Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Fomos omissos. E arrombaram a porta

Por Rafael Motta em 23/06/2009 na edição 543

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e sindicatos da categoria reagem à derrubada da obrigatoriedade de diploma para o exercício do jornalismo, enquanto profissão, como se tentassem pôr uma tranca numa porta arrombada. Se o Supremo Tribunal Federal (STF), última instância da Justiça brasileira, decidiu que é desnecessário cursar jornalismo para se tornar jornalista, só resta espernear. Nada mais.

Defendo que se regulamente de alguma forma esta profissão desvalorizada – na qual, mesmo em redações nos centros mais desenvolvidos, o piso salarial corresponde ao teto, inexistem planos de carreira e um recém-formado ganha tanto quanto um profissional experiente, honesto e de bom nível. Entretanto, vejo a decisão do STF como resultado do quanto fomos omissos ainda antes de conquistarmos um canudo.

Nas faculdades, estudantes mobilizam-se contra reajustes nas mensalidades, mas deixam de lado discussões acerca da qualidade dos cursos que frequentam. Diretórios acadêmicos e centros estudantis organizam jogos universitários, churrascos e confraternizações. Contudo, são incapazes de reunir alunos para debater os currículos das faculdades que cursam. Trata-se da preocupação de uma minoria.

Já enquanto profissionais diplomados, muitos praticam a lei da oferta e da procura. Mas do modo menos vantajoso para si: diante da escassez de postos de trabalho, aceitam ser admitidos (com ou sem carteira profissional preenchida) por salários inferiores aos pisos pré-fixados; quando saem do emprego, deixam aberta uma vaga a ser ocupada por alguém, mesmo com diploma, disposto a ganhar ainda menos.

Defesa tardia

Entre os que enveredam para o sindicalismo, há quem o faça para ter estabilidade no emprego durante o mandato. E os sindicatos pouco têm conseguido além da reposição inflacionária, por melhores que sejam as intenções que divulgam. A pretensão mais recente é a de que os reajustes salariais se equiparem ao crescimento dos lucros que as empresas jornalísticas tiveram no ano passado. No fim, ficam com a inflação.

Daí porque é difícil acreditar que, se não alcançou tais propósitos antes, será agora que a Fenaj obterá sucesso na promessa de tomar ‘todas as medidas possíveis para rechaçar os ataques e iniciativas de desqualificar a profissão, impor a precarização das relações de trabalho e ampliar o arrocho salarial existente’, como diz o comunicado da federação que este Observatório veiculou em seu número anterior.

Ainda quanto à defesa tardia do diploma por parte da Fenaj, ‘em que pese o duro golpe na educação superior, os cursos de Jornalismo vão seguir capacitando os futuros profissionais e, certamente, continuarão a ser a porta de entrada na profissão para a grande maioria dos jovens brasileiros que sonham em se tornar jornalistas’.

‘Ética do jornalista é um mito’

Tomara que tais cursos sejam em número muito inferior ao atual. Não porque passaram a ser dispensáveis para o ingresso no jornalismo, mas pelo fato de que o país viu surgirem tantas faculdades do tipo (só em Santos, de onde escrevo, existem cinco ou seis, que despejam no mercado uns 200 bacharéis por ano) que é comum a admissão de professores que pouco ou nenhum contato tiveram com o cotidiano da profissão.

Entre as faculdades que sobrarem, será preciso que formem os ainda interessados em se graduar especificamente em Jornalismo para serem o que, na teoria, dizem que somos: profissionais liberais. Hoje, não se ensinam estudantes a criar mídias, a identificar demandas de informação, a controlar negócios próprios. Somos treinados para nos prendermos a patrões mais preocupados em cortar gastos do que com a qualidade de seus produtos. A exercer um esforço para o qual se dá pouco ou nenhum valor.

Nos debates sobre os novos currículos das faculdades de Jornalismo, é preciso propor seu fortalecimento com conteúdos de outras áreas, como Direito, Economia, Política, Geografia. Em termos profissionais, mais vale um jornalista que conhece minimamente (mas com solidez) o que leva economias a tomarem certos rumos e sabe relacioná-los a contextos históricos, políticos e territoriais do que um economista sem intimidade com as palavras ou a clareza necessária a um texto a ser redigido ou falado para leigos.

Em relação a um mantra que tanto se entoa, o de que curso superior de Jornalismo não é garantia de lisura e honradez na imprensa, não é mesmo. Ética e honestidade são atributos do indivíduo, que ele deve carregar em qualquer situação na vida. Como dizia Cláudio Abramo (1923-1987), ‘o jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista’. Mas o jornalista ético, se bem formado, é ainda mais útil à sociedade.

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Repórter do jornal A Tribuna, Santos, SP, e editor do blog Reexame

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