Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

DIRETóRIO ACADêMICO > FIM DE SEMANA, 13 E 14/9

Folha de S. Paulo

16/09/2008 na edição 503

ARTE
Jackie Wullshlager, do Financial Times

Damien Hirst muda relação arte-dinheiro

‘O que é, o que é, que só vale depois de ser avaliado? Ou, nas palavras de Andy Warhol, ‘arte é aquilo do qual você consegue convencer as pessoas’.

O artista britânico Damien Hirst, o descendente pós-pop de Warhol, compreende melhor que ninguém que arte e dinheiro sempre precisaram um do outro. ‘Beautiful Inside My Head Forever’ (Lindo para Sempre em Minha Cabeça), sua exposição de 223 trabalhos novos a serem vendidos pela Sotheby’s amanhã e terça-feira, anuncia uma mudança radical mas insidiosa nesse relacionamento no século 21. Será um tapa na cara dos marchands -a primeira vez que uma casa de leilões vende obras novas-, e a performance-instalação de Hirst é um marco, não apenas por mostrar a arte sendo vendida de maneira nova, mas porque a mostra sendo feita, vista e compreendida também de maneira nova.

Uma façanha conseguida é a das dimensões da exposição, mais próprias de uma linha de produção. Tubarões, tanques, borboletas, estantes, pontas de cigarros, diamantes, tudo foi produzido em escala industrial pelas oficinas de Hirst de modo a fornecer artigos prontos diretamente para os clientes. É claro que já houve artistas que tiveram assistentes e oficinas -o ateliê de Rubens na Antuérpia fez dele um dos homens mais ricos da Europa do século 17.

Mas a forma de ‘desintermediação’ adotada por Damien Hirst é contemporânea, ecoando a maneira direta como bandas vendem música ou empresas vendem ações on-line, em lugar de fazê-lo por intermédio de gravadoras ou corretores.

É populista, arrumado e tão frio e clínico quanto os armários de remédios de Hirst. A Sotheby’s vai oferecer estimados US$ 114 milhões (82 milhões de euros) em objetos ‘obrigatórios’ da marca Damien Hirst, desde pinturas de pontos até uma zebra conservada em formol, para sedes de grandes empresas e colecionadores ricos -museus não têm recursos para comprá-los- que celebram o capitalismo sob uma leve ótica irônica. Assim, os aspectos ambivalentes e rebeldes da aliança entre artista e patrono, a ameaça que os artistas tradicionalmente representam à mão que os alimenta -a sátira presente nos retratos bombásticos de monarcas espanhóis pintados por Velázquez e Goya, o ataque à hipocrisia sexual burguesa desferido por Manet em ‘Olympia’ e ‘Déjeuner sur l’Herbe’, as latas seladas de Manzoni rotuladas ‘Cocô de Artista’- são substituídas pelo conluio da arte com a cobiça e o brilho barato.

Warhol (‘ganhar dinheiro é arte, trabalhar é arte e bons negócios são a melhor arte’) e Jeff Koons (que conferiu uma aura de alta cultura a bens de consumo como aspiradores de pó) foram profetas desse conluio, mas ‘Beautiful Inside My Head Forever’ representa seu apogeu. Não importa o que vende e o que não vende. Ao lado do crânio cravado de diamantes criado por Hirst em 2007, ‘For the Love of God’ (Pelo Amor de Deus), a venda de obras folheadas a ouro como ‘The Golden Calf’ (O Bezerro de Ouro, estimado em algo entre 8 e 12 milhões de libras) e ‘False Idol’ (Ídolo Falso, entre 1,8 e 2,5 milhões de libras) cristaliza e encena uma estetização do dinheiro específica de nossa década. Tendo como emblemas o tubarão de boca aberta, o touro e o crânio reluzente e banal de Hirst, a história da arte nos últimos 20 anos se distingue não por um movimento ou estilo dominante -o novo pluralismo global torna isso impossível-, mas pela alta sem precedentes, irrefreável, absurda e obscena do próprio mercado de arte. É assim que seremos recordados; é por isso que Damien Hirst é a voz de nossos tempos.

Consumo de arte

As raízes remetem aos consumistas e democratizantes anos 1960, quando comprar arte começou a ser visto como investimento, mais que como a área de atuação de colecionadores aristocratas. Foi apenas em 1987, porém, quando ‘Girassóis’ de Van Gogh foi vendido pela Christie’s por US$ 39,9 milhões, triplicando o recorde de qualquer obra de arte, que o ‘hype’ e a beatificação de objeto e leilão -multidões fizeram filas para olhar o quadro rapidamente- deslancharam a espécie de ritual que cerca as extravagâncias de Hirst.

O ‘timing’ foi importante: faltando dois anos para a queda do Muro de Berlim, a Sotheby’s já planejava seu primeiro leilão em Moscou, que fez sucesso em 1988. O que se desenvolveu a partir disso foi um mercado de arte atrelado simbolicamente ao triunfo do capitalismo de fim da história. Os compradores mais endinheirados de hoje são russos. Uma liquidez com a qual ninguém até então sonhara possibilitou a compra de arte nessa escala, mas a força motriz, nos últimos dez anos, tem sido a necessidade do capitalismo de justificar seu próprio valor, na ausência de um inimigo. Assim, o dinheiro destila a arte em termos puramente financeiros em espetáculos como o Frieze de Londres e as feiras de Miami e Basiléia, e os preços vertiginosamente crescentes criam uma rede de filó de símbolos de dólar através da qual o público vê os trabalhos de arte e, cada vez mais e de maneira mais prejudicial, através da qual os artistas a criam.

Há meio século o crítico Meyer Shapiro avisou sobre o perigo da derrubada das diferenças entre o valor espiritual e o valor comercial da arte. Os artistas sempre se dividiram entre os mundanos, como Rubens ou Picasso, os pobres, como Vermeer ou Van Gogh -que vendeu apenas uma tela em sua vida-, e alguns poucos que temeram a riqueza, achando que os corromperia, e entraram em pânico quando a obtiveram, como Rothko. Nada disso afetou suas reputações no longo prazo nem afetou os inevitáveis desabamentos: Burne-Jones, por exemplo -seu antes celebrado ‘Love and the Pilgrim’ (O Amor e o Peregrino) foi arrematado por 5.775 libras em 1898, por 210 libras em 1933 e por apenas 21 em 1942.

Será que o mesmo pode acontecer com Damien Hirst, ou estarão interesses investidos tão estreitamente amarrados à economia do gosto que um crash é uma impossibilidade? E quem é o tubarão devorador -a Sotheby’s, o mercado de arte, a cobiça global ou o próprio Damien Hirst, artista-empreendedor que domina as imaginações de todos os que o cercam com seu toque de Midas brilhante mas devastador, convertendo a criação de arte em algo mortalmente gelado e calculado? Apesar dos extremos de dinheiro e ‘hype’ no escalão artístico mais alto -ou melhor, em razão deles-, está mais difícil que nunca para artistas jovens criarem obras originais, relevantes e sem referências anteriores, e mais difícil para nós descobrir essas obras. O dinheiro fala, mas em uma língua que já conhecemos. O leilão da Sotheby’s na segunda-feira vai entreter -mas, mesmo assim, os recantos silenciosos do mundo das artes ainda são lugares mais fascinantes, mais fortemente imprevisíveis.

JACKIE WULLSCHLAGER é crítica de arte do ‘Financial Times’

Tradução de CLARA ALLAIN’

 

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Série da Record vai mostrar limite entre lei e crime no país

‘A Record deve estrear em novembro o primeiro seriado da atual fase da teledramaturgia da emissora, produzida em central de estúdios no Rio.

‘A Lei e o Crime’ será escrito por Marcílio Moraes, autor de ‘Vidas Opostas’. Heitor Martinez está cotado para viver um dos protagonistas. Boa parte da série será ambientada em um morro do Rio, como ‘Vidas Opostas’, mas Moraes recusa comparações com a novela.

A heroína será uma mulher da alta sociedade que se torna delegada. Sua trajetória cruza com a de um traficante e com a de um policial miliciano.

A trama se desencadeia a partir de um conflito que começa na Baixada Fluminense e vai parar em um morro. Segundo Moraes, a série terá uma dose de mistério com o assassinato do pai da protagonista.

‘Pretendo tratar dessa ambigüidade entre lei e crime que existe no Brasil. Aqui se justifica o policial miliciano, que mata bandido. Em muitos lugares, o traficante é a lei. Às vezes, as pessoas preferem a lei dele à da polícia, que é mais truculenta. A história será montada para mostrar os limites dessa zona cinzenta entre lei e crime, por isso o título’, afirma Moraes.

Inicialmente, ‘A Lei e o Crime’ (esse nome ainda é provisório) seria um especial de fim de ano com potencial para virar seriado. Mas a cúpula da Record gostou tanto do roteiro do piloto que já aprovou a série e encomendou mais 15 episódios a Marcílio Moraes.

Nesta semana, ocorre a primeira reunião para definição de elenco. A direção deverá ser de Alexandre Avancini, atualmente em ‘Os Mutantes’.

