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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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DIRETóRIO ACADêMICO > FIM DE SEMANA, 27 E 28/9

Folha de S. Paulo

30/09/2008 na edição 505

ACORDO ORTOGRÁFICO
Eduardo Simões

Que língua é essa?

‘As regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, e que entram em vigor no Brasil a partir de janeiro de 2009, vão afetar principalmente o uso dos acentos agudo e circunflexo, do trema e do hífen. Cuidado: segundo elas, você não poderá mais escrever que foi mordido por uma jibóia, e sim por uma jiboia. Aquela sua boa idéia será má ideia, porque é assim, sem o danado do acento agudo, que você deve passar a escrever a palavra. Achou tudo uma feiura? Será que você vai aguentar tanta mudança?

A estreia de algumas normas nesta reportagem que você está lendo não passa de uma brincadeira, portanto, pode ficar tranquilo. Segundo o Ministério da Educação, haverá um prazo de transição até o fim de 2012, em que ambas grafias serão aceitas em todo os oito países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe.

Uma boa ideia, no entanto, é já recorrer ao recém-lançado ‘Escrevendo pela Nova Ortografia’, guia esmiuçado das regras (leia mais no quadro abaixo), parceria entre a Publifolha e o Instituto Houaiss. A publicação teve coordenação do professor José Carlos de Azeredo, doutor em letras pela Universidade Federal do Rio Janeiro. Para Azeredo, não se pode entender o acordo como uma proposta de simplificação, mas sim de unificação ortográfica.

‘A simplificação pode ser decorrente, mas não é seu objetivo’, diz o professor. ‘Para que fosse possível, foi necessário que o Brasil e Portugal abrissem mão de convicções. O Brasil abriu mão do circunflexo e agudos, em alguns casos, e sobretudo do trema. Portugal, por sua vez, abriu mão do ‘p’ de adoptar e do ‘c’ de direcção.’

Histórico das reformas

Além da íntegra do acordo, o livro traz um histórico das reformas da ortografia portuguesa, desde as primeiras propostas de simplificação feitas pelo foneticista português Gonçalves Viana (1840-1914), em 1904, com o lançamento do livro ‘Ortografia Nacional’.

‘Em Portugal, os livros e revistas tinham uma ortografia influenciada pela etimologia das palavras, e ainda grafavam, por exemplo, ‘philosophia’ em vez de filosofia. Lá, isso foi mudado em 1911, e somente em 1931 a simplificação foi feita no Brasil’, conta Azeredo.

O professor lembra que já em 1945 Portugal adotou mudanças que sequestraram, sem direito a pedido de resgate, o trema de seu vocabulário. Também àquela época caíram o acento agudo de europeia e o acento diferencial de ‘govêrno’ (substantivo) e ‘governo’ (verbo). O Brasil não adotou, então, aquelas novas regras.

‘Somente em 1971 tivemos a supressão do acento diferencial. Acho que houve um certo discurso nacionalista em 1945 no Brasil, de modo que esferas políticas responsáveis pela decisão não quiseram ratificar’, afirma Azeredo. ‘O interessante é que, agora, estamos adotando práticas de 1945.’

Para Azeredo, as regras do novo acordo quanto ao uso dos acentos circunflexo e agudo, ou à eliminação do trema, são bem claras. Não será preciso nenhum esforço heroico para colocá-las em prática. Já o hífen, um enjoo para quem precisa seguir regras, continuará a ser o calcanhar de Aquiles -e não mais calcanhar-de-aquiles, a propósito- de qualquer um.

‘O acordo diz que, nas palavras em que o falante perdeu a noção de composição, não se usa o hífen, como em paraquedas. É um ponto polêmico, porque a consciência não é clara ou objetiva’, diz o professor. ‘O que é preciso é ter logo o vocabulário elaborado pela Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras.’

Resistência às alterações

Em Portugal, onde, segundo Azeredo, as mudanças resultam em cerca de 1,5% de alteração no vocabulário, contra 0,5% no Brasil, o acordo encontra resistência. No Brasil, alguns descreem que o país adote as normas em apenas quatro anos. Tampouco que entrem em vigor, de fato, em Portugal.

‘Até hoje, passados 37 anos, a reforma de 1971 ainda não foi completamente absorvida. Alguns cardápios oferecem ‘môlho’. E tem uma loja que grafa ‘zelo’ com acento circunflexo’, diz o professor Pasquale Cipro Neto, colunista da Folha. ‘Em Portugal, como o Brasil não cumpriu o acordo de 1945, acho que há resistência entre os meios de comunicação e o povo. Tirar o ‘c’ e o ‘p’ mudos? Eles se sentem violentados.’’

 

Ricardo Westin

Lula assina decreto amanhã, na sede da ABL

‘Amanhã, dia em que se completam os cem anos da morte de Machado de Assis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinará o decreto com os prazos para que o Brasil coloque o acordo ortográfico em prática.

As novas regras começarão a valer no dia 1º de janeiro de 2009, mas ainda não em caráter obrigatório. Haverá uma transição de quatro anos. Até 31 de dezembro de 2012, segundo o decreto, as duas formas serão aceitas como corretas nas provas escolares, nos vestibulares, nos concursos públicos e nos meios escritos em geral.

No entanto, o governo recomendará que os documentos oficiais sejam todos redigidos da nova maneira.

Inicialmente, a idéia era que as mudanças se tornassem obrigatórias no início de 2012. O prazo acabou sendo esticado para o começo de 2013 por pressão das editoras de livros.

Não havendo alterações na minuta redigida pelo Ministério da Educação, o decreto será particularmente rigoroso com as editoras que abastecem as escolas públicas. Já em 2010, todos os livros comprados pelo governo terão de ser editados segundo o acordo ortográfico.

Lula assinará o documento na ABL (Academia Brasileira de Letras), no centro do Rio.’

 

João Pereira Coutinho

Acordo ignora identidades culturais

‘Acordo ortográfico? Não, obrigado. Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra.

Começo por ser contra com a força das minhas entranhas: sou incapaz de aceitar que uma dúzia de sábios se considere dono de uma língua falada por milhões. Ninguém é dono da língua. Ninguém a pode transformar por capricho. Por capricho, vírgula: por mentalidade concentracionária, em busca de uma unidade que, para além de impossível, seria sinistra.

A língua é produto de uma história; e não foi apenas Portugal e o Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintácticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua. Quem disse que o português do Brasil é superior, ou inferior, ao português falado e escrito em Luanda, Maputo ou Dili?

Meu princípio filosófico: a pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado. Não me incomoda que os brasileiros escrevam ‘ator’ e ‘ceticismo’ sem usarem o ‘c’ ou o ‘p’ dos lusos. Quando leio tais palavras, sei a origem delas; sinto o sabor tropical em que foram forjadas.

Mas exijo respeito. Exijo que respeitem o ‘actor’ português e o ‘cepticismo’ luso com o ‘c’ e o ‘p’ que o Brasil elimina.

Os sábios discordam. E dizem que a ortografia é simples transcrição fonética, ou de ‘pronúncia’. Se ninguém lê ‘actor’, com acentuação no ‘c’, por que motivo mantê-lo? Sim, por que motivo manter esse ‘c’ arcaico que só atrapalha a unidade da língua?

