveitada no filme: ‘[…] O Brasil era um país de merda, cheio de brutos fanáticos por futebol e por corridas de carros. A violência, a corrupção e a miséria estavam no seu auge. Se havia um país detestável era justamente, e bem especificamente, o Brasil’.


Nada contra o país, diz agora Houellebecq. ‘Meu personagem [Bruno] se coloca contra os brasileiros porque está a fim das brasileiras. O Brasil em si já representa um estereótipo forte, isso não é ruim. Há muitos países que não têm nenhum estereótipo. Já é alguma coisa. A imagem brasileira é muito positiva…’, afirma.


‘Realista’


Com uma obra irônica e iconoclasta, Houellebecq não se considera niilista nem pessimista, mas ‘realista’. Inspirou-se na seita dos raelianos para ‘A Possibilidade de uma Ilha’ porque ela se baseava na ciência. E a religião? ‘O triunfo da ciência em relação à religião me parece certo. Eu não acredito em nada, mas as pessoas que crêem em algo são mais felizes. Não há mais espaço para a religião. Isso está claro em geral.’


E sobre a ascensão da direita religiosa nos EUA? ‘Eu não acho que acreditam em Deus. São hipócritas, apenas.’


Uma fonte de inspiração para o filme e o livro é a literatura de ficção científica. Já escreveu uma biografia de H.P. Lovecraft (‘Contra o Mundo, contra a Vida’), elogiada por Stephen King. ‘Faz parte da minha cultura’, diz. ‘Essa literatura popular eu li na minha juventude e isso me influenciou. Li tudo de ficção científica, inclusive Philip K. Dick. Todos os autores conhecidos. A época mais brilhante foi nos anos 50 e 60, um pouco como a música.’


Outro tema recorrente de Houllebecq é o sexo. Já o compararam aos libertinos e a Sade? ‘Sim, já fizeram essa relação, mas em geral para me mostrar como uma pessoa hostil. A pornografia é muito comum na França. Há uma literatura pornográfica muito rica no país. A diferença é que antes escreviam a pornografia paralelamente à obra. Mas eu não acho que escreva pornografia.’


Citando a última Feira do Livro de Frankfurt, Houellebecq diz que há uma tendência para a literatura que ajuda as pessoas. ‘Eu claramente não faço isso. É curioso. Existem vários livros que ensinam as pessoas a se sentirem melhores, com regras práticas. Isso é uma tendência, eu mesmo pude constatar’, diz.


Houellebecq nega que a experiência com cinema seja uma reação à frustração com ‘Partículas Elementares’. ‘Na França, é normal um escritor filmar. É uma coisa mais ou menos específica do país, é muito freqüente. Há vários exemplos. Recentemente, por exemplo, o Eric Emmanuel Schmitt e Bernard Werber.’ O autor, que também estudou cinema, gostou da experiência, que envolveu sete semanas de filmagem na Espanha e no Canadá. ‘Trabalhar com a equipe foi agradável, o difícil é lidar com os produtores…’, diz.


Poético x histriônico


O tom poético e lírico do filme, em contraste com a verve histriônica, direta e provocativa dos primeiros livros, já apareceu delineado em seu último livro. ‘Essa tentativa de passar a uma dimensão poética eu tentei em todos os meus livros, mas em ‘A Possibilidade de uma Ilha’ fui mais bem-sucedido. Tem menos brutalidade em relação a ‘Extensão do Domínio da Luta’, por exemplo’.


Os pensamentos do autor parecem distantes. Sua linha de raciocínio parece se perder e os longos silêncios são interrompidos por insights. ‘Meu papel é o do destruidor de ilusões’, diz, repentinamente.


Ele concorda que voltar-se para um conteúdo poético pode ser uma resposta às polêmicas. ‘É uma situação bizarra porque sou um homem velho, já escrevi muitos livros e a polêmica não diminuiu em relação a mim. A próxima vez que eu lançar um livro será o mesmo problema na França. As coisas não se acalmaram.’


Isso afeta seu trabalho? ‘É necessário fazer um esforço para não ser afetado. É preciso um trabalho psicológico. E eu tenho uma tendência à misantropia. Ficar só é fácil, não traz problemas. Não é uma tendência encorajadora, é um defeito. Eu me esforço para ser sociável, mas não é natural.’


O jornalista MARCOS STRECKER viajou a convite da organização do evento’


 


Gilberto Dimenstein


Livro das vidas


‘NA MAIORIA DAS VEZES , um TCC (trabalho de conclusão de curso) é apenas uma formalidade acadêmica. José Eduardo Gutter transformou o seu num projeto de vida: decidiu criar uma editora para os que não têm não acesso a editoras.


Filho de migrantes do Paraná -o pai sobrevivia como mecânico e, agora, aos 73 anos, é taxista-, José Eduardo estudou em escola pública, fez curso técnico em edificação e conseguiu entrar na USP, onde se interessou por editoração.


Para realizar seu TCC, saiu à procura de poetas anônimos e inéditos.


Distribuiu panfletos em saraus e colocou pequenos anúncios nos murais de bibliotecas públicas. Daí nasceu a coletânea intitulada ‘Palavra de Poeta’, trabalho em que deveria demonstrar o que tinha aprendido sobre técnicas de editoração. ‘Percebi que muitos originais interessantes ficam para sempre esquecidos numa gaveta’, considera.


Depois de se formar na USP, ele, além de cuidar de montar seu próprio negócio, resolveu voluntariamente ajudar os ‘sem-editora’ na publicação de seus contos e poesias.


Neste ano, ele lançou ‘Cantos da Cidade’, uma coletânea de 34 poetas e contistas. Juntaram-se, entre outros, um padre, um pastor, um advogado aposentado, um ex-morador de rua, um administrador de empresas e uma deficiente física que vive presa a uma cadeira de rodas. ‘Esse mix de gente é que vai fazer a obra chegar aos diferentes cantos e públicos da cidade.’


Cada um dos autores paga o valor de R$ 360 para fazer parte do livro e, em troca, ganha uma cota para vender. Vendem-se também os livros em diferentes eventos, num marketing boca a boca. Não há recursos para distribuição em livrarias. ‘Meu sonho é ter um espaço na Bienal.’


A coletânea ‘Cantos da Cidade’ já teve esgotada a sua primeira edição.


‘Um dos autores já vendeu cem exemplares’, orgulha-se.


