Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > ELEIÇÕES 2010

Formadores de opinião erraram feio

Por Alberto Dines em 05/10/2010 na edição 610

Um dos únicos debates temáticos travados no primeiro round das eleições deste ano centrou-se numa questão subjetiva, manifestada em expressões vagas, difusas e um tanto obsoletas como ‘opinião pública’ e ‘formadores de opinião’.


Não foram os candidatos que trouxeram o tema à mesa de discussões, ele foi provocado, espicaçado e mantido na agenda pelo grande orquestrador e animador-mor da política brasileira: Luiz Inácio Lula da Silva.


Opinião pública é hoje uma figura retórica, assim como comunidade e sociedade (embora no passado, sobretudo quando empregadas em alemão, Gemeinschaft e Gesellschaft, tivessem aparência mais científica). As noções de nação ou povo também poderiam ser utilizadas, mas opinião pública soa melhor e encaminha a discussão para o fascinante tópico do Quarto Poder, a imprensa, que o presidente levou aos palanques à revelia dos candidatos.


Outras ferramentas


Quando se fala em opinião pública é inevitável lembrar os formadores de opinião. E ao optar pelo enfrentamento com os formadores de opinião, tal como D. Quixote o presidente Lula investiu contra moinhos de vento. Todos são formadores de opinião: os propriamente ditos e os por eles formados. Inclusive o próprio exterminador dos formadores de opinião – o presidente.


Os formadores de opinião tropeçaram no primeiro turno. Em sua esmagadora maioria afiançaram que a candidata Dilma Rousseff ganharia na primeira rodada de votação. Não que fossem lulistas ou petistas – os opinionistas regulares da imprensa, rádio, TV e internet estavam fixados, imantados nos resultados das sondagens de opinião.


Obsessão antiga, há mais de uma década este observador a designava como pesquisite (quando o caso era mais grave) ou pesquisismo, quando se tratava de distorção sazonal. A cobertura dos fatos eleitorais e a análise dos seus efeitos comportam o emprego de outras ferramentas além do acompanhamento das enquetes dos institutos especializados. São importantes, não podem ser descuradas, mas não devem polarizar as atenções como tem acontecido.


Margem de erro e autoengano


Como resultado desta fixação, Dilma era a ganhadora já no primeiro turno. Ninguém – ou quase ninguém – prestou atenção ao fenômeno por enquanto o mais importante destas eleições: Marina Silva. Mantida na faixa de um dígito, às vezes oscilando para dois e sempre disfarçados pelas tais ‘margens de erro’, a candidata verde ficou colocada no nicho dos utopistas monotemáticos, tal como acontecera em 2006 com Cristóvam Buarque e o seu justificado culto à Educação.


Quando Marina Silva era senadora, ou quando foi ministra, a mídia não conseguiu enxergar naquela figura frágil, discreta, elegante e articulada a vitalidade e a determinação que mudariam o curso desta eleição. E agora, ao longo do pleito, os formadores de opinião foram iludidos pelas ‘margens de erro’ que, somadas, deram uma memorável surra nos abalizados previsores, profetas e adivinhadores. Não fizeram as contas ou fizeram as contas erradas.


Marina Silva perdeu ganhando (para usar o seu próprio jogo verbal), ela é o fato novo da política brasileira, quem quer que vença o segundo turno. O bloco dos ‘formadores de opinião’ terá que encarar que os verdes – como acontece na Europa – deixaram de ser os bichos-grilo, estão geralmente na vanguarda da política, da economia, da ciência e da cultura.


Como a imprensa nativa se deixou levar pelas aparências aritméticas, a internacional foi atrás. Os correspondentes estrangeiros aqui sediados ou de passagem não tiveram a coragem de alertar os porteiros das respectivas redações que uma surpresa estava sendo gestada. Os formadores de opinião d’além-mar capitularam diante dos seus leitores que, atormentados pelos fantasmas da recessão mundial, agarram-se à esperança de assistir no Novo Mundo à sagração do ‘país do futuro’ liderado por um ex-metalúrgico. Não perceberam que este mesmo país do futuro pode ser uma caixinha de surpresas – como dizem os futebolistas – em matéria de valores e princípios.


A edição de segunda-feira (4/10) do El País – seguramente o jornal estrangeiro com maior circulação doméstica – é exemplo da miopia internacional: Dilma Rousseff na capa em grande estilo, páginas dois e três com imensas fotos de Lula e Dilma, títulos e destaques em tom hagiográfico, nenhuma menção ao candidato tucano e apenas o subtítulo sobre Marina como ‘factor decisivo’ [sic]. OK, o fuso horário era desfavorável (matéria fechada com apenas 40% dos votos apurados), mas na edição anterior, domingo, a tônica do ‘já ganhou’ era idêntica.