Lamento. Eu gosto do ‘c’ do ‘actor’, do ‘p’ de ‘cepticismo’. Eles representam um património, uma história. Uma pegada etimológica que faz parte de uma identidade cultural. Mas o ‘c’ e o ‘p’ não são apenas antiguidades de uma ortografia; como relembrou recentemente o poeta português Vasco Graça Moura, esses ‘c’ e ‘p’ abrem a vogal que os antecede e fornecem informação para pronunciar correctamente as palavras. Acordo ortográfico? O gesto é prepotente e apedeuta. Aceitar essa aberração filosófica e linguística, impensável para ingleses (ou franceses), significa apenas que a irmandade entre Portugal e o Brasil continua a ser a irmandade do atraso.’

 

DIREITO À INFORMAÇÃO
Editorial – Folha de S. Paulo

O diploma e os ministros

‘O GOVERNO Lula anda aflito com a liberdade de imprensa e o direito à informação. O impulso de criminalizar a publicação do segredo mal guardado convive com a preocupação acerca dos requisitos para o exercício da profissão de jornalista. A este respeito, dois ministros entraram em campo.

Carlos Lupi, do Trabalho, nomeou grupo de estudo para propor mudanças na regulamentação da profissão. Seis audiências públicas desembocarão, em novembro, numa sugestão. Dada a composição sindicalista, é diminuta a chance de que proponha o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista, instituída em 1969 pelo regime militar.

Fernando Haddad, da Educação, deve criar outra comissão. Seu propósito é debater os requisitos mínimos que as escolas de jornalismo devem oferecer. Seria essa a base para deslanchar uma supervisão sobre as faculdades e exigir-lhes qualidade.

Haddad prevê, ainda, que a empreitada serviria para definir a formação complementar necessária para profissionais graduados em outras áreas obterem o diploma de jornalismo. Quem almejasse trabalhar no ramo não teria de cursar todos os usuais quatro anos de bacharelado.

Seria um abrandamento, não uma solução. Na tradição mais democrática, o jornalismo é uma profissão aberta, sem barreira de acesso. É diante do público, e não de um comitê cartorial do Estado ou da academia, que o jornalista tem de legitimar-se.

Além do que, há risco de ambas as comissões sucumbirem, no que toca à regulamentação, com a desaparição de seu objeto. O Supremo Tribunal Federal prevê decidir, neste semestre, se o decreto-lei que instituiu a obrigatoriedade do diploma é compatível com a Carta de 1988.

O Supremo haverá de pôr fim à exigência inconstitucional, por violação dos artigos 5º (liberdade de expressão) e 220 (liberdade de informação jornalística) da lei fundamental.’

 

BRUXINHO
Igor Zolnerkevic

Portal oculto da mágica de Harry Potter é possível, diz cientista

‘Físicos chineses descobriram como usar materiais especiais que manipulam a luz para criar uma passagem secreta invisível em uma parede.

Um dos autores da descoberta, Xudong Luo, da Universidade de Jiao Tong, em Xangai, confessou à Folha que é fã da série de livros ‘Harry Potter’ e que não teve dúvida de concluir no artigo científico em que descreve seus cálculos que ‘um dispositivo como a Plataforma 9 3/4 (…) é realizável’.

Para quem nunca leu os livros da série, aqui vai uma explicação: o trem que leva Harry Potter e seus amigos à escola de bruxaria de Hogwarts sai da estação King’s Cross, em Londres, de uma plataforma secreta, a Plataforma 9 3/4. Sua entrada invisível fica na parede entre as plataformas 9 e 10.

Uma plataforma 9 3/4 foi até construída na estação real, mas é uma brincadeira, e aqueles que tentarem atravessar a parede podem parar no hospital em vez de em Hogwarts.

Luo e seus colaboradores calcularam o que é preciso para realizar a mágica de ocultar uma abertura em uma parede.

O truque é usar materiais especiais, capazes de manipular a luz que incide sobre eles. Chamados de ‘metamateriais’, eles podem entortar raios de luz em direções impossíveis para materiais comuns, graças a rugosidades microscópicas em suas superfícies.

A mágica ocorre quando se põe no meio da abertura da parede uma coluna revestida de metamaterial. A luz se espalha em volta da coluna, formando uma espécie de ‘camuflagem’ que bloqueia toda a abertura.

Os físicos calcularam ainda o que ocorre quando alguém atravessa a camuflagem de luz. Ela ondularia um pouco e o lado oculto da parede ficaria parcialmente visível por instantes.

O efeito parece sobrenatural, mas na verdade é apenas uma versão exagerada do que ocorre quando a luz passa por um copo de vidro cheio de leite.

‘Quando você olha para um copo de leite, você não vê o vidro’, disse o físico britânico John Pendry, do Imperial College, em Londres, em uma reportagem da revista ‘Nature’.

O leite espalha a luz de maneira que parece se estender até a superfície externa do copo. O que os físicos chineses fizeram foi criar um material que espalha a luz muito mais do que o leite. É como se o leite em um recipiente de vidro se projetasse para fora dele.

Falta agora tentar levar o projeto da teoria para a prática.’

 

***

Usar ‘bruxaria’ vira tradição entre físicos

‘Fazer analogias com bruxarias virou uma tradição entre os físicos dedicados a manipular a luz com materiais especiais.

Em 2006, o britânico John Pendry calculou pela primeira vez como metamateriais (estruturas que ‘entortam’ a luz como nenhuma outra) podem tornar objetos invisíveis.

Pendry mencionou o manto da invisibilidade do personagem Harry Potter, de J.K. Rowling, em seu artigo científico por sugestão da mulher, fã do bruxo.

Um homem invisível, entretanto, tem um grande problema: assim como ninguém pode vê-lo, ele não pode ver ninguém.

A equipe de físicos da Universidade de Jiao Tong (China) descobriu no começo do mês um ‘manto da antiinvisibilidade’, que o homem invisível pode usar sob seu próprio manto para conseguir enxergar. Foi a partir dessa pesquisa que surgiu a idéia da Plataforma 9 3/4.

Como não bastasse tanta bruxaria, os cálculos do portal oculto deram outra idéia: a coluna mutante.

‘Podemos fazer uma coluna se parecer com qualquer coisa’, disse o chinês Huanyang Chen à Folha.’

 

PLÁGIO
Marcelo Leite

Vergonha na USP

‘A Universidade de São Paulo, maior e melhor instituição pública de pesquisa e ensino superior do Brasil, faz 75 anos em 2009.

Quando ela ainda tinha 45 anos, formei-me em jornalismo na sua Escola de Comunicações e Artes, mas prossegui como aluno de filosofia (estudo que, infelizmente, nunca concluí).

Hoje me pergunto se ainda devo ter orgulho de ser ex-aluno da USP. No centro da preocupação com minha ‘alma mater’ (mãe nutridora), como dizem os norte-americanos e os britânicos, está o caso de plágio em seu Instituto de Física.

Não pelo caso em si, que é menor, mesquinho mesmo. Briga de comadres por migalhas de micropoder institucional. Nem vem ao caso quem acusa quem, só que professores titulares admitem copiar trechos de artigos científicos de outros sem a devida referência bibliográfica.

Não só ex-alunos, mas todo contribuinte que sustenta a USP e qualquer pessoa que cultive valores intelectuais deve preocupar-se com o modo como o caso foi tratado pela reitoria. Se a instância máxima da universidade agiu com o propósito de resguardar seu prestígio, bem, escolheu a pior maneira de fazê-lo.