Nessa rede de escritores inéditos, José Eduardo Gutter vem se deparando com personagens cujas vidas dariam romances. É o caso de um morador de rua que escrevia poesias -e, graças à sua paixão pela escrita, fez um concurso e hoje é funcionário público- ou de um operador de telemarketing que, para sobreviver psicologicamente ao trabalho repetitivo e massacrante, escreve contos nos segundos entre as ligações telefônicas. Para não perder o emprego, o funcionário usa um pseudônimo.


Inspirado na descoberta de personagens anônimos e com muitas coisas para contar, José Eduardo teve a idéia de criar uma coleção de curtas autobiografias populares, projeto que dará às pessoas a oportunidade de compartilhar as suas experiências mais marcantes. O nome desse projeto: ‘Livro da Vida’.’


 


POLÍTICA CULTURAL


Folha de S. Paulo


MinC promove debate sobre direitos autorais hoje no Rio


‘O ministro da Cultura, Gilberto Gil, inaugura hoje, no Rio de Janeiro, o Fórum Nacional de Direito Autoral.


Trata-se de iniciativa do MinC para promover mudanças na legislação brasileira de direito autoral, em acordo com os setores envolvidos na questão -autores, produtores e consumidores de obras abarcadas pela lei.


Representantes do governo e especialistas do setor privado discutirão, em três mesas, aspectos relacionados ao assunto. São eles: ‘Direitos Culturais e Acesso à Cultura’ (das 10h20 às 12h), ‘A Lei do Direito Autoral Protege, de Fato, o Autor?’ (das 14h às 15h40) e ‘Gestão Coletiva de Direito Autoral’ (das 16h às 17h40).


Pelo calendário do ministério, este será o primeiro de sete seminários sobre o tema. Os outros seis, sendo um internacional, deverão ocorrer ao longo de 2008.


Foram abertas 500 inscrições para o evento de hoje, já preenchidas, de acordo com o MinC. Há previsão de que os debates sejam transmitidos pela internet. Os interessados deverão acessar a página do MinC (www.cultura.gov.br) ou a da Funarte (www.funarte.gov.br).’


 


DOCUMENTÁRIO
Silas Martí


Especial cria biografia visual de Klee


‘Paul Klee (1879-1940) diz que não sabia pintar, só dosar bem claros e escuros. É com essa frase do diário de um dos maiores pintores do século 20 que o documentário ‘Paul Klee: O Silêncio do Anjo’ joga luz sobre as aquarelas do artista suíço radicado na Alemanha amanhã, às 22h, no SescTV.


Dividido em capítulos que se debruçam sobre cada aspecto da arte de Klee, do traço preciso do início da carreira -ecos de Dürer e Cranach- à composição enigmática e infantil de seus últimos anos de vida, o programa dá um quadro completo da trajetória de quem criou uma arquitetura visual baseada na justaposição de sólidos blocos de cor, ‘cada um defendendo sua verdade’.


A edição ágil apresenta sem desvios a obra do artista, com uma fartura de detalhes biográficos: da viagem que fez à Tunísia em 1914, surge sua preocupação com a luminosidade; do convívio com Kandinsky, artistas do grupo Cavaleiro Azul e a Bauhaus, as heranças que o tornaram conhecido; da mãe pianista e da afeição à música, herdou a visão da tela como partitura expressiva.


A Alemanha mergulhada no nazismo provocou seu exílio na Suíça. Só em 1933, fez 245 rabiscos violentos em protesto e vergonha. Terminou vida e obra em 1940, deixando uma série de 35 anjos calados.


PAUL KLEE


Quando: amanhã, às 22h


Onde: SescTV’


 


Marcelo Coelho


Mentiras e verdades de Coutinho


‘EXISTE ALGUMA coisa de padre em Eduardo Coutinho. Os óculos fora de moda, o cabelo branco, a voz rugosa e ao mesmo tempo acolhedora, a quase permanente invisibilidade de sua figura, contribuem para dar a seus filmes certa semelhança com uma sessão de confessionário.


‘Jogo de Cena’, documentário mais recente do diretor, acentua esse aspecto sacerdotal. Mulheres de diversas idades e origens sociais se aproximam, no escuro, da cadeira simples onde serão entrevistadas por Eduardo Coutinho.


Parecem intimidadas; atenderam uma convocação feita em anúncio de jornal, onde se buscavam mulheres com mais de 18 anos que ‘tivessem uma história para contar’. Diante do silencioso senhor que as recebe, e que lhes impõe imediato respeito, entregam a alma, como se precisassem de absolvição.


Mas há também a equipe encarregada de filmar a cena; a entrevista não transcorre numa igreja, e sim no palco de um teatro vazio. Uma estranheza toma conta do lugar.


São entretanto verdadeiros, certamente, os casos que se relatam ali: filhos que morrem poucas horas depois do nascimento; filhos assassinados; filhos desaparecidos, maridos que reaparecem…


Está em cena um drama religioso de morte e ressurreição. Fala-se de sonhos em que o filho morto surge para reconfortar a mãe de sua perda; fala-se de vidas que recomeçam depois de golpes devastadores.


Eduardo Coutinho não diz nada; filma tudo com uma câmera impassível, e nisso não há simplesmente uma atitude estética (a de não acrescentar sentimentalismo a situações em que a realidade fala por si mesma). Talvez se queira sugerir, por meio das confissões de pessoas tão diferentes, que a sobrevivência psicológica é uma espécie de talento distribuído desigualmente entre os seres humanos.


Há pessoas que, muito provavelmente, não se recuperarão nunca dos estragos que fizeram a si mesmas e aos outros. Algumas entrevistadas, contudo, mostram-se dotadas de uma vontade de vida que as torna capazes de superar os piores desastres.


Haveria um nietzschiano por trás desse documentarista tão ascético e apostólico? Sem dúvida, seus filmes terminam resultando num argumento considerável contra os recentes manifestos ateístas de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens: o espiritismo, o candomblé, qualquer outra forma de religião representa, para muitos de seus entrevistados, um recurso necessário ao reequilíbrio pessoal.


Acontece que, a começar do título, ‘Jogo de Cena’ visa também a ser uma escola de incredulidade. Atrizes conhecidas do público, como Marília Pêra e Fernanda Torres, repetem para as câmeras os depoimentos reais colhidos pelo diretor. Podemos comparar o desempenho da atriz que conta um caso trágico com a fala da mulher que o viveu na realidade.