VIDA DE GALÃ

Daniel de Oliveira (foto), 31, gravou quarta-feira sua última cena em ‘Som e Fúria’, que Fernando Meirelles dirige para a Globo. Na minissérie, sobre os bastidores de uma companhia teatral, interpreta Jacques Maia. ‘Ele é um ator de TV conhecidíssimo. É convidado para fazer Hamlet. As pessoas do teatro olham atravessado para ele, mas seu Hamlet é convincente’, diz. Daniel pediu dicas para Wagner Moura, que faz Hamlet no teatro. ‘O Wagner me deu grandes idéias’, agradece.

A BARRIGA CRESCEU

Em ‘Por Amor’ (1997), ela era uma menina, Sandrinha, irmã da irritante Eduarda de Gabriela Duarte. Nos últimos 11 anos, o público das novelas da Globo a viu crescer na TV. Hoje com 18 anos, Cecília Dassi (foto) interpreta em ‘Três Irmãs’, nova novela das sete, uma adolescente que engravida na primeira relação com o namorado. Natália, sua personagem, é descrita pelo autor Antonio Calmon como ‘uma moça doce, inconseqüente e ingênua’. A gravidez de Natália gera um drama. Os pais a forçarão a se casar com o namorado. Mas os dois não se amam.

GENTE QUE SURFA

A vinheta de abertura de ‘Três Irmãs’ trará ondas espetaculares e tatuagens que se movem sobre os rostos das protagonistas (Carolina Dieckmann, Claudia Abreu e Giovanna Antonelli). Foi produzida fora da Globo, a partir de briefing de Hans Donner, pelo Grupo Sal, um ‘conglomerado’ de quatro pequenas empresas cariocas de publicidade, cinema e design. ‘Das 30 pessoas que trabalham no grupo, 25 surfam’, conta Rafael Mellin, 29, considerado uma das pessoas mais influentes do surfe nacional.

PONTAPÉ

O SBT começa em janeiro a produzir a primeira novela do pacote de textos radiofônicos de Janete Clair que comprou recentemente. A obra de estréia ainda não foi definida por Silvio Santos.

ÂNCORA

Rodrigo Santoro será o apresentador do AXN Film Festival, mostra de curtas que o canal exibe em novembro. Laís Bodanzky e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, estão no júri.

PERGUNTA INDISCRETA

FOLHA – Por que o ‘CQC’ tem aquela câmera tremida, nervosa? É para irritar o telespectador ou o cinegrafista é tão inexperiente quanto o repórter do programa?

DIEGO BARREDO (diretor do ‘CQC’) – Participamos de um projeto experimental da Band. O ‘CQC’ na verdade não é transmitido de São Paulo, mas da costa brasileira, num estúdio-barco flutuante. Às vezes o mar está agitado, e as câmeras oscilam demais, podendo causar desconforto ao telespectador.’

 

 

Silvana Arantes

Alice na cidade

‘Garota de 20 e poucos anos alimenta a perspectiva de amadurecer ancorada num grande amor -e num casamento. Uma viagem (sem o par) muda seus planos e sua vida. Esse é o início da história de ‘Alice’, que será contada em 13 episódios da minissérie que a HBO estréia no próximo domingo no Brasil e no restante da América Latina.

É assim também que começa o longa ‘O Céu de Suely’ (2006). Filme e série têm direção do cineasta Karim Aïnouz e pouco mais em comum. Quando migrou (temporariamente) do cinema para a TV, era a diferença que Aïnouz buscava.

O amplo sucesso de crítica de ‘O Céu de Suely’ e seu relativo fracasso de público (46 mil espectadores, com dez cópias em cartaz) deixaram o diretor ‘confuso’ e cheio de interrogações, que enumera: ‘Qual a função do cinema no Brasil? Os filmes são produto de massa ou de luxo? Onde estou inserido?’.

No convite para dirigir ‘Alice’ -em parceria com o também cineasta Sérgio Machado (‘Cidade Baixa’)-, Aïnouz viu a chance de ‘experimentar um formato [de produção audiovisual] com distribuição previamente arquitetada’.

A HBO possui 1,5 milhão de assinantes no país (incluindo os canais Cinemax e Max Prime). A empresa aposta no potencial de expansão dessa base e projeta o Brasil como seu principal mercado na América Latina. Para ‘ter um diferencial que faça o assinante pagar a mensalidade contente’, o executivo da empresa na região, Luis Peraza, investe no incremento da produção de séries no Brasil, ainda que, para isso, tenha que gastar um pouco mais.

Episódio a R$ 1 milhão

Segundo Peraza, cada episódio da série no Brasil custa em torno de R$ 1 milhão. ‘Produzir com qualidade equivalente no México custa 80% disso e, na Argentina, a metade’, afirma.

Seguindo a ‘decisão de ter um projeto na maior cidade do país’, conforme diz Peraza, ‘Alice’ é a primeira série do canal gravada em São Paulo. ‘Filhos do Carnaval’ e ‘Mandrake’ têm o Rio como cenário.

Por sugestão de Aïnouz, Alice, a personagem-título, é uma migrante na cidade. Essa condição permitiu ao diretor fotografar São Paulo com cores intensas, como ‘num mundo um pouco alterado, distante do naturalismo no sentido televisivo’, porque essa é a perspectiva pela qual Alice a vê.

Na opinião de Aïnouz, ‘existe uma sub-representação de São Paulo na TV’. Ele cita a atual novela das oito da Globo, ‘A Favorita’, em que ‘a cidade não é porosa, parece que os personagens não estão em São Paulo’.

Tocantins, o contraponto

O ponto de partida de Alice, interpretada pela atriz Andréia Horta, é Palmas, a capital planejada do Tocantins, projeto pelo qual Aïnouz, formado em arquitetura, cultiva ‘certa fascinação’ e em cuja paisagem ‘rarefeita’ ele vê um bom ‘contraponto de São Paulo’.

Peraza diz que ‘é cedo’ para dizer se ‘Alice’ terá uma segunda temporada. Quer, antes, ver ‘a reação dos assinantes’.

Aïnouz prepara a volta ao cinema, com seu terceiro longa, ‘Praia do Futuro’ (título provisório), um projeto ‘superpessoal’, regado pela vontade de ‘fazer um filme em que a ação gere vida, não tiros e morte’.’

 

 

Sergio Rizzo

Resultado está abaixo do talento dos realizadores

‘A personagem do escritor inglês Lewis Carroll, com sua jornada de descoberta por um universo paralelo, é objeto de referências diretas em ‘Alice’. A certa altura, figuras em forma de coelho bóiam em uma piscina. Dali a pouco, um diálogo menciona suas aventuras. Outras duas Alices mais contemporâneas também ecoam na escolha do nome: a menina criada pelo alemão Wim Wenders -cineasta referencial para Karim Aïnouz em ‘O Céu de Suely’ (2006)- no seu quarto longa, ‘Alice nas Cidades’ (1973), e a de Carla Ribas (que faz papel importante na minissérie) em ‘A Casa de Alice’ (2007), de Chico Teixeira. Mencionar alusões talvez sugira que ‘Alice’ seja trabalho de expressão autoral, mas, ao menos os dois primeiros episódios, com os desafios inerentes à largada de um projeto de fôlego mais longo, apontam outro fenômeno: a diluição autoral em circunstâncias industriais de realização. Há muita gente de talento comprovado na ficha técnica, entre diretores, roteiristas, produtores e fotógrafos, mas o resultado está mais próximo de certa pasteurização moderninha da vida (sobretudo noturna) em São Paulo do que de uma abordagem reveladora de traços da metrópole. Personagens e subtramas dos 11 episódios seguintes talvez façam ‘Alice’ caminhar na direção da trilha sonora, sob responsabilidade do coletivo Instituto. A variação na seleção musical corresponde a uma busca pelo que traduz a cidade sem precisar reduzi-la.

ALICE

Quando: estréia dia 21, às 22h

Onde: na HBO (Net, TVA, Sky)

Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos

Avaliação: regular’

 

 

Cristina Fibe

‘Inquietação’ leva Cao Hamburger de volta à TV

‘Foi de uma ‘inquietação profissional’ que o diretor Cao Hamburger tirou o tema de seu próximo programa de TV, o primeiro que ele idealiza e abre mão de dirigir. ‘No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais’, série que terá seu piloto exibido no dia 22, no Futura -mas que só estréia mesmo em março de 2009-, procura entender os caminhos que a imagem e o som andam traçando juntos. ‘Para onde a gente está indo com isso, com as câmeras de vídeo pra todo lado, a internet, você mandando arquivo pra lá e pra cá, e o cinema, o que é o cinema… É sobre a minha profissão, essa é a minha inquietação. O que eu vou ser? Depois de crescer, eu vou ter que mudar de algum jeito?’, diz, aos 45. Ironicamente, o diretor lança a preocupação depois de ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’, seu segundo e mais premiado longa-metragem (o primeiro é ‘Castelo Rá-Tim-Bum’). E com uma série de outros projetos em vista.