Causam perplexidade dois comunicados sobre o caso divulgados pela reitoria nos dias 22 e 23 deste mês (na internet: www.reitoria.usp.br/reitoria). O primeiro informava que a Comissão de Ética da USP havia concluído -uma semana antes…- ‘os trabalhos de apreciação do caso de suposto plágio envolvendo professores do Instituto de Física’.

O qualificativo ‘suposto’ indica a disposição clara de proteger os investigados, embora eles próprios tivessem admitido o deslize. O paternalismo corporativo (ou seria ‘maternalismo’?) vem explicitado a seguir: ‘Ressalte-se que o relatório da Comissão de Ética não é um documento público, uma vez que seu conteúdo envolve a avaliação de comportamento ético individual. Portanto, a divulgação de atos do processo só pode ser feita com a autorização dos investigados, conforme reza a Constituição Federal, em seu artigo 5º, [inciso] X’.

Como assim? Se um professor e funcionário público foi investigado por má conduta acadêmica e inocentado, tem todo o interesse em que o relatório venha à luz. Se foi condenado, não tem cabimento dar-lhe o direito de veto sobre a divulgação.

A reitoria parece ter-se dado conta logo a seguir do atentado contra o princípio da publicidade, formulado por Immanuel Kant (1724-1804) em seu ‘Para a Paz Perpétua’ (1795): ‘Todas as ações relativas ao direito de outros homens, cuja máxima não é suscetível de publicidade, são injustas’.

Uma espécie de errata foi publicada pela reitoria no dia seguinte, com a satisfação negada ao público 30 horas antes: ‘Diante da conclusão dos trabalhos da Comissão de Sindicância e da Comissão de Ética, sobre a investigação de plágio, a Reitoria comunica que, no entendimento da Comissão de Ética, embora os trabalhos científicos, que foram objeto da investigação, contenham pesquisa original, houve um desvio ético na redação dos mesmos por uma inaceitável falta de zelo na preparação dos artigos publicados.

Isso resultou na consignação, pela Comissão, de uma moção de censura ética aos autores, pela não-observância dos preceitos éticos da Universidade’.

Qual ‘desvio ético’? Que ‘preceitos éticos’ deixaram de ser observados? É uma vergonha que a reitoria prossiga em sua recusa a dar uma explicação completa do caso.

MARCELO LEITE é autor de ‘Promessas do Genoma’ (Editora da Unesp, 2007) e de ‘Brasil, Paisagens Naturais – Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros’ (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br).’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Primeira-Dama nº 2

‘Casada com Amilcare Dallevo, presidente da Rede TV!, Daniela Albuquerque, 26, é a segunda primeira-dama da emissora _a primeira é Luciana Gimenez, mulher do vice, Marcelo de Carvalho. Ela apresenta o reality ‘Dr. Hollywood’, de cirurgias plásticas, que vem crescendo no Ibope a cada mês. Daniela estuda jornalismo, assim como o marido, e quer seguir carreira de apresentadora de programa ‘sério’. ‘Estou gostando, dou o melhor de mim’, conta. Ela revela que estuda teatro (‘Porque às vezes fico muito presa’) e que fez plástica. ‘Coloquei prótese nos seios.’

Impasse ameaça remake da novela ‘Guerra dos Sexos’

O projeto de um remake da novela ‘Guerra dos Sexos’ (1983/84), um dos maiores sucessos de todos os tempos na faixa das 19h da Globo, está por um fio. Um impasse entre o autor Silvio de Abreu e a direção artística da emissora pode implodir a idéia de regravação dos conflitos entre Charlô e Otávio.

O problema é que a cúpula da Globo quer que ‘Guerra dos Sexos’ seja refeita para exibição às 18h, com o que Silvio de Abreu não concorda. ‘Guerra’ é uma novela típica das 19h, não iria emplacar às 18h, ainda mais com todas as restrições da classificação indicativa para o horário’, argumenta Abreu. ‘Acho difícil que se faça esse projeto’, palpita.

Estrelada por Paulo Autran e Fernanda Montenegro, ‘Guerra dos Sexos’ foi uma comédia pastelão. Até hoje a Globo reprisa cenas em que Autran e Fernanda se agridem com tortas na cara. Segundo Abreu, sua única pretensão era entreter e mostrar o rídiculo das discussões entre feminismo e machismo em voga na época.

A novela gravitava em torno de dois primos que se odiavam, mas tinham de tentar alguma convivência porque herdaram imóveis e uma grande loja em um shopping de São Paulo _o Eldorado, um ‘must’ paulistano do início dos anos 80.

No elenco, também estavam Tarcísio Meira e Glória Menezes, pela primeira vez rivalizando, sem fazer par romântico.

Há quatro anos, a Globo cogitou transformar ‘Guerra dos Sexos’ em filme.

FUTURO ONLINE

O Warner Channel exibe em seu site desde a semana passada a websérie ‘Sorority Forever’, na qual a atriz Angie Cole (foto) é uma das protagonistas. É a primeira vez que o Warner lança uma produção exclusiva para a internet. Seria medo da nova mídia? Alfredo Duran, gerente-geral do Warner Channel para a América Latina, diz que não. ‘A internet será um complemento da TV. A TV sempre terá seu espaço com o consumidor porque as pessoas sempre vão querer ver TV em uma tela grande. A internet satisfaz necessidades imediatas do consumidor, de levar a mídia aonde quer que ele vá, no celular ou no seu computador’, afirma.

DONO DO HORÁRIO

Autor de ‘Caminhos do Coração’/’Os Mutantes’, no ar desde agosto do ano passado, Tiago Santiago não pretende descansar tão cedo. A previsão atual é que ‘Os Mutantes’ fique no ar na Record até março, mas Santiago acredita que ela pode ser estendida. Se não for, vai brigar para que a substituta seja dele ou de alguém supervisionado por ele. ‘Tenho uma equipe grande’, justifica. Como Santiago tem muito prestígio na Record (que também sofre da falta de autores), isso não é impossível.

RÁDIO PEÃO

É fortíssimo o boato na Record de que Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo, será promovido a vice-presidente da mesma área. A emissora nega com veemência. Mas, alheios a isso, três subalternos de Tavolaro travam uma acirrada disputa de bastidores para tentar pegar a vaga do chefe.

HELENA JOVEM

Manoel Carlos desmente a notícia de que a protagonista de sua próxima novela será negra e interpretada por Taís Araújo. ‘Ainda não tenho nem sombra de sinopse. Nem para a Taís nem para outra atriz qualquer. A única coisa que posso garantir é que a minha próxima Helena será bem mais jovem’, diz.

PERGUNTA INDISCRETA

FOLHA – Você ficou irritada com nudistas que te fotografaram nua numa praia da Paraíba e colocaram as imagens na internet. Achou um desrespeito por você ser famosa, não é isso? Mas o que te leva a crer que você é famosa?

Danielle Souza (a Mulher Samambaia do ‘Pânico na TV’) – Nada me levou, eu não sou famosa. Então qualquer mulher bonita que for na praia de nudismo eles vão bater fotos e colocar na internet? Achei um desrespeito porque só fizeram fotos quando tiramos a roupa. Defendem uma causa, um estilo de vida e tiram fotos da gente…’

 

Audrey Furlaneto

Cláudia Raia encarna sua versão global de ‘mutante’

‘‘Esta sou eu: Cláudia. Pernas esticadas, ombros certos.’ Cruza a sala de espelhos da aula de balé, elegante, quase nas pontas dos pés. ‘Esta é ela.’ Cláudia Raia, então, relaxa os ombros e caminha com as pernas levemente abertas, postura que lhe dá um pouco de dor no pescoço desde junho, quando estreou Donatela em ‘A Favorita’.