E não é preciso chegar à memorável cena de constrangimento de Fernanda Torres (que vê seu talento de atriz derrotado pelo texto que tinha a interpretar), para ver que a realidade supera qualquer representação. As atrizes enfraquecem, quase sempre, o relato vivo que estavam encarregadas de reproduzir.


Na obra desse documentarista rigoroso, a realidade vence a ficção, portanto, do mesmo modo que a ilusão religiosa é aceita pelo efeito prático que produz, mas não deixa de ser denunciada como ilusão.


Só que ‘Jogo de Cena’ prepara um truque de mágica quando se pensa que já estava tudo dito e redito para o espectador. Perto do final do filme, descobrimo-nos vítimas de uma ilusão, astuciosamente armada por Eduardo Coutinho. Esse padre discreto é capaz de pérfidos milagres.


Como ficamos? Este comentador descrente se vê enganado pelo ‘Jogo de Cena’ de Coutinho, percebendo-se mais crédulo do que gostaria de pensar. Um espectador religioso sairá provavelmente mais feliz, vendo confirmada a utilidade de sua fé, ignorando sem dúvida todo o exercício de ceticismo realizado pelo diretor.


Quanto a Eduardo Coutinho, ele permanece escondido, num palco escuro, espectador do mundo, quase desumano em seu silêncio e em sua distante compaixão. Não consigo acreditar em Deus, mas acreditar em Eduardo Coutinho, quem sabe, já ajude alguma coisa.’


 


INTERNET
Daniela Arrais


O custo da banda larga


‘Se você gosta de ler e-mails, jogar, baixar música, conversar em programas de bate-papo, conferir um vídeo no YouTube e ainda editar um texto ou algumas imagens, tudo ao mesmo tempo agora, deve usar uma conexão de banda larga para navegar na internet.


O acesso de alta velocidade já é usado por cerca de 37 milhões de internautas no Brasil, segundo a Abranet (Associação Brasileira de Provedores de Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet).


As tecnologias mais usadas por aqui são a ADSL, que exige do usuário uma linha telefônica e um provedor de acesso, e a cabo, disponível em locais onde há TV por assinatura.


Operadoras começam a testar a tecnologia 3G, que permite ao usuário acessar a internet pelo celular com velocidade similar a de um computador.


Como escolher


O nível de eficiência das tecnologias varia de acordo com proximidade dos pontos de transmissão, qualidade dos equipamentos utilizados e número de usuários na rede.


Por isso, na hora de escolher o tipo de conexão, o consumidor deve prestar atenção no uso que ele quer fazer da internet -se é apenas para trocar mensagens e ler notícias ou se é para ver conteúdo multimídia em serviços como o Second Life ou o Joost.


Para quem apenas troca e-mails, lê notícias e faz o down -load de um arquivo de vez em quando, conexões 256 Kbps ou 500 Kbps são suficientes.


Para o internauta que gosta de baixar músicas e filmes ou de jogar on-line, conexões de 1 Mbps a 8 Mbps são as mais indicadas -um vídeo do YouTube, por exemplo, dificilmente engasga com essas conexões.


‘[A conexão] que os clientes mais gostam é a de 2 Mpbs, que permite uso avançado, principalmente para entretenimento’, afirma Márcio Fabbris, diretor do subsegmento Premium do Speedy, da Telefônica, que tem cerca de 2 milhões de assinantes.


‘Esse tipo de conexão permite baixar filme, ver TV em streaming [você assiste na internet, não precisa armazenarr o arquivo para seu computador]’, afirma Fabbris.


‘Para ter uma experiência multimídia mais completa, uma opção é o pacote de 8 Mbps’, diz Eduardo Guedes, gerente de produtos de banda larga e voz da Net Serviços, responsável pelo Vírtua -que tem 1,3 milhão de assinantes.’


 


Alta velocidade é bem mais cara no Brasil


‘O usuário brasileiro de serviços de alta velocidade de acesso à internet paga muito mais caro do que os internautas do exterior, conforme levantamento feito pela TelComp (Associação Brasileira de Prestadoras de Serviços de Telecomunicaçõ es Competitivas). Há casos em que a assinatura mensal de serviço de 1 Mbps no país custa quase 400 vezes o preço cobrado no exterior.


Na Itália, a Tiscali cobra o equivalente a R$ 4,32 ao mês pelo serviço de 1 Mbps. Na França, a Orange cobra R$ 5,02.


Nos Estados Unidos, o preço da Time Warner é R$ 12,75. Já os usuários japoneses podem adquirir a banda larga de 1 Mbps do Yahoo! por R$ 1,81.


No Brasil, a TelComp levantou os preços de Telefônica, Net, Brasil Telecom e Oi.


Segundo a associação, a Net cobrava em São Paulo, em julho, R$ 39,95 por pacote de 1 Mbps e a Telefônica, até R$ 159,80. A Brasil Telecom cobrava até R$ 239,90.


Manaus registrou o valor mais alto, pela Oi: R$ 716,50 -a conexão é feita por satélite e, por isso, mais cara -o que é equivalente a 395 vezes o valor cobrado no Japão, segundo calcula a TelComp.


Os valores foram pesquisados pela TelComp nos sites das operadoras, em julho.


Para Luis Cuza, presidente da TelComp, o governo deve implementar ferramentas de competição e atuar de forma firme nas questões de fusões e aquisições do mercado.


‘A concorrência propicia melhores preços e serviços’, diz, em comunicado enviado por sua assessoria de imprensa.’


 


Usuários pagam por um serviço e recebem outro, afirma associação


‘As reclamações são variadas: o usuário não consegue navegar na internet com a velocidade que o provedor anunciou na propaganda. Ou, então, fica sem conexão em momentos alternados do dia. Quando liga para o suporte técnico, é direcionado para vários atendentes, que não resolvem o problema.


As queixas são recorrentes entre os usuários de banda larga, de acordo com a Abusar (Associação Brasileira dos Usuários de Acesso Rápido). ‘As empresas vendem um produto e entregam outro ao consumidor’, afirma Horacio Belfort, presidente da associação.


‘No contrato, vendem uma velocidade, mas eles podem entregar até 10% daquilo. Se você compra cinco quilos de arroz, chega em casa e percebe que só há quatro quilos, você entra em contato com as empresas, que são punidas. Mas isso não acontece em relação à banda larga.’