Do Carnaval ao Xingu

Enquanto acompanha o desenvolvimento de ‘No Estranho Planeta…’, Hamburger dirige a segunda temporada de ‘Filhos do Carnaval’, da HBO, e desenvolve uma série infantil ainda a ser negociada. No cinema, deve começar a rodar, em 2009, uma ficção ambientada na região indígena do Xingu, enquanto capta recursos para um ‘suspense psicológico’ que se passa em uma UTI. ‘A gente vai girando os pratinhos’, brinca. ‘Gosto muito de televisão de qualidade, e o cinema é muito devagar, dá para fazer em paralelo, se for nesse papel de idealização e criação.’ Ele diz que ‘O Ano…’ abriu principalmente portas internacionais. Recebeu -e leu- entre 20 e 30 roteiros, mas gostou só de um, que ainda não tem produção confirmada. Em vez de Hollywood, ‘bota mais fé’ nos europeus e canadenses. ‘Para mim [‘O Ano…’], abriu muitas portas para o mundo do cinema e ao mesmo tempo mostrou que já não é o mundo audiovisual mais potente e o meio de comunicação de massa maior’, teoriza. Mas a internet, opção cada vez mais poderosa, Hamburger ainda acha ‘meio misteriosa’. ‘Quis fazer esse programa para não ficar pra trás… ficar para trás é um pouco de exagero, mas para entender o que está acontecendo.’

Na ‘caixa maldita’

E o que está acontecendo? Hamburger acredita que ‘estamos vivendo uma grande revolução’, ‘angustiante’, e que a web de hoje é a TV de sua geração. ‘Meu pai me dizia: ‘Desliga essa caixa maldita!’, e eu adorava aquilo, era um amor e um medo daquele aparelho.’ ‘Agora a gente está passando uma coisa parecida com o computador. Meus filhos ficam mais no computador do que na frente da televisão.’ Por isso, o diretor chamou ‘jovens’ para falarem ‘dessa onda pelo olhar dessa geração’. Entregou ‘No Estranho Planeta…’ a Luis Carone, Paulinho Caruso e Teo Poppovic, de ‘20 e poucos’ anos, para cuidarem do roteiro e da direção. Para realizar a idéia de Hamburger, os ‘jovens’ saíram à caça de entrevistados (o mais célebre, neste episódio, é Fernando Meirelles) e de atores que acrescentassem humor à série. Montaram tudo isso com clara inspiração em ‘Ilha das Flores’ (1989), o clássico curta-metragem de Jorge Furtado. Em um quadro, três atores fingem assistir ao programa, encarnando versões tropicais de Homer Simpson -comilões que têm dificuldade para compreender o que está sendo dito, ainda que seja tudo bem básico. Apesar de se dizer ‘satisfeito’ com o piloto, o idealizador reconhece que mudanças terão de ser feitas. Para ele, a edição à la ‘Ilha…’ não é ‘o tom do programa’. E os ‘espectadores’ talvez tenham que sair. ‘É polêmico, não sei se eles vão ter uma vida muito longa.’ ‘A mistura, a salada de linguagens e de idéias é o que eu achei bacana’, diz Hamburger. ‘Essa colcha de retalhos acho que ficou interessante para dar a dimensão do que é o audiovisual hoje, cada vez mais diversificado, cheio de formatos diferentes. Esse caminho é o que mais me interessa.’

NO ESTRANHO PLANETA DOS SERES AUDIOVISUAIS

Quando: no dia 22/9, às 21h30

Onde: no Canal Futura

Classificação indicativa: livre’

 

 

Bia Abramo

Periferia como sujeito

‘A OPORTUNIDADE , ou gancho, como se diz em jornalismo, para falar de ‘Manos e Minas’ tem uma nota de luto: morreu na última segunda-feira, 8 de setembro, aos 28 anos, o DJ Primo, que participava do programa desde sua estréia, em maio.

Era ele o responsável pelo fundo musical de Rappin’ Hood, que apresenta o programa. O primeiro e básico, muito básico, acerto de ‘Manos e Minas’ foi, justamente, o de escalar personagens cuja atuação no cenário cultural da periferia já é bastante reconhecida. Além de Primo, os escritores Alessandro Buzo e Ferréz também comandam quadros fixos do programa.

Ferréz faz uma espécie de talk-show, ‘Interferência’, entrevistando convidados. Inteligente e profundo conhecedor das questões e preocupações que envolvem a cultura da periferia, o autor de ‘Capão Pecado’ conduz as entrevistas com personalidade.

Mais surpreendente, entretanto, é o ‘Buzão da Periferia’, que visita bairros e quebradas, revelando paisagens, lugares e pessoas envolvidas com atividades culturais naqueles pontos da cidade que normalmente não são contemplados pela TV.

O nome é uma alusão a Buzo, seu repórter e MC, mas também ao fato de ele chegar nos locais de ônibus. A visita é sempre ciceroneada por algum morador.

Não é de hoje que a mídia ‘descobriu’ a periferia e sua intensa -e muito particular- produção cultural. Nem sempre essa descoberta se faz despida do ar condescendente e paternalista, quando não da desqualificação raivosa. ‘Manos e Minas’ passa ao largo de tudo isso, e não apenas pelo fato de ser um programa honesto, de ótimas idéias e que se apóia na credibilidade de seus integrantes.

Além dos programas infantis, a TV Cultura tem também tradição em programas jovens, cuja principal característica é a de trazer cenas vivas de culturas juvenis para dentro da televisão. ‘A Fábrica do Som’ foi o palco para roqueiros e músicos independentes nos anos 80; ‘Vitória’, no final da mesma década, revelou o mundo dos esportes radicais; o ‘Matéria Prima’ de Serginho Groisman era um espaço realmente aberto à participação de jovens e adolescentes na TV.

‘Manos e Minas’ tem essa marca que é mais do que participativa -ela demarca a diferença entre fazer um programa sobre os jovens e fazê-lo com os jovens, entre tratar um grupo sóciocultural como objeto e dar a chance de que ele se apresente como sujeito.’

 

 

GRAMPOLÂNDIA
Marcelo Ninio

Estado confidencial

‘Os governos quase sempre estão por trás das ações de seus serviços de espionagem, mas usam a tese do agente ‘fora de controle’ para não assumir responsabilidades. A opinião é do galês Rhodri Jeffreys-Jones, professor da Universidade de Edimburgo (Escócia) especializado em história da espionagem norte-americana. Ele cita o exemplo do lendário e controvertido J. Edgar Hoover (1895-1972), que comandou por 48 anos o FBI, a polícia federal dos EUA, e fazia escutas ilegais de inimigos políticos com o apoio tácito do presidente Franklin Roosevelt. Jeffreys-Jones, que acaba de lançar nos EUA ‘The FBI – A History’ (FBI – Uma História, Yale University Press, 320 págs., US$ 18, R$ 32), diz que os tempos de Hoover estão voltando nos EUA e em outros países, como no Reino Unido, com os poderes do governo avançando progressivamente no terreno das liberdades civis. E comenta um episódio pessoal desse tipo de controle, no qual, segundo ele, o FBI tentou censurar seu livro sobre a história da agência, que em 2008 completa cem anos.

FOLHA – Como é o histórico de escutas ilegais das agências de inteligência dos EUA?

RHODRI JEFFREYS-JONES – Uma suspeita parecida com a que cerca a Abin rondou J. Edgar Hoover. Quando era diretor do FBI ele teria grampeado pessoas influentes para desencorajá-las a criticar a agência. Casos como esse e o do Brasil sempre levantam a discussão sobre se os serviços secretos se tornaram fortes demais ou se saíram do controle. Mas a verdade é que eles nunca estão fora de controle -são sempre controlados pela Casa Branca.

FOLHA – O governo sempre esteve por trás de casos como o de Hoover e de outros abusos mais recentes?

JEFFREYS-JONES – A Casa Branca deu encorajamentos tácitos. Não há nada documentado em papel. O presidente Franklin Roosevelt, nos anos 30 e 40, certamente encorajou J. Edgar Hoover a fazer escutas telefônicas ilegais de opositores políticos. Um exemplo é o debate sobre se os EUA deveriam entrar na Segunda Guerra. Hoover grampeou as conversas de senadores americanos que se opunham à entrada dos EUA na guerra, ao lado da França e do Reino Unido, e informava o presidente sobre suas táticas políticas.

FOLHA – Usava os dados também para chantageá-los?

JEFFREYS-JONES – J. Edgar Hoover era muito sutil e inteligente. Ele não chantageava diretamente. O que fazia era mostrar aos adversários informações confidenciais sobre os colegas deles. Dessa forma, os assustava e conseguia sua submissão. As informações poderiam ser de natureza pessoal, como um filho ilegítimo ou práticas homossexuais. As pessoas tinham muito medo de serem expostas.

FOLHA – Há exemplos recentes desse tipo de prática?