A personagem dará mais uma de suas viradas na novela das oito: será, de novo, ela mesma. Para entender: Donatela era pobre, fez parte de uma dupla sertaneja, ficou rica, botou mega-hair, perdeu tudo, passou uma temporada na prisão, cortou o cabelo, tentou fugir da cadeia por uma tubulação, adotou uma peruca loira e lentes de contato azuis para se passar por uma mulher que teria sido abduzida por extraterrestres e, agora, deve reaparecer -sem peruca, de cabelo curto- para a família que a julgava morta.

A ‘sobrevivente do inferno’, como Raia resume Donatela, é o terceiro personagem ‘dramático’ de sua carreira. ‘É talvez o mais difícil que já fiz’, diz ela, que, 41 anos e 11 novelas no currículo, é mais lembrada por papéis cômicos, como Tancinha, de ‘Sassaricando’, e a presidiária Tonhão, do ‘TV Pirata’.

‘Qualquer texto que eu pegue na vida, vou achar graça. Porque o meu olhar é de comediante’, afirma. Além de Donatela, seus dois outros personagens dramáticos foram em ‘Engraçadinha’ (1995) e em ‘Torre de Babel’ (1998).

Para o primeiro, aliás, Raia fez um teste clandestino, já que o diretor (Carlos Manga) dizia que ela estava longe de ser uma ‘atriz rodriguiana’. ‘A Denise [Saraceni] me disse: ‘Você pagaria o mico de ir à noite de peruca no Projac?’. Eu fiz o teste na surdina. Ele viu e ficou chocado: ‘Ela é a ‘Engraçadinha’. E completa: ‘A gente é ator. Quer exercitar tudo’.

Professor de drama

Para o ‘exercício’ de drama com Donatela, a atriz se inspirou no neo-realismo italiano. ‘A Donatela tem muito da Anna Magnani e da Sophia Loren nos filmes dramáticos’, diz. Também recorreu ao ator e amigo Cacá Carvalho, que, ela conta, classificou o papel como ‘jóia rara’ ao ler a sinopse. Desde o convite, os dois estudam juntos os capítulos e ‘cada sentimento’ da personagem.

‘Alugamos uma sala de dança em São Paulo e ficávamos seis, sete horas trabalhando ali dentro. Fazendo corpo, laboratório, o mundo pobre dessa mulher, a coisa country. Criamos o sotaque, que é minha memória do interior de São Paulo…’, conta. ‘A grande sacada [de Carvalho] foi ver a profundidade dela, de uma mulher que não é entendida, extremamente agoniada. Trabalhamos muito a dubiedade’, diz.

Com a maratona de Donatela, os encontros passaram a ser via Skype e duram até seis horas nos finais de semana. ‘Ele diz para eu fazer esse ou aquele sentimento dela, e eu vou anotando. Eu faço. E nunca tá bom, claro. Ele acha sempre que tá tudo ruim. Mas fica orgulhoso de coisas que vê no ar.’

A atuação de Cláudia Raia não inclui visão de raio-X, lançar bolas de fogo ou congelar inimigos, mas a atriz vive uma mutação na novela que ajudou a manter distante os reais ‘mutantes’ da novela da Record. ‘A Favorita’ e a mutante de João Emanuel Carneiro ajudaram a garantir média de 38 pontos na Grande São Paulo, entre os dias 8 e 14 deste mês.

O próprio autor Silvio de Abreu, que deu a ela o papel dramático de Ângela em ‘Torre de Babel’, diz que não perde um capítulo de ‘A Favorita’ -mas seu interesse diminui quando Donatela e Flora (Patrícia Pillar) não estão no ar.

‘É uma opinião. A novela é mesmo muito focada na trama central. Essa história é tão forte que as pessoas querem ver, e o João não abre mão disso’, avalia Raia.

Soneca

Nos últimos dias, a atriz chegou a fazer 12 cenas por capítulo -são, em média, 30 cenas por capítulo. ‘Tem micos do tipo: eu caio dormindo, e o Edson [Celulari, marido de Raia] me tira de cima do texto feito uma velhinha: ‘Tá bom, amor. Você não tá decorando mais nada’, conta. ‘Esse personagem é muito raro, sinto que é meio único na carreira. Mas isso não me faz melancólica’, diz.

Restam os fins de noite para estudar os textos porque, quando deixa os estúdios do Projac cedo (cerca de 19h), Raia segue para a aula de balé, na Gávea, perto de sua casa.

Faz uma hora de exercícios de duas a três vezes por semana -é filha de bailarina, dança desde criança- e alterna aulas de canto, que podem terminar depois das 22h. Quer estar sempre pronta para a possibilidade de atuar num musical.

No dia seguinte, tem de acordar às 7h. ‘Dá para você melhorar minha olheira no Photo- shop depois?’, pede ao fotógrafo, ao fim do dia. Não deu. A Folha não retoca suas fotos.’

 

Cristina Fibe

‘Mainardi Jr.’ se destaca no ‘CQC’

‘Mais de meia hora depois do combinado, na tarde da última segunda-feira, Warley Santana, 31, o ‘repórter experiente’ do ‘CQC’ chega à TV Bandeirantes, no Morumbi, para conversar com a Folha. O problema foram as camisas brancas. Não encontrava nenhuma que não estivesse amarrotada, para aparecer bem na foto, dentro do uniforme do programa.

É que Santana não é repórter, tampouco experiente. Ele é ‘assessor de imagem’ do ‘Custe o Que Custar’, mas uma assessora de imprensa o acompanha o tempo todo, o faz passar a camisa, cuida para que não ‘revele’ demais. Ele ainda precisa cuidar da própria imagem.

Mas, no ‘CQC’, é ele quem ‘cuida’ da imagem dos outros: no quadro ‘Em Foco’, engana políticos e celebridades (veja quadro), finge desligar a câmera, dá orientações, os faz citar frases e alterar raciocínios.

E em que ‘repórteres’ se inspirou para fazer o quadro? ‘É uma mistura de Diogo Mainardi com Amaury Jr.’, ri. Em seguida, pensa se aquilo é coisa que se diga, olha para a assessora e libera a publicação. ‘Respeito, até gosto dos dois’, protege-se o ‘Mainardi Jr.’, destaque do ‘CQC’, um dos programas mais vistos da Band. É sua primeira experiência na TV e como humorista. O ator, que ainda nega o rótulo de comediante, conta que não largou sua primeira profissão, a que ‘paga as contas’ -as suas e as da filha de 13 anos. Por trás da cara de playboy, do gel nos cabelos e da pose de ‘marqueteiro’, está um tradutor simultâneo (‘inglês e espanhol’) que trabalhou durante anos na agência Reuters. Ele não sabe precisar quantos anos, porque ‘tem memória ligada a eventos, e não ao tempo’, como explicaria depois, gastando o inglês.

Perna-de-pau

Após uma experiência frustrada como aspirante a jogador de futebol (‘profissional, no time em que o Beckham joga hoje, o LA Galaxy’) nos EUA, para onde foi aperfeiçoar a língua, Santana levava uma vida cansativa em São Paulo, trabalhando ‘muito’ como tradutor.

Para ‘desestressar’, foi estudar teatro. Logo começou a fazer comerciais (o primeiro, de cerveja), depois vieram peças e a chance de fazer um filme.