Aberrações e distorções


Nossos formadores de opinião têm problemas com as togas: gostam de se imaginar juristas e, quando não conseguem, deixam-se fascinar pelas firulas e malabarismos jurídicos de alguns magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF). Uma pressão firme e decidida da mídia para forçar a Suprema Corte a decidir o destino dos fichas-sujas antes de 3 de outubro teria evitado este constrangedor pleito sub judice, com milhões de eleitores sem saber o destino dos seus votos e as lideranças políticas às cegas sem saber como se comportar diante da possibilidade de ver impugnadas tantas candidaturas.


Nossa mídia ainda não consegue encarar o STF com naturalidade. Evidentemente conhece as manhas do alto corporativismo, pressente que um dia precisará de pareceres e votos que podem ser decisivos para os seus interesses, e trata esta corte com uma complacência que não adota no trato do Executivo ou do Legislativo. Se o chamado Quarto Poder se considera tutor/avalista/fiscal dos demais, não deveria abdicar de firmeza nas eventuais cobranças das altas esferas judiciárias.


O STF – e/ou seu presidente – foi omisso, não respondeu como devia ao magnífico movimento cívico que resultou na aprovação da Lei da Ficha Limpa. Os meritíssimos não olharam o calendário nem atentaram para o empate que se prenunciava. Deixaram rolar.


Neste episódio os formadores de opinião passaram à opinião pública – ou que nome tenha – uma mensagem leniente. Também se abstiveram de examinar com rigor o que está acontecendo na esfera digital (chamada de blogosfera antes do surgimento das redes sociais). Como os jornais e revistas convenceram-se de que vão desaparecer no formato impresso nas próximas décadas, começaram a investir nas versões digitais e não lhes interessa radiografar com a necessária severidade o bas fond cibernético que tanto louvam e agora freqüentam. Acham que é assim mesmo: no passado os pasquins manuscritos faziam o diabo com suas vítimas, agora a vileza é tuitada em 140 caracteres.


Não caberia aos impressos deter-se para examinar as aberrações e distorções de um processo que poderá arrastá-los inevitavelmente para o esgoto?


Até agora não sabemos o que aconteceu neste primeiro round eleitoral nos subterrâneos digitais. É assunto, não pode ser descartado. Ou, porventura, os formadores de opinião dos veículos impressos estão com medo de enfrentar seus rivais ‘conectados’?


O processo sucessório termina em 31 de outubro, mas Dona Opinião Pública não merece ser abandonada. Mesmo que adote outro nome. Que tal cidadania?


***


Em tempo [incluído às 17h42 de 5/10]: A capa da edição corrente da revista inglesa The Economist traz uma foto do presidente Lula, em comício, erguendo o braço de uma sorridente Dilma Rousseff sob a concisa manchete ‘Brazil’s handover’ — o que, em tradução livre, pode ser entendido como se o presidente estivesse ‘passando o bastão’ para a candidata oficial. Como anotou Ancelmo Gois em sua coluna de O Globo (5/10, pág. 28), ‘faltou [a revista] combinar com os eleitores que votaram no domingo’.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/10/2010 Wallace Lima

    Cristiana e Carlos: certa vez um comentarista daqui do OI, talvez sem compreender o que eu havia dito a respeito da traição de Luiz Inácio (que faz um governo que é um paradoxo vivo, porque é popular e não governa para o povo), disse-me: “Quanta indignação!” Diante do que vocês postaram aí, não posso deixar de externar meu espanto: Quanta condescendência, hein! Eu poderia começar dizendo que um só desses deputados cassados pode ter feito algo de uma gravidade que supere o que cem deputados cassados fizeram, mas vou entender esse argumento e o de Cristiana (que reduz todo o escândalo do “mensalão” do PT a “caixa 2”, como se isso justificasse alguma coisa, caso o “mensalão” se resumisse mesmo nisso) como mera provocação de vocês, que está um pouco dentro da que foi feita pela candidata do governo em um debate, com uma lógica bêbada e invertida: “Este governo é o mais honesto, o mais limpo que já houve em nossa história, haja vista a quantidade de gente deste governo que já foi cassada e se demitiu!” Não seria tão má defesa, se todos os escândalos do PT trazidos à tona, durante o atual governo, tivessem partido da iniciativa do chefe de Estado em exercício e não de partidos da oposição e da pressão da imprensa. Não se pode “medir” corrupção, vá lá. Mas, até onde eu sei, Serra tem um passado limpo. Dá pra dizer o mesmo de Lula? Dá pra botar a mão no fogo por Dilma? (Continua)

  2. Comentou em 10/10/2010 antonio carvalho

    Tomara que a moda ecochata acabe metabolizada logo pois é duro ver a possibilidade do Brasil entregue às ONGS internacionais que adoram ‘proteger’ a Amazônia. Suspeito que votação da Marina decorreu mais da anemia das outras duas candidaturas que de virtudes e dos generalizantes discursos da recém-verde (outrora PT) que, espremidos, não diziam coisa alguma.