JEFFREYS-JONES – O problema é que esse tipo de prática é muito facilmente ocultável. Nos anos 1970, informações sobre essas práticas chegaram à imprensa, houve uma grande investigação sobre a CIA e o FBI, e foi criada uma nova legislação. Por exemplo, em 1978, a Lei de Inteligência de Segurança Estrangeira foi sancionada com o objetivo de estabelecer padrões legais para a escuta telefônica. Em casos em que precisavam usar grampos para contra-espionagem, os agentes recorriam a cortes secretas, e o FBI ou a polícia local ou a CIA tinham que convencer os juízes da necessidade do grampo. Desde então, essa práticas e as possíveis chantagens passaram para os bastidores. Mas, sob o governo do presidente George W. Bush, a situação mudou. É sabido que o FBI, junto com a Agência de Segurança Nacional e outras partes da comunidade de inteligência dos EUA, usa métodos ilegais, ignorando essas cortes especiais. E, se são descobertos, eles podem pedir permissão de forma retroativa para grampear telefones e e-mails. Infelizmente estamos voltando à situação parecida com os tempos de J. Edgar Hoover. Cada vez mais as liberdades civis estão perdendo para os poderes do governo, não só nos EUA, mas também aqui, no Reino Unido.

FOLHA – As novas tecnologias aumentaram muito esses poderes?

JEFFREYS-JONES – A Agência de Segurança Nacional dos EUA tem satélites que podem grampear, por exemplo, qualquer ligação de telefone fixo ou celular do mundo. Nesse sentido, as ferramentas são muito mais poderosas do que anos atrás. Mas em termos de utilidade de toda essa informação, que eles mantêm armazenada, é um problema. Porque acaba-se coletando tanta informação que fica difícil analisá-la apropriadamente. Além disso, não há no serviço secreto americano tradutores suficientes em idiomas vitais, como o árabe. Uma massa enorme de dados está sendo acumulada, mas não é útil como deveria ser. Ao mesmo tempo, a coleta desses dados é muito perigosa para as liberdades civis, principalmente quando caem em mãos erradas. Um exemplo são dados pessoais sobre a saúde de alguém, doenças hereditárias que possa haver em sua família, coisas assim. Esse é o tipo de informação que as agências coletam. E, se essas informações chegam às mãos de companhias de seguro, a pessoa já não consegue fazer um seguro. É algo muito sensível.

FOLHA – Os governos dos EUA tentaram impor limites a suas agências de inteligência ou preferiram mantê-las ‘fora de controle’, para não assumirem suas enrascadas?

JEFFREYS-JONES – Essa tese de que as agências estão fora do controle do governo é controvertida, porque se trata de uma possibilidade problemática. Mais grave, contudo, é quando o governo controla suas agências de espionagem, mas bota a culpa nelas se algo dá errada. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o 11 de Setembro. Mas a verdade é que os governos quase sempre sabem o que seus serviços secretos estão fazendo. Se não sabem, deveriam assumir a responsabilidade por isso. Não sei exatamente os detalhes do caso brasileiro, mas culpar as agências de inteligência é uma forma de fugir à responsabilidade. Uma outra tática usada por governos é recompensar o fracasso. Se algo dá errado, eles pagam aos responsáveis para mantê-los calados enquanto, em público, falam mal das agências.

FOLHA – O sr. teve um incidente recente com a inteligência americana, quando o FBI ordenou a retirada do logotipo da agência da capa de seu livro. Por que o sr. acha que há outras intenções por trás disso?

JEFFREYS-JONES – O FBI sob J. Edgar Hoover era muito pouco tolerante com qualquer tipo de crítica. E acho que [no caso do meu livro] o FBI mais uma vez tenta estrangular a crítica. Ele tem algumas críticas, mas é um livro bem equilibrado. Neste ano o FBI completa cem anos. Outro livro foi lançado sem problema com o logotipo do FBI na capa, mas mostra a agência de forma bem mais positiva. Acho que o que querem é projetar o livro que lhes é mais favorável.

FOLHA – Para liberar o livro com o logotipo, o FBI exigiu fazer uma ‘revisão’ da obra, o que o sr. não aceitou por considerar uma tentativa de censura. Que partes o sr. desconfia que eles censurariam se pudessem?

JEFFREYS-JONES – Eles ficaram muito irritados porque escrevi que o FBI sempre teve problemas com racismo. Outra parte que causou desconforto foi a que mostra que a luta contra o terrorismo se tornou ineficiente pelo fracasso do FBI e da CIA em trocar informações.’

 

 

Grampo no STF desencadeou crise na Abin e no governo

‘A espionagem mobiliza o primeiro escalão dos três Poderes desde a publicação de trechos de uma conversa telefônica entre Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), ocorrida em 15/7.

Segundo a revista ‘Veja’, que publicou a transcrição no final de agosto, a gravação veio de um agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O grampo foi interpretado como uma tentativa do governo federal de controlar o Judiciário.

O Executivo acabou por afastar membros da cúpula da Abin. Atualmente são investigados a colaboração entre Abin e Polícia Federal na Operação Satiagraha e o uso de maletas capazes de realizar escutas telefônicas sem necessidade de colaboração das empresas de telefonia.

Desde o início do ano, a CPI dos Grampos já tinha uma intensa agenda de depoimentos relacionados ao tema. Debate-se a ilegalidade e a falta de critério na autorização de certas escutas -contam-se 407 mil grampos autorizados pela Justiça brasileira em 2007.’

 

 

EUA espionam aliados no Iraque, diz Bob Woodward

‘Em seu novo livro, o jornalista Bob Woodward acusa o governo dos EUA de espionagem contra seus aliados no Iraque -incluindo o premiê Nouri al-Maliki e outras personalidades do primeiro escalão. O presidente dos EUA, George W. Bush, também praticou ingerências no manejo da Guerra do Iraque, como usar um general reformado para influenciar o comando do Exército americano, diz o repórter do ‘Washington Post’.

‘The War Within – A Secret White House History, 2006-2008’ (A Guerra de Dentro -Uma História Secreta da Casa Branca, ed. Simon & Schuster, 512 págs., US$ 32, R$ 56) apresenta documentos inéditos e entrevistas com militares e políticos -incluindo Bush.

O governo iraquiano disse que pediria explicações aos americanos sobre a espionagem. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, disse que a relação entre os dois países é ‘aberta e transparente’.

Bob Woodward, 65, é responsável, juntamente com Carl Bernstein, pela investigação que levou ao escândalo Watergate, o qual conduziria mais tarde à renúncia do presidente Richard Nixon.’

 

 

Jérôme Fenoglio

Desaparecer na era da web ainda é possível, diz especialista

‘Satélites de observação, câmeras de vigilância, passaportes biométricos, arquivos administrativos, policiais ou comerciais, chips movidos a freqüência de rádio, GPS, celulares, internet: o cidadão moderno vive no centro de uma rede de tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas e cada vez mais indiscretas. Cada uma dessas ferramentas, criadas supostamente para nos oferecer segurança e conforto, nos classifica ou até mesmo nos observa. Ao mesmo tempo cúmplices e inconscientes, somos enredados em uma sociedade de vigilância. Será que ainda é possível escapar desses dispositivos múltiplos que nos cercam por todos os lados? Quem tenta responder a essa pergunta é Thierry Rousselin, consultor de observação espacial e ex-diretor do programa de armamentos da Direção Geral de Armamentos da França, que, com François de Blomac (especialista em novas tecnologias de informação), lança ‘Sous Surveillance’ [Sob Vigilância, ed. Les Carnets de l’Info, 252 págs., 16, R$ 41]. O livro traz uma visão geral dessas tecnologias, procurando diferenciar entre os temores irracionais e os riscos reais de desvios.

PERGUNTA – Quais são hoje os grandes domínios da vigilância tecnológica?

THIERRY ROUSSELIN – Podemos traçar círculos concêntricos. O primeiro são os ‘pedaços’ de nós mesmos -tudo o que diz respeito à biometria. Vamos progressivamente entregando um certo número de elementos que nos pertencem, que nos identificam. Essa história começou com nossas impressões digitais. Hoje, chegou ao DNA, à íris, à palma da mão; dentro em breve, será nosso modo de andar ou nossos tiques. O segundo círculo é aquele formado por todos os captadores que nos cercam -aqueles que nos observam, como videovigilância, webcams, aeronaves de espionagem não tripuladas, aviões, helicópteros, satélites. Há também a escuta, em todos os sentidos do termo. Não se deve esquecer nunca que o primeiro método de escuta é uma pessoa ao nosso lado. Também podem ser usados nossos próprios objetos, especialmente o telefone. Comprei um GPS ou um telefone celular. Será que é possível me seguir graças a esses aparelhos? Será que os vários cartões -de crédito, de fidelidade, de assinante- que carrego na carteira revelam coisas a meu respeito, em tempo real, a cada vez que os utilizo? Os formulários que preenchi nos últimos 30 anos traçam uma imagem de mim que é mais precisa que minhas próprias recordações? O último ponto diz respeito ao computador, e já há alguns anos se vêem policiais levando o computador de suspeitos. Depois, há a internet. Será que minha sede de fazer amigos, de me fazer conhecer, não me leva a revelar coisas demais, que algum dia poderão ser usadas contra mim? Logo, os domínios de vigilância hoje abrangem quase todas as nossas interações com o mundo externo e praticamente todos os nossos sentidos. Os receios são mais fortes na medida em que percebermos que teríamos muita dificuldade em viver sem muitas dessas tecnologias. Essa situação é bastante representativa de nossa ambivalência diante dessas questões.

PERGUNTA – O interesse financeiro pode também exercer um papel?

ROUSSELIN – Evidentemente! Se aceito um cartão de fidelidade, receberei presentes em troca de alguns dados pessoais. No Reino Unido, várias empresas oferecem seguro mais barato a motoristas que se comprometam a não usar seus carros em determinados horários considerados ‘de risco’. Para verificar se o fazem, elas têm o direito de acessar todas as informações sobre deslocamento contidas no aparato eletrônico do veículo. Os clientes trocam uma economia substancial pela perda de confidencialidade quanto a seu ir e vir.

PERGUNTA – Nas cidades do Reino Unido, os sistemas de vigilância já utilizam 25 milhões de câmeras em lugares públicos. A que se deve esse interesse?

ROUSSELIN – É algo muito irracional, pois não existe trabalho de pesquisa que confirme a eficácia das câmeras. Por trás dos sistemas tecnológicos de vigilância, o que há é uma incapacidade do governo de oferecer respostas reais aos problemas colocados. Instalam-se câmeras porque são muito visíveis, e isso custará menos que contratar pessoas e realizar um verdadeiro trabalho de campo. No Reino Unido, os resultados dos programas de videovigilância são muito incertos. O efeito é fraco em termos de prevenção e dissuasão, sobretudo no tocante aos ataques a pessoas (brigas, estupros etc.), freqüentemente cometidos por pessoas de comportamento impulsivo, que não dão a mínima ao fato de serem filmadas, ainda que estejam cientes disso. Com os terroristas acontece o mesmo: os ‘loucos de Deus’ ou de uma causa qualquer ficariam até satisfeitos em poder passar para a posteridade dessa maneira. Quanto aos pequenos delitos, como os cometidos por batedores de carteiras no metrô, são rápidos demais para serem registrados, e seus autores os cometem em lugares freqüentemente extensos, com múltiplas saídas. A videovigilância é uma ajuda preciosa principalmente para a solução de investigações, a posteriori.

PERGUNTA – Ainda é possível ‘desaparecer’ em nossas sociedades? Isto é, ainda é possível escapar do controle da tecnologia?

ROUSSELIN – Desaparecer ainda é possível, mas é preciso saber o que isso representa em termos de esforço, sobretudo se você ainda vive na legalidade, sem falsa identidade ou cirurgia plástica. A opção ‘ilha deserta’ aparentemente é a mais simples de concretizar. Você vai viver em algum lugar na zona rural onde possa praticar um modo de vida que minimize as trocas comerciais -sem computador nem telefone celular. Você fecha sua conta bancária e paga tudo em dinheiro vivo. Será preciso não sair do país, especialmente não ir aos EUA, para evitar a necessidade de obter documentos que usem a biometria. É claro que será impossível escolarizar seus filhos no sistema de ensino oficial. E a maior limitação será relativa à saúde pública. O problema é que esse afastamento da sociedade vai parecer sobretudo uma viagem ao passado, um retorno às formas antigas de controle social. Em seu pequeno vilarejo perdido, não haverá quase ninguém, mas todo mundo num raio de dez quilômetros saberá tudo sobre seus hábitos cotidianos, suas particularidades. Os séculos anteriores à tecnologia moderna estavam longe de serem épocas sem vigilância. Para evitar isso, você talvez prefira mergulhar fundo na selva urbana. As multidões das cidades ainda podem garantir o anonimato. Nesse caso, porém, a margem entre a saída do sistema e a exclusão é perigosamente estreita. Você passará despercebido, mas seu modo de vida será cada vez mais próximo ao de um sem-teto.

PERGUNTA – Sem ir tão longe assim, ainda é possível pelo menos controlar as informações a nosso respeito que permitimos que sejam registradas?

ROUSSELIN – Se você decide permanecer na sociedade, as informações a seu respeito vão necessariamente circular. Você paga impostos ao fisco, que, conseqüentemente, sabe coisas a seu respeito, assim como sabe seu empregador etc. Mas você pode evitar dar informações a seu respeito que ninguém o obrigue a revelar.

Você pode evitar preencher todos os questionários aos quais geralmente não presta atenção. Podemos sobreviver muito bem sem cartões de fidelidade e sem precisarmos informar nosso estado civil para comprar uma torradeira.

Alguns desses arquivos circulam livremente se você esquece de fazer um xis no quadradinho na parte inferior do documento, proibindo seu interlocutor de ceder seus dados a seus ‘parceiros’.

Portanto, quando preenche questionários não obrigatórios, não é de maneira alguma forçado a dar informações reais. Nada o impede de ‘enganar-se’ sobre seu próprio endereço ou número de telefone.

PERGUNTA – Os telefones celulares são cada vez mais vistos como potenciais delatores. Ainda é possível limitar esse risco?

ROUSSELIN – A partir do momento em que seu aparelho está ligado, sua operadora pode de fato colocar em andamento toda uma série de mecanismos de espionagem, atendendo ao pedido de algum ‘vigilante’. Existem procedimentos diferentes que permitem localizar alguém com margem de erro de mais ou menos 50 metros, fazendo uma triangulação com as três antenas de telefonia celular mais próximas de seu telefone. Os telefones de nova geração, os ‘top de linha’ atuais, contêm um chip GPS e serão localizáveis com muito mais facilidade e precisão. Para a escuta, não há apenas a possibilidade de interceptar um telefonema, algo que já se tornou muito simples. Uma operadora também tem a possibilidade de fazer um celular funcionar como microfone de ambiente. Juridicamente, a polícia pode, sob certas condições, pedir que a operadora transforme o telefone em microfone, ouvindo tudo o que é dito em volta da pessoa que carrega o aparelho. Em todos esses casos, porém, tanto para a localização como para a escuta, é preciso que o telefone esteja ligado. Portanto, se você quiser evitar ser permanentemente localizável, faça como fazem policiais ou criminosos: desligue seu celular quando não o estiver usando.

PERGUNTA – A maior porta para a invasão de nossa vida privada ainda é o computador ligado à internet?

ROUSSELIN – Com certeza. A maioria dos computadores nos é entregue com sistemas operacionais que dão direito legal à Microsoft ou à Apple de colocar em nossas casas espiões que supostamente estão ali por boas razões. A partir do momento em que somos conectados à rede, independentemente de qualquer decisão autônoma de nossa parte, um pequeno tráfico começa a se desenrolar, nos propondo atualizações, pedindo para não usarmos edições piratas e coletando informações sobre nossa estação de trabalho. Recentemente, o Estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália votou um projeto de lei autorizando a polícia a colocar vírus espiões nos computadores de suspeitos. O problema se agrava mais a partir do momento em que se navega na web. A cada vez que visitamos um site, este registra o número de páginas vistas, o tempo de consulta em cada uma, os links seguidos, o percurso integral do cliente antes da transação, assim como os sites consultados antes e depois. Imagine os mesmos métodos aplicados à revista que seus leitores têm nas mãos: será que os leitores concordariam que você conhecesse sistematicamente o tipo de poltrona em que estão sentados, a espessura de seus óculos, suas horas de leitura, o jornal que leram antes dela? Certamente não. No entanto é isso o que se passa, à nossa revelia, cada vez que navegamos. O ‘New York Times’ publicou no final do ano passado uma pesquisa constatando que, quando recorremos ao Yahoo!, revelamos 811 informações pessoais simultaneamente. O computador é uma verdadeira janela sobre o mundo -uma janela sem cortinas. Desde já, se quero ter certeza de passar despercebido, não devo ir à internet. Mas isso equivale, cada vez mais, a dizer ‘estou fora do jogo social’.

PERGUNTA – Isso será possível dentro de 15 ou 20 anos, quando tudo tiver se desmaterializado, especialmente as formalidades administrativas? Neste novo ‘jogo social’, por que o sr. é tão crítico com as redes sociais e a prática dos blogs?