Quando o ‘CQC’ procurava um ‘repórter’ com sangue-frio para fazer os entrevistados passarem vergonha, Santana foi fazer o teste, indicado pelo apresentador Marco Luque, que já o conhecia. Passou.

Antes de estrear, gravou as 19 entrevistas do ‘Em Foco’. Cinco delas já foram ao ar. Dessas, pegou mais pesado com o petista José Genoino, que já era conhecido por ignorar os membros do ‘CQC’. Pois o deputado atendeu muito bem o ‘repórter’, que disse ter estudado com ‘Carl Fischer, o do [Barack] Obama’, e o aconselhou a citar frases, falar de um assunto ou outro e até se contradizer.

Genoino obedeceu, pensando que a câmera estivesse desligada; tudo foi ao ar. De outro lado, a entrevista mais ‘simpática’ até agora foi a com a Miss Brasil Natália Anderle, meramente engraçada, mas sem maldade. Foi a beleza da modelo que o atrapalhou?

‘Não… não deixei transparecer, mesmo porque nem estava sentindo isso… A gente ficou amigo depois’, ri.

A reação de Natália nenhum outro entrevistado teve, ao menos até agora. O deputado Sandro Mabel, por exemplo, diz ter entrado com processo contra a TV Bandeirantes.

Mas o ator não vê maldade no ‘Em Foco’. ‘É até uma ajuda, entre aspas… Acaba sendo uma assessoria de imagem invertida, porque agora o cara vai aprender a lidar com a imprensa’, brinca.

E como, afinal, manter o sangue-frio diante dos entrevistados? ‘Por saber que a gente [a equipe] ia rir depois. Porque a gente ria muito.’

O seu futuro no ‘CQC’, depois que as 19 entrevistas forem exibidas, ele diz não saber.

‘Aliás, se tiver uma idéia, por favor, me passe’, diz à repórter.

‘Quero sobreviver no ‘CQC’.’

CUSTE O QUE CUSTAR

Quando: segundas, às 22h; reprise aos sábados, às 20h

Onde: na TV Bandeirantes

Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos’

 

***

Piada custou meu emprego, diz assessor

‘A estréia do quadro ‘Em Foco’, no último dia 25 de agosto, com o deputado federal Sandro Mabel (PR-GO), não rendeu só bons frutos à Bandeirantes. O político diz ter entrado com processo por danos morais contra o canal, cujo departamento jurídico afirma que ‘não recebeu nenhuma notificação’.

Pior do que isso: segundo o assessor de imprensa do político, João Ricardo Lopes, 35, o quadro também causou sua demissão. Ele diz que será exonerado no próximo dia 30, após dois anos com o deputado, por ter ‘caído’ na mentira do programa.

‘Foi o único fato que gerou conflito [com Mabel]. Estávamos em céu de brigadeiro’, diz Lopes, que, por isso, decidiu ele também processar a Bandeirantes, o que promete fazer nesta semana.

O assessor disse ainda que ‘o deputado não está querendo falar sobre esse processo’. Outra coisa que irritou Lopes foi o fato de a equipe do ‘CQC’, segundo ele, ter dito que era do ‘Em Foco’, da ‘RedeTV!’.

A Band diz que ‘jamais utilizaria o nome de uma concorrente, não é verdade’ e que a produção se apresentou como sendo da Rede 21, emissora que também pertence ao grupo Bandeirantes.’

 

Bruna Bittencourt

‘Sex Shake’ fala de sexo em ritmo de clipe

‘Destoando do ‘soft porn’ estrangeiro que se espalha pelas madrugadas da TV, ‘Sex Shake’ fala de sexo em linguagem de videoclipe e com algum humor. Com 15 minutos de duração, o programa nacional é exibido desde agosto no Multishow e marca a estréia na TV do grupo de DJs e VJs carioca Apavoramento Sound System.

A tal ‘batida sexual’ do título do programa se traduz na edição frenética, picotada, para misturar cenas de dançarinas de funk ensaiando coreografias, mulheres rebolando sobre balcões de bar e notícias tão insólitas quanto picantes. Numa edição recente, por exemplo, uma foto da atriz Sienna Miller com um homem numa praia surgiu com legenda dizendo que ela ‘protagonizou cenas tórridas com um milionário casado e virou manchete de tablóides pelo mundo’.

‘Sex Shake’ é o resultado de várias mídias’, afirma João Rebello, 29, diretor do programa, e um dos membros do Apavoramento. ‘É como uma montagem de funk, em que vários trechos de música constroem uma nova’, compara o DJ.

O convite para o grupo fazer ‘Sex Shake’ surgiu quando o Multishow passou a apostar em programas que envolvessem outras mídias, como o extinto ‘Retrato Celular’, série gravada a partir de telefones celulares, e ‘As Pegadoras’, no ar desde maio na grade do canal.

Produzido pela Conspiração, ‘Pegadoras’ é apresentado por três mulheres que lêem relatos enviados por internautas de alguma história sobre sexo. Cabe ao trio escolher a melhor, que é recriada por atores.

O making of do programa é um dos quadros de ‘Sex Shake’, assim como ‘Supersafadas’, no qual garotas -que são, na maioria das vezes, conhecidas do coletivo- falam sobre seus relacionamentos e experiências sexuais. ‘Elas acabam saindo mais resolvidas, vira uma análise, é a parte freudiana do programa’, filosofa Rebello.

Parte das cenas de ‘Sex Shake’ -registros de bailes funk e extravagâncias da noite, além de trechos de filmes- vem do arquivo de imagens do Apavoramento Sound System.

Sets na praia

O grupo ficou conhecido na cena eletrônica a partir de 2003, quando, além das casas noturnas, montava sets-relâmpago, para tocar durante o dia em praias cariocas -naquele ano, também foi escalado pelo Tim Festival. No repertório, a mesma fusão de electrofunk, breakbeat e funk carioca, que marca a trilha do ‘Sex Shake’.

‘A gente começou como um sound system e evoluímos para uma produtora’, diz o diretor.

Antes do programa, o Apavoramento estreou no teatro com ‘Zapeando’, seqüência de esquetes que satirizava a TV. Escrita por Chico Paschoal e Bento Ribeiro, filho do escritor João Ubaldo Ribeiro, ‘Zapeando’ fez duas temporadas no Rio e foi ao Festival de Teatro de Curitiba deste ano.

‘A peça ajudou a aprimorar a linguagem do ‘Sex Shake’, diz.

‘O Rio sempre teve uma escola de humor besteirol. É natural lembrar do ‘TV Pirata’, do Asdrúbal [Trouxe o Trombone].’

Agora o diretor quer levar ‘Zapeando’ à TV e fazer piada dela nela mesma.

SEX SHAKE

Quando: de seg. a sex., à 0h15

Onde: no Multishow

Classificação indicativa: não informada’

 

Sylvia Colombo

‘House’ luta para não virar ‘one-man-show’

‘A quinta temporada de ‘House’ acaba de estrear nos Estados Unidos -e chega ao Brasil, pelo Universal Channel, até o fim do ano-, apontando para uma necessária virada dramatúrgica.

O show começou bem em 2004 com uma original abordagem do mundo médico, por meio da controversa e bem-humorada figura do dr. House -uma espécie de Jack Bauer (‘24 Horas’) do mundo hospitalar, que quebra todos os protocolos da área, exaspera o senso comum, mas sempre traz a solução correta ao final.

Os pacientes chegam às suas mãos prestes a morrer de doenças misteriosas que ele e seu time têm de resolver por meio de decisões rápidas e de alto risco.