Entre as principais reclamações, segundo a Abusar, estão a necessidade de pagar por um provedor que o usuário não quer, a qualidade ruim ao acessar serviços de Voip (voz sobre protocolo de internet) e a dificuldade em acessar sites P2P (compartilhamento de arquivos) -no azureuswiki.com/ index.php/ Bad_ISPs#Brazil há uma ‘lista negra’ de provedores que limitam downloads.


No entanto, para Eduardo Fumes Parajo, presidente da Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet), o mercado de banda larga está maduro. ‘Temos problemas no dia-a-dia, mas não são tão recorrentes’, diz.


Para não ser lesado, o consumidor deve saber detalhes do serviço que contrata, segundo o Procon. ‘Ele tem que saber que tipo de serviço quer. E se há viabilidade técnica para ele contratar esse serviço’, afirma Márcia Christina Oliveira, técnica do Procon-SP. ‘Quando o sistema cai, ele pode pedir um abatimento proporcional. Se ficar 24 horas sem acesso, tem que vir desconto na fatura.’


Quando reclamar com o provedor, é importante anotar o número de protocolo da conversa, para ter uma garantia.’


 


Simone Cunha


Acesso à internet nas residências cresce 44%


‘O aumento do prazo de financiamento no varejo, o dólar em queda reduzindo os preços de componentes eletrônicos e a mudança de hábito do brasileiro fizeram com que o número de internautas com acesso à internet em casa aumentasse 43,7% em um ano.


Segundo a Ibope/NetRatings, 30,1 milhões de brasileiros tinham acesso à internet em casa em outubro. Desses, 20 milhões efetivamente navegaram na rede no mês, 1% a menos que em setembro.


‘Significa que temos 30 milhões de pessoas com acesso a comércio eletrônico, a transações pela internet e à educação’, diz o gerente de análise de mercado do Ibope, Alexandre Sanches Magalhães.


O acesso à web em geral subiu 21%, alcançando 39 milhões de pessoas em outubro. Ou seja, é o aumento da navegação em casa, principalmente entre as classes C e D, que está alavancando o crescimento da internet como um todo.


Segundo a consultoria IDC, a venda de computadores em geral deve crescer 25,4% neste ano em relação a 2006, alcançando 8,9 milhões de unidades. Os notebooks, geralmente usados para se conectar à web, devem vender 140% mais, chegando a 1,4 milhão de unidades.


‘O primeiro passo é comprar um computador, o segundo, pôr internet, nem que seja discada’, diz o analista de tecnologia do JP Morgan, André Baggio. Magalhães lembra que hoje quase 90% dos computadores brasileiros têm acesso à web.


O próximo passo no uso da internet, para a coordenadora de pesquisas do Provar, Patrícia Vance, é ‘sair do Orkut, do MSN e ir para o e-commerce’.


Para os analistas, o dólar baixo e os financiamentos cada vez maiores ajudaram as vendas a se manterem aquecidas nos últimos anos. ‘Em 2004, 2005, tínhamos máquinas parceladas em seis vezes, hoje já temos em até 24. Não sei como será este Natal, mas acho que o prazo vai aumentar’, diz o analista sênior de mercado da IDC, Reinaldo Sakis. A ‘MP do Bem’, que reduziu a alíquota de IPI sobre os computadores, também teve efeito direto.


Com a perspectiva de aumento para as vendas, a tendência é que o número de internautas suba também.


Segundo Sakis, antes de 2011 a participação dos notebooks nas vendas de computadores deve subir dos atuais 18% para mais de 50%.


A pesquisa também mostrou que as mulheres são 49,05% dos navegadores, crescimento de dez pontos percentuais em relação a setembro de 2000. ‘As empresas já perceberam isso e estão desenvolvendo mais conteúdo de saúde e beleza, por exemplo’, diz Magalhães.’


 


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O Estado de S. Paulo


Quarta-feira, 5 de dezembro de 2007


VENEZUELA
Demétrio Magnoli


A revolução que não pode parar


‘Algo ainda misterioso aconteceu durante a apuração do referendo na Venezuela. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) devia divulgar boletins parciais de votos, mas no lugar deles pipocavam declarações de fontes governamentais reproduzindo as pesquisas de boca-de-urna e exigindo que a oposição reconhecesse o resultado. A expectativa criada pelas pesquisas e pelas declarações dessas fontes provocou um início de aglomeração de chavistas para comemorar uma vitória que não viria. A oposição usou a inteligência, uma vez na vida, e não ofereceu ao presidente Hugo Chávez um grito de ‘fraude’. Então, e só quando a apuração se aproximou de 90% dos votos, o CNE anunciou a derrota do ‘sim’. Ato contínuo, Chávez reconheceu seu primeiro revés eleitoral.


No pronunciamento, Chávez ofereceu um indício, que permanece inexplorado. Ele disse que ‘debateu-se com um dilema’ nas horas precedentes, aquelas nas quais os cidadãos ficaram privados das informações previstas. Depois de tudo dito e feito, os simpatizantes do chavismo – na Venezuela, em Cuba, na Bolívia e também no Brasil – tocaram tambores de homenagem às ‘convicções democráticas’ de Chávez, enaltecendo seu gesto de reconhecimento da derrota. Esse gesto, que é parte dos usos e costumes das democracias, ganhou contornos surpreendentes na Venezuela chavista. Por bons motivos: a ‘revolução bolivariana’, como é da natureza das revoluções, não pode parar.


A derrota chavista começou a ser engendrada pela própria lógica de ferro da radicalização revolucionária. No início do ano, Chávez proclamou a constituição de um partido unificado chavista – o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O novo partido, que nasce das entranhas do Estado, reuniu assinaturas de 2,5 milhões de aderentes e engajou-se na organização de 900 mil ativistas em ‘batalhões’. O termo militar evidencia o significado da máquina política em gestação e indica o rumo do movimento chavista, que se reveste de nítidas características do fascismo. Mas a iniciativa corroeu como um ácido a coalizão chavista, da qual se desprenderam o partido Podemos e líderes históricos, como o general Raúl Baduel, que desempenhou o papel de protagonista na repressão ao golpe de Estado de 2002 e ocupou depois o cargo de ministro da Defesa.


Teodoro Petkoff, ex-guerrilheiro comunista e atual editor do jornal de oposição TalCual, acerta em cheio quando avalia que a vitória do ‘não’ inaugura uma nova oposição, liberta dos vícios insanáveis da AD e do Copei, os partidos tradicionais, e dos dirigentes empresariais do grupo golpista de Pedro Carmona. A nova oposição tem muitas faces, entre as quais partidos adventícios e o movimento estudantil. Mas ela incorpora as dissidências do chavismo que não aceitaram seguir adiante na via da implementação da ditadura.