ROUSSELIN – Porque, para mim, o risco maior está aí, especialmente no que diz respeito aos adolescentes. Milhões deles mantêm blogs ou participam de fóruns em que deixam uma quantidade enorme de informações, sem dar-se conta das conseqüências. Já vimos diversos casos: jovens que, em seus blogs, fazem críticas massacrantes às empresas em que fizeram estágio e que, dois anos mais tarde, se surpreendem ao descobrir que os recrutadores lêem esse tipo de coisa. Fazer besteiras e querer se exibir é algo próprio da adolescência. O problema é que os adolescentes difundem suas besteiras em sistemas tecnológicos privados que vão guardar sua memória. Cerca de 90% das pessoas que se cadastram numa rede social não estão mais nela dois meses mais tarde. Fazem todo o processo de admissão, mas acabam se cansando. Deixam para trás uma quantidade enorme de informação pessoal. Acabo de fazer um experimento revelador sobre esse ponto, no contexto profissional. Eu estava num centro de informações militares. Para uma auditoria, estava visitando as unidades de produção. Quando redigi meu relatório, me dei conta de que não tinha anotado o nome do responsável. Recorri a uma ferramenta que me permite procurar quem está em qual rede social. Digitei as informações de que dispunha (seu primeiro nome, sua nacionalidade e seu empregador atual). Encontrei o sujeito na [rede de relacionamento] LinkedIn. Estavam no site sua biografia, que ele próprio digitara, e todos os cargos e locais nos quais já trabalhara como militar. Fiquei pasmo. Assim, o Google e o Yahoo! tornaram-se os maiores detentores de informações sobre nossos comportamentos e nossos hábitos de consumo. São empresas que, dez ou 15 anos atrás, não existiam. Quem pode prever o que será feito delas daqui a 20 anos? Acabamos de ver que ainda restam algumas margens de manobra para quem deseja escapar da vigilância tecnológica. Mas como será isso quando todos esses sistemas estiverem interligados, quando for instaurada a ‘convergência’ de arquivos, computadores, meios de observação, coisa que alguns autores vêem como inevitável antes mesmo de 2050? Não sei se podemos ser tão categóricos assim quanto ao surgimento de tal metassistema. Existem diversos fatores difíceis de medir que podem atrasar essa evolução ou até mesmo impedi-la, bloqueando o sistema. O vigilante é por definição um paranóico. Conseqüentemente, existem muitos inimigos entre os que supostamente estão a seu lado. Antes de chegar a um sistema que poderia dispensar os humanos, ainda haverá pessoas que brigam, serviços que não se comunicam, chefes que escondem informações uns dos outros. O beabá da administração há 5.000 anos consiste, entre os diferentes serviços de inteligência, em esconder informações uns dos outros. Em todos os assuntos ligados ao terrorismo, percebe-se que a lógica é o FBI roubar informações da CIA e que esta as rouba da NSA etc. É também por essa razão que o mulá Omar [líder do Taleban] e Osama bin Laden ainda estão livres. É isso que às vezes acho excessivo nos panfletos sobre a vigilância: sempre há um exagero, a tendência a pensar que aquele que vigia não erra, que não se afasta no meio do vídeo para tomar um café etc. Como se não fosse humano. Na realidade, ocorrem muitas imperfeições que prejudicam o potencial de eficácia da vigilância. O outro parâmetro a levar em conta é que cada uma dessas tecnologias cria seus próprios contrapoderes. Para a observação (videovigilância ou satélites), percebe-se que a grande dificuldade está no excesso de imagens, comparado ao número de analistas existentes e às capacidades técnicas de análise disponíveis. Dezenas de milhares de amadores que decodificam imagens se tornam tão poderosos quanto os poderes constituídos, que dispõem de meios limitados. Isso foi constatado com o furacão Katrina [que atingiu os EUA em 2005], quando, olhando as imagens disponíveis, os internautas chamaram a atenção para a impotência das autoridades americanas. Os cidadãos também podem voltar certos meios contra seus criadores, vigiando os vigiadores. Um dos aspectos de nossa pesquisa que nos deixou otimistas é a efervescência criadora que está crescendo em torno desse assunto. Diversas formas de resistência, artísticas ou associativas, estão sendo criadas. Podem retardar ou impedir o pior, sensibilizando o grande público.

PERGUNTA – Em lugar de passar despercebida, a solução seria continuar ativo para subverter o sistema?

ROUSSELIN – Sim, ainda restam muitas áreas de nossa vida pessoal em que nem tudo está decidido. E cabe a cada um de nós fazer com que a vigilância não se amplie. Estamos assistindo ao surgimento de ativistas, vemos artistas, pessoas que têm comportamentos sadios. Mas então topamos com nosso próprio comodismo, nossos pequenos interesses momentâneos. É contra isso que é preciso lutar. Contra nós mesmos? Sim! Porque gostamos do que é moderno e simples. A força do Google ou da Apple é a dessas interfaces incrivelmente fáceis e intuitivas, que nos seduzem. Todos nós temos amigos que nos fazem a demonstração de seu mais novo objeto ‘super-high-tech’, que se gabam interminavelmente das qualidades de seu novo telefone etc. O que fazem não é nada mais, nada menos que promover o novo instrumento que os vigia. E sentem muito orgulho disso. Somos todos um pouco assim. Isso mostra que somos modernos. Em alguns momentos é preciso mostrar-se um pouco antiquado e aceitar que a vida nos seja um pouco menos simplificada.

A íntegra deste texto saiu no ‘Le Monde’.

Tradução de Clara Allain.’

 

 

Programas de vigilância racham governo francês

‘Sistemas de computador propostos pelo governo francês geraram protestos de defensores dos direitos civis e ameaçaram a própria unidade do governo do presidente Nicolas Sarkozy, que na semana passada pediu ‘coesão’ a seus ministros, relutantes com a implantação.

Criado por decreto no final de junho, o Edvige (acrônimo francês para Exploração Documental e Valorização de Informação Geral) deve registrar dados pessoais -endereço, telefone e comportamento sexual, por exemplo- de quaisquer pessoas acima de 13 anos.

Esse programa deve ser acompanhado do Cristina (Centralização de Informação Interior para a Segurança do Território e dos Interesses Nacionais), voltado à prevenção do terrorismo.’

 

 

FOTOGRAFIA
Rafael Cardoso

Imagens de cabeceira

‘Geoff Dyer é um homem de texto, mas gosta de transitar por outras linguagens. Autor de três livros de ficção, ele é mais reconhecido por suas incursões idiossincráticas pela não-ficção, que incluem um volume premiado sobre jazz (‘But Beautiful’ [Mas Belo, de 1991) e o bem-sucedido (lá fora) ‘Ioga para Quem Não Está Nem Aí’ [Companhia das Letras]. Agora ele volta sua dispersiva curiosidade de geminiano para novo assunto: fotografia. O resultado é um livro tão fora do comum que os editores brasileiros acharam por bem acrescentar o subtítulo explicativo, ‘Uma História Particular da Fotografia’. Particular é pouco. Peculiar, excêntrico seriam mais adequados. ‘O Instante Contínuo’ poderá ser odiado por alguns estudiosos da fotografia, mas será cultuado por quem deseja se iniciar na imensa e escorregadia fronteira entre imagens e palavras. De início, Dyer deixa claro que não entende de fotografia. Antecipando-se às críticas irritadas que diz esperar, anuncia bombasticamente na introdução que nem sequer possui uma câmera. Pode parecer pura estratégia, calculada para agradar aos leigos e desarmar a ira dos mais pernósticos -mas não é. O fato é que o autor realmente não é muito experiente no trato de imagens. Poucas vezes são encontrados nas páginas de ‘O Instante Contínuo’ termos como enquadramento, composição, contraste, planos ou ponto de vista. Ele não se propõe a ler imagens, no sentido metafórico de decodificá-las seguindo algum método analítico.

Olhar de fora

Suas leituras são escrituras, transbordando em alguns momentos para narrativas próprias, ancoradas na imaginação do autor, e não em nenhuma característica visual do objeto sob inspeção. Esse olhar de fora torna o livro fascinante, até para o mais calejado dissecador de imagens. Em todo momento, Dyer deixa claros dois aspectos fundamentais de sua busca: primeiramente, sua natureza pessoal e opinativa, reiterada numerosas vezes mediante truques retóricos como o de imiscuir sua própria voz nos momentos mais improváveis (‘não sei, exatamente, quando foi que Strand fez essa foto, mas me apraz pensar que ela foi feita de manhã’) ou, então, o de denunciar sua falta de método (‘de certa forma, a estrutura tortuosa deste livro […] pressupõe, como queria Diane Arbus, que o tema é primordial’). Em segundo lugar, a faceta literária da empreitada. Se o autor não demonstra intimidade com o jargão das imagens, maneja com uma erudição impressionante tanto técnica narrativa quanto a tradição escrita da modernidade. Atravessam o livro, em constante diálogo com os fotógrafos analisados, referências a Rilke, Pessoa, Steinbeck, Cortázar, Huxley, Kerouac, entre outros. As muitas notas e citações acabam por formar textos paralelos, camadas de discurso que vão se sobrepondo como estratos geológicos, cada uma com sua sedimentação, dureza, alcalinidade. Transparece a ambição do autor de reproduzir, com a escrita, a estrutura complexa e não linear por meio da qual as imagens se operacionalizam. Um trecho admiravelmente cândido explicita essa intenção, contrastando-a com tentativas de construir narrativas fotográficas em formato de livro: ‘Este livro pretende inverter o processo, reiterar as possibilidades de simultaneidade e justaposição aleatória oferecidas por uma pilha de fotografias’.