Quando todos apontam para um diagnóstico que parece ser o certo, mas que não se traduz na cura, House tem uma sacada inusitada e salva os coitados.

Essa fórmula funcionou bem nas primeiras temporadas. Não só por conta do fantástico humorista que é o britânico Hugh Laurie, ex-parceiro do célebre Stephen Fry, mas porque sua equipe funcionava bem nos momentos de tensão em que se discutiam os quebra-cabeças.

Era, porém, previsível que o formato logo cansaria. E, na temporada anterior, uma nova aposta foi feita. Copiando um pouco o modelo de ‘Six Feet Under’ (Alan Ball), os episódios continuaram a exibir, no começo, um caso desesperador que logo iria parar num dos leitos do Princeton Plainsboro Hospital, em Nova Jersey. Só que o enigma clínico passou a causar um impacto mais significativo nos relacionamentos entre os personagens.

A série, então, passou a evoluir como uma novela, trazendo mais continuidade entre capítulos e com os dramas individuais ganhando consistência.

O ápice deu-se no final da quarta temporada, quando House não consegue salvar da morte a namorada do melhor amigo, o oncologista Wilson (Robert Sean Leonard).

Quando a atual temporada começa, House está fazendo de tudo e até contrata um investigador particular, para reconquistar a amizade perdida. Porém, apesar de estar sofrendo, o genial médico não fica mais ‘humano’. Segue tratando mal os enfermos e não se importando com a ética que deveria reger a relação médico-paciente. O sumiço de Wilson -que funcionava como o Watson de Sherlock Holmes- fará com que os roteiristas sejam obrigados a dar mais vigor aos personagens que sobraram em torno do misantropo House -e que a essa altura já não são muitos.

De outro modo, a série corre o risco de reduzir-se a um ‘one-man-show’. Laurie é um grande ator e humorista, mas precisa de boas tramas e interlocutores combativos para que ‘House’ siga sendo o excelente espetáculo que conseguiu transportar o suspense hitchcockiano para a mesa de cirurgias.’

 

Bia Abramo

‘Alice’ seduz nas primeiras cenas

‘EM ‘ALICE’, a nova minissérie brasileira da HBO, o cineasta Karim Aïnouz levou para a televisão a sua enorme facilidade de conduzir uma narrativa por meio de um personagem profundamente empático. Facilidade aqui, bem entendida, como impressão de quem está assistindo; em termos de roteiro e direção, nada deve ser mais complicado.

O fato é que, como em ‘Madame Satã’ (2002) e ‘O Céu de Suely’ (2006), a protagonista de ‘Alice’ seduz o espectador logo nas primeiras cenas. Não por que tenha nada de especial, a princípio, mas justamente pelo contrário.

Em ‘Madame Satã’, havia, claro, a aura lendária do personagem e o interesse despertado por sua história cheia de ambigüidades. Já em ‘O Céu de Suely’, Hermila, de início, é uma mulher perfeitamente comum.

Alice também: moça, prestes a se casar com um cara legal, Henrique, com emprego, família e planos. Tudo isso em Palmas, cidade quase desconhecida, com avenidas que cortam planícies secas, ensolaradas e lembram uma epécie de Brasília construída fora de época. Uma reviravolta da narrativa vai jogá-la numa São Paulo tão desconhecida quanto indecifrável.

É esse o ponto de partida da série, que sugere mesmo um desenrolar clichê. Sabemos que Alice vai ter aventuras amorosas variadas, vai deslumbrar-se com o movimento da metrópole e sofrer com sua dureza -e caso não soubéssemos, a campanha intensiva de lançamento nos informaria em dois tempos. Mas, ao mesmo tempo, como já estamos completamente caídos por Alice, queremos ver como ela, e não qualquer outra, vai passar por tudo isso.

E, claro, como roteiro e direção vão dialogar -ou não- com as referências à personagem de Lewis Carroll. Não se sabe se a Alice de Karim viaja só pelo país das maravilhas, mas prossegue através do espelho -o que, no caso da Alice carrolliana, muda tudo. O primeiro episódio, ‘Na Toca do Coelho’, acertou a mão, tanto em citações visuais (algumas um pouco óbvias demais, mas outras bem mais sutis) como em soluções narrativas. Mas, por ora, faltou o humor ‘nonsense’ e achar uma tradução mais delicada do que o deslumbramento para o sentimento de absurdo, que segue a Alice de Carroll por toda a sua jornada.

Talvez seja esperar demais de uma série de TV. Talvez não: se há algum lugar para experimentar uma TV menos burra, com algumas surpresas do cinema, e, ao mesmo tempo, exercitar uma teledramaturgia de qualidade e ao abrigo das pressões mais mesquinhas da audiência é justamente aí.’

 

CINEMA
Andrea Murta, de Nova York

Câncer mata o ator Paul Newman, 83

‘O ator, diretor e ativista americano Paul Newman morreu de câncer na última sexta-feira em seu rancho em Westport, Connecticut, segundo sua assessoria. Ele tinha 83 anos.

Newman, que trabalhou em mais de 50 filmes, foi indicado a nove Oscars e conquistou três -um deles de melhor ator.

Sua batalha contra o câncer já era conhecida; em maio, ele abandonou planos de dirigir ‘Ratos e Homens’, baseado no clássico de John Steinbeck, citando problemas de saúde.

Paul Leonard Newman nasceu em 26 de janeiro de 1925 em Shaker Heights, Ohio. Filho de um negociante de artigos esportivos, se interessou por atuar após deixar a Marinha. Ele estudou teatro na Universidade Yale e no Actors Studio, em Nova York. Ajudado pela beleza clássica, que ele mesmo dizia explorar ‘desavergonhadamente’, estreou no cinema em ‘O Cálice Sagrado’ (1954).

O estrelato chegou um ano e meio depois, quando herdou de James Dean -morto em um acidente de carro pouco antes- o papel de Rocky Graziano em ‘Marcado pela Sarjeta’.

Olhos castanhos

Apesar do sucesso rápido, ele demorou a ser levado a sério, o que ele creditava à sua beleza e famosos olhos azuis. ‘Já posso ver meu epitáfio: ‘Aqui jaz Paul Newman, que morreu um fracassado porque seus olhos ficaram castanhos’, afirmou.

Ele foi comparado incontáveis vezes a James Dean e Marlon Brando, nem sempre para seu benefício. Para o crítico David Ansen, ele não possuía a presença física dos outros dois, mas era mais próximo da realidade. ‘Newman é nossa grande estrela peso-médio’, escreveu.

Com o gosto por desafios, Newman escolheu interpretar uma série de anti-heróis no cinema. Foi um ladrão de bancos em ‘Butch Cassidy’ (1969), na parceria consagrada com Robert Redford; o filho imoral de um fazendeiro em ‘O Indomado’ (1963) e um condenado rebelde em ‘Rebeldia Indomável’ (1967). Todos os personagens acabaram conquistando a simpatia do público e se tornaram lendas americanas.

Após seis indicações ao Oscar, finalmente ganhou seu primeiro prêmio por ‘A Cor do Dinheiro’ (1986). ‘Foi como perseguir uma mulher a vida toda’, disse ao receber a estatueta. Nesse filme, ele reviveu Eddie Felson, personagem de ‘Desafio à Corrupção’ (1961).

Newman recebeu mais dois Oscars honorários, um pelo conjunto de sua carreira (1986) e um que homenageou seu trabalho humanitário (1994).