Chávez atribuiu seu revés ao elevado índice de abstenção, que alcançou a marca de 44% dos eleitores. Ele está errado. O chavismo, de fato, perdeu 3 milhões de votos em relação às últimas eleições presidenciais e a oposição ganhou poucas centenas de milhares de votos. Mas os que não foram votar, quase todos eleitores tradicionais do presidente, traduziram na forma da abstenção o fenômeno da divisão da base social chavista. Diante de uma campanha oficial que identificou a pátria ao caudilho e designou o voto ‘não’ como um ato de traição, eles preferiram o silêncio. Se fossem às urnas, provavelmente completariam a trajetória de ruptura com o chavismo.


Na hora da vitória, líderes oposicionistas conclamaram o governo a um processo de ‘reconciliação nacional’. O programa de reconciliação deveria expressar a vitória da resistência democrática, que é incompatível com a manutenção dos poderes de exceção enfeixados por Chávez e sintetizados na Lei Habilitante. Mas o caudilho não renunciará ao instrumento que lhe permite governar por decreto, não reabrirá a emissora de TV que empastelou e não desistirá do sonho do Estado totalitário. Nas suas palavras, pronunciadas junto com o reconhecimento da derrota, o projeto ditatorial ‘continua vivo e não morreu’.


Revoluções têm sua própria dinâmica. A ‘revolução bolivariana’ já fabricou um partido de massas que funciona como aríete do regime chavista. No desenho da nova Constituição chavista, os ‘batalhões’ do PSUV se entregariam à formação de conselhos locais de ‘poder popular’ – com a vocação de substituir os poderes eleitos nos Estados e municípios. O caudilho está na posição do ciclista, que não tem a opção de parar de pedalar. Ele precisa alimentar, incessantemente, a máquina política na qual depositou todas as grandes expectativas de transformação da Venezuela e da América Latina.


* Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP’


 


Lourival Sant´Anna


Última opção de Chávez para tentar novo mandato é convocar Constituinte


‘Ao reconhecer a derrota no referendo de domingo sobre a reforma constitucional, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou que não desistiria de introduzir as mudanças para a consolidação do seu ‘socialismo bolivariano’. Chávez ainda não explicou como o fará. Mas só lhe resta uma opção dentro do âmbito legal, de acordo com constitucionalistas ouvidos ontem pelo Estado: convocar uma Assembléia Constituinte.


O que Chávez pretende de fato fazer permanece incerto. ‘O presidente é o único que pode falar sobre a estratégia que vai seguir de agora em diante, e ele não vai fazer isso no curto prazo’, disse ao Estado um assessor de Chávez.


Na madrugada de segunda-feira, Chávez fez uma referência emblemática, durante o discurso em que aceitou a derrota. ‘Vou lembrar uma frase minha: ?Por agora não pudemos?’, disse o presidente, numa alusão à sua declaração de 4 de fevereiro de 1992, quando, em cadeia de rádio e TV, anunciou aos seus camaradas militares e à nação o fracasso do golpe militar por ele liderado.


‘Não ouvi falar disso (Assembléia Constituinte)’, disse ontem ao Estado José Vicente Rangel, que foi vice-presidente entre abril de 2002 e janeiro deste ano e continua sendo um dos principais conselheiros de Chávez. ‘Não sei qual o plano do presidente, mas não creio que ele vá seguir esse caminho. É preciso deixar de cansar o povo com tantas eleições.’


O general Raúl Baduel, ex-ministro da Defesa, antecipou-se na segunda-feira e propôs a convocação de uma Constituinte. ‘Há um setor que quer mudar a Constituição e não podemos desconhecê-lo’, afirmou o general. ‘Para diminuir a polarização causada por essa proposta (de reforma), um poder constituinte poderia criar um pacto de consenso máximo’, acrescentou.


Baduel rompeu com Hugo Chávez por considerar a reforma via referendo um ‘golpe constitucional’, e disse que defende um ‘socialismo democrático’.


A LEI ATUAL


‘A iniciativa de reforma constitucional que não for aprovada não poderá ser apresentada de novo em um mesmo período constitucional à Assembléia Nacional’, reza o Artigo 345 da atual Constituição venezuelana, promulgada por Chávez em seu primeiro ano de governo, em 1999. De acordo com os constitucionalistas Alfredo Parés e Juan Manuel Hernández, o ‘período constitucional’ significa um mandato presidencial.


Por outro lado, disseram ambos, Chávez não terá um novo mandato, se continuar apegado à lei, a menos que convoque uma Constituinte para redigir uma nova Constituição. Isso porque, depois de reeleito no ano passado, ele já está no segundo e último mandato consecutivo, segundo a Constituição. E a introdução da reeleição indefinida, como o presidente venezuelano pretendia com a reforma constitucional, é uma mudança que não pode ser aprovada apenas pela Assembléia Nacional.


Aliás, na visão dos dois constitucionalistas – e de 92 professores universitários que firmaram um manifesto a respeito -, essa e outras alterações submetidas ao referendo de domingo nem sequer poderiam ter sido feitas por meio de uma reforma constitucional, mas só por uma Assembléia Constituinte.


De acordo com o Artigo 342 da Constituição em vigor, não podem ser modificados ‘princípios fundamentais do texto constitucional’ por meio de reforma constitucional. Era exatamente o que fazia a proposta de alteração de 69 artigos feita por Chávez e pela Assembléia Nacional, disse Parés, diretor da Faculdade de Direito da Universidade Católica Andrés Bello.


REDUÇÃO DA JORNADA


Integrante do partido de oposição Primeiro Justiça, Hernández avalia que apenas dois itens da reforma podem ser aprovados sem alterar a Constituição: a redução da jornada de trabalho de 8 para 6 horas diárias e a extensão dos benefícios da Previdência para os trabalhadores autônomos – dois ‘caramelos’, segundo a oposição, que o governo incluiu na reforma para torná-la mais palatável.


O presidente da Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecámaras), José Manuel González, disse ontem que os empresários estão ‘abertos ao diálogo’ a respeito da redução da jornada. ‘Não sei se convém ao país, mas, se se chegar a essa conclusão, não temos nenhum problema’, afirmou González. ‘Temos de abandonar as demagogias sobre esses temas.’’