Aventura

Compreendendo, corretamente, que as imagens suscitam instâncias de leitura múltiplas, paralelas, reversíveis e até contraditórias, Dyer confessa seu desejo de que ‘cada seção de texto não [fosse] obrigada a estar cercada por duas outras. O ideal é que certas seções estivessem adjacentes a quatro, oito ou mesmo dez outras.’ Trata-se, claro, de um sonho impossível, já que a estrutura livresca não permite desmembrar cadernos e páginas em módulos trocáveis. Mas o autor não se dá por vencido. Chega a recomendar que se leia o texto fora da ordem de sucessão, pulando de uma seção à outra em livres releituras recombinantes. A meta de Dyer parece mesmo ser a de traduzir em palavras a experiência da fotografia: em especial, sua capacidade de captar e preservar a essência de um instante. Fascinado pelo presumido poder fotográfico de ver o todo -inclusive possíveis verdades ocultas- e transmiti-lo intacto ao longo do tempo, o autor se entrega a explorar o tema com uma falsa ingenuidade que poderia facilmente descambar para a puerilidade, caso sua elegância e fina ironia não servissem de rédea constante para seu atrevimento. É uma aventura audaciosa, e o risco de se perder pelo caminho, constante, como nos muitos e longos trechos em que o livro descreve fotografias, com riqueza de detalhes, e não as reproduz. ‘Por sorte, podemos julgar por nós mesmos’, conclui, ao comentar duas fotos eróticas produzidas por Alfred Stieglitz em 1921. Mas, como elas não são mostradas, não nos é dado fazê-lo, a menos que compremos outros livros. Fica com o autor a palavra final.

RAFAEL CARDOSO é professor de história da arte na Pontifícia Universidade Católica do RJ.

O INSTANTE CONTÍNUO

Autor: Geoff Dyer

Tradução: Donaldson M. Garschagen

Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/3707-3500)

Quanto: R$ 49 (304 págs.)’

 

 

ANTÔNIO VIEIRA
João Pereira Coutinho

A fé da palavra

‘O padre Antônio Vieira (1608-97), nascido 400 anos atrás, não se compreende sem d. Sebastião. Os leitores conhecem a história: Sebastião foi o jovem rei que, marchando para o norte de África, acabaria por morrer em combate, fazendo nascer uma particular forma de messianismo. Certíssimo. Mas, descendo da lenda, vamos aos pormenores: d. Sebastião é um produto da sua época e a época era de crise. Longe iam os tempos em que Portugal dominava terras e mares com proveitos para a coroa. Mesmo nos anos finais de d. Manuel 1º, ainda chamado de ‘o Venturoso’, havia sinais de esgotamento, que se agravaram com d. João 3º. As possessões portuguesas eram cobiçadas pelas grandes potências européias. Os cofres do Estado não agüentavam os encargos ultramarinos. E só um milagre poderia resgatar a pátria da decadência irremediável. Esse milagre era d. Sebastião. Ou, pelo menos, o próprio acreditava que sim, retrato fiel da sua saúde mental. E como operar o milagre? Pela espada: conquistando o norte de África, ou seja, garantindo as rotas comerciais portuguesas pelo domínio do litoral africano e espalhando a Fé e o Império pelos infiéis. Curiosamente, d. Sebastião nunca formulou uma questão prosaica: e se a sua cruzada falhasse? Um homem providencial não admite falhar. E, quando o rei partiu para Alcácer-Quibir em 1578, a vitória, pelo menos na cabeça dele, era certa. Infelizmente, o diabo não dorme em serviço, e a vitória não aconteceu. Com um exército mal preparado e uma estratégia desastrosa ou inexistente, d. Sebastião não apenas morria em combate; ele enterrava a dinastia de Avis e a independência de Portugal. Morto o rei, subia ao trono o seu tio-avô, d. Henrique, um sexagenário religioso que, obviamente sem descendência, apenas adiava a catástrofe. Em 1580, a catástrofe veio: Filipe 2º de Espanha invadia Portugal e reunia sob a sua autoridade os dois reinos ibéricos. D. Sebastião era agora assunto de crença: haveria um dia em que surgiria no meio da bruma para restaurar a independência e conduzir os portugueses à grandeza perdida.

O prodígio Vieira

Antônio Vieira não ficou incólume a essa curiosa fantasia. E, tal como d. Sebastião, ele próprio expressou, na obra e na ação, a crise de Portugal e do império, mesmo depois de restaurada a independência em 1640. Nascido em Lisboa, descendente de avó negra (ou mulata), Vieira dividiu a existência entre as duas margens do Atlântico. Emigrado para o Brasil aos seis anos, entraria para a Ordem dos Jesuítas ainda na adolescência. Prodígio intelectual, latinista ilustre, Vieira foi a testemunha da decadência lusitana, irremediável desde a morte de d. Sebastião e que a união ibérica dos Filipes apenas aprofundou. No Brasil, o religioso presenciou a cobiça das possessões portuguesas pelos holandeses; na metrópole, confrontou-se com as discriminações de que eram vítimas os cristãos-novos e que defendeu com custos pessoais e públicos. Para Vieira, a reintegração dos cristãos-novos na sociedade portuguesa, por ser classe próxima dos negócios, seria uma forma justa e inteligente de conseguir o financiamento de que d. João 4º necessitava para defender e alargar o império. Sua obstinação acabaria mesmo por conseguir a abolição da pena de confiscação dos bens por delito de judaísmo, um gesto que, ao retirar proventos à Inquisição e ao encaminhá-los para a Companhia Geral do Comércio do Brasil, não o tornou propriamente popular aos olhos do Santo Ofício.

Impulsos messiânicos

Mas seria d. Sebastião quem atiraria Vieira para as garras inquisitoriais. Ou, melhor dizendo, uma particular interpretação do messianismo sebastiânico. Afastando-se da versão tradicional que esperava pelo rei morto em dia de nevoeiro, Vieira projetou em d. João 4º, o primeiro dos Braganças, a personificação do Encoberto longamente esperado pelos portugueses. E nem mesmo a morte posterior do monarca serenou os ânimos messiânicos de Vieira: se o rei morrera, ele acabaria por ressuscitar, cumprindo-se o Quinto Império. A Inquisição não gostou desse messianismo herético, na linha do popular Bandarra, e privou Vieira de voz ativa e passiva, pelo menos temporariamente. O processo foi longo, violento e, na verdade, Vieira nunca mais se recuperou inteiramente dele. Eis a história que João Lúcio de Azevedo se propõe contar na biografia monumental de Antônio Vieira, que chega ao Brasil em dois volumes, reproduzindo o texto da segunda edição, revista pelo autor em 1931. Lúcio de Azevedo (1855-1933) era a pessoa certa para a tarefa: tal como Vieira, também o historiador dividiu a existência entre dois países. Nascido em Sintra, emigrou para Belém aos 18 anos. Livreiro, fez fortuna material e intelectual no Brasil, aí publicando os seus ‘Estudos da História Paraense’ (1893). Regressado a Portugal em 1900, o labor histórico de Lúcio Azevedo continuou, abrindo para a historiografia portuguesa caminhos inexplorados: o seu ‘Épocas de Portugal Económico’ (1929), ao alargar a narrativa histórica para os territórios da economia; os seus contributos para a ‘História de Portugal’ de Damião Peres; e os seus estudos sobre o padre Vieira consagraram Lúcio de Azevedo como nome de referência da cultura lusitana. A presente biografia começa por ser um documento literário: inspirado pela sensibilidade barroca de Vieira, Lúcio de Azevedo constrói uma odisséia de leitura fascinante, apesar de algumas citações latinas que careciam de tradução (como é o caso da epígrafe que Vieira teria composto para o túmulo de d. João 4º). Felizmente, existe suficiente imaginação histórica, e até romanesca, para que Antônio Vieira surja aos nossos olhos como personagem complexa e poderosamente vital nas causas que defendeu.

Origem servil

Azevedo revisita a luta do religioso contra as pretensões holandesas no Brasil, os seus esforços pela evangelização do Maranhão, a defesa dos cristãos-novos, o longo e esgotante processo com o Santo Ofício e, tal como referido, o seu messianismo universalista, centrado na figura de d. João 4º. Mas nem tudo é matéria conhecida, pelo menos para mim. O desconforto de Vieira com a origem servil e a mestiçagem, por exemplo, é cuidadosamente apresentado por Lúcio de Azevedo como ‘pecado original’ que teria acompanhado o pregador durante toda a vida. Igualmente, e na sua reputada defesa dos índios do Brasil, Vieira percebeu que a única forma de garantir a libertação dos nativos passava pela distinção entre escravos ‘legítimos’ e ‘ilegítimos’. Os primeiros, capturados em ‘guerra justa’ ou já escravos entre os índios, não cabia aos jesuítas resgatar da servidão. Uma última palavra para a edição: em quase mil páginas, seria impossível que não surgissem alguns erros desconfortáveis: ‘palava’ (e não ‘palavra’, vol. 1, pág. 89), ‘d. João 6º’ (e não ‘d. João 4º’, vol. 1, pág. 181), ‘dernais’ (e não ‘demais’, vol. 1, pág. 264), ‘estaba’ (e não ‘estava’, vol. 1, pág. 325), ‘termura’ (e não ‘ternura’, vol. 2, pág. 185), para citar apenas alguns. Espera-se que, em próximas reimpressões, esta obra de referência possa despojar-se dessas manchas.

HISTÓRIA DE ANTÔNIO VIEIRA

Autor: João Lúcio de Azevedo

Editora: Alameda (tel. 0/xx/11/3862-0850)

Quanto: R$ 98 (978 págs.)’