Mais do que uma estrela de cinema, ele foi um filantropo, empresário -tinha uma bem-sucedida linha de produtos alimentícios naturais, a Newman’s Own, com fins humanitários- e piloto de corridas, uma de suas paixões. Em 1995, ele correu em Daytona e ficou entre os três primeiros.

Como ativista político, ficou notória sua participação em protestos contra a Guerra do Vietnã. Segundo amigos, ele adorou ter entrado para a lista de inimigos do presidente Richard Nixon (1969-1974).

Também fez nome por ser avesso ao estilo de vida hollywoodiano. Seu casamento com a atriz Joanne Woodward foi um dos mais longevos do cinema. Eles se uniram em 58 e ficaram juntos até sua morte. ‘Por que vou comer hambúrguer se tenho filé em casa?’, disse, sobre sua fidelidade.

‘Estrada para Perdição’ (2002), de Sam Mendes, foi sua última indicação ao Oscar, como ator coadjuvante. Em 2006, fez ainda a voz de Doc Hudson na animação ‘Carros’.’

 

José Geraldo Couto

Ator revelou beleza da imperfeição humana

‘Paul Newman surgiu para o cinema em meados dos anos 50, quando Marlon Brando e James Dean eram os belos rostos de uma juventude atormentada e insurgente que começava a abalar as estruturas do ‘American way of life’.

Formado, como eles, no método realista de interpretação do Actors Studio de Lee Strasberg, Newman poderia ser apenas mais um dessa estirpe -e fez de fato papéis marcantes de jovem rebelde, como o pugilista Rocky Graziano de ‘Marcado pela Sarjeta’ (Robert Wise, 1956) ou o prisioneiro Luke de ‘Rebeldia Indomável’ (Stuart Rosenberg, 1967).

Mas desde muito cedo o ator mostrou que seu escopo era bem mais amplo, incorporando humor, ironia e malícia a uma série muito diversificada de personagens.

Do ex-jogador de futebol alcoólatra de ‘Gata em Teto de Zinco Quente’ (Richard Brooks, 1958), que resiste aos avanços da sedutora mulher (Liz Taylor) por conta de uma relação mal contada com um amigo suicida, ao ambicioso e amoral jogador de sinuca Eddie Felson de ‘Desafio à Corrupção’ (Robert Rossen, 1961), passando pelo cientista que faz um trabalho de agente duplo na Alemanha Oriental (‘Cortina Rasgada’, de Alfred Hitchcock, 1966), Newman conferiu matizes de charme e leveza aos papéis mais díspares.

Essa qualidade auto-irônica fez dele o ator ideal para estrelar releituras mais ou menos paródicas ou farsescas de gêneros clássicos como o faroeste (‘Roy Bean’, de John Huston, e ‘Butch Cassidy’, de George Roy Hill) e o policial ‘noir’ (‘Harper’, de Jack Smight, e ‘A Piscina Mortal’, de Stuart Rosenberg).

Comparado com seus companheiros de geração, Newman parecia dar a suas criaturas características mais humanas, contraditórias e comezinhas. Não carregava nas costas os pecados e culpas do mundo.

Não por acaso, encarnou inúmeros alcoólatras, sem soterrá-los sob o peso da tragédia e do moralismo. Seus personagens pareciam sempre abertos à possibilidade de mudança, de redenção, de reinauguração.

Alguns cineastas perspicazes perceberam isso e o levaram a protagonizar, nos anos 80, belas histórias de ‘volta por cima’ em papéis que se serviam da sua experiência, do seu desprendimento e dessa espécie de encanto do imperfeito que Newman tão bem encarnava.

Foi o caso, sobretudo, de ‘O Veredicto’ (Sidney Lumet, 1982), em que o ator vive o advogado alcoólatra e decadente Frank Galvin, praticamente renascido das cinzas ao se engajar de corpo e alma numa causa, e em ‘A Cor do Dinheiro’ (Martin Scorsese, 1986), em que o velho jogador Eddie Felson, de ‘Desafio à Corrupção’, passa os segredos da sinuca e da corrupção humana a um jovem discípulo (Tom Cruise).

Como bandoleiro, cientista, piloto de automóvel, chefe mafioso, advogado, atleta ou detetive, Newman despia seus personagens da solenidade e parecia levá-los a sério somente até certo ponto. Em vez de exaltar a grandiosidade e o heroísmo, suas criaturas consagravam o que há de belo e divertido nas limitações humanas.

Personagens nem sempre (aliás quase nunca) edificantes, mas invariavelmente plenos de energia e vitalidade, ainda que às vezes momentaneamente soterradas.

Por trás das câmeras, como cineasta bissexto, mostrou-se um sensível diretor de atores -sobretudo de Joanne Woodward, sua mulher desde 1958- em dramas psicológicos familiares, mas não chegou a deixar uma marca pessoal.

Talvez nenhum outro ator tenha conciliado tão bem como Paul Newman o magnetismo pessoal -que ia além da evidente beleza, atingindo o que os americanos chamam de ‘star quality’- e a capacidade de compor seres humanos tão ricos e palpáveis quanto aqueles com quem cruzamos na rua diariamente.’

 

LITERATURA
Marcelino Freire

Pequenas bruxarias

‘Bons Dias!

Era assim que Machado de Assis iniciava suas crônicas na ‘Gazeta de Notícias’. Repito aqui, pois, a saudação. Acabam de sair mais dois livros do Machado. Sim: na calorosa e inflacionada comemoração dos seus cem anos de morte. Fiquei pensando: de novo? O que de novo? Qual novidade? Oh!

Claro: Machado é, senão, nosso escritor maior. E infindável será o que se falará dele.

Sempiternamente. Meu texto, este por exemplo, soará pauperramente débil diante de tamanha grandeza.

Verdade, amigos, não é ironia. É esperteza.

Como escrevia feito diabo o danado! Aos 22 anos já era um gênio. Explico: as crônicas de ‘Comentários da Semana’, um dos dois títulos ora lançados, foram escritas pelo jovem Bruxinho em 1860 (e publicadas no ‘Diário do Rio de Janeiro’).

E ele já começa na sua fina adrenalina. Na crônica número um, comunica: ‘Eu devia escrever estas linhas em cima de um capitel antigo, ou diante de um livro de velha poesia grega. Pedem-mo o assunto e a disposição de meu espírito, que, ingênuo, se volta para as singelas crenças antigas, enjoado da filosofia deste século desabusado. […] Doloroso é o salto mortal que sou obrigado a dar’.

Meu Cristo!

Ingênuo também (e doloroso) caminha o meu espírito.

Sem saber idem o que escrever.

Vagando entre outrora e os tempos de agora.

Por exemplo: lugar-comum dizer o quanto Machado é atual e veloz. Na sua linguagem irônica, bem-humorada, inovadora. Para falar de ópera e operários. De peças de teatro. Correndo, corrosivo e ritmado, de um assunto para o outro. Ora, parágrafos sobre atores, diretores, músicos, dançarinos e platéias emplumadas. De repente, sobre a morte de um poeta. Ou sobre as diferenças entre um cemitério turco e um cemitério cristão.

Edições cuidadas

Não, não me peçam explicação. Não vou aqui encher de informação didática esse canto de página. Poupemos nosso tempo. Tão precioso e conturbado! Os dois volumes falarão por si. Vêm repletos, enfim, de notas explicativas muito bem cuidadas. No volume ‘Comentários da Semana’, por Lúcia Granja e Jefferson Cano. No outro, ‘Bons Dias!’, a edição vem assinada por John Gledson. Sim, aquele professor da Universidade de Liverpool, velho conhecedor do autor carioca.