  3. Comentou em 10/10/2010 antonio carvalho

    Tomara que a moda ecochata acabe metabolizada logo pois é duro ver a possibilidade do Brasil entregue às ONGS internacionais que adoram ‘proteger’ a Amazônia. Suspeito que votação da Marina decorreu mais da anemia das outras duas candidaturas que de virtudes e dos generalizantes discursos da recém-verde (outrora PT) que, espremidos, não diziam coisa alguma.

  4. Comentou em 09/10/2010 Jorge Possetti

    A gafe do The Economist pode ser encarada como proposital. Afinal todos sabemos que Carta Capital, revista semanal traz em suas páginas conteúdo da revista estrangeira.

    É sabido também que a publicação de Mino Carta é favorável à candidatura de Dilma Rousseff.

  5. Comentou em 08/10/2010 Carlos N Mendes

    Nada disso é importante; o que realmente importa é que os neoverdes envergonhados demais para votar na Dilma estragaram mais um domingão que poderia ser perfeito. Em vez de praia, vamos bater barriga em urna, de novo. Bem feito, quem sabe a gente acerta na próxima.

  6. Comentou em 06/10/2010 Igor M. Rodrigues

    Pois é Cristina Castro, concordo com suas colocações, e você tocou num ponto importantíssimo: é se o candidato tem condições de arcar com o ônus da proibição. Isso é uma questão de fato, pois a lei penal punindo o aborto já existe e até que venha ser mudada, o Estado não pode se omitir – tanto na questão punitiva, quanto na questão de tutela. Afinal, quem mudará a Lei não será o Presidente, mas sim o Congresso, cabendo ao Chefe do Executivo tornar a execução plena. Infelizmente, não vi propostas neste sentido de nenhum dos candidatos. Essa eleição foi pobre de idéias, com ataques atrás de ataques, e nenhuma discussão e/ou apresentação de plano de governo e de nação. Só plano de poder! Ademais, a questão da descriminalização e legalização do aborto está ligada à libertação – ou não – do estado brasileiro da influência cristã em seu governo, tornando-o realmente laico e aprofundando a democracia. O Brasil passa vergonha mundialmente no tocante a laicidade, onde até a Argentina – que não é laica – toma medidas seculares que o Brasil não toma por causa dos cristãos!

  7. Comentou em 06/10/2010 Fábio Andrade Landgraf

    Boato? Que boato cara pálida? Como a candidata oficial diz que nunca foi a favor do aborto se ano passado mesmo ela era a favor? Está comprovado, é um fato. Ela mudou o discurso pele eleição, pelos votos, foi oportunista, quer vestir uma máscara totalmente ao contrário do que sempre pregou o PT e seus militantes, porque o medo? Mas é bom que estejam provando do mesmo veneno de 2006, quando a campanha de Lula espalhou que o candidato Geraldo Alckmin iria privatizar a Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, nada como um dia após o outro, não?

  8. Comentou em 05/10/2010 Ibsen Marques

    Eu diria que o principal fenômeno da eleição não foi a Marina, mas as abstenções e os votos nulos e brancos. Só eles já superam em número os eleitores de Marina. A mídia, políticos e TSE fazem questão de minimizar esse problema como se fosse um erro do processo de votação ou erro na apresentação da documentação, mas está claro que não é. O fenômeno Marina foi mais para o lado de que se cansou do PT, mas que não é eleiotor do Serra, já que ele permaneceu estável. Além disso, A principal crítica que deve ser feita à mídia é que durante 364 dias no ano, políticos são corruptos, vagabundos, incompetentes, colocam as instituições sob constante suspeição, mas no dia da eleição, todos devem ser exercer sua cidadania pelo voto para definir os rumos do país. Isso sim é uma estupidez. Ou a mídia cobre o Congresso, as comissões e o trabalho do parlamentar em suas bases de maneira responsável e coerente, ou propõe a ditadura de uma vez, já que as instituições estariam carcomidas e infestadas de bandidos e corruptos. Não nego que os há, mas convenhamos, como disse um cientista político na cobertura ímpar da TV Brasil se tudo isso fosse assim mesmo, nossa democracia já teria feito água e afundado.

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