 

 

L´OSSERVATORE ROMANO
Henri Tincq

Cristo informa

‘O escritório do jornalista é enfeitado com fotos em preto e branco de Grace Kelly, Jayne Mansfield e Marilyn Monroe. Mas estamos na sede do ‘L’Osservatore Romano’, no Vaticano, a dois passos da Porta de Santa Ana, ladeada por guardas suíços impecáveis em uniformes azuis e dourados. O ‘L’Osservatore Romano’ [O Observador Romano] não é mais o jornal de alguns poucos monsenhores. Os redatores, cerca de 30, são leigos, casados ou solteiros, e a redação do jornal se parece com a de todos os outros jornais. Com algumas poucas exceções: ostenta fotos do papa e crucifixos, e há muito poucas mulheres. E todos os dias, ao meio-dia, os jornalistas se reúnem para a oração do Angelus. As más-línguas o chamam de ‘jornal do partido’ ou ‘o ‘Pravda’ da igreja’. Mas Giovanni Maria Vian, seu diretor, não tem nada de comissário político. Ele possui a fineza de espírito dos intelectuais italianos de cultura enciclopédica; é dotado de temperamento liberal, mas de uma fidelidade absoluta à Igreja Católica.

‘Jornal mais sexy’

É capaz de dizer, soltando uma gargalhada, que é preciso tornar o ‘L’Osservatore Romano’ ‘um pouco mais sexy’. Sem sacrificar aquilo que ele é: um dos jornais diários mais antigos do mundo, fundado em 1861, numa época em que a Santa Sé se apegava a seu poder temporal. Batalha perdida, pois dez anos mais tarde os patriotas italianos derrubaram o papa rei de Roma, que, até os acordos do Latran (1929), passaria a ser ‘prisioneiro’ da Cidade Eterna. Essa história e a de Giovanni Maria Vian -que, menino, brincava nos jardins do Vaticano- se superpõem. Pois o novo editor do ‘L’Osservatore Romano’ não é nenhum noviço. Antes dele, seu avô e seu pai já tinham sido colaboradores do ‘jornal do papa’. Agostino, seu avô, vindo da cidade dos doges como funcionário do novo Estado italiano, tinha como amigo Giuseppe Sarto, patriarca de Veneza, que o casou na véspera de partir para um conclave romano: aquele que elegeria o papa que ficou conhecido como Pio 10º (1903-14). Seu pai, Nello, também fazia parte do círculo interno do Vaticano: foi secretário da Biblioteca do Vaticano e amigo íntimo do monsenhor Giovanni Battista Montini, que batizou seu filho antes de tornar-se o papa Paulo 6º (1963-78). ‘A amizade de meu pai com o papa Montini existia, mas sem jamais se exibir’, comenta. Em sua casa, a família orava também ‘sem ostentação’, fazia o sinal da cruz na hora das refeições e rezava o terço. Todos os dias, às 17h, o correio trazia o ‘L’Osservatore Romano’ e o ‘Corriere della Sera’. Mas o jovem Vian, na época, preferia Júlio Verne ou Emilio Salgari (‘O Corsário Negro’, ‘Os Piratas da Malásia’ etc.). Na adolescência, ele devorava Alessandro Manzoni (1785-1873), católico convertido, escritor romântico louco por Napoleão. Vian está totalmente em casa nos corredores do palácio apostólico, cruzamento da política e das belas-artes, da Renascença e do mundo moderno, da terra e do céu.

Intelectual de direita

No primeiro piso, entra-se no gabinete do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, número dois da Cúria (depois do papa); a sala é adornada com afrescos, poltronas adamascadas e troféus -esportivos, pois o cardeal é fanático por futebol. Vian e Bertone são amigos desde que colaboraram juntos no Instituto da Enciclopédia Italiana. Com a ajuda de uma webcam, eles dialogam com os cristãos de Kerala, na Índia, para tratar do lançamento da edição do ‘L’Osservatore Romano’ na língua malayalam. Ela vai somar-se às edições espanhola, francesa (que circula em 130 países), inglesa, portuguesa, alemã e polonesa. A vocação de jornalista não foi a primeira de Vian, que primeiramente estudou na Universidade La Sapienza -onde ainda leciona- a filologia nos textos dos fundadores da igreja, aos quais consagrou a parte principal de suas 80 obras. ‘Foi na filologia que descobri o rigor, a pesquisa sobre os documentos, a atenção aos textos escritos’, diz. Mas o jornalismo atiçava sua curiosidade. Em 1973 escreveu seu primeiro artigo no jornal católico ‘L’Avvenire’, sobre os manuscritos de Horácio. Depois, colaborou em jornais de direita como ‘Il Foglio’, fato que ainda lhe vale a reputação de ‘teocon’ (teólogo conservador), agravada por sua recusa em colaborar com o prestigioso Instituto de Ciências Religiosas de Bolonha, dirigido pelo historiador Giuseppe Alberigo, visto como demasiado esquerdista em sua interpretação do Concílio Vaticano 2º (1962-65). Tudo isso lhe serviu como ótimo cartão de visita para o papa, que em 2007 recrutou esse intelectual brilhante, moderno, criado à sombra de são Pedro e dotado de ortodoxia incontestável. O trabalho que lhe foi encomendado foi claro: abrir o ‘L’Osservatore Romano’ para o mundo. Operar uma transformação num jornal esclerosado, enrijecido nos conflitos da política italiana. Esta, hoje, é uma rubrica marginal. ‘Menos importante que Mianmar, o Irã ou a Somália’, observa o vaticanista Sandro Magister.

Islã e China

[O presidente francês] Nicolas Sarkozy foi entrevistado por Jean-Michel Coulet, diretor da edição francesa, durante sua visita a Roma. O Oriente Médio, o islã e a China são temas de comentários regulares e alvos de atenção extrema. A cultura também conquistou espaço maior no jornal. Vian se distinguiu ao contratar para a direção desse serviço uma mulher, Silvia Guidi, e hoje já se encontram críticos de espetáculos artísticos no ‘L’Osservatore Romano’. Um concerto do roqueiro Bruce Springsteen chegou a receber uma crítica elogiosa. A cobertura das religiões foi ampliada para abranger outras além da católica, e um dos motivos de orgulho do novo editor é o fato de contar com a colaboração de intelectuais agnósticos ou não católicos. É o caso da historiadora judia Anna Foa, de muçulmanos, de religiosos como o pastor protestante Jean-Arnold de Clermont, o metropolita Cirilo, de Moscou, ou ainda o irmão Alois, prior da comunidade de Taizé, que Vian frequenta há pelo menos 30 anos. ‘É possível criticar o papa no ‘L’Osservatore Romano’?’, indagou um jornalista americano. Vian ainda ri quando se recorda da pergunta: ‘Existe algum jornal do mundo que critica seu dono?’ A resposta é clara, portanto. O ‘L’Osservatore Romano’ continua a ser o jornal oficial, que publica os textos do papa, suas nomeações.

Textos reescritos

Mas, se a consulta com a Cúria é permanente, o diretor do jornal não é obrigado a enviar os artigos para a aprovação dela antes de serem publicados. Alguns textos são adiados ou reescritos: ‘Não há ulemás. Mas não podemos correr o risco de sabotar os esforços da diplomacia do Vaticano, por exemplo’, explica o diretor. O jornal reconquistou autoridade. Portando a data do dia seguinte, é aguardado todas as tardes, por volta das 17h, pelos correspondentes da imprensa internacional em Roma. Está mais arejado, de leitura mais agradável, publica mais fotos, entrevistas e colunas de opinião. ‘Nunca vamos competir com a televisão, a internet ou os jornais italianos. Mas nossa história é mais longa que a deles’, conclui Vian. Viúvo precoce, ele tem como consolo feliz a liberdade da qual diz desfrutar, as relações na universidade e a amizade dos irmãos, Paolo e Lorenzo.

Este texto saiu no ‘Le Monde’.

Tradução de Clara Allain.’

 

 

Aos 147 anos, diário já acompanhou 11 papas

‘Circulando desde 1861, ‘L’Osservatore Romano’ foi criado para defender as posições da Igreja Católica Apostólica Romana.

Ele surgiu como publicação privada, ‘semi-oficial’, e seus primeiros editores, Nicola Zanchini e Giuseppe Bastia, foram autorizados pelo papa Pio 9º a defender a igreja e emprestaram o nome de uma publicação anterior, também defensora do Estado religioso.

O jornal foi adquirido pela Santa Sé em 1885, no pontificado de Leão 13. Influente, além dos temas estritamente religiosos, o jornal tem publicado comentários políticos e textos como o obituário do dissidente soviético Alexander Soljenitsin (1918-2008), autor de ‘Arquipélago Gulag’.

Incluindo o papa atual (Bento 16), o noticiário do ‘Osservatore’ já acompanhou o pontificado de 11 papas. Além da edição diária, em italiano, o periódico tem edições semanais em seis línguas, incluindo o português, e edição mensal em polonês.

A edição em português pode ser consultada em www.vatican.va/newsservices/or/orpor/index.html’

 

 

 

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