Pincelei uma das muitas coisas curiosas: Machado inventou um nome com o qual subscrevia o seu lado cronista de variedades. A saber: Gil.

Inevitável não lembrar do nosso ex-Ministro da Cultura.

Não pelo pseudônimo, mas por causa de uma das crônicas do ‘Bons Dias!’, em que Machado comemora:

‘Antes de mais nada, deixem-me dar um abraço no Luís Murat, que acaba de ‘não’ ser eleito [aspas minhas] deputado pelo 12º distrito do Rio de Janeiro. Eu já tinha escovado a casaca e o estilo para o enterro do poeta e o competente necrológico: ninguém está livre de uma vitória eleitoral. […] Não é que seja mau ter um lugar na Câmara. Tomara eu lá estar.

Não posso; não entram ali relojoeiros. Poetas entram, com a condição de deixar a poesia.

Votar ou poetar.’

Sei lá.

Repito: fui lendo e traçando paralelos. Observando o quanto somos velhos. Nas mesmas pendengas e conflitos. Magistral é o jeito com que Machado fala, em vários textos de ‘Bons Dias!’ (estes, escritos entre abril de 1888 e agosto de 1889) sobre a abolição da escravatura.

Não há ‘salvação’ para os negros. A abolição os conduzirá a salários miseráveis e à instabilidade de trabalho. E isso continuará por muito tempo.

É mesmo?

E aí pensei nos nossos modernos cortadores de cana, nos catadores de lata, nas minas de carvão. Mas Machado não pede tamanho exagero. Toda vez que o leio, ganho um sarcasmo sorrateiro, uma violência implícita, uma sombra de poética assombração. Acalmo os meus nervos. E os meus olhos ressacados. E a minha alma em frangalhos.

‘Quebrar a pena’

Perdão, amigos leitores, este meu texto falho para tratar de um dos nossos maiores e mais atuais debochadores.

‘O fim particular que levo nas linhas que aí ficam escritas é pedir-vos que, com o auxílio da vossa poderosa lente moral, me designeis qual a sorte desses comentários. […] Se for boa a predição, tornar-me-ei forte; se contrária me for, quebrarei a pena e me recolherei à tenda, como o velho guerreiro, sem me queixar de ninguém’, precavia-se o mancebo escritor. E assinava, ao fim dos relatos, como assino, de minha parte e hoje, a todos os meus sonoros: boas noites.

MARCELINO FREIRE é escritor, autor de ‘Rasif – Mar Que Arrebenta’ (contos, ed. Record).

BONS DIAS!

Autor: Machado de Assis Editora: Unicamp (tel. 0/xx/19/3521-7718) Quanto: R$ 40 (320 págs.)

COMENTÁRIOS DA SEMANA

Autor: Machado de Assis

Editora: Unicamp

Quanto: R$ 28 (216 págs.)’

 

Pedro Dias Leite

Terapia pelos livros

‘Talvez você fique duas horas no trânsito para ir a um trabalho que odeia. Talvez você tenha filhos pequenos e só sobrem cinco minutos de vez em quando para ler. Talvez você esteja para embarcar em uma viagem de três semanas para a Amazônia e busque um livro que fale de tudo sobre o destino. Tudo o que o aflige e tudo o que o encanta. Nós vamos encontrar a receita de leitura certa para você.’

É assim que a School of Life (literalmente, Escola da Vida) define a ‘biblioterapia’, projeto lançado no início deste mês em Londres.

A idéia é a seguinte: o cliente preenche uma ficha com informações sobre sua história, suas aspirações e seus hábitos e, a partir de uma consulta com um especialista, recebe indicações de leitura que o ajudem a enfrentar uma nova fase, encarar uma etapa importante ou simplesmente aproveitar um momento da vida.

Como você descreveria seus hábitos de leitura? Quando você lê, e onde? Você termina o que você começa a ler? O que está te preocupando? Onde você se imagina daqui a dez anos? Quais são suas paixões?

Essas são algumas das perguntas do questionário, que é preenchido e repassado a um dos especialistas, que vai analisá-lo e fazer uma entrevista com o cliente.

35 a sessão

Uma sessão custa 35 (R$ 120), mas pode-se escolher um contrato de cinco meses, em que o biblioanalista acompanha suas leituras e troca informações por e-mail, por 50 (R$ 170).

‘As pessoas muitas vezes nem sabem o que estão procurando, estão perdidas. O objetivo não é impor uma leitura, mas encontrar algo que tenha a ver com o momento e os anseios’, diz Harriet Warden, a gerente-geral da loja.

O estabelecimento abriu há três semanas e, desde então, cerca de 30 pessoas já procuraram as sessões de biblioterapia. ‘Um casal planejava fazer uma viagem e procurava obras que ao mesmo tempo transmitissem o clima do lugar e dessem uma idéia não-ficcional do que iriam encontrar. Nosso consultor sugeriu alguns livros… Vamos ver quando voltarem’, afirma Warden, detrás do pequeno balcão da pequena loja, perto da estação de metrô de Russel Square.

A Escola da Vida se define como uma ‘pequena loja com enormes ambições’. As prateleiras têm menos de cem livros, mas numa divisão especial.

O tom de auto-ajuda da loja é atenuado pelos nomes por trás da empreitada. Entre os sócios da ‘Escola da Vida’, estão o filósofo Alain de Botton, que ficou famoso com o livro ‘Como Proust Pode Mudar Sua Vida’ (Rocco), o escritor Robert Macfarlane, professor na Universidade de Cambridge e ganhador de vários prêmios literários, e o também escritor Geoff Dyer.

‘Esse é o tipo de lugar que pode te tornar genuinamente sábio, em vez de apenas esperto. É tudo o que eu tenho tentado fazer com a minha escrita nos últimos 15 anos’, diz De Botton no site da loja.

Cursos

Além da biblioterapia, a escola também oferece uma série de cursos, nos moldes dos que a Casa do Saber oferece no Brasil. São ‘cursos pequenos sobre as grandes questões da vida’: diversão, família, trabalho, política e amor.

‘Algumas pessoas jamais teriam se apaixonado se elas não tivessem ouvido falar disso’ é a frase de La Rochefoucauld (1613-80) escolhida para o panfleto do curso sobre o amor, que começa com o ‘Banquete’, de Platão, para explicar por que as pessoas precisam de um relacionamento, passa pelas visões de vários filósofos sobre sexo e termina tentando responder à pergunta sobre como fazer o amor durar.

Os cursos custam 195 (R$ 665) e são um dos principais objetivos da escola. Na tarde de quinta-feira, quando da visita à loja, na hora do almoço, cerca de 15 pessoas chegavam para uma palestra que iria durar até o final da tarde.

Em busca de aventura

O objetivo é encontrar um público ‘em busca de aventura pessoal e intelectual’, com ‘curiosidade, mente aberta e um apetite pela vida’.

Em tempos em que um livro é publicado a cada 30 segundos e seriam necessárias 163 vidas para ler todos os livros oferecidos pela Amazon (como bem lembra o site da escola), as sessões de biblioterapia podem ser um bom guia para quem está perdido.

Mas é sempre bom lembrar a frase de Virginia Woolf em ‘Como Ler um Livro’, de 1926: ‘O único conselho que alguém pode dar sobre a leitura é: não aceite nenhum conselho’.’

 

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