 


TV TAXI
Daniel Gonzales


Táxis de SP ganham canal de TV próprio


‘Começou com os ônibus e depois veio o metrô paulistano. Agora, são os táxis da cidade que ganham uma ‘emissora’ de TV. A novidade, batizada de TV Taximania, está no ar desde o início do mês em 100 veículos que circulam pela região das Avenidas Brigadeiro Faria Lima, Luís Carlos Berrini e Hélio Pellegrino, na zona sul.


Até o fim do mês, pelo menos mil táxis de todas as regiões de São Paulo devem circular com a TV, segundo a Taximania – empresa que criou o sistema e mantém a programação. Ela dura 25 minutos e tem pequenos programas com dicas de eventos, moda, turismo e beleza, apresentados pelo ator Otaviano Costa, da Rede Record, com participações da atriz Virgínia Novick e do comediante Oscar Pardini, entre outros. A meta é expandir, depois de 2008, a TV para a maioria da frota paulistana, de 36 mil táxis .


A nova mídia contorna um vácuo criado pela Lei Cidade Limpa para o setor de propaganda: a proibição da publicidade externa nos táxis. Diante do veto de uso de prismas, banners e cartazes de propaganda sobre os veículos, nas laterais e nos vidros, a solução foi migrar para dentro dos carros. ‘No entanto, já tínhamos o projeto antes da Lei Cidade Limpa’, afirma Marcus Cirilo, diretor da Taximania.


Segundo ele, a Prefeitura receberá parte da receita publicitária arrecadada com os anúncios. As conversações sobre valores vão ocorrer nos próximos dias. Só com o sistema de TV implementado em 140 ônibus, a Bus TV, a SPTrans arrecada, por ano, R$ 1 milhão.


A aceitação dos passageiros, segundo o taxista Pedro Carmelo, que foi um dos primeiros a instalar a TV, em fase experimental, é muito boa. ‘Os passageiros pedem para aumentar o som. Quando há crianças, pedem para trocar de lugar com os pais para ficar mais perto da tela.’’


 


LITERATURA
Antonio Gonçalves Filho


Retrato de uma família disfuncional


‘A jornalista americana Jeannette Walls, até recentemente, podia ser vista entrevistando celebridades. Bonita e glamourosa, ela desapontou amigos esnobes da Park Avenue quando resolveu contar a história de sua infância e de seus pais no autobiográfico O Castelo de Vidro (Nova Fronteira 368 págs. , R$ 39,90), radiografia impiedosa de uma família disfuncional americana, que Brad Pitt leva brevemente ao cinema, numa produção bancada pelo próprio ator.


O livro, lançado em agosto do ano passado nos EUA, ocupa desde então o primeiro lugar de todas as principais listas de não-ficção americanas, incluindo a do jornal The New York Times. Se o leitor conseguir passar das três primeiras páginas, em que Jeannette Walls descreve a mãe remexendo o fundo de um latão de lixo na rua, é sinal de que terá coragem para seguir adiante. Ela conta como a mãe e o pai alcoólatra foram descendo na escala social até atingir o nível da sarjeta. Por telefone, dos EUA, a autora concedeu uma entrevista ao Estado.


Qual foi seu objetivo ao escrever sobre sua família? Entender seus pais ou a si mesma?


(Ri) Acho que ambos. Vinha pensando em escrever já há algum tempo. Na verdade, desde que era jovem imaginei escrevê-lo, mas faltou coragem. Era um desafio ver minha mãe na rua e por muito tempo tive dificuldades de encarar a verdade. Não poderia mentir a respeito do passado, mas tinha um pouco de vergonha daquilo que fui e da minha família, enfim.


A sua é a história de uma família disfuncional, sobre como você e seus irmãos se uniram para sobreviver a uma estrutura caótica. Como conseguiu contar essa história sem o mínimo traço de autopiedade, tendo pais tão autodestrutivos?


Não sou uma pessoa amarga. Na verdade, sou feliz. Creio que o segredo da felicidade é não guardar ressentimento. Sou pragmática. Percebi que não poderia sobreviver naquelas condições, o que me fez tomar uma atitude diante da situação. Quando você se educa para ver o outro como indivíduo, responsável por suas ações, mesmo que seja uma pessoa que você ama muito, acaba concluindo que há limites para seu desejo de mudá-la.


A metáfora que você usa no título de seu livro, O Castelo de Vidro, é também uma prova de que seu pai nunca pretendeu construir esse castelo em vida. Qual você acha que era a meta real de seu pai e sua mãe?


Engraçado, não pensei nesse título como metáfora de nossa precária estrutura familiar. De fato, ele encerra uma parábola sobre um sonho não realizado. Era um sonho de meu pai o de construir um castelo de vidro. Fazíamos juntos projetos como esse, que nunca seriam realizados, mas nos quais eu tinha de acreditar para ter esperança no futuro. Ele havia instituído o caos em nossas vidas, mas não podia imaginar minha vida sem ele. Ou sem o castelo.


Quais os traços de personalidade você herdou de seu pai e de sua mãe?


De meu pai acho que herdei a esperança e a crença num futuro melhor. De minha mãe, o senso de sobrevivência e o otimismo. E, de ambos, a crença de que devemos primeiro acreditar em nós mesmos e amar a educação e a verdade. Se você acredita em si mesmo e é otimista, o resto é detalhe.


A busca da liberdade e de aventura, no caso de sua mãe, poderia ser explicada pelo excesso de disciplina a que foi submetida quando jovem na casa de seus avós, da alta classe média. Como você explicaria o carisma de seu pai, sendo ele um homem frágil com problemas de alcoolismo?


Acho que ele fez o melhor que conseguiu em vida, para um homem que já bebia muito aos 15 anos e não teve o amor ou o apoio dos pais, apenas de um professor de inglês que o ensinou a acreditar em si mesmo. O que me choca é que ele passou sua vida tentando ser o que não era, reinventando-se para sobreviver – sem grande sucesso, devo acrescentar. Acho que ele teve de confrontar o próprio fantasma e isso foi demais para ele.


Você acha que seria a pessoa que é hoje se tivesse sido criada numa típica família americana de classe média, e não numa família nômade, sempre na estrada, fugindo de credores e sem referência de um lar?


