Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
Menu

DIRETóRIO ACADêMICO >

Fontes de sabedoria

Por Tales Tomaz em 28/10/2008 na edição 509

Como se faz a matéria jornalística? Num processo corriqueiro, há uma discussão de pauta na redação do jornal, quando os editores e os repórteres discutem os assuntos a serem tratados na próxima edição do jornal. Definidas as pautas, cada repórter pega a sua e vai elaborar o texto. E aí entram os personagens decisivos do jornalismo: as fontes. São elas que devem opinar. São elas que devem dizer as coisas. O jornalista apenas articula as opiniões, questiona as fontes, arranca informações que podem interessar ao leitor. Mas quem são as fontes? Quem as escolhe?

Em um certo nível, é o próprio jornalista. É o repórter quem, afinal, determina quem vai falar em sua matéria. Geralmente, mesmo o repórter iniciante tem uma listinha de contatos aos quais sempre se reporta quando precisa falar de um determinado assunto. O ideal é que ele esteja sempre acrescentando novas vozes à sua lista de fontes para não incorrer no vício de consultar a mesma fonte e, assim, reduzir a pluralidade de vozes. É papel do jornalista também vigiar para não colocar ‘declarações’ na boca da fonte, obrigando-a a dar uma opinião que, na verdade, é do próprio jornalista. É preciso lutar para ser honesto com a fonte e com o leitor, oferecendo-lhe um retrato o mais próximo possível da realidade, com suas múltiplas facetas.

‘Fala educador!’

No entanto, há um outro nível que precisa ser analisado para responder às perguntas deste artigo. Embora o repórter tenha um grande papel na escolha de suas fontes, há ainda o papel desempenhado pelas próprias fontes, que podem falar ou não ao jornalista. Recentemente, como editor do site ABJ Notícias, estava orientando um repórter que fazia uma matéria sobre antissépticos bucais. Alguns dentistas afirmaram ao repórter que, em muitos casos, o antisséptico simplesmente não tem utilidade alguma, ao contrário do apregoado nas propagandas. Na obrigação de repórter, ele entrou em contato com uma empresa fabricante de antissépticos bucais, a Colgate. Obteve a solene resposta da assessora de imprensa: ‘A empresa não vai responder à entrevista porque o assunto não é de seu interesse.’

Como assim? Quem disse que a fonte só fala quando o assunto é de seu interesse? Esse fato evidencia uma situação que se consolida neste planeta cada vez mais dominado por critérios econômicos. O jornalismo não é visto como um serviço público, mas como uma publicidade de fatos, a qual a fonte procura se tem interesse de ver uma informação publicada, ou se esconde quando o assunto pode prejudicar seus lucros.

No caso denunciado pela campanha ‘Fala educador! Fala educadora!’, da Ação Educativa (ver aqui artigo reproduzido no OI), , a situação é um pouco diferente. A Lei do Funcionalismo Público Civil do Estado de São Paulo, promulgada em 1968 (durante a ditadura), conta com o artigo 242, incisos 1 e 4, que proíbe o funcionário público de dar informações à imprensa ‘de forma depreciativa às autoridades constituídas e aos atos da administração, ou apoiar manifestações de apreço ou desapreço dentro da repartição’.

Meias-verdades

É a inversão da situação. A fonte deixa de falar não porque não quer, mas porque não pode, obrigada a atender a outros interesses.

Como afirma o jurista Dalmo Dallari, que participou do lançamento da campanha, a lei é simplesmente inconstitucional, pois fere o direito individual de se expressar. Com essa lei, fontes que seriam de suma importância para ampliar o escopo da discussão sobre educação ficam de fora do debate. Os professores, aqueles que encaram as salas de aulas com todas as suas dificuldades, não podem falar da sua realidade, dar a opinião sobre o que é realmente necessário na educação.

A questão não é dar a razão a eles. A questão é dar a voz. O jornalista recorre à fonte não para apoiá-la ou para contradizê-la, mas para articular sua opinião com as demais e formar a pluralidade necessária para a democracia. Não é à toa que a Lei citada foi criada durante a ditadura.

Assim, a resposta à pergunta crucial deste artigo (‘Quem são as fontes do jornalista?’) depende, em um nível, da competência do jornalista, mas está também baseada na disponibilidade de as fontes falaram. Se elas não falam, o jornalista tem seu serviço prejudicado e quem perde são os leitores. Ficam com meias-verdades, debates forjados.

******

Estudante de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) e editor do site de notícias do campus, ABJ Notícias, Engenheiro Coelho, SP

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem