Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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DIRETóRIO ACADêMICO > EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO

Greve era dos jornalistas, mas só o patrão foi ouvido

Por Janine Moraes em 23/12/2008 na edição 517

Os jornalistas da recém-criada Empresa Brasil de Comunicação (EBC) fizeram, no dia 29 de outubro, uma paralisação reivindicando equiparação entre os salários dos jornalistas concursados (piso de R$ 1.700) e os contratados sem concurso (que receberiam pelo menos R$ 5 mil), além de transparência nos critérios de promoção.

Os grandes jornais deram notícias da greve. Mas, ao contrário do que pregam seus manuais, um lado da história (não tenha dúvidas que foi o oficial, do patrão) teve muito mais espaço do que o outro, o dos grevistas. A análise das matérias publicadas pelo Globo Online nos dias 29 e 30 de outubro exemplifica bem como, em algumas situações, se esquece de seguir o que manda o bom jornalismo e o próprio manual de redação da empresa: ouvir os dois lados.

As notas oficiais divulgadas pela diretoria da empresa renderam aspas para sete matérias entre o final da tarde do dia 29 de outubro e o fim da paralisação, no dia 30. Em duas dessas matérias, só a nota oficial foi publicada. De 27 parágrafos dedicados ao assunto, 17 repercutiam o que a tal nota dizia: que a greve era irregular. Apenas cinco deram voz aos representantes dos jornalistas, mas sem aspas ou maiores explicações.

Blog ouve jornalistas

As matérias não dão um histórico das negociações. A contextualização da greve é fraca e sem detalhamento dos argumentos dos grevistas.

Em nenhum momento foram fornecidos ao leitor números sobre a greve. Quem a acompanhou pelo Globo Online, não soube quantos jornalistas haviam aderido, nem de quanto era a tal disparidade de salários entre jornalistas concursados e os contratados sem concurso, motivo principal da greve. Talvez porque a divulgação da diferença dos salários desse uma pontinha de razão aos jornalistas (em alguns casos a diferença ultrapassa os R$ 3 mil!).

Já no blog do Noblat, curiosamente hospedado no site do Globo Online, havia todas essas informações. E os jornalistas eram, inclusive, ouvidos. Noblat contou que eram cerca de 200 jornalistas em greve, relatou qual era a diferença salarial, deu aos jornalistas o direito das aspas. E, na hora de escolher o trecho da mesma nota oficial, repetida exaustivamente nas matérias do Globo, não escolheu um trecho ‘chapa branca’ nem o deixou descontextualizado, como ocorreu no site do jornal.

Coisa fácil é enganar o leitor

Trecho da matéria do blog do Noblat publicada no dia 29/10, às 20h30m:

‘A negociação entre os funcionários da EBC e a sua direção se arrasta há mais de dois meses sem solução. A paciência dos grevistas se esgotou quando a direção pediu para adiar até sexta-feira as negociações a respeito do plano de carreira dos jornalistas concursados, que define o piso salarial da categoria e os critérios para crescer de cargo. Como os jornalistas já haviam combinado que fariam uma paralisação se esse assunto não fosse resolvido hoje, a greve acabou sendo o único caminho.’

A história que Noblat conta da greve, por não omitir informações, produz a identificação do leitor com a causa dos jornalistas. Faz com que a greve não pareça absurda e sem cabimento. Já quem prefere ficar com a versão do Globo corre o risco de acreditar que os jornalistas da EBC não têm razão para entrar em greve.

O jornalismo não precisa mentir para distorcer um fato. Basta deixar de dar um ou outro detalhe, editar uma nota oficial, ou não a contextualizar.

Coisa fácil é enganar o leitor…

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Estudante de Jornalismo, São Paulo, SP

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