É difícil responder. Não sei se teria sido melhor crescer num lar com refeições regulares. Não, eu certamente não seria a mesma, pois dependemos de obstáculos para aprender a superar dificuldades que a vida nos impõe. Somos o resultado daquilo que vivemos no passado e não se pode apagá-lo, fingindo que nada aconteceu. E, mesmo aceitando, ainda há a questão do bem e do mal para resolver. Temos de decidir, no final, de que jeito vamos viver. Foi quando percebi que não queria a vida de meus pais para mim que resolvi mudar.


Sua mãe, ao que parece, não ligou a mínima para o que você relata no livro, mas li que seus irmãos a desencorajaram a escrevê-lo. Por quê?


O livro é catártico. Tentei escrevê-lo antes, mas joguei fora as 200 páginas que esbocei num fim de semana. Então, incentivada por meu marido e seguindo o conselho de minha mãe, que sempre me encorajou a dizer a verdade, resolvi contar nossa vida. Fiquei nervosa quando ele foi lançado, temendo uma reação negativa de mamãe. Tentei mostrar o livro antes de ser editado, mas ela não mostrou interesse. Quando publicado, disse que gostou.


Você diz de sua mãe que ela é uma pioneira, uma sobrevivente que é vista como freak numa sociedade de consumo como a nossa, sendo ela uma mulher que trocou o conforto de uma casa para viver dos restos da civilização na ruas. Você não acha que ela pode ter algum distúrbio mental, ser bipolar, por exemplo?


Ela costuma dizer que descende dos pioneiros que conquistaram o oeste americano e por isso sobrevive com garra. Não creio que seja bipolar. Pelo menos, nunca foi diagnosticada como doente mental. Eu e John, meu marido, tentamos arrumar uma casa para ela em West Virginia, mas minha mãe prefere vagar por Nova York e aquecer os pés com os gatos que dormem sobre ela. É de cortar o coração, como era ouvir meu pai me pedir para comprar um litro de vodca vagabunda. Contudo, você não pode mudar as pessoas.’


 


Sobrevivente do naufrágio doméstico


‘É preciso coragem para escrever um livro como O Castelo de Vidro. Primeiro, porque é difícil falar sobre pais desajustados sem julgá-los. Segundo, porque seria normal uma pessoa que passou por tudo isso revelar certo ressentimento. Nem julgamento nem autopiedade. O anticonformismo dos pais de Jeannette Walls nada teve de heróico, mas, paradoxalmente, ajudou a salvar criaturas que estariam condenadas nesse lar – força de expressão – formado por um pai alcoólatra, desonesto e violento, e uma mãe artista, alienada a ponto de esquecer as necessidades básicas de suas quatro crianças. Comer, por exemplo. Rômulo e Remo, lembrou uma amiga americana, tiveram melhor sorte. Ao menos havia uma loba para alimentá-los.


É melancólica a descrição da lembrança mais antiga da jornalista, ela com 3 anos, morando num acampamento de trailers no Arizona e tentando cozinhar algumas salsichas para saciar a fome, enquanto a mãe cantava no cômodo ao lado. O desastre foi inevitável. Jeannette escapou por pouco. Com um dos cobertores doados pelo Exército, a mãe cobriu a filha em chamas e levou-a ao hospital. Seis semanas depois, o pai apareceu e, para surpresa das enfermeiras, que gritavam no corredor, Rex Walls, cheirando a uísque e cigarro, fugiu com a filha para não pagar a conta. Detalhe: a mãe, os irmãos e o cão Juju esperavam por ela num velho Plymouth caindo aos pedaços. Foi com essa sucata rodante que cruzaram os Estados Unidos de ponta a ponta, fugindo de credores e procurando novos bicos para o pai.


Quando o dinheiro finalmente acabou e a excitação dessa vida de aventuras virou cinzas, os pais assumiram a persona de Blanche Dubois e aceitaram depender da bondade de parentes. Instalaram-se na pequena cidade mineradora de Welch, no Estado de Virgínia, até que Rex Walls, num de seus acessos etílicos, tropeçou na casa da vovó de Jeannette, avançou sobre as crianças, levantou o punho fechado, derrubou a cristaleira, atirou os talheres pela sala e ainda estraçalhou uma das cadeiras contra a mesa. A mãe, que estava no banheiro, saiu correndo e engalfinhou-se com o marido, quase matando o homem com uma faca de açougue. Cenas como essa não eram incomuns na família Walls.


Com tudo isso, parece natural que Jeannette, suas duas irmãs e o irmão aprendessem a cuidar de si mesmos. Foram para Nova York tentar a sorte. Moraram precariamente até que Jeannette arranjou emprego e ganhou uma bolsa de estudos para estudar no Barnard College. Os pais pegaram o furgão e foram atrás de seus meninos, mas não para pedir ajuda. Preferiram assumir a condição de sem-teto a aceitar a oferta da filha para morar num lugar decente. Rose Mary, a mãe intelectual, continuou sua vida de leitora de Balzac, enrolada em seus gatos durante o inverno para não morrer congelada. De vez em quando encontrava a filha e ia com ela a um restaurante chinês, onde enchia a bolsa de salgadinhos e sachês de molho de soja. O pai morreu de tuberculose, aos 59 anos. E, finalmente, Jeannette Walls aprendeu a rir, apesar de tudo.’


 


TELEVISÃO
Leila Reis


‘Eu quero mais é ver a Globo penar’


‘A estrela da teledramaturgia da Record chama-se Tiago Santiago. Formado dentro da Globo, onde atuou como ator, roteirista e colaborador de vários autores, Tiago trocou de emissora para escrever sua própria novela (Escrava Isaura foi a primeira). Hoje, além de assinar Caminhos do Coração, ele trabalha como consultor de dramaturgia da emissora. ‘Ganho mais do que qualquer autor na Globo.’ Nesta entrevista exclusiva, Tiago avisa que não sofreu repreensão por parte da direção da emissora por colocar a discussão sobre descriminalização das drogas na novela: ‘Só recebi um pedido para não insistir no assunto porque já havia sido abordado na novela anterior.’


Você levou um puxão de orelha por defender a descriminalização das drogas na novela?


Ao contrário do que saiu na imprensa, não fui repreendido por ninguém. O que houve foi um pedido para não insistir nessa discussão porque ela já havia sido feita em Vidas Opostas. Achei que fazia sentido.


A audiência de Caminhos do Coração está dentro do que você prometeu à emissora?


Temos dado 18 pontos de média no Ibope (Grande São Paulo) o que é muito bom porque qualquer coisa acima de 10 já é suficiente para sustentar o investimento. Minha meta é bater a média geral de Prova de Amor, a maior da emissora, que foi de 17 pontos.


A pressão por audiência é grande?


Não, mesmo porque a audiência dos três primeiros meses de Caminhos do Coração foi a melhor de todas as novelas da Record no período e isso, por si só já criou a sensação dentro da emissora que seria sucesso.


Por que os seres mutantes estão se proliferando como Gremlins na sua novela?


Porque é muito divertido. A possibilidade de tirar do baú figuras mitológicas, arquetípicas, multiplica as possibilidades de ações na novela. As pessoas estão gostando muito dos efeitos visuais e do humor. Vão surgir ainda mais lobisomens, vampiros e mutantes de todos os tipos. Gosto do gênero terrir, que exercitei quando escrevi Vamp, na Globo.


Qual é a principal diferença entre a Globo e a Record?


Na Globo, fui colaborador durante 14 anos sem conseguir fazer minha própria novela. Aqui, sou o titular. Lá eu era prata, na Record eu sou ouro, quase diamante. A grande diferença é estar em uma rede em ascensão e não em decadência.


Você é o Gilberto Braga da Record?


É diferente. Sou consultor de dramaturgia na Record, coisa que Gilberto nunca foi na Globo. A novela Amor e Intrigas foi resultado de um concurso de autores e roteiristas que eu criei, além disso ajudo a garimpar no mercado os melhores talentos.


E verdade que seu salário saltou de 25 para 175 mil quando mudou da Globo para a Record?


Não vou dar números, mas posso dizer que ganho de acordo com o desempenho na audiência. Isso quer dizer que, se minha novela for sucesso, ganho mais do que qualquer autor na Globo.


Qual é a grande mudança na sua vida?


A maior é que vou ser pai de um menino em dezembro. E hoje sofro um assédio maior por parte de pessoas que querem mostrar seu trabalho.


Como ex-ator, você não sente falta do holofote?


Não, porque de alguma forma o holofote está meio apontado para mim. Sinto saudade de fazer teatro, interpretar, mas faço isso diante do computador quando componho os personagens. Além disso, já atuei muito. Tenho 44 anos de idade e 30 de profissão, comecei no teatro com Dina Sfat e Paulo José, em Cinco Personagens à Procura de Um Ator, do Pirandello.


Qual é o seu grande projeto?


Meu objetivo é fazer novelas e bem. Meu contrato com a Record vai até 2011 e, no que depender de mim, a Globo vai penar bastante. E em algum momento eu vou começar a fazer meus filmes como roteirista e diretor.’


 


Keila Jimenez


O mesmo assassino


‘Sabe quem matou a gêmea má Taís (Alessandra Negrini) no fim de Paraíso Tropical em Portugal? O mesmo assassino que matou no Brasil, Olavo (Wagner Moura). A Globo desistiu na última hora de gravar um novo final para a trama de Gilberto Braga em exibição na rede portuguesa SIC.


Para não perder a graça do ‘Quem matou?’ – a novela já havia chegado ao fim no Brasil -, a Globo chegou a alardear na imprensa lusitana que a história ganharia um novo desfecho assim como fez em A Próxima Vítima, de Silvio de Abreu.


Balela. A edição do capítulo final do folhetim foi exatamente igual ao exibido no Brasil, e liderou o ibope em Portugal durante seu horário de exibição, com 34,2% de participação no total de aparelhos ligados.


O único diferencial foi um programete especial, de 40 minutos, com entrevistas com atores, diretores, autores e bastidores das gravações de Paraíso, exibido no dia seguinte ao capítulo final.


Segundo a Globo, a novela segue sua carreira internacional a partir de janeiro, quando será colocada à vendas no Natpe, a principal feira das Américas, que ocorrerá em Las Vegas.’


 


EXPOSIÇÃO
O Estado de S. Paulo


Brasil, Moçambique e a aids


‘As Notícias Que Fizeram A História da Aids no Brasil, projeto ocorrido originalmente em 2005 na capital paulista, com o apoio do jornal O Estado de S.Paulo, exposto no Conjunto Nacional, chegou esta semana a Moçambique. São painéis que reúnem cerca de 50 principais notícias que a mídia brasileira publicou sobre o assunto. O projeto virou uma exposição itinerante que já percorreu cidades do interior do Estado. Agora, a cidade de Maputo amplia os painéis, juntando a eles as principais notícias que a mídia moçambicana publicou sobre aids. O jornalista Lucas Bonanno foi o responsável pela pesquisa no país africano. O evento está ocorrendo desde segunda-feira no Centro de Estudos Brasileiros, de Moçambique. Houve até uma mesa-redonda que reuniu ativistas e jornalistas daquele país, representantes de Agências Internacionais e a editora executiva da Agência Aids, a jornalista Roseli Tardelli, que concebeu o evento envolvendo os dois países. As ações se tornaram possíveis com o apoio do Programa Nacional brasileiro, com o apoio do Unaids, Unicef e Embaixada Brasileira em Moçambique. Durante esta semana, mais debates e workshops estão programados.’


 


JORNALISMO NO CINEMA
Luiz Carlos Merten


A imprensa marrom, vista pelo gênio corrosivo de Wilder


‘No começo dos anos 50, logo após o impacto provocado pelo clássico noir Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), o grande Billy Wilder prosseguiu com a sombria investigação da realidade norte-americana e fez outro filme que virou cult, A Montanha dos Sete Abutres. Depois dos bastidores do cinema, Wilder dirigiu sua câmera para o meio jornalístico, para discutir a imprensa – o quarto poder.


Kirk Douglas faz o jornalista sem caráter que é despedido de um grande jornal e encontra a chance de poder voltar explorando o caso de um infeliz que ficou preso numa mina. Sem nenhuma compaixão, e pensando apenas em dar projeção nacional ao caso, ele arma um grande circo, inclusive tirando proveito da ambição da mulher da vítima.


Em 1951, quando este filme foi feito, o público se assustou com a crítica de Wilder e rejeitou A Montanha dos Sete Abutres na bilheteria. Com o tempo, o filme virou cult e hoje é considerado uma das obras-primas do autor. Wilder voltou a discutir a imprensa em A Primeira Página, de 1974, que é melhor ainda. A Montanha passa às 19h55 no Telecine Cult. Escaldado pelo fracasso, Wilder trocou o cinema noir pela comédia e iniciou outra fase importante de sua magnífica carreira.’


 


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